WSL Finals

Finals 5 se despede

Temporada de 2025 do Championship Tour marca último ano do WSL Finals. Relembre motivo da criação, campeões, estatísticas e mais.

Os campeões mundiais de 2025 foram conhecidos na última segunda-feira (1), em Cloudbreak, Fiji. Yago Dora levantou o caneco entre os homens depois de derrotar o norte-americano Griffin Colapinto. Entre as mulheres, a australiana Molly Picklum venceu a norte-americana Caroline Marks.

E chegou ao fim não só a atual temporada, mas também o Finals 5, que começou em 2021. O modelo que classificava cinco surfistas para um dia de baterias em que se decidia o campeão mundial, não acontecerá mais. O formato de pontos corridos volta em 2026. Depois de cinco edições do Finals, a pergunta que fica é: o que deu errado?

Antes de tudo, é preciso entender os motivos que levaram a WSL a criar um formato tão criticado pelo público e pelos atletas. A ideia surgiu a partir do CT de 2019, quando Italo Ferreira e Gabriel Medina chegaram à última etapa, na época em Pipeline, Havaí, com chances de título. Foi o que aconteceu, com Italo e Gabriel se encontrando na bateria final em Pipe, na qual vencedor se tornaria o campeão mundial da temporada.

Ferreira derrotou Medina, ficando com o troféu do evento e o título mundial. O duelo chamou gerou uma enorme atenção, com o índice de audiência, segundo a própria WSL, batendo recorde. Logo surgiu entre a direção da entidade a visão de que esse tipo de confronto decisivo, valendo o prêmio máximo do surfe, deveria ser replicado. Para que isso acontecesse, foi criado o formato do Finals 5.

Em 2020, o circuito foi paralisado por conta da Covid. Quando foi retomado, em dezembro do mesmo ano, se estendendo até setembro de 2021, o Finals já estava implementado. O primeiro campeão nesse formato foi Gabriel Medina, que conquistou seu terceiro título em Trestles, Califórnia (EUA), sobre o compatriota Filipe Toledo.

Recaptulando o formato 

Ao final da temporada regular, o primeiro colocado no ranking do CT se classificava diretamente para a final. Um confronto em melhor de três definia o campeão mundial. (Trestles foi o local que definiu o título entre 2021 e 2024). Os cinco surfistas restantes entravam na chave, tanto no masculino como no feminino, com base em suas classificações no ranking do Tour. Em apenas uma bateria, e não melhor de três como previsto para a grande final, o quinto competia contra o quarto colocado na primeira bateria do dia, com o vencedor enfrentando o terceiro colocado e assim por diante. Quem sobrevivesse a essa sequência de duelos, teria então a chance de encarar o número um do ranking valendo o troféu de campeão mundial.

O formato permaneceu intocado em suas quatro edições em Trestles. Somente em Fiji, já com a decisão de que seria abandonado em 2026, sofreu uma alteração em seus fundamentos. Bastaria ao líder do ranking vencer a primeira bateria para já garantir o título, o que efetivamente ocorreu com Yago Dora. Ele venceu Griffin de primeira e conquistou o troféu. Molly perdeu a primeira para Marks e teve que vencer mais duas baterias para se tornar campeã.

Formato injusto? 

Desde sua implementação o formato sofreu oposição entre os próprios competidores e a mídia especializada, por ser considerado injusto. Gabriel Medina foi um dos que repudiou abertamente o Finals 5 desde o início, fazendo até uma comparação a outros esportes. “Por exemplo, na Fórmula 1 o Lewis Hamilton foi campeão com várias provas de antecedência. Seria como ele, depois de ganhar oito, nove corridas, ter que esperar outros quatro pilotos para fazer uma final. Acho injustos. Poderiam melhorar, ter uma regra mais específica, se o cara estivesse muito à frente, não ter essa final. Ainda mais no surfe, em que a gente depende da natureza. E agora com a Covid? Se o primeiro do ranking testar positivo no dia? Mas estou aqui para surfar, não quero me meter mais em nada. Só fazer meu trabalho”.

Após ter acompanhado todos os títulos mundiais decididos no polêmico formato, o jornalista especializado Adrian Kojin acredita que o Finals não deu certo. “Acho que não funcionou por não respeitar a vontade dos competidores e fãs praticantes, aqueles que realmente entendem de surfe. Se a maioria do competidores não está de acordo, perde a validade. O risco de se cometer uma injustiça é muito grande. Um campeão mundial coroado por um sistema que não tem credibilidade pode vir a ter seu valor diminuído diante dos fãs”.

Kojin completa explicando que, “isso só não aconteceu entre os homens pois sempre o primeiro colocado do ranking terminou campeão mundial, mas não foi o caso entre as mulheres. O dia do Finals acabava sendo emocionante para os espectadores de qualquer maneira, pelo que está em jogo, e isso acarreta numa audiência substancial, mas não é o suficiente para justificar que o título mundial seja retirado de quem o conquistou com muita batalha nos pontos corridos”, diz.

No feminino, realmente a questão foi diferente. Das cinco campeãs via Finals, três lideravam o ranking: Carissa Moore em 2021, Caitlin Simmers em 2024 e Molly Picklum em 2025. Em 2022 e 2023, a liderança era da havaiana Carissa, que perdeu as duas finais, para Stephanie Gilmore e Caroline Marks, respectivamente.

Inclusive, a própria Stephanie Gilmore, após ter derrotado Carissa Moore, admitiu que a herdeira campeão deveria ter sido a australiana, declarando que estava “com os sentimentos confusos, especialmente porque Carissa teve um ano tão brilhante”. Em janeiro de 2024, cinco meses após perder o título para Marks, Carissa anunciou a sua retirada do Tour. Muitos julgaram que a decisão estava diretamente relacionada à insatisfação com o formato fo Finals 5, que teria subtraído dois títulos mundiais da sua trajetória vitoriosa.

Já o jornalista Carlos Matias, que cobre o CT pelo Waves e Surfe TV, viu desde o começo que o formato enfrentaria problemas. “O Finals começou com prazo de validade para terminar. Essa opinião não é unânime, já que teve atleta brasileiro votando para a manutenção do formato, porém a maioria sempre olhou como um modelo injusto. Ele até teria dado certo se não causasse todo o mal que fez para a havaiana Carissa Moore e para a história do esporte”, afirma.

É possível que o Finals 5 até deixe saudades em alguns fãs e até mesmo competidores. Provavelmente no departamento comercial da WSL isso vai acontecer, pois o produto havia se revelado atrativo para os patrocinadores. É inegável que o apelo para ter o título mundial decidido numa única bateria é grande. Um circuito de pontos corridos é o ideal para os atletas e para a justiça do esporte? No surfe, a maioria dos competidores votou que sim e o público raiz aplaudiu as mudanças no formato para 2026. Isso não quer dizer que a busca por outros formatos deva ser inteiramente abandonada, a evolução é sempre bem-vinda, desde que todos os envolvidos participem de forma democrática do processo. O que não pode haver é uma imposição, como foi o Finals 5.

 

Pedro Bettencourt Müller nasceu no Rio de Janeiro, no dia 21 de julho de 1966, num ambiente familiar que respirava praia. Seu pai, Guilherme Xavier de Brito Müller, economista e morador do Leblon, cresceu frequentando a Zona Sul. Sua mãe, Maria Isabel Bettencourt Müller, criada em Santa Teresa, compartilhava da mesma paixão pelas praias. Para o casal, fim de semana e férias tinham destino certo: areia, sol e mar. Foi assim que Pedro e o irmão, Guilherme, passaram a infância seguindo os pais para o meio da Barra ou para São Conrado, ainda de estradas de terra, sem prédios, calçadões ou qualquer urbanização. Nesse cenário quase intocado, Pedro foi se encantando pelas ondas. Lembra-se de observar alguns surfistas solitários no meio da Barra e sentir-se hipnotizado pela habilidade deles. O mar, desde cedo, era o lugar onde queria estar. Ele recorda também a rotina da infância: ia para as aulas de natação no Clube de Regatas Flamengo e, depois, caminhava até o judô, no Leblon, um trajeto longo para uma criança de 12 anos. Antes de entrar no tatame, sentava-se no calçadão para olhar o mar quebrando, entregue à mesma fascinação que o acompanharia por toda a vida. O mar lhe transmitia paz, calma e propósito. Ali, ainda menino, já entendia que queria se tornar surfista. A mudança para São Conrado, por volta dos 14 ou 15 anos, foi decisiva. Morando ao lado do Pepino, Müller muitas vezes cabulava a aula pra ir surfar. As ondas triangulares, rápidas e pesadas da região se transformaram no seu campo de treinamento permanente. Ali, guiado pela referência de Rony Lima e pela evolução proporcionada pelas pranchas dos shapers Rico e Pedro Battaglin, deu um salto técnico marcante. A “biquilha mágica” 5’4″ de Battaglin é lembrada até hoje como uma das grandes viradas em seu surfe, época em que adotou o apelido de “o Águia”, pela tatuagem no braço. Uma nova mudança, motivada pelo desemprego do pai, levou a família para a Barra. Para Müller, foi a oportunidade perfeita: entre o Postinho, o meio da Barra e o Quebra-Mar, encontrou três ondas consistentes e acessíveis a pé, permitindo treinos diários que aceleraram ainda mais sua evolução. Nessa fase, destacou-se nos campeonatos da ASBT – Associação de Surf da Barra da Tijuca – e entrou para a promissora equipe da Cristal Graffiti. Antes disso, havia vencido seu primeiro campeonato no Leblon, organizado por Marcelo Peninha, vitória que marcou sua confiança rumo ao profissionalismo. Os resultados na categoria Júnior renderam um prêmio decisivo: uma passagem para o Havaí. Aos 18 anos, Müller viveu sua primeira temporada no North Shore (1984/85), dividindo casa com surfistas brasileiros experientes. Pipeline, logo no primeiro dia, foi seu batismo de fogo: mar pesado, adrenalina no limite e a certeza de que o treino no Pepino o havia preparado para aquele cenário. De volta ao Brasil, enfrentou dificuldades para manter regularidade como profissional. A grande virada veio com o curso de meditação transcendental feito ao lado de Rodolfo Lima. O impacto competitivo foi imediato: venceu a etapa profissional do Quebra-Mar no circuito carioca, em 1986, e passou a frequentar pódios de forma consistente. A regularidade, marca registrada de sua carreira, nasceu ali. Em 1987, tornou-se vice-campeão do primeiro Circuito Brasileiro de Surf Profissional. Liderou boa parte da temporada, foi vice-campeão na etapa da Lightning Bolt e, depois, campeão no Fico Festival. Só perdeu o título na penúltima bateria do Circuito, por apenas 20 pontos, uma diferença mínima para quem tinha 850 pontos de vantagem sobre o terceiro colocado. Na época, era visto como o surfista mais consciente e estratégico do país. Nos anos seguintes, acumulou resultados expressivos: vitórias importantes na Abrasp e uma vitória significativa no QS de Florianópolis, superando Barton Lynch, Jojó e Julio Adler. Em 1995, viria um dos grandes destaques internacionais de sua carreira: o nono lugar em Pipeline, substituindo de última hora o australiano Damien Hardman. Ondas entre 10 e 15 pés confirmaram sua capacidade técnica em um dos palcos mais desafiadores do mundo. Pedro Müller seguiria competindo por mais de duas décadas. Em Ubatuba, já aos 38 anos, conquistou sua última vitória no Circuito Super Surf 2004, num dos triunfos mais marcantes de sua trajetória. Hoje, vive do surfe como treinador, comentarista da Sportv e um dos proprietários da @escola_pedromuller, na Barra da Tijuca, administrada pelo sócio Adelmo Noite. Acompanhe ns publicações nas redes sociais @museudosurfesantos. Coordenador de pesquisas históricas do surfe @diniziozzi, o Pardhal.

Como uma prancha largamente usada por surfistas fora do circuito mundial profissional pode ganhar atenção? Coloque a dita cuja nos pés de um bicampeão mundial. Quer um destaque ainda maior? Filipe Toledo vence o tricampeão Gabriel Medina. Pronto. Vamos por partes. Na etapa do Championship Tour, na Nova Zelândia (Maio 2023), Filipe acabou não vencendo a disputa da quarta de final contra Griffin Colapinto, mesmo obtendo a melhor nota da bateria. Faltou uma onda. Mas o assunto aqui é outro, ou quase. Em um universo dominado por triquilhas, desde 1981, a diversidade de pranchas, no século 21, começou a ganhar espaço fora das competições. No meio de antigas novidades, biquilhas com trailer fin (estabilizador central) se mostraram mais controláveis e amistosas, levando muita gente a adotá-las no quiver. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Filipe Toledo (@filipetoledo) O modelo de biquilha com estabilizador central já havia sido testado mas ganhou vida nova em 2003, com as Super Twins do shaper, tetracampeão mundial (79, 80, 81 e 82), Mark Richards. Ele trouxe de volta suas Twin Fins do início dos anos 80, adicionando uma “quilhinha” central. Daí, de repente, Filipe Toledo coloca no jogo do circuito mundial o modelo Modern 2, da Sharp Eye Surfboards. Vence Gabriel Medina nas esquerdas de Raglan e deixa muito mais gente antenada sobre as possibilidades de uma twin com trailer fin. Filipe não foi o primeiro a fazer algo que eu esperava há tempos. Kelly Slater inovou, diminuindo o tamanho das pranchas e competindo, em algumas situações, com o que eram mais bi do que triquilhas, na primeira década do século 21. Dane Reynolds também fez isso, mas vamos combinar que esses dois não são parâmetros de surf normal. Deivid Silva também ousou. Abiquilhou-se numa etapa. Mandou bem, mas não chamou tanta atenção. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Sharp Eye Surfboards (@sharpeyesurfboards_au) Quando se trata de altíssima performance pesa sempre o fato dos atletas da elite não terem muito tempo para experiências fora da casinha das triquilhas. Mas, pela primeira vez, Filipe, além de seu ano sabático, em 2024, teve, como todos os Tops, os mesmos raros sete meses de folga antes da temporada 2026. Isso parece ter criado espaço para lidar com pranchas diferentes, memória física e jogo mental para se arriscar com um equipamento não muito convencional na Nova Zelândia. Sim, pranchas realmente diferentes pedem ajustes na maneira de usá-las e isso requer tempo e, claro, talento. Duas coisas chamaram a minha atenção. Impressionante como podemos e devemos comparar os melhores do surf competitivo profissional com pilotos da Fórmula 1. É com eles que a indústria das pranchas evolui mais e melhor. Detalhes sutis, milimétricos, que essa turma sente no funcionamento de uma prancha podem ser incorporados aos modelos que a maioria dos surfistas não conseguiria detectar ou explicar. Eles dão o caminho do que será usado pelos consumidores “normais”. Shapers são mais teoria, estudo. Tops são prática. As mudanças surgem daí. Segunda, e mais curiosa. Um esporte que durante tanto tempo teve uma aura de vanguarda e ousadia leva muito tempo para propor ou acertar mudanças mais drásticas, seja na construção ou desenvolvimento de design. Não creio que seja culpa dos fabricantes, já que essa indústria nunca gerou dinheiro suficiente para que se desenvolvesse como deveria. Ainda por cima a competição tem um formato onde há pouco espaço para o diferente quanto à performance. Mas isso é conversa para outro texto. Por agora fica a dica. Mesmo ideias estranhas à normalidade podem resultar em bons resultados. Teste tudo que é prancha que você puder. Não tenha medo, você não depende de notas dos juízes para ser feliz.

Michelle des Bouillons desceu uma onda de quase 25 metros em Nazaré e pode entrar para a história como a mulher que surfou a maior de todos os tempos. Em entrevista exclusiva ao Waves, ela conta como chegou até aqui.

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