MEO Vissla Pro Ericeira

Samuel no gás em Portugal

Detentor do título do MEO Vissla Pro Ericeira, Samuel Pupo avança com o terceiro maior somatório do dia entre os homens. Ele e outros seis brasileiros já estão garantidos na terceira fase do evento português.
Pro Ericeira, Ribeira D'Ilhas, Portugal

O Brasil já tem sete surfistas classificados para a fase dos 24 melhores do Pro Ericeira. Nesta terça-feira (5) foram realizadas dez baterias masculinas da segunda fase, e as sete últimas do primeiro round feminino. Samuel Pupo foi o cara entre os homens.

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O detentor do título da etapa andou bem nas direitas de 1 metro com séries maiores do point break português de Ribeira D’Ilhas. Não estava fácil achar as ondas que abriam com paredes em pé, e Samuel mostrou que tem sintonia com o pico. Ele competiu na oitava bateria da segunda fase e melhorou com o passar dos minutos.

Samuel surfou muito bem, de forma fluída, com agilidade e encontrou paredes íngremes para atacar. O brasileiro fez um excelente link entre cada seção da onda, sem quebrar a linha ou perder velocidade, e assumiu a liderança logo depois que surfou a sua segunda onda, que valeu 5.67 pontos. Na primeira ele marcou 6.67.

Mas Samuel queria mais, e depois colocou 7.07 e 7.83 pontos no somatório. Ele venceu com o terceiro maior somatório da categoria masculina na terça-feira: 14.90. Os próximos adversário do brasileiro são o australiano Jackson Baker e Ian Gouveia.

“Acredito que surfo mais confiante aqui por já ter vencido, quando eu quase me qualifiquei para o CT. Só que faz tanto tempo isso e cada ano as condições são muito diferentes”, diz Samuel Pupo. “Mas, estou feliz por finalmente ter vencido a minha primeira bateria esse ano, que foi muito importante para mim. Meu irmão (Miguel Pupo) estava aqui quando eu venci 2 anos atrás e agora é o meu pai (Wagner) que está comigo, me dando uma força e apoio. É muito bom estar com ele aqui e estou me divertindo, adoro Portugal e espero que dê tudo certo para entrar no CT esse ano”.

Ian passou pela segunda fase com a segunda posição na sétima disputa. O duelo teve dois surfistas em conexão com o pico português, e dois que lutaram muito, mas que não encontraram ondas com boas paredes para manobras. Cole Houshmand e Ian Gouveia marcaram notas na casa dos sete pontos e avançaram. O norte-americano venceu de virada no final com as notas 7.60 e 7.03 pontos, e o brasileiro passou de fase com 7.10 e 6.77.

O japonês Kanoa Igarashi (3º) até tentou se manter na briga quando conquistou 6.17 pontos, porém perdeu na necessidade de 7.70 para avançar. Já máximo que o havaiano Eli Hanneman (4º) fez foi 3.97 na melhor apresentação. Ele também foi eliminado.

Mais vitórias – Além de Samuel, outros três brasileiros venceram nesta terça-feira (5). Deivid Silva abriu a segunda fase masculina com 7.50 pontos. Ele trabalhou bem numa direita que teve como manobras de destaque duas batidas verticais, uma para abrir a apresentação e outra para fechar.

Em seguida, o brasileiro voltou a soltar as manobras, porém numa onda menor e sem muita expressão. Mas a performance valeu 4.43 pontos e ele se manteve na frente no placar até o final.

Marcos Correa chegou a ficar em segundo lugar no confronto, após completar uma onda pequena com várias manobras (4.50). Porém depois ele não achou outras direitas boas. Ao contrário de Marcos, o norte-americano Jake Marshall melhorou na bateria, assumiu a segunda posição e se classificou para a fase dos 24 melhores do evento.

“As condições estão muito difíceis, pois não tem muitas ondas, mas estou muito feliz que a minha primeira foi muito boa, a melhor da bateria. A disputa foi muito difícil, pois o Jake Marshall, o Connor O’Leary e o Marcos Correa são muito perigosos. Estou muito feliz de ter avançado”, diz Deivid.

A primeira metade da segunda bateria teve muitas trocas de posições. O uruguaio
Marco Giorgi, em primeiro, e o havaiano Sebastian Zietz, em segundo, estavam conquistando as vagas para o Round 3. Mas na parte final tudo mudou.

João Chianca, que já vinha surfando bem, usou de forma correta a prioridade e
entrou numa direita que teve parede em pé em algumas seções. O brasileiro não aliviou e foi até o inside desferindo batidas fortes. A atuação valeu 7.30 pontos e a liderança da bateria. Depois ele ainda melhorou o somatório com mais 6.07.

Ezekiel Lau estava em último, mas nos segundos finais entrou numa direita pequena, e que ficou lenta no início. Porém no inside a onda ficou em pé, e ele fez algumas curvas até decolar na junção com reverse. O havaiano arrancou 7.93 pontos dos juízes e avançou em segundo lugar. Sebastian (3º) e Marcos (4º) foram eliminados.

Outro brasileiro que venceu no dia foi Mateus Herdy, O surfista começou o sexto confronto acelerando e voando na junção, com o fundo da prancha virada para a praia. A manobra valeu 7.00 pontos. Ele seguiu ativo e pouco depois fez boas curvas até voar com reverse no inside para anotar 6.30.

Hiroto Ohhara estava muito paciente na bateria. Ele abriu com 5.87 pontos e esperou longos minutos para entrar em ação novamente. O japonês pegou a segunda onda quando restavam sete minutos para o fim, e com curvas fortes até o inside anotou 7.60 e assumiu a liderança.

Mateus caiu para segundo e ficou na necessidade de 6.48 pontos para reassumir o primeiro posto. No minuto final ele foi em busca da pontuação que precisava. O brasileiro fez uma direita até a areia, recebeu 6.93 dos juízes e venceu o duelo. Hiroto avançou em segundo lugar. Já o francês Gatien Delahaye (3º) e o norte-americano Cam Richards, que não entraram em sintonia com o mar de Ribeira D’Ilhas, foram eliminados.

“Com a maré cheia, as condições ficaram mais difíceis, mas estou aqui com o Tiago Pires (português ex-top do CT) na minha equipe, me aconselhando, então me senti bem seguro. Eu sabia que se mandasse um aéreo, os juízes iam dar uma nota boa”, fala Mateus Herdy, que surfou com uma prancha rosa, inspirado no Julian Wilson, que usava pranchas dessa cor no mês de outubro, em alusão a campanha de prevenção ao câncer de mama.

“Eu sempre fui muito fã do Julian Wilson”, conta Herdy. “Eu assisti vários vídeos dele e ele sempre usava pranchas rosas, então falei pro meu shaper que queria todas as minhas pranchas rosas. Só não usei no primeiro dia aqui, porque o mar estava maior, mas essa está perfeita para essas condições e espero que as ondas continuem assim nos próximos dias”.

Camarão e Ibelli – Os outros brasileiros que avançaram no Pro Ericeira foram Thiago Camarão e Caio Ibelli. Camarão começou forte na quinta disputa com 6.50 pontos, conquistados com uma rasgada, uma forte batida na junção e outra batida no inside. O norte-americano Nat Young começou a trabalhar, e na segunda onda conquistou 7.40 dos juízes, após bater forte de forma vertical, e executar algumas boas rasgadas.

O medalhista olímpico Italo Ferreira fez algumas boas curvas, mas as ondas não o ajudaram a surfar com mais verticalidade. Porém o brasileiro ficou um bom tempo na segunda posição, até perder o lugar para o francês Charly Martin.

Camarão tentou reagir e saiu de quarto para terceiro. Ele entrou em ação pela última vez na bateria quando restavam dois minutos. O brasileiro usou a prioridade e foi em busca dos 4.74 pontos que precisava para avançar em segundo lugar.

O surfista começou a apresentação com uma escalada na espuma, depois rasgou puxando para dentro, executou um cutback, escalou novamente e bateu na junção. A nota 5.00 pontos o colocou na terceira fase do Pro Ericeira. Charly ficou em terceiro e Italo, que abandonou a bateria quando restavam oito minutos, em quarto. Os dois foram eliminados.

A bateria de Caio Ibelli foi a décima do segundo round, a última desta terça-feira. O norte-americano Crosby Colapinto começou melhor e fez 7.90 e 6.27 na segunda e terceira ondas surfadas. O brasileiro se manteve ativo e na briga, mas o australiano Cooper Chapman estraçalhou uma direita com fortes batidas e rasgadas alongadas e na pressão, recebeu a maior nota do evento (9.33) e colocou pressão nos adversários.

Caio entrou na segunda metade do confronto na terceira posição, mas melhorou e com 7.50 pontos, conquistados com um aéreo reverse e mais duas batidas no inside, assumiu a liderança. Crosby fez 7.90 e foi para segundo, mas Cooper precisava de apenas 4.84 para avançar. Enquanto isso, Wade Carmichael estava meio perdido, com apenas duas notas na casa dos dois pontos (2.67 e 2.23).

Cooper manteve a prioridade e teve calma para escolher uma onda. O australiano foi até o inside e tomou a primeira posição de Caio. Crosby ficou na necessidade de 6.43 pontos para seguir vivo no Pro Ericeira. Ele surfou no minuto final, mas caiu na junção e foi eliminado. Wade (4º) também se despediu da etapa portuguesa.

Mais brazucas – Três brasileiros ainda vão competir e podem reforçar o país na terceira fase do Pro Ericeira. Michael Rodrigues disputa a 11ª bateria contra os australianos Callum Robson e Sheldon Simkus, e o surfista de Barbados Josh Burke.

Na 12ª e última disputa da segunda fase, Alejo Muniz e Jesse Mendes vão lutar por duas vagas no próximo round contra o havaiano Imaikalani deVault e o norte-americano Michael Dunphy.

Meninas – Na categoria feminina, três surfistas da América do Sul também já vão disputar classificação para as oitavas de final, na segunda fase do Pro Ericeira. As brasileiras Silvana Lima e Summer Macedo estão juntas na segunda bateria, com Molly Picklum da Austrália e Leilani McGonagle da Costa Rica. A outra é a peruana Sol Aguirre, que despachou a campeã do US Open of Surfing e vice-líder do ranking do WSL Challenger Series na manhã da terça-feira em Portugal.

A norte-americana Caitlin Simmers até começou bem, com a maior nota da bateria, 6,17. No entanto, o máximo que conseguiu depois foi 3,27 e a peruana somou 5,40 com 4,83 para ganhar a disputa pela segunda vaga por 10,23 a 9,44 pontos. A vitória foi da japonesa Mahina Maeda por 13,27 e a equatoriana Dominic Barona ficou em quarto lugar com 9,03. Sol Aguirre vai disputar as duas últimas vagas para as oitavas de final com outra japonesa, Sara Wakita, e as havaianas Bettylou Sakura Johnson e Luana Coelho Silva.

Próxima chamada – A próxima chamada para o Pro Ericeira acontece nesta quarta-feira (6), às 4h (de Brasília).

Assista às disputas ao vivo aqui no Waves.

Pro Ericeira
Round 2 Masculino
3º=25º lugar ($ 1.500 e 750 pts) e 4º=37º ($1.000 e 650 pts)

1 Deivid Silva (BRA) 11.93, Jake Marshall (EUA) 10.67, Marcos Correa (BRA) 7.43, Connor O’Leary (AUS) 7.34

2 João Chianca (BRA) 13.37, Ezekiel Lau (HAV) 12.33, Sebastian Zietz (HAV) 12.14, Marco Giorgi (URU) 11.00

3 Lucca Mesinas (PER) 11.33, Jordan Lawler (AUS) 10.80, Slade Pretwich (AFR) 9.57, Jorgann Couzinet (FRA) 7.40

4 Jacob Willcox (AUS) 13.33, Carlos Muñoz (CRI) 11.03, Joan Duru (FRA) 10.63, Matthew McGillivray (AFR) 9.50

5 Nat Young (EUA) 13.27, Thiago Camarão (BRA) 11.67, Charly Martin (FRA) 11.40, Italo Ferreira (BRA) 10.77

6 Mateus Herdy (BRA) 13.93, Hiroto Ohhara (JPN) 13.47, Gatien Delahaye (FRA) 9.83, Cam Richards (EUA) 9.20

7 Cole Houshmand (EUA) 14.63, Ian Gouveia (BRA) 13.87, Kanoa Igarashi (JPN) 9.97, Eli Hanneman (HAV) 6.47

8 Samuel Pupo (BRA) 14.90, Dylan Moffat (AUS) 12.10, Liam O’Brien (AUS) 11.60, Patrick Gudauskas (EUA) 8.60

9 Jackson Baker (AUS) 15.80, Kauli Vaast (FRA) 13.93, Vasco Ribeiro (PRT) 13.27, Ramzi Boukhiam (MAR) 9.37

10 Cooper Chapman (AUS) 15.50, Caio Ibelli (BRA) 14.33, Crosby Colapinto (EUA) 14.17, Wade Carmichael (AUS) 8.13

Próximas baterias

11 Callum Robson (AUS), Michael Rodrigues (BRA), Josh Burke (BRB), Sheldon Simkus (AUS)

12 Alejo Muniz (BRA), Imaikalani deVault (HAV), Michael Dunphy (EUA), Jesse Mendes (BRA)
Round 3
3º=17º lugar ($ 2.000 e 2.000 pts)

1 Deivid Silva (BRA), Ezekiel Lau (HAV), Jordan Lawler (AUS)

2 João Chianca (BRA), Jake Marshall (EUA), Lucca Mesinas (PER)

3 Jacob Willcox (AUS), Hiroto Ohhara (JPN), Nat Young (EUA)

4 Mateus Herdy (BRA), Carlos Muñoz (CRI), Thiago Camarão (BRA)

5 Cole Houshmand (EUA), Dylan Moffat (AUS), Kauli Vaast (FRA)

6 Samuel Pupo (BRA), Ian Gouveia (BRA), Jackson Baker (AUS)

7 Cooper Chapman (AUS),

8 Caio Ibelli (BRA),

Round 1 Feminino
3ª=33º lugar (US$ 1.000 e 700 pts) e 4.o=49º lugar (US$ 775 e 600 pts)

Baterias realizadas nesta terça-feira (5)

10 Carolina Mendes (PRT) 11.84, Keala Tomoda-Bannert (HAV) 10.50, Savanna Stone (HAV) 10.43, Meah Collins (EUA) 7.77

11 India Robinson (AUS) 15.50, Ariane Ochoa (ESP) 13.40, Leticia Canales Bilbao (ESP) 11.17, Kailani Johnson (IDN) 8.33

12 Vahine Fierro (FRA) 15.84, Hinako Kurokawa (JPN) 8.50, Kobie Enright (AUS) 8.33, Lucia Martino (ESP) 5.83

13 Macy Callaghan (AUS) 12.30, Luana Silva (HAV) 11.50, Janire Gonzalez Etxabarri (ESP) 10.97, Daniella Rosas (PER) 8.77

14 Mahina Maeda (JPN) 13.27, Sol Aguirre (PER) 10.23, Caitlin Simmers (EUA) 9.44, Dominic Barona (EQU) 9.03

15 Bettylou Sakura Johnson (HAV) 13.93, Teresa Bonvalot (PRT) 10.36, Kirra Pinkerton (EUA) 5.60, Brianna Cope (HAV) 2.86

16 Sara Wakita (JPN) 13.50, Chelsea Tuach (BAR) 11.23, Philippa Anderson (AUS) 9.13, Camilla Kemp (ALE) 4.50

Round 2
3ª=17º lugar (US$ 2.000 e 2.000 pts) e 4.o=25º lugar (US$ 1.500 e 1.800 pts)

1 Keely Andrew (AUS), Sophie McCulloch (AUS), Juliette Lacome (FRA), Pauline Ado (FRA)

2 Leilani McGonagle (CRI), Summer Macedo (BRA), Molly Picklum (AUS), Silvana Lima (BRA)

3 Gabriela Bryan (HAV), Alyssa Spencer (EUA), Garazi Sanchez-Ortun (ESP), Zoe McDougall (HAV)

4 Freya Prumm (AUS), Minami Nonaka (JPN), Shino Matsuda (JPN), Yolanda Hopkins (PRT)

5 Brisa Hennessy (CRI), Carolina Mendes (PRT), Ariane Ochoa (ESP), Hinako Kurokawa (JPN)

6 Samantha Sibley (EUA), Keala Tomoda-Bannert (HAV), India Robinson (AUS), Vahine Fierro (FRA)

7 Macy Callaghan (AUS), Mahina Maeda (JPN), Teresa Bonvalot (PRT), Chelsea Tuach (BAR)

8 Luana Silva (HAV), Sol Aguirre (PER), Bettylou Sakura Johnson (HAV), Sara Wakita (JPN)

Enquanto alguns fotógrafos documentam a história, Fedoca Lima fez diferente: viveu dentro dela enquanto fotografava. Carioca do Posto 5, começou a surfar com 11 anos e a fotografar quase ao mesmo tempo, com uma máquina fotográfica alemã do pai. Aos 14, registrou a Rainha Elizabeth passando de Rolls-Royce aberto pela orla de Copacabana, em frente à casa do Assis Chateaubriand. No mesmo período, fotografou o Mick Jagger dando o dedo do meio no Copacabana Palace. Não era fotógrafo profissional. Era um moleque com olho bom e câmera na mão, sem perceber ainda o tamanho do que estava construindo. O que veio depois é história do surfe brasileiro. O Píer de Ipanema nos anos 70, quando o Rio era o centro do surfe nacional, com Daniel Friedmann, Pepê Lopes, Rico de Souza e Ricardo Bocão dominando o circuito. A Brasil Surf, primeira revista especializada do país, na qual Fedoca jogou em todas as posições: fotógrafo, redator e capa. O Havaí entre 1978 e 1981, surfando e fotografando ao lado de Gerry Lopez, Shaun Tomson e Michael Ho em Pipeline e Waimea. Os shows históricos, de Bob Marley ao ar livre no Havaí até Rolling Stones e Paul McCartney no Maracanã. “A foto que eu não tirei, essa me persegue.” Fedoca Lima Mais de cinquenta anos depois, esse arquivo vira livro. “Surf, Clicks e Rock’n Roll” tem 220 páginas, cerca de 180 fotografias e percorre a transformação do surfe brasileiro desde a era analógica até o digital, passando por Arpoador, Saquarema, Havaí, Califórnia e Macumba. Com captação aprovada de R$ 203 mil via incentivo cultural e apio da Fu Wax, o lançamento está previsto para o segundo semestre de 2026. Conversamos com Fedoca sobre tudo isso. Antes de se consolidar como fotógrafo, você também virou personagem da própria história do surfe brasileiro ao sair na capa da Brasil Surf em 1975. Como foi viver aquele momento por dentro? Saí na capa da Brasil Surf. Na época eu trabalhei na revista de março de 75 até janeiro de 79, só não peguei o primeiro número. Jogava todas as posições: saí na capa, escrevia, tirava foto, ajudava na redação, dava palpite, fazia matéria. Por muito tempo achei que era o único fotógrafo de surfe que tinha saído numa capa. Depois o Bruno Alves me falou que o irmão dele, o Alberto, saiu na capa da Fluir número 1. A história dele bate um pouco com a minha: ele pegava onda, saiu na capa, era fotógrafo. Mas durante anos eu achei que era caso único. Até hoje tem um restaurante aqui que o cara pediu, eu tirei uma foto com a revista na mão, ele botou na parede, eu assinei. A influência continua. A Brasil Surf ajudou a mudar a imagem do surfista no Brasil. Como era ser surfista naquela época, antes dessa mudança de percepção acontecer? O surfe saía no caderno B do Jornal do Brasil, do Globo. Não saía no esporte. E o surfista era tido como vagabundo de praia. Maconheiro. Isso, aliás, até hoje tem um pouco, mas na época tinha muito mais. A Brasil Surf não vou dizer que limpou essa imagem completamente, mas ajudou a transformar o surfe em esporte e também a fomentar o mercado de surfwear. Os irmãos Wady e Fuad Mansur, da loja Mansur, em Ipanema, foram dos primeiros anunciantes. Acreditaram na revista, fizeram anúncios de contracapa e página inteira, e as camisetas personalizadas vendidas pelo correio viraram um sucesso. A Brasil Surf acabou impulsionando fabricantes de pranchas, calções, parafinas e diversos outros anunciantes ligados ao surfe. Os fabricantes de prancha tinham um veículo para anunciar. Os fotógrafos ganhavam uma graninha, viajavam. Fui para a América Central, Porto Rico, Barbados, El Salvador, Fernando de Noronha, Peru, várias viagens bancadas pela Brasil Surf de uma forma ou de outra. O Nilton Barbosa foi ao Havaí duas vezes bancado pela revista. No caso dele, eles bancavam os filmes, ele vendia as fotos e a viagem se pagava. Tinha uma diferença entre mim e o Nilton nessa época: ele chegava na praia e ficava na areia fotografando, fotografando, fotografando. Eu chegava e ia para dentro da água. Se não estava o Daniel, não estava o Pepê, não estava o Cauli, não estava o Bocão, não estavam os caras top, eu entrava e surfava. Então tem foto minha na Brasil Surf publicada pelo Nilton Barbosa, pelo Rogério Ehrlich. Eu estava mais dentro da água do que fora. Eu estudava. Primeiro vestibular, depois faculdade. Boa parte dos meus amigos só queria saber de surfar. Eu dividia meu tempo. Chegava na praia, já tinha estudado de manhã, aí ficava naquele dilema: vou pegar onda ou vou fotografar? Por isso tem poucas fotos do Píer. Em três anos não tirei nem metade do que tiro hoje num dia bom na Macumba com o digital. Você viveu o Píer, a Brasil Surf, o Havaí dos anos 70, o nascimento do surfe brasileiro moderno. Em que momento percebeu que estava no meio de uma transformação cultural que iria muito além do esporte? O Píer foi o que fomentou o surfe no Rio de Janeiro. Por dez anos, foi domínio completo do Rio no cenário brasileiro. O Daniel Friedmann, em 77, foi o último carioca a vencer uma etapa do circuito internacional, ganhou no Quebra-Mar, em cima do Pepê Lopes, que tinha ganho em 76. Os dois de Ipanema, meus vizinhos de rua. E esse pessoal do Píer que dominou, o Daniel, o Pepê Lopes, o Cauli Rodrigues, e também o Otávio Pacheco, o Rico de Souza, o Ricardo Bocão. E tinha o Betão, que era o melhor surfista do Brasil na época mas não era competitivo, não corria atrás de patrocinador, acabou saindo cedo. Em 75 ele ganhou o Campeonato de Saquarema e foi saindo, saindo. O Píer influenciou a revista, influenciou os fabricantes de prancha, influenciou o modo de viver. Começaram a ter fábricas em Guaratiba, Vargem Grande, no Recreio, depois em Saquarema. As pessoas foram morar lá. O Penho foi, o Otávio comprou

O que define uma boa onda? Tamanho, força, parede, qualidade da linha, formação e surfabilidade, dentre outros elementos. No oceano, todos esses fatores mudam a cada swell, a cada vento, a cada maré. Em Búzios, a proposta é diferente: construir essas variáveis de forma controlada, repetível e ajustável. A piscina do Brasil Surfe Clube Aretê Búzios opera com a tecnologia Endless Surf, do grupo canadense WhiteWater, com 48 câmaras de ar de alta precisão. O sistema permite criar configurações distintas dentro da mesma estrutura. Dentro de um universo de grandes possibilidades, as cinco primeiras ondas já foram nomeadas e reveladas, cada uma com perfil próprio, e muito mais ainda está por vir. Onda #01: Pointbreak + Junção Linha longa, seções conectadas, tempo de onda que pode ultrapassar 25 segundos. A junção encadeia diferentes partes da onda sem perder velocidade, criando uma das experiências mais difíceis de encontrar no oceano com consistência. Para quem quer mais de 10 manobras na mesma onda ou simplesmente mais tempo de linha para ler e decidir. Onda #02: Manobras + Bowl A parede fica mais íngreme. O bowl abre seções críticas para manobras verticais e aéreos. É o ambiente para quem quer empurrar os limites do que consegue fazer sobre a prancha, com repetição suficiente para transformar cada tentativa em aprendizado real. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Onda #03: Rampa + Tubo Uma onda que combina duas experiências na mesma seção. A rampa prepara o surfista para a manobra e o tubo roda na sequência. Para quem quer encaixar um aéreo e ainda sair do tubo na mesma onda, essa configuração entrega os dois elementos sem precisar escolher. Onda #04: Rampa Nível Intermediário Parede consistente, menor intensidade, mais previsível. A configuração certa para quem está desenvolvendo manobras progressivas e precisa de repetição para consolidar o que está aprendendo. A seção cria a rampa no ângulo certo, com velocidade suficiente para executar sem exigir o nível avançado. Onda #05: Rampa Nível Avançado Mais potência, mais velocidade, mais projeção. A rampa avançada é para quem já chegou em Búzios com manobras no repertório e quer testá-las com pressão real. Com capacidade para gerar até 700 ondas por hora, o intervalo entre uma tentativa e outra é curto o suficiente para transformar cada sessão em treino de alto rendimento. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Para todos os níveis As cinco configurações cobrem desde quem está aprendendo até quem treina em alto rendimento. A piscina ainda opera em dois modos: single peak, com ondas quebrando para um lado e maior extensão de linha, e split peak, com direitas e esquerdas simultâneas, permitindo que surfistas compartilhem a mesma série em direções opostas. Yago Dora, campeão mundial de surfe em 2025, Victor Bernardo, um dos maiores freesurfers da atualidade, e Michelle des Bouillons, referência mundial em ondas gigantes, integram o time do BSC e já testaram a tecnologia na piscina Adrena Red Sea, na Arábia Saudita. “Muito animal esse lance de ter essa variedade de onda também. Um leque de ondas absurdo. Mal posso esperar para Búzios”, disse Victor Bernardo após a sessão. A versão de Búzios será maior: 48 câmaras contra 36 da estrutura do Mar Vermelho, com 13 mil metros quadrados de lâmina d’água. Variedade de ondas para testar, arriscar, aprender e evoluir todos os dias. Com inauguração prevista para o segundo semestre de 2026, é o que o Brasil Surfe Clube Aretê Búzios chega para entregar.

Pedro Bettencourt Müller nasceu no Rio de Janeiro, no dia 21 de julho de 1966, num ambiente familiar que respirava praia. Seu pai, Guilherme Xavier de Brito Müller, economista e morador do Leblon, cresceu frequentando a Zona Sul. Sua mãe, Maria Isabel Bettencourt Müller, criada em Santa Teresa, compartilhava da mesma paixão pelas praias. Para o casal, fim de semana e férias tinham destino certo: areia, sol e mar. Foi assim que Pedro e o irmão, Guilherme, passaram a infância seguindo os pais para o meio da Barra ou para São Conrado, ainda de estradas de terra, sem prédios, calçadões ou qualquer urbanização. Nesse cenário quase intocado, Pedro foi se encantando pelas ondas. Lembra-se de observar alguns surfistas solitários no meio da Barra e sentir-se hipnotizado pela habilidade deles. O mar, desde cedo, era o lugar onde queria estar. Ele recorda também a rotina da infância: ia para as aulas de natação no Clube de Regatas Flamengo e, depois, caminhava até o judô, no Leblon, um trajeto longo para uma criança de 12 anos. Antes de entrar no tatame, sentava-se no calçadão para olhar o mar quebrando, entregue à mesma fascinação que o acompanharia por toda a vida. O mar lhe transmitia paz, calma e propósito. Ali, ainda menino, já entendia que queria se tornar surfista. A mudança para São Conrado, por volta dos 14 ou 15 anos, foi decisiva. Morando ao lado do Pepino, Müller muitas vezes cabulava a aula pra ir surfar. As ondas triangulares, rápidas e pesadas da região se transformaram no seu campo de treinamento permanente. Ali, guiado pela referência de Rony Lima e pela evolução proporcionada pelas pranchas dos shapers Rico e Pedro Battaglin, deu um salto técnico marcante. A “biquilha mágica” 5’4″ de Battaglin é lembrada até hoje como uma das grandes viradas em seu surfe, época em que adotou o apelido de “o Águia”, pela tatuagem no braço. Uma nova mudança, motivada pelo desemprego do pai, levou a família para a Barra. Para Müller, foi a oportunidade perfeita: entre o Postinho, o meio da Barra e o Quebra-Mar, encontrou três ondas consistentes e acessíveis a pé, permitindo treinos diários que aceleraram ainda mais sua evolução. Nessa fase, destacou-se nos campeonatos da ASBT – Associação de Surf da Barra da Tijuca – e entrou para a promissora equipe da Cristal Graffiti. Antes disso, havia vencido seu primeiro campeonato no Leblon, organizado por Marcelo Peninha, vitória que marcou sua confiança rumo ao profissionalismo. Os resultados na categoria Júnior renderam um prêmio decisivo: uma passagem para o Havaí. Aos 18 anos, Müller viveu sua primeira temporada no North Shore (1984/85), dividindo casa com surfistas brasileiros experientes. Pipeline, logo no primeiro dia, foi seu batismo de fogo: mar pesado, adrenalina no limite e a certeza de que o treino no Pepino o havia preparado para aquele cenário. De volta ao Brasil, enfrentou dificuldades para manter regularidade como profissional. A grande virada veio com o curso de meditação transcendental feito ao lado de Rodolfo Lima. O impacto competitivo foi imediato: venceu a etapa profissional do Quebra-Mar no circuito carioca, em 1986, e passou a frequentar pódios de forma consistente. A regularidade, marca registrada de sua carreira, nasceu ali. Em 1987, tornou-se vice-campeão do primeiro Circuito Brasileiro de Surf Profissional. Liderou boa parte da temporada, foi vice-campeão na etapa da Lightning Bolt e, depois, campeão no Fico Festival. Só perdeu o título na penúltima bateria do Circuito, por apenas 20 pontos, uma diferença mínima para quem tinha 850 pontos de vantagem sobre o terceiro colocado. Na época, era visto como o surfista mais consciente e estratégico do país. Nos anos seguintes, acumulou resultados expressivos: vitórias importantes na Abrasp e uma vitória significativa no QS de Florianópolis, superando Barton Lynch, Jojó e Julio Adler. Em 1995, viria um dos grandes destaques internacionais de sua carreira: o nono lugar em Pipeline, substituindo de última hora o australiano Damien Hardman. Ondas entre 10 e 15 pés confirmaram sua capacidade técnica em um dos palcos mais desafiadores do mundo. Pedro Müller seguiria competindo por mais de duas décadas. Em Ubatuba, já aos 38 anos, conquistou sua última vitória no Circuito Super Surf 2004, num dos triunfos mais marcantes de sua trajetória. Hoje, vive do surfe como treinador, comentarista da Sportv e um dos proprietários da @escola_pedromuller, na Barra da Tijuca, administrada pelo sócio Adelmo Noite. Acompanhe ns publicações nas redes sociais @museudosurfesantos. Coordenador de pesquisas históricas do surfe @diniziozzi, o Pardhal.

Como uma prancha largamente usada por surfistas fora do circuito mundial profissional pode ganhar atenção? Coloque a dita cuja nos pés de um bicampeão mundial. Quer um destaque ainda maior? Filipe Toledo vence o tricampeão Gabriel Medina. Pronto. Vamos por partes. Na etapa do Championship Tour, na Nova Zelândia (Maio 2023), Filipe acabou não vencendo a disputa da quarta de final contra Griffin Colapinto, mesmo obtendo a melhor nota da bateria. Faltou uma onda. Mas o assunto aqui é outro, ou quase. Em um universo dominado por triquilhas, desde 1981, a diversidade de pranchas, no século 21, começou a ganhar espaço fora das competições. No meio de antigas novidades, biquilhas com trailer fin (estabilizador central) se mostraram mais controláveis e amistosas, levando muita gente a adotá-las no quiver. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Filipe Toledo (@filipetoledo) O modelo de biquilha com estabilizador central já havia sido testado mas ganhou vida nova em 2003, com as Super Twins do shaper, tetracampeão mundial (79, 80, 81 e 82), Mark Richards. Ele trouxe de volta suas Twin Fins do início dos anos 80, adicionando uma “quilhinha” central. Daí, de repente, Filipe Toledo coloca no jogo do circuito mundial o modelo Modern 2, da Sharp Eye Surfboards. Vence Gabriel Medina nas esquerdas de Raglan e deixa muito mais gente antenada sobre as possibilidades de uma twin com trailer fin. Filipe não foi o primeiro a fazer algo que eu esperava há tempos. Kelly Slater inovou, diminuindo o tamanho das pranchas e competindo, em algumas situações, com o que eram mais bi do que triquilhas, na primeira década do século 21. Dane Reynolds também fez isso, mas vamos combinar que esses dois não são parâmetros de surf normal. Deivid Silva também ousou. Abiquilhou-se numa etapa. Mandou bem, mas não chamou tanta atenção. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Sharp Eye Surfboards (@sharpeyesurfboards_au) Quando se trata de altíssima performance pesa sempre o fato dos atletas da elite não terem muito tempo para experiências fora da casinha das triquilhas. Mas, pela primeira vez, Filipe, além de seu ano sabático, em 2024, teve, como todos os Tops, os mesmos raros sete meses de folga antes da temporada 2026. Isso parece ter criado espaço para lidar com pranchas diferentes, memória física e jogo mental para se arriscar com um equipamento não muito convencional na Nova Zelândia. Sim, pranchas realmente diferentes pedem ajustes na maneira de usá-las e isso requer tempo e, claro, talento. Duas coisas chamaram a minha atenção. Impressionante como podemos e devemos comparar os melhores do surf competitivo profissional com pilotos da Fórmula 1. É com eles que a indústria das pranchas evolui mais e melhor. Detalhes sutis, milimétricos, que essa turma sente no funcionamento de uma prancha podem ser incorporados aos modelos que a maioria dos surfistas não conseguiria detectar ou explicar. Eles dão o caminho do que será usado pelos consumidores “normais”. Shapers são mais teoria, estudo. Tops são prática. As mudanças surgem daí. Segunda, e mais curiosa. Um esporte que durante tanto tempo teve uma aura de vanguarda e ousadia leva muito tempo para propor ou acertar mudanças mais drásticas, seja na construção ou desenvolvimento de design. Não creio que seja culpa dos fabricantes, já que essa indústria nunca gerou dinheiro suficiente para que se desenvolvesse como deveria. Ainda por cima a competição tem um formato onde há pouco espaço para o diferente quanto à performance. Mas isso é conversa para outro texto. Por agora fica a dica. Mesmo ideias estranhas à normalidade podem resultar em bons resultados. Teste tudo que é prancha que você puder. Não tenha medo, você não depende de notas dos juízes para ser feliz.