Jogos Pan-Americanos

Surf Brasil busca o tetra

O time brasileiro feminino de surfe segue 100% classificado mas as três vão se enfrentar e o masculino ficou com dois surfistas lutando por medalhas na Playa Venao.
Jogos Pan-Americanos de Surf 2026, Playa Venao, Panamá

O Surf Brasil segue na busca pelo tetracampeonato nos Jogos Pan-Americanos de Surf Panamá 2026, em 5 anos da gestão Teco Padaratz na presidência da Confederação Brasileira de Surf. Na sexta-feira só de surf de pranchinha na Playa Venao, o pernambucano Douglas Silva e a cearense Silvana Lima fizeram os recordes do dia nas suas categorias. O time feminino segue 100% classificado, mas Silvana, Juliana dos Santos e Monik Santos, vão se enfrentar na quarta fase. Já o masculino sofreu uma baixa e ficou só com Douglas Silva e Renan Pulga ainda lutando por medalhas no Panamá. A programação prevê encerrar o surf neste sábado e dar a largada no SUP Race, que só termina no domingo, ao vivo pelo site PASASURF.org.

A sexta-feira foi o primeiro dia só com surf de pranchinha nas ondas da Playa Venao. Começou pela repescagem masculina sem participação do Time Brasil e na sequência rolou a terceira fase feminina. As três brasileiras passaram suas baterias, mas a combinação de resultados acabou deixando todas no mesmo confronto da quarta fase. Silvana Lima, Juliana dos Santos e Monik Santos, terão que disputar apenas duas vagas com uma forte concorrente, Chelsea Tuach, de Barbados, que detém o recorde de nota – 8.50 – dos Jogos Pan-Americanos de Surf 2026.

Quem passar essa fase, já vai disputar classificação para as semifinais, que é garantia de medalhas na competição organizada todos os anos pela Pan American Surf Association (PASA). Esta edição do Panamá ganhou importância, porque vale vaga para os Jogos Pan-Americanos de Lima 2027 no Peru, um dos caminhos do surf para os Jogos Olímpicos de Los Angeles 2028 nos Estados Unidos. A primeira a competir na sexta-feira, foi a campeã brasileira de 2024 e líder no ranking do Surf Brasil Pro 2026, Juliana dos Santos.

Foi uma bateria fraca de ondas e a cearense perdeu por pouco para a peruana Sol Aguirre, 9.56 a 9.16 pontos. Juliana estava liderando o confronto, mas foi ultrapassada pela peruana que sempre compete no Brasil desde criança. As duas eliminaram a porto-riquenha Havanna Cabrero. A pernambucana Monik Santos também enfrentou outra conhecida surfista do Peru, Arena Rodriguez, que igualmente ganhou por uma pequena diferença de 10.17 a 9.50 pontos da brasileira. As duas não tiveram dificuldades para superar a mexicana Ana Gonzalez Velasco, que terminou em último com apenas 1.06 pontos.

Silvana Lima faz a melhor apresentação feminina na sexta-feira – A hexacampeã brasileira Silvana Lima fechou a terceira fase com a melhor apresentação feminina do dia. A cearense duas vezes vice-campeã mundial e que representou o Brasil na estreia do surf nas Olimpíadas nos Jogos de Tóquio 2020 no Japão, competiu com outra surfista olímpica, a grande amiga Dominic Barona, do Equador. Silvana Lima usou toda a sua experiência para pegar as melhores ondas que entraram na bateria e somou notas 7.00 e 5.77 na vitória por 12.77 pontos, maior placar das meninas na sexta-feira. Dominic ficou com a última vaga para a quarta fase, superando a argentina Lucia Cosoleto por 8.97 a 8.50 pontos.

“Estou feliz de ter passado. Estou me sentindo superbem, ainda mais nessas condições de ondas que eu gosto muito, marolinha perfeitinha e estou muito feliz de ter melhorado mais o meu surf aqui”, disse Silvana Lima. “Estou nessa busca de ir melhorando a cada bateria. A gente vai competir de novo hoje e espero que a maré não esteja tão cheia, porque é bem difícil com a maré muito cheia aqui, fica com poucas ondas. Mas, estou feliz agora de ter passado, estou amarradona e simbora que tem mais uma Brasil”.

Maré cheia paralisa a competição que acaba sendo adiada – Realmente as ondas sumiram quando a maré ficou cheia na Playa Venao. Após as seis baterias da terceira fase feminina, ainda rolaram as doze da segunda rodada masculina, quando as condições do mar já ficaram bem difíceis para competir. A comissão técnica da PASA então decidiu paralisar o evento e realizou várias chamadas durante a tarde, na esperança do mar melhorar. Ainda estavam programadas para rolar os três confrontos da quarta fase feminina e mais seis da terceira fase masculina. Só que nada mudou, a Playa Venao parecia uma grande piscina e a continuação da competição foi oficialmente adiada na chamada das 17h no Panamá, 19h no fuso horário do Brasil.

A segunda fase masculina começou bem para o Time Brasil, com o vice-campeão brasileiro do ano passado, Renan Pulga, brigando onda a onda pela vitória na primeira bateria. O venezuelano Rafael Pereira acabou vencendo, mas foi por pouco 11.50 a 11.26 do paulista de São Sebastião. Renan Pulga avançou em segundo lugar, eliminando o chileno Reimundo Berry e o nicaraguense Juan López. Na quinta bateria, veio a primeira baixa no surf de pranchinha, com o cearense Michael Rodrigues não achando boas ondas para mostrar o seu potencial de líder do Surf Brasil Pro 2026, com a vitória na primeira etapa no Ceará.

Douglas Silva faz os recordes da sexta-feira na Playa Venao – O peruano Lucca Mesinas, que assim como Michael Rodrigues, fez parte da elite do surf mundial e ainda já representou seu país nas Olimpíadas, se classificou em primeiro lugar com 12.17 pontos. O argentino Thiago Passeri passou em segundo com 11.60, o panamenho Kai Gale Grani perdeu em terceiro com 9.40 e Michael Rodrigues terminou em último com 7.64 pontos. Já o bicampeão brasileiro Douglas Silva brilhou na bateria seguinte, fazendo os recordes da sexta-feira, nota 7.67 e 14.40 pontos. Ele não deu chances ao colombiano Romeo Chavez, o costa-ricense Darsham Antequera e o argentino Ignacio Gundensen.

“Eu tava bem focado na estratégia do Paulo Moura (chefe da equipe técnica). Ele me passou todas as coordenadas, fui lá e graças a Deus, fui feliz. Só tenho que agradecer ao Surf Brasil por esse time incrível que temos aqui”, destacou Douglas Silva. “A lealdade da galera que tá aqui todo dia no campeonato, todos se ajudando, isso tem sido o máximo e eu confiei na estratégia do Paulo Moura. Ele fica o tempo todo na praia e está vendo todas as mudanças de marés para nos orientar. Ele, a Andréa (Lopes), o Guga (Arruda), o Américo (Pinheiro), ficam 10 horas na praia, o dia todo, então confiei neles e deu tudo certo”.

O próximo desafio do bicampeão brasileiro de 2024 e 2025, Douglas Silva, nos Jogos Pan-Americanos de Surf Panamá 2026, será na quarta bateria da terceira fase. Ele agora vai enfrentar ao argentino Thiago Passeri, o experiente chileno Manuel Selman e o venezuelano José Joaquín López. O paulista Renan Pulga, vice-campeão brasileiro em 2025, compete antes, na segunda bateria contra o argentino Joaquin Munoz, o local Teo Gale Grani do Panamá e Bryan Pérez, de El Salvador. No sábado também começa o SUP Surf, com o Time Brasil representado por Guilherme dos Reis, Eri Tenorio, Lena Guimarães e Moah Jessika.

Surf Brasil busca o tetracampeonato na gestão Teco Padaratz – O Brasil já ganhou 8 medalhas nos Jogos Pan-Americanos de Surf 2026, 3 de ouro com Eder Luciano e Maylla Venturim no Bodyboard e Luiz Diniz no SUP Surf, 3 de prata com Chloe Calmon no Longboard, Maira Viana na final brasileira do Bodyboard e Aline Adisaka no SUP Surf, que teve 1 de bronze com Gabi Sztamfater e a do Carlos Bahia no Longboard. Em 5 anos da gestão Teco Padaratz na presidência da Confederação Brasileira de Surf, o Surf Brasil foi tricampeão nas três primeiras participações, em 2022, 2023, 2024 e já conquistou 57 medalhas, sendo 16 de ouro, 16 de prata, 18 de bronze e 7 de cobre.

O time foi completo para os Jogos Pan-Americanos de Surf da PASA esse ano e está liderando o ranking dos 19 países representados no Panamá. A equipe viajou com 22 atletas, 11 homens e 11 mulheres na lista de 6 surfistas, 4 longboarders, 4 remadores do SUP Surf e 4 no SUP Race e mais 4 no Bodyboard. O vice-presidente e diretor de esportes da Confederação Brasileira de Surf, Paulo Moura, está no Panamá como chefe da equipe técnica, composta por mais dois ex-surfistas profissionais como ele, Guga Arruda e Andrea Lopes, além de Américo Pinheiro e Gabriela Willinghoefer.

Jogos Pan-Americanos de Surf Panamá 2026
Resultados da sexta-feira na Playa Venao
Surf Feminino – Terceira fase
3ª=13º lugar

1ª 1-Leilani McGonagle (CRC)=11.50, 2-Daniella Rosas (PER)=9.50, 3-Genesis Borja (ECU)=7.87

2ª 1-Candelaria Resano (NCA)=8.67, 2-Mia Calderón (PUR)=7.33, 3-Erika Berra (CRC)=4.07

3ª 1-Sol Aguirre (PER)=9.56, 2-Juliana dos Santos (BRA)=9.16, 3-Havanna Cabrero (PUR)=8.67

4ª 1-Chelsea Tuach (BAR)=11.67, 2-Katya Wirsch (ARG)=6.13, 3-Enilda Alonso (PAN)=5.60

5ª 1-Arena Rodriguez (PER)=10.17, 2-Monik Santos (BRA)=9.50, 3-Ana Gonzalez Velasco (MEX)=1.06

6ª 1-Silvana Lima (BRA)=12.77, 2-Dominic Barona (ECU)=8.97, 3-Lucia Cosoleto (ARG)=8.50

Brasileiros nas 12 baterias da segunda fase
3º=25º lugar e 4º=37º lugar

1ª 1-Rafael Pereira (VEN), 2-Renan Pulga (BRA), 3-Reimundo Berry (CHI), 4-Juan Lopez (NCA)

5ª 1-Lucca Mesinas (PER), 2-Thiago Passeri (ARG), 3-Kai Gale Grani (PAN), 4-Michael Rodrigues (BRA)

6ª 1-Douglas Silva (BRA), 2-Romeo Chavez (COL), 3-Darsham Antequera (CRC), 4-Ignacio Gundensen (ARG)

Baterias que abrem o sábado no Panamá
Surf Feminino – Quarta fase
3ª=7º lugar e 4ª=10º lugar

1ª Leilani McGonagle (CRC), Mia Calderón (PUR), Sol Aguirre (PER), Katya Wirsch (ARG)

2ª Arena Rodriguez (PER), Dominic Barona (ECU), Candelaria Resano (NCA), Daniella Rosas (PER)

3ª Chelsea Tuach (BRB), Silvana Lima (BRA), Juliana dos Santos (BRA), Monik Santos (BRA),

Surf Masculino – Terceira fase
3º=13º lugar e 4º=19º lugar

1ª Rafael Pereira (VEN), Roberto Araki (CHI), Joshua Burke (BAR), Jean Carlos González (PAN)

2ª Joaquin Munoz (ARG), Renan Pulga (BRA), Teo Gale Grani (PAN), Bryan Pérez (ESA)

3ª Lucca Mesinas (PER), Romeo Chavez (PER), Jacob Burke (BAR), Bruce Burgos (ECU)

4ª Douglas Silva (BRA), Thiago Passeri (ARG), José Joaquín López (VEN), Manuel Selman (CHI)

5ª Alex Suárez (ECU), Levi Young (CAN), Carlos Muñoz (CRC), Alonso Correa (PER)

6ª Cody Young (CAN), Elias Cardenas (COL), Raul Rios (PER), Sam Reidy (CRC)

SUP Race Masculino – Semifinal 1

Eri Tenorio (BRA)

Ricardo Ávila (PUR)

Itzel Delgado (PER)

Augusto Di Leva (ARG)

Dario Gonzalez (COL)

Gabriel Guevara (PAN)

Jaime Ojeda (CHI)

Gilbert Solis (VEN)

Emerson Solares (GUA)

SUP Race Masculino – Semifinal 2

Guilherme dos Reis (BRA)

Omelv Garcia (PUR)

Adrian Calvo (PER)

Santino Basadella (ARG)

Edonays Caballero (PAN)

José Gonzalez (CHI)

Vicente Vilanova (VEN)

Brian Berkivitz (GUA)

Michael Gutiérrez (CRC)

Cameron Carney (CAN)

SUP Race Feminino – Semifinal 1

Moah Jessika (BRA)

Juliette Duhaime (ARG)

Nimsay García (PUR)

Camila Fernanda Iriarte (PER)

Prisicilia Valdez (CHI)

Rafaela Vergara (GUA)

Nancy Lozada (VEN)

Laura Bal (PAN)

SUP Race Feminino – Semifinal 2

Lena Guimarães (BRA)

Alma Coletta (ARG)

Mariecarmen Rivera (PUR)

Giannisa Vecco (PER)

Nicole Perez (CHI)

Maria Fernanda Rodriguez (GUA)

Edimar Luque (VEN)

Stephanie Bodden (PAN)

Daniela García Montoya (MEX)

Enquanto alguns fotógrafos documentam a história, Fedoca Lima fez diferente: viveu dentro dela enquanto fotografava. Carioca do Posto 5, começou a surfar com 11 anos e a fotografar quase ao mesmo tempo, com uma máquina fotográfica alemã do pai. Aos 14, registrou a Rainha Elizabeth passando de Rolls-Royce aberto pela orla de Copacabana, em frente à casa do Assis Chateaubriand. No mesmo período, fotografou o Mick Jagger dando o dedo do meio no Copacabana Palace. Não era fotógrafo profissional. Era um moleque com olho bom e câmera na mão, sem perceber ainda o tamanho do que estava construindo. O que veio depois é história do surfe brasileiro. O Píer de Ipanema nos anos 70, quando o Rio era o centro do surfe nacional, com Daniel Friedmann, Pepê Lopes, Rico de Souza e Ricardo Bocão dominando o circuito. A Brasil Surf, primeira revista especializada do país, na qual Fedoca jogou em todas as posições: fotógrafo, redator e capa. O Havaí entre 1978 e 1981, surfando e fotografando ao lado de Gerry Lopez, Shaun Tomson e Michael Ho em Pipeline e Waimea. Os shows históricos, de Bob Marley ao ar livre no Havaí até Rolling Stones e Paul McCartney no Maracanã. “A foto que eu não tirei, essa me persegue.” Fedoca Lima Mais de cinquenta anos depois, esse arquivo vira livro. “Surf, Clicks e Rock’n Roll” tem 220 páginas, cerca de 180 fotografias e percorre a transformação do surfe brasileiro desde a era analógica até o digital, passando por Arpoador, Saquarema, Havaí, Califórnia e Macumba. Com captação aprovada de R$ 203 mil via incentivo cultural e apio da Fu Wax, o lançamento está previsto para o segundo semestre de 2026. Conversamos com Fedoca sobre tudo isso. Antes de se consolidar como fotógrafo, você também virou personagem da própria história do surfe brasileiro ao sair na capa da Brasil Surf em 1975. Como foi viver aquele momento por dentro? Saí na capa da Brasil Surf. Na época eu trabalhei na revista de março de 75 até janeiro de 79, só não peguei o primeiro número. Jogava todas as posições: saí na capa, escrevia, tirava foto, ajudava na redação, dava palpite, fazia matéria. Por muito tempo achei que era o único fotógrafo de surfe que tinha saído numa capa. Depois o Bruno Alves me falou que o irmão dele, o Alberto, saiu na capa da Fluir número 1. A história dele bate um pouco com a minha: ele pegava onda, saiu na capa, era fotógrafo. Mas durante anos eu achei que era caso único. Até hoje tem um restaurante aqui que o cara pediu, eu tirei uma foto com a revista na mão, ele botou na parede, eu assinei. A influência continua. A Brasil Surf ajudou a mudar a imagem do surfista no Brasil. Como era ser surfista naquela época, antes dessa mudança de percepção acontecer? O surfe saía no caderno B do Jornal do Brasil, do Globo. Não saía no esporte. E o surfista era tido como vagabundo de praia. Isso, aliás, até hoje tem um pouco, mas na época tinha muito mais. A Brasil Surf não vou dizer que limpou essa imagem completamente, mas ajudou a transformar o surfe em esporte e também a fomentar o mercado de surfwear. Os irmãos Wady e Fuad Mansur, da loja Mansur, em Ipanema, foram dos primeiros anunciantes. Acreditaram na revista, fizeram anúncios de contracapa e página inteira, e as camisetas personalizadas vendidas pelo correio viraram um sucesso. A Brasil Surf acabou impulsionando fabricantes de pranchas, calções, parafinas e diversos outros anunciantes ligados ao surfe. Os fabricantes de prancha tinham um veículo para anunciar. Os fotógrafos ganhavam uma graninha, viajavam. Fui para a América Central, Porto Rico, Barbados, El Salvador, Fernando de Noronha, Peru, várias viagens bancadas pela Brasil Surf de uma forma ou de outra. O Nilton Barbosa foi ao Havaí duas vezes bancado pela revista. No caso dele, eles bancavam os filmes, ele vendia as fotos e a viagem se pagava. Tinha uma diferença entre mim e o Nilton nessa época: ele chegava na praia e ficava na areia fotografando, fotografando, fotografando. Eu chegava e ia para dentro da água. Se não estava o Daniel, não estava o Pepê, não estava o Cauli, não estava o Bocão, não estavam os caras top, eu entrava e surfava. Então tem foto minha na Brasil Surf publicada pelo Nilton Barbosa, pelo Rogério Ehrlich. Eu estava mais dentro da água do que fora. Eu estudava. Primeiro vestibular, depois faculdade. Boa parte dos meus amigos só queria saber de surfar. Eu dividia meu tempo. Chegava na praia, já tinha estudado de manhã, aí ficava naquele dilema: vou pegar onda ou vou fotografar? Por isso tem poucas fotos do Píer. Em três anos não tirei nem metade do que tiro hoje num dia bom na Macumba com o digital. Você viveu o Píer, a Brasil Surf, o Havaí dos anos 70, o nascimento do surfe brasileiro moderno. Em que momento percebeu que estava no meio de uma transformação cultural que iria muito além do esporte? O Píer foi o que fomentou o surfe no Rio de Janeiro. Por dez anos, foi domínio completo do Rio no cenário brasileiro. O Daniel Friedmann, em 77, foi o último carioca a vencer uma etapa do circuito internacional, ganhou no Quebra-Mar, em cima do Pepê Lopes, que tinha ganho em 76. Os dois de Ipanema, meus vizinhos de rua. E esse pessoal do Píer que dominou, o Daniel, o Pepê Lopes, o Cauli Rodrigues, e também o Otávio Pacheco, o Rico de Souza, o Ricardo Bocão. E tinha o Betão, que era o melhor surfista do Brasil na época mas não era competitivo, não corria atrás de patrocinador, acabou saindo cedo. Em 75 ele ganhou o Campeonato de Saquarema e foi saindo, saindo. O Píer influenciou a revista, influenciou os fabricantes de prancha, influenciou o modo de viver. Começaram a ter fábricas em Guaratiba, Vargem Grande, no Recreio, depois em Saquarema. As pessoas foram morar lá. O Penho foi, o Otávio comprou casa,

O que define uma boa onda? Tamanho, força, parede, qualidade da linha, formação e surfabilidade, dentre outros elementos. No oceano, todos esses fatores mudam a cada swell, a cada vento, a cada maré. Em Búzios, a proposta é diferente: construir essas variáveis de forma controlada, repetível e ajustável. A piscina do Brasil Surfe Clube Aretê Búzios opera com a tecnologia Endless Surf, do grupo canadense WhiteWater, com 48 câmaras de ar de alta precisão. O sistema permite criar configurações distintas dentro da mesma estrutura. Dentro de um universo de grandes possibilidades, as cinco primeiras ondas já foram nomeadas e reveladas, cada uma com perfil próprio, e muito mais ainda está por vir. Onda #01: Pointbreak + Junção Linha longa, seções conectadas, tempo de onda que pode ultrapassar 25 segundos. A junção encadeia diferentes partes da onda sem perder velocidade, criando uma das experiências mais difíceis de encontrar no oceano com consistência. Para quem quer mais de 10 manobras na mesma onda ou simplesmente mais tempo de linha para ler e decidir. Onda #02: Manobras + Bowl A parede fica mais íngreme. O bowl abre seções críticas para manobras verticais e aéreos. É o ambiente para quem quer empurrar os limites do que consegue fazer sobre a prancha, com repetição suficiente para transformar cada tentativa em aprendizado real. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Onda #03: Rampa + Tubo Uma onda que combina duas experiências na mesma seção. A rampa prepara o surfista para a manobra e o tubo roda na sequência. Para quem quer encaixar um aéreo e ainda sair do tubo na mesma onda, essa configuração entrega os dois elementos sem precisar escolher. Onda #04: Rampa Nível Intermediário Parede consistente, menor intensidade, mais previsível. A configuração certa para quem está desenvolvendo manobras progressivas e precisa de repetição para consolidar o que está aprendendo. A seção cria a rampa no ângulo certo, com velocidade suficiente para executar sem exigir o nível avançado. Onda #05: Rampa Nível Avançado Mais potência, mais velocidade, mais projeção. A rampa avançada é para quem já chegou em Búzios com manobras no repertório e quer testá-las com pressão real. Com capacidade para gerar até 700 ondas por hora, o intervalo entre uma tentativa e outra é curto o suficiente para transformar cada sessão em treino de alto rendimento. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Para todos os níveis As cinco configurações cobrem desde quem está aprendendo até quem treina em alto rendimento. A piscina ainda opera em dois modos: single peak, com ondas quebrando para um lado e maior extensão de linha, e split peak, com direitas e esquerdas simultâneas, permitindo que surfistas compartilhem a mesma série em direções opostas. Yago Dora, campeão mundial de surfe em 2025, Victor Bernardo, um dos maiores freesurfers da atualidade, e Michelle des Bouillons, referência mundial em ondas gigantes, integram o time do BSC e já testaram a tecnologia na piscina Adrena Red Sea, na Arábia Saudita. “Muito animal esse lance de ter essa variedade de onda também. Um leque de ondas absurdo. Mal posso esperar para Búzios”, disse Victor Bernardo após a sessão. A versão de Búzios será maior: 48 câmaras contra 36 da estrutura do Mar Vermelho, com 13 mil metros quadrados de lâmina d’água. Variedade de ondas para testar, arriscar, aprender e evoluir todos os dias. Com inauguração prevista para o segundo semestre de 2026, é o que o Brasil Surfe Clube Aretê Búzios chega para entregar.

Pedro Bettencourt Müller nasceu no Rio de Janeiro, no dia 21 de julho de 1966, num ambiente familiar que respirava praia. Seu pai, Guilherme Xavier de Brito Müller, economista e morador do Leblon, cresceu frequentando a Zona Sul. Sua mãe, Maria Isabel Bettencourt Müller, criada em Santa Teresa, compartilhava da mesma paixão pelas praias. Para o casal, fim de semana e férias tinham destino certo: areia, sol e mar. Foi assim que Pedro e o irmão, Guilherme, passaram a infância seguindo os pais para o meio da Barra ou para São Conrado, ainda de estradas de terra, sem prédios, calçadões ou qualquer urbanização. Nesse cenário quase intocado, Pedro foi se encantando pelas ondas. Lembra-se de observar alguns surfistas solitários no meio da Barra e sentir-se hipnotizado pela habilidade deles. O mar, desde cedo, era o lugar onde queria estar. Ele recorda também a rotina da infância: ia para as aulas de natação no Clube de Regatas Flamengo e, depois, caminhava até o judô, no Leblon, um trajeto longo para uma criança de 12 anos. Antes de entrar no tatame, sentava-se no calçadão para olhar o mar quebrando, entregue à mesma fascinação que o acompanharia por toda a vida. O mar lhe transmitia paz, calma e propósito. Ali, ainda menino, já entendia que queria se tornar surfista. A mudança para São Conrado, por volta dos 14 ou 15 anos, foi decisiva. Morando ao lado do Pepino, Müller muitas vezes cabulava a aula pra ir surfar. As ondas triangulares, rápidas e pesadas da região se transformaram no seu campo de treinamento permanente. Ali, guiado pela referência de Rony Lima e pela evolução proporcionada pelas pranchas dos shapers Rico e Pedro Battaglin, deu um salto técnico marcante. A “biquilha mágica” 5’4″ de Battaglin é lembrada até hoje como uma das grandes viradas em seu surfe, época em que adotou o apelido de “o Águia”, pela tatuagem no braço. Uma nova mudança, motivada pelo desemprego do pai, levou a família para a Barra. Para Müller, foi a oportunidade perfeita: entre o Postinho, o meio da Barra e o Quebra-Mar, encontrou três ondas consistentes e acessíveis a pé, permitindo treinos diários que aceleraram ainda mais sua evolução. Nessa fase, destacou-se nos campeonatos da ASBT – Associação de Surf da Barra da Tijuca – e entrou para a promissora equipe da Cristal Graffiti. Antes disso, havia vencido seu primeiro campeonato no Leblon, organizado por Marcelo Peninha, vitória que marcou sua confiança rumo ao profissionalismo. Os resultados na categoria Júnior renderam um prêmio decisivo: uma passagem para o Havaí. Aos 18 anos, Müller viveu sua primeira temporada no North Shore (1984/85), dividindo casa com surfistas brasileiros experientes. Pipeline, logo no primeiro dia, foi seu batismo de fogo: mar pesado, adrenalina no limite e a certeza de que o treino no Pepino o havia preparado para aquele cenário. De volta ao Brasil, enfrentou dificuldades para manter regularidade como profissional. A grande virada veio com o curso de meditação transcendental feito ao lado de Rodolfo Lima. O impacto competitivo foi imediato: venceu a etapa profissional do Quebra-Mar no circuito carioca, em 1986, e passou a frequentar pódios de forma consistente. A regularidade, marca registrada de sua carreira, nasceu ali. Em 1987, tornou-se vice-campeão do primeiro Circuito Brasileiro de Surf Profissional. Liderou boa parte da temporada, foi vice-campeão na etapa da Lightning Bolt e, depois, campeão no Fico Festival. Só perdeu o título na penúltima bateria do Circuito, por apenas 20 pontos, uma diferença mínima para quem tinha 850 pontos de vantagem sobre o terceiro colocado. Na época, era visto como o surfista mais consciente e estratégico do país. Nos anos seguintes, acumulou resultados expressivos: vitórias importantes na Abrasp e uma vitória significativa no QS de Florianópolis, superando Barton Lynch, Jojó e Julio Adler. Em 1995, viria um dos grandes destaques internacionais de sua carreira: o nono lugar em Pipeline, substituindo de última hora o australiano Damien Hardman. Ondas entre 10 e 15 pés confirmaram sua capacidade técnica em um dos palcos mais desafiadores do mundo. Pedro Müller seguiria competindo por mais de duas décadas. Em Ubatuba, já aos 38 anos, conquistou sua última vitória no Circuito Super Surf 2004, num dos triunfos mais marcantes de sua trajetória. Hoje, vive do surfe como treinador, comentarista da Sportv e um dos proprietários da @escola_pedromuller, na Barra da Tijuca, administrada pelo sócio Adelmo Noite. Acompanhe ns publicações nas redes sociais @museudosurfesantos. Coordenador de pesquisas históricas do surfe @diniziozzi, o Pardhal.

Como uma prancha largamente usada por surfistas fora do circuito mundial profissional pode ganhar atenção? Coloque a dita cuja nos pés de um bicampeão mundial. Quer um destaque ainda maior? Filipe Toledo vence o tricampeão Gabriel Medina. Pronto. Vamos por partes. Na etapa do Championship Tour, na Nova Zelândia (Maio 2023), Filipe acabou não vencendo a disputa da quarta de final contra Griffin Colapinto, mesmo obtendo a melhor nota da bateria. Faltou uma onda. Mas o assunto aqui é outro, ou quase. Em um universo dominado por triquilhas, desde 1981, a diversidade de pranchas, no século 21, começou a ganhar espaço fora das competições. No meio de antigas novidades, biquilhas com trailer fin (estabilizador central) se mostraram mais controláveis e amistosas, levando muita gente a adotá-las no quiver. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Filipe Toledo (@filipetoledo) O modelo de biquilha com estabilizador central já havia sido testado mas ganhou vida nova em 2003, com as Super Twins do shaper, tetracampeão mundial (79, 80, 81 e 82), Mark Richards. Ele trouxe de volta suas Twin Fins do início dos anos 80, adicionando uma “quilhinha” central. Daí, de repente, Filipe Toledo coloca no jogo do circuito mundial o modelo Modern 2, da Sharp Eye Surfboards. Vence Gabriel Medina nas esquerdas de Raglan e deixa muito mais gente antenada sobre as possibilidades de uma twin com trailer fin. Filipe não foi o primeiro a fazer algo que eu esperava há tempos. Kelly Slater inovou, diminuindo o tamanho das pranchas e competindo, em algumas situações, com o que eram mais bi do que triquilhas, na primeira década do século 21. Dane Reynolds também fez isso, mas vamos combinar que esses dois não são parâmetros de surf normal. Deivid Silva também ousou. Abiquilhou-se numa etapa. Mandou bem, mas não chamou tanta atenção. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Sharp Eye Surfboards (@sharpeyesurfboards_au) Quando se trata de altíssima performance pesa sempre o fato dos atletas da elite não terem muito tempo para experiências fora da casinha das triquilhas. Mas, pela primeira vez, Filipe, além de seu ano sabático, em 2024, teve, como todos os Tops, os mesmos raros sete meses de folga antes da temporada 2026. Isso parece ter criado espaço para lidar com pranchas diferentes, memória física e jogo mental para se arriscar com um equipamento não muito convencional na Nova Zelândia. Sim, pranchas realmente diferentes pedem ajustes na maneira de usá-las e isso requer tempo e, claro, talento. Duas coisas chamaram a minha atenção. Impressionante como podemos e devemos comparar os melhores do surf competitivo profissional com pilotos da Fórmula 1. É com eles que a indústria das pranchas evolui mais e melhor. Detalhes sutis, milimétricos, que essa turma sente no funcionamento de uma prancha podem ser incorporados aos modelos que a maioria dos surfistas não conseguiria detectar ou explicar. Eles dão o caminho do que será usado pelos consumidores “normais”. Shapers são mais teoria, estudo. Tops são prática. As mudanças surgem daí. Segunda, e mais curiosa. Um esporte que durante tanto tempo teve uma aura de vanguarda e ousadia leva muito tempo para propor ou acertar mudanças mais drásticas, seja na construção ou desenvolvimento de design. Não creio que seja culpa dos fabricantes, já que essa indústria nunca gerou dinheiro suficiente para que se desenvolvesse como deveria. Ainda por cima a competição tem um formato onde há pouco espaço para o diferente quanto à performance. Mas isso é conversa para outro texto. Por agora fica a dica. Mesmo ideias estranhas à normalidade podem resultar em bons resultados. Teste tudo que é prancha que você puder. Não tenha medo, você não depende de notas dos juízes para ser feliz.