Pro Sunset Beach

John John é destaque no Havaí

Havaiano John John Florence é o melhor surfista do primeiro dia do Pro Sunset Beach. Oito brasileiros já estão classificados para a terceira fase da etapa havaiana.
Pro Sunset Beach 2023, North Shore de Oahu, Havaí

John John Florence foi o cara do primeiro dia do Pro Sunset Beach. O havaiano competiu na última bateria desta segunda-feira (13), e venceu com o maior somatório de todos os 16 duelos realizados. Filipe Toledo foi o único brasileiro que avançou com vitória, mas todos os oito que competiram já estão classificados para a terceira fase. Três brazucas ainda estrearão no evento.

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O Pro Sunset Beach teve início nesta segunda-feira em ondas de 2 a 2,5 metros no pico do ilha havaiana de Oahu. O vento lateral soprou com muita força durante quase todo o dia. As mulheres competiram primeiro. Duas fases femininas foram realizadas, e na sequência aconteceram os oito duelos iniciais dos homens, já em ondas um pouco menores.

A bateria que fechou o dia foi a melhor da segunda-feira. Ela teve a participação de João Chianca, do havaiano John John Florence e do australiano Jackson Baker. João e John John atuaram com intensidade nos dez minutos iniciais. O brasileiro fez um forte ataque de borda, com rasgadas potentes. Foi dessa forma que ele colocou as notas 6,17 e 5,60 pontos no somatório. O havaiano atuou pela primeira vez no duelo aos oito minutos e fez estrago. O bicampeão mundial executou uma rasgada forte, surfou um tubo e fez um cutback. A performance valeu 8,33 pontos.

John John assumiu a liderança pouco antes da metade do duelo. Ele usou a prioridade, rasgou e fez um layback muito forte. O havaiano anotou 7,50 pontos e assumiu a liderança. João ficou na necessidade de 9,66 para vencer, e Jackson de 8,94 para assegurar vaga na terceira fase.

O brasileiro ainda melhorou o somatório duas vezes. Na melhor atuação, ele executou três manobras agressivas e marcou 7,47 pontos, mas a nota não alterou o resultado. Jackson também atuou. O aussie marcou 7,00 no final da bateria, mas a nota foi insuficiente para a classificação. Ele terá nova chance na repescagem.

“Tem um tamanho bom para Sunset e as ondas estão realmente divertidas. Vi algumas ondas limpas, então fiquei instigado pra surfar”, disse John John. “João (Chianca) e eu tivemos algumas batalhas muito boas no ano passado. Eu realmente não sabia o que aconteceria, então apenas foquei em mim e fiquei feliz por pegar algumas boas ondas.”

Única vitória brasileira – João avançou para a terceira fase com a segunda posição, conquistada com o segundo maior somatório de todo o dia, ficando somente atrás de John John. Assim como ele, outros seis brasileiros que competiram na segunda-feira terminaram em segundo lugar. Filipe Toledo foi o único a estrear com vitória no Pro Sunset Beach. O atual campeão mundial estava tem terceiro lugar até os sete minutos finais da sexta bateria da primeira fase masculina, quando fez um ataque agressivo, marcou 8,00 pontos e assumiu a liderança para não sair mais.

Filipe e Kai Lenny chegaram nos dez minutos finais da bateria com duas notas na casa dos três pontos, cada. O havaiano estava em segundo lugar, e o brasileiro necessitava de 3,34 pontos para evitar a repescagem. Liam O’Brien estava mais confortável, na primeira posição no duelo. O australiano marcou 6,50 pontos aos 11 minutos de confronto, depois de executar uma rasgada curta, seguida de uma batida e de outra curva com pressão.

Kai e Filipe atuaram quando restavam sete minutos para o fim. O havaiano entrou em ação primeiro, mas se perdeu na direita. Já o brasileiro executou duas rasgadas poderosas, além de um cutback. Kai marcou apenas 2,20 pontos, e o brasileiro assumiu a liderança com a nota 8,00. O brasileiro ainda voltou a atuar, melhorou o somatório com 5,00 e garantiu a vitória. Kai ainda tentou tomar o segundo lugar de Liam, porém não conseguiu a nota que precisava e foi para a repescagem. O australiano avançou com o brasileiro para a terceira fase.

“Quando entrei naquela onda, eu sabia que ia ser boa e consegui fazer as manobras que queria, para ganhar o 8,00. Depois, fiquei mais calmo e ainda surfei outra boa para avançar em primeiro lugar”, disse Filipe Toledo. “O Liam (O´Brien) e o Kai (Lenny) são surfistas excelentes, especialmente o Kai. Era para ele ter competido nesse evento no ano passado, mas não deu. Intimida um pouco enfrentar um cara que surfa ondas de 60 pés, então imagina o que pode fazer em Sunset com 6-8 pés. Eu só tentei focar na minha estratégia e estou feliz que deu certo”.


Michael abre as disputas masculinas – As disputas masculinas do Pro Sunset Beach começaram com Michael Rodrigues encaixado no pico havaiano. O brasileiro marcou 6,00 pontos com uma rasgada curta e uma potente batida, aos três minutos. Ele voltou a atuar aos oito minutos. A direita era uma intermediária, e ele rasgou e bateu para anotar 5,07. Na sequência, aos 11, Michael fez duas rasgadas e conquistou 5,47.

O sul-africano Matthew McGillivray começou com 5,50 pontos, porém depois caiu de produção. O japonês Kanoa Igarashi não iniciou tão bem, porém foi entrando em sintonia com Sunset até pular pra segunda posição aos 20 minutos. Aos cinco ele aprontou. Kanoa começou a apresentação com um cutback, depois rasgou com potência e fez um layback. A nota foi 8,17 pontos, a primeira no critério excelente do Pro Sunset Beach.

Matthew ainda tentou tomar o segundo lugar de Michael, porém não conseguiu e foi para a repescagem. Kanoa venceu o duelo.


Caio contra dois havaianos – A segunda bateria masculina do Pro Sunset Beach teve metade do tempo com pouca ação. Caio Ibelli enfrentou dois havaianos especialistas no pico havaiano, Barron Mamiya e Ezekiel Lau. Caio e Barron, atual campeão do evento, ficaram mais ativos nos primeiros 15 minutos, porém não saíram da casa dos três pontos.

Ezekiel só surfou sua primeira onda quando restavam 12 minutos. A direita fechou. Logo depois ele tentou novamente e mais uma vez não chegou na casa de 1 pontos. Barron desequilibrou a disputa três minutos depois. O havaiano executou uma rasgada e um layback poderoso. Ele pulou pra liderança com 7,17 pontos.

Caio seguiu ativo e melhorou o somatório, porém não saiu do segundo lugar. Depois de duas ondas fracas, Ezekiel optou por esperar uma direita mágica para marcar os 8,80 pontos que precisava. Ele só atuou perto do minuto final. O havaiano fez duas manobras, mas a nota 4,47 não evitou a ida dele para a repescagem.


Italo também com havaianos – O atual vice-campeão mundial também está garantido na terceira fase do Pro Sunset Beach. Italo Ferreira ficou em segundo lugar na quarta bateria masculina da etapa, e evitou a repescagem.

Seth Moniz começou a disputa com um tubo profundo. A performance valeu 8,33 pontos. Italo ficou ativo e em seis minutos surfou três ondas, conquistando as notas 5,33 e 4,83 nas melhores atuações. O outro havaiano do confronto, Keanu Asing, tentou seguir o ritmo dos adversários, porém após largar com 3,90, optou por sentar no pico e esperar uma direita boa para conquistar os 6,26 que precisava para chegar na terceira fase.

Seth melhorou o somatório com 3,80 pontos, e Italo voltou a atacar as direitas com um forte backside para anotar 5,20. Keanu seguiu sem conexão com Sunset e não conseguiu reagir. Seth venceu e avançou para a terceira fase com Italo. Keanu caiu para a repescagem.


Miguel não segura Kelly – A penúltima disputa do dia, a sétima do Round 1 masculino, chegou nos dez minutos finais com Kelly Slater na frente. O norte-americano tinha 5,83 pontos como maior nota, que foi conquistada com uma rasgada numa parte um pouco cheia da direita, e um layback poderoso na parede em pé. Miguel Pupo ficou os 14 minutos iniciais sem atuar. Na primeira performance executou duas rasgadas, a segunda mais forte, e colocou 4,00 no somatório. O francês Maxime Huscenot estava em último lugar, com três ondas surfadas e 2,17 como melhor nota.

Maxime usou a prioridade quando faltavam sete minutos para o fim. Ele precisava de 2,54 pontos para tomar o segundo lugar do brasileiro. O francês rasgou e bateu, antes de cair no ataque à junção. Miguel entrou na onda seguinte da mesma série. O brasileiro rasgou duas vezes, uma delas com bastante força, e depois bateu escalando a espuma. Kelly entrou em ação logo depois, mas caiu na tentativa de um floater após a primeira manobra.

O francês pulou para o segundo lugar com 5,27 pontos, e deixou Miguel em último, na necessidade de 3,45. O brazuca ainda aguardava a divulgação de sua última nota. Os 3,60 o colocaram no segundo posto novamente. Maxime passou a necessitar de 2,33 para evitar a repescagem. O francês tinha a prioridade, mas nenhuma onda apareceu nos minutos finais e ele terminou em último lugar. Kelly venceu e Miguel também seguiu para a terceira fase com o segundo lugar na disputa.


Camisa amarela na repescagem – O campeão da etapa de Pipeline terminou em último lugar na quinta bateria e caiu para a repescagem. Jack Robinson, que veste a lycra amarela de líder do ranking no Pro Sunset Beach, chegou a marcar a maior nota do duelo (7,33) perto do final e pulou pro segundo lugar, mas o convidado para a etapa, o havaiano Eli Hanneman, ainda teve tempo de retomar a posição. O vencedor do duelo foi o norte-americano Jake Marshall, autor das notas 6,50 e 5,33 pontos.

Maior nota do dia – O autor da maior nota do dia foi Ethan Ewing. O australiano marcou 9,00 pontos aos 11 minutos da terceira bateria masculina. Ethan executou um layback agressivo, além de uma rasgada potente e de uma batida chutando a rabeta.

“Acho que a confiança é uma parte importante, pois essa onda é muito difícil e é diferente toda vez que você vai lá”, comentou Ethan. “Mas, eu me sinto confortável. Eu peguei algumas direitas e uma delas foi muito boa. Ela tinha uma face limpa. Essa vitória aumenta a confiança e eu quero me manter no jogo”.


Próxima chamada e previsão – A próxima chamada para o Pro Sunset Beach acontece nesta terça-feira (14), às 14h45 (de Brasília). De acordo com a previsão, as ondas ficarão menores, com até 1,5 metro nas maiores séries, e o vento deve soprar muito forte de maral.

Pro Sunset Beach 2023
Round 1 Masculino

1 Kanoa Igarashi (JAP) 13,64 x Michael Rodrigues (BRA) 11,47 x Matthew McGillivray (AFR) 9,67

2 Barron Mamiya (HAV) 10,17 x Caio Ibelli (BRA) 9,73 x Ezekiel Lau (HAV) 5,40

3 Ethan Ewing (AUS) 12,43 x Carlos Muñoz (CRI) 8,30 x Nat Young (EUA) 7,77

4 Seth Moniz (HAV) 12,13 x Italo Ferreira (BRA) 10,53 x Keanu Asing (HAV) 6,13

5 Jake Marshall (EUA) 11,83 x Eli Hanneman (HAV) 11,07 x Jack Robinson (AUS) 10,93

6 Filipe Toledo (BRA) 13,00 x Liam O’Brien (AUS) 9,17 x Kai Lenny (HAV) 6,90

7 Kelly Slater (EUA) 9,70 x Miguel Pupo (BRA) 7,60 x Maxime Huscenot (FRA) 7,44

8 John John Florence (HAV) 15,83 x João Chianca (BRA) 13,64 x Jackson Baker (AUS) 9,83

Baterias que ficaram de abrir o próximo dia de disputas

9 Griffin Colapinto (EUA) x Samuel Pupo (BRA) x Ian Gentil (HAV)

10 Callum Robson (AUS) x Yago Dora (BRA) x Rio Waida (IDN)

11 Jordy Smith (AFR) x Leonardo Fioravanti (ITA) x Kolohe Andino (EUA)

12 Gabriel Medina (BRA) x Connor O’Leary (AUS) x Ryan Callinan (AUS)

Round 1 Feminino

1 Molly Picklum (AUS) 8,16 x Tatiana Weston-Webb (BRA) 6,67 x Teresa Bonvalot (POR) 0,67

2 Stephanie Gilmore (AUS) 10,10 x Zoe McGougall (HAV) 7,53 x Isabella Nichols (AUS) 4,73

3 Carissa Moore (HAV) 11,50 x Luana Silva (BRA) 10,94 x Caroline Marks (EUA) 3,50

4 Brisa Hennessy (CRI) 8,50 x Sally Fitzgibbons (AUS) 7,20 x Courtney Conlogue (EUA) 5,00

5 Bettylou Sakura Johnson (HAV) 9,27 x Tyler Wright (AUS) 8,16 x Caitlin Simmers (EUA) 7,84

6 Macy Callaghan (AUS) 9,67 x Lakey Peterson (EUA) 8,30 x Gabriela Bryan (HAV) 8,04

Round 2 (Repescagem)

1 Gabriela Bryan (HAV) 11,67 x Caroline Marks (EUA) 7,64 x Teresa Bonvalot (POR) 0,77

2 Isabella Nichols (AUS) 9,77 x Caitlin Simmers (EUA) 9,16 x Courtney Conlogue (EUA) 6,00

Oitavas de final

1 Brisa Hennessy (CRI) x Sally Fitzgibbons (AUS)

2 Molly Picklum (AUS) x Isabella Nichols (AUS)

3 Stephanie Gilmore (AUS) x Zoe McDougall (HAV)

4 Tyler Wright (AUS) x Macy Callaghan (AUS)

5 Carissa Moore (HAV) x Luana Silva (BRA)

6 Lakey Peterson (EUA) x Gabriela Bryan (HAV)

7 Tatiana Weston-Webb (BRA) x Caitlin Simmers (EUA)

8 Bettylou Sakura Johnson (HAV) x Bettylou Sakura Johnson (HAV)

Enquanto alguns fotógrafos documentam a história, Fedoca Lima fez diferente: viveu dentro dela enquanto fotografava. Carioca do Posto 5, começou a surfar com 11 anos e a fotografar quase ao mesmo tempo, com uma máquina fotográfica alemã do pai. Aos 14, registrou a Rainha Elizabeth passando de Rolls-Royce aberto pela orla de Copacabana, em frente à casa do Assis Chateaubriand. No mesmo período, fotografou o Mick Jagger dando o dedo do meio no Copacabana Palace. Não era fotógrafo profissional. Era um moleque com olho bom e câmera na mão, sem perceber ainda o tamanho do que estava construindo. O que veio depois é história do surfe brasileiro. O Píer de Ipanema nos anos 70, quando o Rio era o centro do surfe nacional, com Daniel Friedmann, Pepê Lopes, Rico de Souza e Ricardo Bocão dominando o circuito. A Brasil Surf, primeira revista especializada do país, na qual Fedoca jogou em todas as posições: fotógrafo, redator e capa. O Havaí entre 1978 e 1981, surfando e fotografando ao lado de Gerry Lopez, Shaun Tomson e Michael Ho em Pipeline e Waimea. Os shows históricos, de Bob Marley ao ar livre no Havaí até Rolling Stones e Paul McCartney no Maracanã. “A foto que eu não tirei, essa me persegue.” Fedoca Lima Mais de cinquenta anos depois, esse arquivo vira livro. “Surf, Clicks e Rock’n Roll” tem 220 páginas, cerca de 180 fotografias e percorre a transformação do surfe brasileiro desde a era analógica até o digital, passando por Arpoador, Saquarema, Havaí, Califórnia e Macumba. Com captação aprovada de R$ 203 mil via incentivo cultural e apio da Fu Wax, o lançamento está previsto para o segundo semestre de 2026. Conversamos com Fedoca sobre tudo isso. Antes de se consolidar como fotógrafo, você também virou personagem da própria história do surfe brasileiro ao sair na capa da Brasil Surf em 1975. Como foi viver aquele momento por dentro? Saí na capa da Brasil Surf. Na época eu trabalhei na revista de março de 75 até janeiro de 79, só não peguei o primeiro número. Jogava todas as posições: saí na capa, escrevia, tirava foto, ajudava na redação, dava palpite, fazia matéria. Por muito tempo achei que era o único fotógrafo de surfe que tinha saído numa capa. Depois o Bruno Alves me falou que o irmão dele, o Alberto, saiu na capa da Fluir número 1. A história dele bate um pouco com a minha: ele pegava onda, saiu na capa, era fotógrafo. Mas durante anos eu achei que era caso único. Até hoje tem um restaurante aqui que o cara pediu, eu tirei uma foto com a revista na mão, ele botou na parede, eu assinei. A influência continua. A Brasil Surf ajudou a mudar a imagem do surfista no Brasil. Como era ser surfista naquela época, antes dessa mudança de percepção acontecer? O surfe saía no caderno B do Jornal do Brasil, do Globo. Não saía no esporte. E o surfista era tido como vagabundo de praia. Isso, aliás, até hoje tem um pouco, mas na época tinha muito mais. A Brasil Surf não vou dizer que limpou essa imagem completamente, mas ajudou a transformar o surfe em esporte e também a fomentar o mercado de surfwear. Os irmãos Wady e Fuad Mansur, da loja Mansur, em Ipanema, foram dos primeiros anunciantes. Acreditaram na revista, fizeram anúncios de contracapa e página inteira, e as camisetas personalizadas vendidas pelo correio viraram um sucesso. A Brasil Surf acabou impulsionando fabricantes de pranchas, calções, parafinas e diversos outros anunciantes ligados ao surfe. Os fabricantes de prancha tinham um veículo para anunciar. Os fotógrafos ganhavam uma graninha, viajavam. Fui para a América Central, Porto Rico, Barbados, El Salvador, Fernando de Noronha, Peru, várias viagens bancadas pela Brasil Surf de uma forma ou de outra. O Nilton Barbosa foi ao Havaí duas vezes bancado pela revista. No caso dele, eles bancavam os filmes, ele vendia as fotos e a viagem se pagava. Tinha uma diferença entre mim e o Nilton nessa época: ele chegava na praia e ficava na areia fotografando, fotografando, fotografando. Eu chegava e ia para dentro da água. Se não estava o Daniel, não estava o Pepê, não estava o Cauli, não estava o Bocão, não estavam os caras top, eu entrava e surfava. Então tem foto minha na Brasil Surf publicada pelo Nilton Barbosa, pelo Rogério Ehrlich. Eu estava mais dentro da água do que fora. Eu estudava. Primeiro vestibular, depois faculdade. Boa parte dos meus amigos só queria saber de surfar. Eu dividia meu tempo. Chegava na praia, já tinha estudado de manhã, aí ficava naquele dilema: vou pegar onda ou vou fotografar? Por isso tem poucas fotos do Píer. Em três anos não tirei nem metade do que tiro hoje num dia bom na Macumba com o digital. Você viveu o Píer, a Brasil Surf, o Havaí dos anos 70, o nascimento do surfe brasileiro moderno. Em que momento percebeu que estava no meio de uma transformação cultural que iria muito além do esporte? O Píer foi o que fomentou o surfe no Rio de Janeiro. Por dez anos, foi domínio completo do Rio no cenário brasileiro. O Daniel Friedmann, em 77, foi o último carioca a vencer uma etapa do circuito internacional, ganhou no Quebra-Mar, em cima do Pepê Lopes, que tinha ganho em 76. Os dois de Ipanema, meus vizinhos de rua. E esse pessoal do Píer que dominou, o Daniel, o Pepê Lopes, o Cauli Rodrigues, e também o Otávio Pacheco, o Rico de Souza, o Ricardo Bocão. E tinha o Betão, que era o melhor surfista do Brasil na época mas não era competitivo, não corria atrás de patrocinador, acabou saindo cedo. Em 75 ele ganhou o Campeonato de Saquarema e foi saindo, saindo. O Píer influenciou a revista, influenciou os fabricantes de prancha, influenciou o modo de viver. Começaram a ter fábricas em Guaratiba, Vargem Grande, no Recreio, depois em Saquarema. As pessoas foram morar lá. O Penho foi, o Otávio comprou casa,

O que define uma boa onda? Tamanho, força, parede, qualidade da linha, formação e surfabilidade, dentre outros elementos. No oceano, todos esses fatores mudam a cada swell, a cada vento, a cada maré. Em Búzios, a proposta é diferente: construir essas variáveis de forma controlada, repetível e ajustável. A piscina do Brasil Surfe Clube Aretê Búzios opera com a tecnologia Endless Surf, do grupo canadense WhiteWater, com 48 câmaras de ar de alta precisão. O sistema permite criar configurações distintas dentro da mesma estrutura. Dentro de um universo de grandes possibilidades, as cinco primeiras ondas já foram nomeadas e reveladas, cada uma com perfil próprio, e muito mais ainda está por vir. Onda #01: Pointbreak + Junção Linha longa, seções conectadas, tempo de onda que pode ultrapassar 25 segundos. A junção encadeia diferentes partes da onda sem perder velocidade, criando uma das experiências mais difíceis de encontrar no oceano com consistência. Para quem quer mais de 10 manobras na mesma onda ou simplesmente mais tempo de linha para ler e decidir. Onda #02: Manobras + Bowl A parede fica mais íngreme. O bowl abre seções críticas para manobras verticais e aéreos. É o ambiente para quem quer empurrar os limites do que consegue fazer sobre a prancha, com repetição suficiente para transformar cada tentativa em aprendizado real. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Onda #03: Rampa + Tubo Uma onda que combina duas experiências na mesma seção. A rampa prepara o surfista para a manobra e o tubo roda na sequência. Para quem quer encaixar um aéreo e ainda sair do tubo na mesma onda, essa configuração entrega os dois elementos sem precisar escolher. Onda #04: Rampa Nível Intermediário Parede consistente, menor intensidade, mais previsível. A configuração certa para quem está desenvolvendo manobras progressivas e precisa de repetição para consolidar o que está aprendendo. A seção cria a rampa no ângulo certo, com velocidade suficiente para executar sem exigir o nível avançado. Onda #05: Rampa Nível Avançado Mais potência, mais velocidade, mais projeção. A rampa avançada é para quem já chegou em Búzios com manobras no repertório e quer testá-las com pressão real. Com capacidade para gerar até 700 ondas por hora, o intervalo entre uma tentativa e outra é curto o suficiente para transformar cada sessão em treino de alto rendimento. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Para todos os níveis As cinco configurações cobrem desde quem está aprendendo até quem treina em alto rendimento. A piscina ainda opera em dois modos: single peak, com ondas quebrando para um lado e maior extensão de linha, e split peak, com direitas e esquerdas simultâneas, permitindo que surfistas compartilhem a mesma série em direções opostas. Yago Dora, campeão mundial de surfe em 2025, Victor Bernardo, um dos maiores freesurfers da atualidade, e Michelle des Bouillons, referência mundial em ondas gigantes, integram o time do BSC e já testaram a tecnologia na piscina Adrena Red Sea, na Arábia Saudita. “Muito animal esse lance de ter essa variedade de onda também. Um leque de ondas absurdo. Mal posso esperar para Búzios”, disse Victor Bernardo após a sessão. A versão de Búzios será maior: 48 câmaras contra 36 da estrutura do Mar Vermelho, com 13 mil metros quadrados de lâmina d’água. Variedade de ondas para testar, arriscar, aprender e evoluir todos os dias. Com inauguração prevista para o segundo semestre de 2026, é o que o Brasil Surfe Clube Aretê Búzios chega para entregar.

Pedro Bettencourt Müller nasceu no Rio de Janeiro, no dia 21 de julho de 1966, num ambiente familiar que respirava praia. Seu pai, Guilherme Xavier de Brito Müller, economista e morador do Leblon, cresceu frequentando a Zona Sul. Sua mãe, Maria Isabel Bettencourt Müller, criada em Santa Teresa, compartilhava da mesma paixão pelas praias. Para o casal, fim de semana e férias tinham destino certo: areia, sol e mar. Foi assim que Pedro e o irmão, Guilherme, passaram a infância seguindo os pais para o meio da Barra ou para São Conrado, ainda de estradas de terra, sem prédios, calçadões ou qualquer urbanização. Nesse cenário quase intocado, Pedro foi se encantando pelas ondas. Lembra-se de observar alguns surfistas solitários no meio da Barra e sentir-se hipnotizado pela habilidade deles. O mar, desde cedo, era o lugar onde queria estar. Ele recorda também a rotina da infância: ia para as aulas de natação no Clube de Regatas Flamengo e, depois, caminhava até o judô, no Leblon, um trajeto longo para uma criança de 12 anos. Antes de entrar no tatame, sentava-se no calçadão para olhar o mar quebrando, entregue à mesma fascinação que o acompanharia por toda a vida. O mar lhe transmitia paz, calma e propósito. Ali, ainda menino, já entendia que queria se tornar surfista. A mudança para São Conrado, por volta dos 14 ou 15 anos, foi decisiva. Morando ao lado do Pepino, Müller muitas vezes cabulava a aula pra ir surfar. As ondas triangulares, rápidas e pesadas da região se transformaram no seu campo de treinamento permanente. Ali, guiado pela referência de Rony Lima e pela evolução proporcionada pelas pranchas dos shapers Rico e Pedro Battaglin, deu um salto técnico marcante. A “biquilha mágica” 5’4″ de Battaglin é lembrada até hoje como uma das grandes viradas em seu surfe, época em que adotou o apelido de “o Águia”, pela tatuagem no braço. Uma nova mudança, motivada pelo desemprego do pai, levou a família para a Barra. Para Müller, foi a oportunidade perfeita: entre o Postinho, o meio da Barra e o Quebra-Mar, encontrou três ondas consistentes e acessíveis a pé, permitindo treinos diários que aceleraram ainda mais sua evolução. Nessa fase, destacou-se nos campeonatos da ASBT – Associação de Surf da Barra da Tijuca – e entrou para a promissora equipe da Cristal Graffiti. Antes disso, havia vencido seu primeiro campeonato no Leblon, organizado por Marcelo Peninha, vitória que marcou sua confiança rumo ao profissionalismo. Os resultados na categoria Júnior renderam um prêmio decisivo: uma passagem para o Havaí. Aos 18 anos, Müller viveu sua primeira temporada no North Shore (1984/85), dividindo casa com surfistas brasileiros experientes. Pipeline, logo no primeiro dia, foi seu batismo de fogo: mar pesado, adrenalina no limite e a certeza de que o treino no Pepino o havia preparado para aquele cenário. De volta ao Brasil, enfrentou dificuldades para manter regularidade como profissional. A grande virada veio com o curso de meditação transcendental feito ao lado de Rodolfo Lima. O impacto competitivo foi imediato: venceu a etapa profissional do Quebra-Mar no circuito carioca, em 1986, e passou a frequentar pódios de forma consistente. A regularidade, marca registrada de sua carreira, nasceu ali. Em 1987, tornou-se vice-campeão do primeiro Circuito Brasileiro de Surf Profissional. Liderou boa parte da temporada, foi vice-campeão na etapa da Lightning Bolt e, depois, campeão no Fico Festival. Só perdeu o título na penúltima bateria do Circuito, por apenas 20 pontos, uma diferença mínima para quem tinha 850 pontos de vantagem sobre o terceiro colocado. Na época, era visto como o surfista mais consciente e estratégico do país. Nos anos seguintes, acumulou resultados expressivos: vitórias importantes na Abrasp e uma vitória significativa no QS de Florianópolis, superando Barton Lynch, Jojó e Julio Adler. Em 1995, viria um dos grandes destaques internacionais de sua carreira: o nono lugar em Pipeline, substituindo de última hora o australiano Damien Hardman. Ondas entre 10 e 15 pés confirmaram sua capacidade técnica em um dos palcos mais desafiadores do mundo. Pedro Müller seguiria competindo por mais de duas décadas. Em Ubatuba, já aos 38 anos, conquistou sua última vitória no Circuito Super Surf 2004, num dos triunfos mais marcantes de sua trajetória. Hoje, vive do surfe como treinador, comentarista da Sportv e um dos proprietários da @escola_pedromuller, na Barra da Tijuca, administrada pelo sócio Adelmo Noite. Acompanhe ns publicações nas redes sociais @museudosurfesantos. Coordenador de pesquisas históricas do surfe @diniziozzi, o Pardhal.

Como uma prancha largamente usada por surfistas fora do circuito mundial profissional pode ganhar atenção? Coloque a dita cuja nos pés de um bicampeão mundial. Quer um destaque ainda maior? Filipe Toledo vence o tricampeão Gabriel Medina. Pronto. Vamos por partes. Na etapa do Championship Tour, na Nova Zelândia (Maio 2023), Filipe acabou não vencendo a disputa da quarta de final contra Griffin Colapinto, mesmo obtendo a melhor nota da bateria. Faltou uma onda. Mas o assunto aqui é outro, ou quase. Em um universo dominado por triquilhas, desde 1981, a diversidade de pranchas, no século 21, começou a ganhar espaço fora das competições. No meio de antigas novidades, biquilhas com trailer fin (estabilizador central) se mostraram mais controláveis e amistosas, levando muita gente a adotá-las no quiver. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Filipe Toledo (@filipetoledo) O modelo de biquilha com estabilizador central já havia sido testado mas ganhou vida nova em 2003, com as Super Twins do shaper, tetracampeão mundial (79, 80, 81 e 82), Mark Richards. Ele trouxe de volta suas Twin Fins do início dos anos 80, adicionando uma “quilhinha” central. Daí, de repente, Filipe Toledo coloca no jogo do circuito mundial o modelo Modern 2, da Sharp Eye Surfboards. Vence Gabriel Medina nas esquerdas de Raglan e deixa muito mais gente antenada sobre as possibilidades de uma twin com trailer fin. Filipe não foi o primeiro a fazer algo que eu esperava há tempos. Kelly Slater inovou, diminuindo o tamanho das pranchas e competindo, em algumas situações, com o que eram mais bi do que triquilhas, na primeira década do século 21. Dane Reynolds também fez isso, mas vamos combinar que esses dois não são parâmetros de surf normal. Deivid Silva também ousou. Abiquilhou-se numa etapa. Mandou bem, mas não chamou tanta atenção. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Sharp Eye Surfboards (@sharpeyesurfboards_au) Quando se trata de altíssima performance pesa sempre o fato dos atletas da elite não terem muito tempo para experiências fora da casinha das triquilhas. Mas, pela primeira vez, Filipe, além de seu ano sabático, em 2024, teve, como todos os Tops, os mesmos raros sete meses de folga antes da temporada 2026. Isso parece ter criado espaço para lidar com pranchas diferentes, memória física e jogo mental para se arriscar com um equipamento não muito convencional na Nova Zelândia. Sim, pranchas realmente diferentes pedem ajustes na maneira de usá-las e isso requer tempo e, claro, talento. Duas coisas chamaram a minha atenção. Impressionante como podemos e devemos comparar os melhores do surf competitivo profissional com pilotos da Fórmula 1. É com eles que a indústria das pranchas evolui mais e melhor. Detalhes sutis, milimétricos, que essa turma sente no funcionamento de uma prancha podem ser incorporados aos modelos que a maioria dos surfistas não conseguiria detectar ou explicar. Eles dão o caminho do que será usado pelos consumidores “normais”. Shapers são mais teoria, estudo. Tops são prática. As mudanças surgem daí. Segunda, e mais curiosa. Um esporte que durante tanto tempo teve uma aura de vanguarda e ousadia leva muito tempo para propor ou acertar mudanças mais drásticas, seja na construção ou desenvolvimento de design. Não creio que seja culpa dos fabricantes, já que essa indústria nunca gerou dinheiro suficiente para que se desenvolvesse como deveria. Ainda por cima a competição tem um formato onde há pouco espaço para o diferente quanto à performance. Mas isso é conversa para outro texto. Por agora fica a dica. Mesmo ideias estranhas à normalidade podem resultar em bons resultados. Teste tudo que é prancha que você puder. Não tenha medo, você não depende de notas dos juízes para ser feliz.