Margaret River Pro 2026

Brasil com cinco nas quartas

Samuel Pupo, Gabriel Medina, Yago Dora, Italo Ferreira e Luana Silva superam condições difíceis e avançam na Austrália. Próxima chamada acontece na terça-feira (21) às 20h (de Brasília).
Western Australia Margaret River Pro 2026, Main Break, Austrália

O segundo dia do Western Australia Margaret River Pro 2026 foi marcado pela definição dos classificados para as quartas de final em condições desafiadoras no Main Break e com forte presença brasileira. Gabriel Medina, Yago Dora, Italo Ferreira, Samuel Pupo e Luana Silva garantiram vaga entre os oito melhores de suas categorias.

Clique aqui para ver as fotos
Clique aqui para ver o vídeo

A competição foi retomada neste domingo (19), com mar mexido, vento maral e ondas entre 4 e 6 pés. Com a chegada de um forte sistema de tempestade, a etapa foi colocada em espera, com próxima chamada prevista somente para terça-feira (21) às 20h (de Brasília).

O Brasil teve papel de destaque principalmente no masculino, colocando quatro surfistas nas quartas de final, cada um em uma bateria. Samuel Pupo protagonizou uma das melhores performances do dia ao vencer o japonês Kanoa Igarashi por 14.00 a 13.80, somando a única nota excelente das disputas masculinas no dia: 8.00 pontos.

“Sabia que seria uma bateria difícil. No papel já era um confronto pesado”, contou Samuel. “O Kanoa é um surfista incrível. Os erros que cometi mostraram o quanto ele é bom na leitura do mar e o quão focado ele é. Ele enxergou ondas que eu não vi e conseguiu grandes notas. Isso mostra pontos que ainda preciso melhorar para evoluir no futuro. É muito bom estar aqui sem todo aquele estresse e pressão que eu tive nos últimos anos. Conseguir dar essa virada é algo muito importante para mim mentalmente, para me deixar mais forte para baterias maiores e momentos decisivos”.

 

Ver essa foto no Instagram

 

Um post compartilhado por World Surf League (@wsl)

Na sequência, Gabriel Medina levou a melhor no duelo de ex-campeões da etapa contra o australiano Jack Robinson. Em uma bateria disputada em condições difíceis, o tricampeão mundial venceu por 11.90 a 10.63 pontos.

“O Jack é um dos melhores aqui”, disse Gabriel. “É sempre bom vencer uma bateria como essa. Ele é um surfista e uma pessoa incríveis. Sou um grande fã dele e estou feliz com a vitória. É difícil com esse vento, parece até que estamos fazendo snowboard ou algo assim — até a neve é mais lisa. Espero que tenhamos condições melhores para poder apresentar um bom surfe. Mas também precisamos passar por essas condições difíceis. Já é um bom resultado, mas eu quero mais”.

Yago Dora, atual campeão mundial, também avançou ao bater o japonês Connor O’Leary com 10.34 a 7.03, enquanto Italo Ferreira venceu o confronto brasileiro contra João Chianca por 13.40 a 12.80.

 

Ver essa foto no Instagram

 

Um post compartilhado por World Surf League (@wsl)

Fechando a participação brasileira no Round 3, Miguel Pupo acabou superado por Ethan Ewing (11.40 x 10.73) e se despediu da etapa em nono lugar.

No feminino, Luana Silva garantiu o Brasil nas quartas ao vencer a australiana Sophie McCulloch em uma bateria equilibrada: 10.97 a 10.07 pontos. A brasileira agora encara a atual campeã mundial, a também surfista da Austrália, Molly Picklum.

Molly, aliás, foi o grande nome do dia entre as mulheres. A australiana registrou o maior somatório: 15.50, incluindo a nota excelente 8.50, na vitória sobre a aussie Sally Fitzgibbons.

“Lá fora é quase uma batalha no mar, e quando aparece uma seção, você precisa se comprometer com ela”, disse Molly. “Me perguntaram sobre a minha comemoração. Você solta tudo porque é a melhor sensação — você está batendo na onda e colocando tudo ali, em cada seção, em cada momento, como se fossem momentos mágicos. Muitas coisas estão encaixando agora, e algumas delas são até incontroláveis. Então, quando isso acontece, você só aproveita e segue o fluxo. Eu estou indo nessa vibe. Vou aproveitar com certeza. Vamos ver se continua dando certo para mim”.

 

Ver essa foto no Instagram

 

Um post compartilhado por World Surf League (@wsl)

As campeãs mundiais restantes na chave feminina ditaram o ritmo no Round 2. A norte-americana Caroline Marks avançou com 12.27 ao derrotar Francisca Veselko. “Sinto que em Bells eu nem cheguei a surfar de verdade. Hoje finalmente tive algumas oportunidades de me soltar, então fiquei muito feliz com isso”, disse Caroline. “Está bem difícil lá fora. Margaret River não está nada definido, as ondas estão meio espalhadas, e você também acaba sendo levado pela corrente o tempo todo, então vira um jogo de gato e rato. Fico feliz por ter encontrado algumas boas ondas. Tentei não pensar demais e simplesmente surfar bastante. Que bom que deu certo. Tenho feito ótimos free surfs, então espero que na próxima bateria eu consiga me soltar ainda mais”.

A norte-americana Caitlin Simmers (11.40) e a havaiana Carissa Moore (9.16) também venceram suas baterias. Simmers superou a francesa Vahine Fierro apostando em ondas na faixa dos cinco pontos.

“Eu só quero surfar”, falou Caitlin. “Sinto que no último evento eu nem tive tantas oportunidades de surfar. Então, nesse aqui, pensei: tem muitas ondas lá fora, mas não estão bem definidas. Você meio que precisa ir e torcer para que tenha uma seção no final para conseguir um 5. É isso que você tenta fazer, dar o seu melhor com o que tem. Isso vai além do surfe ou das ondas, mas hoje fico feliz por ter conseguido mandar alguns laybacks. Queria ter passado de cinco. Ainda não consegui nenhuma nota acima de cinco esse ano, então isso me incomoda um pouco. Mas próxima bateria, próxima bateria”.

Carissa teve mais dificuldades e venceu a australiana Isabella Nichols por uma margem apertada (9.16 x 8.47). “Acho que nem eu nem a Bella (Isabella Nichols) gostaríamos de repetir apresentações como essa muitas vezes”, disse Carissa. “Felizmente, eu fiquei do lado certo dessa vez e avancei, mas estive muito perto de sair da água sem nem sorrir. Então, só posso agradecer por ter dado certo e por Margaret River ter estado ao meu lado hoje. Estou realmente curtindo muito esse lugar, é um dos meus favoritos no mundo inteiro. Sou uma grande fã do surfe da Caity (Simmers) e também dela como pessoa. Poder acompanhar de perto como fã nos últimos dois anos foi muito legal. Ela é campeã mundial e alguém que tem me inspirado e me feito evoluir. Me sinto muito honrada e sortuda por poder vestir a lycra ao lado dela novamente”.

Outro destaque do dia foi o confronto norte-americano entre os irmãos Colapinto. A bateria foi decidida nos minutos finais, com Crosby virando para 13.67 a 13.43, diferença de apenas 0.24.

“É uma situação muito louca, porque eu acredito que estou aqui hoje, no Tour, competindo nesse nível, por causa do Griffin”, disse Crosby. “Ele é meu irmão mais velho, meu maior ídolo, meu maior fã. Ele sempre me apoia, está sempre ao meu lado. Até em Bells, ele foi a primeira pessoa com quem falei na escada, e a gente analisou tudo junto. Entrar nessa bateria foi uma sensação estranha, porque sabíamos que um de nós iria perder, sendo que os dois queriam seguir em frente e se encontrar na final. Mas é assim que funciona. Ele me venceu em Bells, eu venci aqui, então agora está 1 a 1”.

 

Ver essa foto no Instagram

 

Um post compartilhado por World Surf League (@wsl)

Já o australiano George Pittar garantiu a vitória sobre o italiano Leonardo Fioravanti em uma bateria decidida após a sirene. Com um 7.33, ele retomou a liderança e avançou às quartas.

Western Australia Margaret River Pro 2026
Oitavas de final Masculino

1 Samuel Pupo (BRA) 14.00 x 13.80 Kanoa Igarashi (JAP)

2 Joel Vaughan (AUS) 9.33 x 6.34 Liam O’Brian (AUS)

3 Crosby Colapinto (EUA) 13.67 x 13.43 Griffin Colapinto (EUA)

4 Gabriel Medina (BRA) 11.90 x 10.63 Jack Robinson (AUS)

5 Yago Dora (BRA) 10.34 x 7.03 Connor O’Leary (JAP)

6  George Pittar (AUS) 13.53 x 12.46 Leonardo Fioravanti (ITA)

7 Italo Ferreira (BRA) 13.40 x 12.80 João Chianca (BRA)

8 Ethan Ewing (AUS) 11.40 x 10.73 Miguel Pupo (BRA)
Quartas de final

1 Samuel Pupo (BRA) x Joel Vaughan (AUS)

2 Crosby Colapinto (EUA) x Gabriel Medina (BRA)

3 Yago Dora (BRA) x  George Pittar (AUS)

4 Italo Ferreira (BRA) x Ethan Ewing (AUS)

Oitavas de final Feminino

1 Gabriela Bryan (HAV) 9.67 x 8.44 Yolanda Hopkins (POR)

2 Sawyer Lindblad (EUA) 9.60 x 7.60 Bettylou Sakura Johnson (HAV)

3 Caroline Marks (EUA) 12.27 x 10.17 Francisca Veselko (POR)

4 Lakey Peterson (EUA) 10.10 x 8.34 Erin Brooks (CAN)

5 Molly Picklum (AUS) 15.50 x 9.30 Sally Fitzgibbons (AUS)

6 Luana Silva (BRA) 10.97 x 10.07 Sophie McCulloch (AUS)

7 Caitlin Simmers (EUA) 11.40 x 7.40 Vahine Fierro (FRA)

8 Carissa Moore (HAV) 9.16 x 8.47 Isabella Nichols (AUS)

Quartas de final

1 Gabriela Bryan (HAV) x Sawyer Lindblad (EUA)

2 Caroline Marks (EUA) x Lakey Peterson (EUA)

3 Molly Picklum (AUS) x Luana Silva (BRA)

4 Caitlin Simmers (EUA) x Carissa Moore (HAV)

Ranking Masculino
1 Miguel Pupo (BRA) 10.000 pontos
2 Yago Dora (BRA) 7.800
3 Gabriel Medina (BRA) 6.085

4 Griffin Colapinto (EUA) 6.085

5 Samuel Pupo (BRA) 4.745

6 Kanoa Igarashi (JAP) 4.745

7 Barron Mamiya (HAV) 4.745

8 Leonardo Fioravanti (ITA) 4.745

9 George Pittar (AUS) 3.320

10 Filipe Toledo (BRA) 3.320
11 Italo Ferreira (BRA) 3.320

12 Jordy Smith (AFR) 3.320

13 Rio Waida (IND) 3.320

14 Marco Mignot (FRA) 3.320

15 Jake Marshall (EUA) 3.320

16 Alejo Muniz (BRA) 3.320

17 Luke Thompson (AFR) 1.000

18 Ethan Ewing (AUS) 1.000

19 Mateus Herdy (BRA) 1.000

20 Joel Vaughan (AUS) 1.000

21 Connor O’Leary (JAP) 1.000

22 Kauli Vaast (FRA) 1.000

23 Morgan Cibilic (AUS) 1.000

24 João Chianca (BRA) 1.000

25 Crosby Colapinto (EUA) 1.000

26 Eli Hanneman (HAV) 1.000

27 Seth Moniz (HAV) 1.000

28 Cole Houshmand (EUA) 1.000

29 Jack Robinson (AUS) 1.000

30 Alan Cleland (MEX) 1.000

31 Liam O’Brien (AUS) 500

32 Ramzi Boukhiam (MAR) 500

33 Callum Robson (AUS) 500

34 Oscar Berry (AUS) 500

Ranking Feminino

1 Gabriela Bryan (HAV) 10.000

2 Molly Picklum (AUS) 7.800

3 Isabella Nichols (AUS) 6.085

4 Alyssa Spencer (EUA) 6.085

5 Caitlin Simmers (EUA) 4.745

6 Luana Silva (BRA) 4.745

7 Lakey Peterson (EUA) 4.745

8 Bettylou Sakura Johnson (HAV) 4.745

9 Erin Brooks (CAN) 2.000

10 Tyler Wright (AUS) 2.000

11 Carissa Moore (HAV) 2.000

12 Caroline Marks (EUA) 2.000

13 Nadia Erostarbe (ESP) 2.000

14 Anat Lelior (ISR) 2.000

15 Sally Fitzgibbons (AUS) 2.000

16 Francisca Veselko (POR) 2.000

17 Vahine Fierro (FRA) 1.000

18 Tya Zebrowski (FRA) 1.000

19 Bella Kenworthy (EUA) 1.000

20 Yolanda Hopkins (POR) 1.000

21 Brisa Hennessy (CRI) 1.000

22 Sawyer Lindblad (EUA) 1.000

23 Stephanie Gilmore (AUS) 1.000

Enquanto alguns fotógrafos documentam a história, Fedoca Lima fez diferente: viveu dentro dela enquanto fotografava. Carioca do Posto 5, começou a surfar com 11 anos e a fotografar quase ao mesmo tempo, com uma máquina fotográfica alemã do pai. Aos 14, registrou a Rainha Elizabeth passando de Rolls-Royce aberto pela orla de Copacabana, em frente à casa do Assis Chateaubriand. No mesmo período, fotografou o Mick Jagger dando o dedo do meio no Copacabana Palace. Não era fotógrafo profissional. Era um moleque com olho bom e câmera na mão, sem perceber ainda o tamanho do que estava construindo. O que veio depois é história do surfe brasileiro. O Píer de Ipanema nos anos 70, quando o Rio era o centro do surfe nacional, com Daniel Friedmann, Pepê Lopes, Rico de Souza e Ricardo Bocão dominando o circuito. A Brasil Surf, primeira revista especializada do país, na qual Fedoca jogou em todas as posições: fotógrafo, redator e capa. O Havaí entre 1978 e 1981, surfando e fotografando ao lado de Gerry Lopez, Shaun Tomson e Michael Ho em Pipeline e Waimea. Os shows históricos, de Bob Marley ao ar livre no Havaí até Rolling Stones e Paul McCartney no Maracanã. “A foto que eu não tirei, essa me persegue.” Fedoca Lima Mais de cinquenta anos depois, esse arquivo vira livro. “Surf, Clicks e Rock’n Roll” tem 220 páginas, cerca de 180 fotografias e percorre a transformação do surfe brasileiro desde a era analógica até o digital, passando por Arpoador, Saquarema, Havaí, Califórnia e Macumba. Com captação aprovada de R$ 203 mil via incentivo cultural e apio da Fu Wax, o lançamento está previsto para o segundo semestre de 2026. Conversamos com Fedoca sobre tudo isso. Antes de se consolidar como fotógrafo, você também virou personagem da própria história do surfe brasileiro ao sair na capa da Brasil Surf em 1975. Como foi viver aquele momento por dentro? Saí na capa da Brasil Surf. Na época eu trabalhei na revista de março de 75 até janeiro de 79, só não peguei o primeiro número. Jogava todas as posições: saí na capa, escrevia, tirava foto, ajudava na redação, dava palpite, fazia matéria. Por muito tempo achei que era o único fotógrafo de surfe que tinha saído numa capa. Depois o Bruno Alves me falou que o irmão dele, o Alberto, saiu na capa da Fluir número 1. A história dele bate um pouco com a minha: ele pegava onda, saiu na capa, era fotógrafo. Mas durante anos eu achei que era caso único. Até hoje tem um restaurante aqui que o cara pediu, eu tirei uma foto com a revista na mão, ele botou na parede, eu assinei. A influência continua. A Brasil Surf ajudou a mudar a imagem do surfista no Brasil. Como era ser surfista naquela época, antes dessa mudança de percepção acontecer? O surfe saía no caderno B do Jornal do Brasil, do Globo. Não saía no esporte. E o surfista era tido como vagabundo de praia. Isso, aliás, até hoje tem um pouco, mas na época tinha muito mais. A Brasil Surf não vou dizer que limpou essa imagem completamente, mas ajudou a transformar o surfe em esporte e também a fomentar o mercado de surfwear. Os irmãos Wady e Fuad Mansur, da loja Mansur, em Ipanema, foram dos primeiros anunciantes. Acreditaram na revista, fizeram anúncios de contracapa e página inteira, e as camisetas personalizadas vendidas pelo correio viraram um sucesso. A Brasil Surf acabou impulsionando fabricantes de pranchas, calções, parafinas e diversos outros anunciantes ligados ao surfe. Os fabricantes de prancha tinham um veículo para anunciar. Os fotógrafos ganhavam uma graninha, viajavam. Fui para a América Central, Porto Rico, Barbados, El Salvador, Fernando de Noronha, Peru, várias viagens bancadas pela Brasil Surf de uma forma ou de outra. O Nilton Barbosa foi ao Havaí duas vezes bancado pela revista. No caso dele, eles bancavam os filmes, ele vendia as fotos e a viagem se pagava. Tinha uma diferença entre mim e o Nilton nessa época: ele chegava na praia e ficava na areia fotografando, fotografando, fotografando. Eu chegava e ia para dentro da água. Se não estava o Daniel, não estava o Pepê, não estava o Cauli, não estava o Bocão, não estavam os caras top, eu entrava e surfava. Então tem foto minha na Brasil Surf publicada pelo Nilton Barbosa, pelo Rogério Ehrlich. Eu estava mais dentro da água do que fora. Eu estudava. Primeiro vestibular, depois faculdade. Boa parte dos meus amigos só queria saber de surfar. Eu dividia meu tempo. Chegava na praia, já tinha estudado de manhã, aí ficava naquele dilema: vou pegar onda ou vou fotografar? Por isso tem poucas fotos do Píer. Em três anos não tirei nem metade do que tiro hoje num dia bom na Macumba com o digital. Você viveu o Píer, a Brasil Surf, o Havaí dos anos 70, o nascimento do surfe brasileiro moderno. Em que momento percebeu que estava no meio de uma transformação cultural que iria muito além do esporte? O Píer foi o que fomentou o surfe no Rio de Janeiro. Por dez anos, foi domínio completo do Rio no cenário brasileiro. O Daniel Friedmann, em 77, foi o último carioca a vencer uma etapa do circuito internacional, ganhou no Quebra-Mar, em cima do Pepê Lopes, que tinha ganho em 76. Os dois de Ipanema, meus vizinhos de rua. E esse pessoal do Píer que dominou, o Daniel, o Pepê Lopes, o Cauli Rodrigues, e também o Otávio Pacheco, o Rico de Souza, o Ricardo Bocão. E tinha o Betão, que era o melhor surfista do Brasil na época mas não era competitivo, não corria atrás de patrocinador, acabou saindo cedo. Em 75 ele ganhou o Campeonato de Saquarema e foi saindo, saindo. O Píer influenciou a revista, influenciou os fabricantes de prancha, influenciou o modo de viver. Começaram a ter fábricas em Guaratiba, Vargem Grande, no Recreio, depois em Saquarema. As pessoas foram morar lá. O Penho foi, o Otávio comprou casa,

O que define uma boa onda? Tamanho, força, parede, qualidade da linha, formação e surfabilidade, dentre outros elementos. No oceano, todos esses fatores mudam a cada swell, a cada vento, a cada maré. Em Búzios, a proposta é diferente: construir essas variáveis de forma controlada, repetível e ajustável. A piscina do Brasil Surfe Clube Aretê Búzios opera com a tecnologia Endless Surf, do grupo canadense WhiteWater, com 48 câmaras de ar de alta precisão. O sistema permite criar configurações distintas dentro da mesma estrutura. Dentro de um universo de grandes possibilidades, as cinco primeiras ondas já foram nomeadas e reveladas, cada uma com perfil próprio, e muito mais ainda está por vir. Onda #01: Pointbreak + Junção Linha longa, seções conectadas, tempo de onda que pode ultrapassar 25 segundos. A junção encadeia diferentes partes da onda sem perder velocidade, criando uma das experiências mais difíceis de encontrar no oceano com consistência. Para quem quer mais de 10 manobras na mesma onda ou simplesmente mais tempo de linha para ler e decidir. Onda #02: Manobras + Bowl A parede fica mais íngreme. O bowl abre seções críticas para manobras verticais e aéreos. É o ambiente para quem quer empurrar os limites do que consegue fazer sobre a prancha, com repetição suficiente para transformar cada tentativa em aprendizado real. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Onda #03: Rampa + Tubo Uma onda que combina duas experiências na mesma seção. A rampa prepara o surfista para a manobra e o tubo roda na sequência. Para quem quer encaixar um aéreo e ainda sair do tubo na mesma onda, essa configuração entrega os dois elementos sem precisar escolher. Onda #04: Rampa Nível Intermediário Parede consistente, menor intensidade, mais previsível. A configuração certa para quem está desenvolvendo manobras progressivas e precisa de repetição para consolidar o que está aprendendo. A seção cria a rampa no ângulo certo, com velocidade suficiente para executar sem exigir o nível avançado. Onda #05: Rampa Nível Avançado Mais potência, mais velocidade, mais projeção. A rampa avançada é para quem já chegou em Búzios com manobras no repertório e quer testá-las com pressão real. Com capacidade para gerar até 700 ondas por hora, o intervalo entre uma tentativa e outra é curto o suficiente para transformar cada sessão em treino de alto rendimento. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Para todos os níveis As cinco configurações cobrem desde quem está aprendendo até quem treina em alto rendimento. A piscina ainda opera em dois modos: single peak, com ondas quebrando para um lado e maior extensão de linha, e split peak, com direitas e esquerdas simultâneas, permitindo que surfistas compartilhem a mesma série em direções opostas. Yago Dora, campeão mundial de surfe em 2025, Victor Bernardo, um dos maiores freesurfers da atualidade, e Michelle des Bouillons, referência mundial em ondas gigantes, integram o time do BSC e já testaram a tecnologia na piscina Adrena Red Sea, na Arábia Saudita. “Muito animal esse lance de ter essa variedade de onda também. Um leque de ondas absurdo. Mal posso esperar para Búzios”, disse Victor Bernardo após a sessão. A versão de Búzios será maior: 48 câmaras contra 36 da estrutura do Mar Vermelho, com 13 mil metros quadrados de lâmina d’água. Variedade de ondas para testar, arriscar, aprender e evoluir todos os dias. Com inauguração prevista para o segundo semestre de 2026, é o que o Brasil Surfe Clube Aretê Búzios chega para entregar.

Pedro Bettencourt Müller nasceu no Rio de Janeiro, no dia 21 de julho de 1966, num ambiente familiar que respirava praia. Seu pai, Guilherme Xavier de Brito Müller, economista e morador do Leblon, cresceu frequentando a Zona Sul. Sua mãe, Maria Isabel Bettencourt Müller, criada em Santa Teresa, compartilhava da mesma paixão pelas praias. Para o casal, fim de semana e férias tinham destino certo: areia, sol e mar. Foi assim que Pedro e o irmão, Guilherme, passaram a infância seguindo os pais para o meio da Barra ou para São Conrado, ainda de estradas de terra, sem prédios, calçadões ou qualquer urbanização. Nesse cenário quase intocado, Pedro foi se encantando pelas ondas. Lembra-se de observar alguns surfistas solitários no meio da Barra e sentir-se hipnotizado pela habilidade deles. O mar, desde cedo, era o lugar onde queria estar. Ele recorda também a rotina da infância: ia para as aulas de natação no Clube de Regatas Flamengo e, depois, caminhava até o judô, no Leblon, um trajeto longo para uma criança de 12 anos. Antes de entrar no tatame, sentava-se no calçadão para olhar o mar quebrando, entregue à mesma fascinação que o acompanharia por toda a vida. O mar lhe transmitia paz, calma e propósito. Ali, ainda menino, já entendia que queria se tornar surfista. A mudança para São Conrado, por volta dos 14 ou 15 anos, foi decisiva. Morando ao lado do Pepino, Müller muitas vezes cabulava a aula pra ir surfar. As ondas triangulares, rápidas e pesadas da região se transformaram no seu campo de treinamento permanente. Ali, guiado pela referência de Rony Lima e pela evolução proporcionada pelas pranchas dos shapers Rico e Pedro Battaglin, deu um salto técnico marcante. A “biquilha mágica” 5’4″ de Battaglin é lembrada até hoje como uma das grandes viradas em seu surfe, época em que adotou o apelido de “o Águia”, pela tatuagem no braço. Uma nova mudança, motivada pelo desemprego do pai, levou a família para a Barra. Para Müller, foi a oportunidade perfeita: entre o Postinho, o meio da Barra e o Quebra-Mar, encontrou três ondas consistentes e acessíveis a pé, permitindo treinos diários que aceleraram ainda mais sua evolução. Nessa fase, destacou-se nos campeonatos da ASBT – Associação de Surf da Barra da Tijuca – e entrou para a promissora equipe da Cristal Graffiti. Antes disso, havia vencido seu primeiro campeonato no Leblon, organizado por Marcelo Peninha, vitória que marcou sua confiança rumo ao profissionalismo. Os resultados na categoria Júnior renderam um prêmio decisivo: uma passagem para o Havaí. Aos 18 anos, Müller viveu sua primeira temporada no North Shore (1984/85), dividindo casa com surfistas brasileiros experientes. Pipeline, logo no primeiro dia, foi seu batismo de fogo: mar pesado, adrenalina no limite e a certeza de que o treino no Pepino o havia preparado para aquele cenário. De volta ao Brasil, enfrentou dificuldades para manter regularidade como profissional. A grande virada veio com o curso de meditação transcendental feito ao lado de Rodolfo Lima. O impacto competitivo foi imediato: venceu a etapa profissional do Quebra-Mar no circuito carioca, em 1986, e passou a frequentar pódios de forma consistente. A regularidade, marca registrada de sua carreira, nasceu ali. Em 1987, tornou-se vice-campeão do primeiro Circuito Brasileiro de Surf Profissional. Liderou boa parte da temporada, foi vice-campeão na etapa da Lightning Bolt e, depois, campeão no Fico Festival. Só perdeu o título na penúltima bateria do Circuito, por apenas 20 pontos, uma diferença mínima para quem tinha 850 pontos de vantagem sobre o terceiro colocado. Na época, era visto como o surfista mais consciente e estratégico do país. Nos anos seguintes, acumulou resultados expressivos: vitórias importantes na Abrasp e uma vitória significativa no QS de Florianópolis, superando Barton Lynch, Jojó e Julio Adler. Em 1995, viria um dos grandes destaques internacionais de sua carreira: o nono lugar em Pipeline, substituindo de última hora o australiano Damien Hardman. Ondas entre 10 e 15 pés confirmaram sua capacidade técnica em um dos palcos mais desafiadores do mundo. Pedro Müller seguiria competindo por mais de duas décadas. Em Ubatuba, já aos 38 anos, conquistou sua última vitória no Circuito Super Surf 2004, num dos triunfos mais marcantes de sua trajetória. Hoje, vive do surfe como treinador, comentarista da Sportv e um dos proprietários da @escola_pedromuller, na Barra da Tijuca, administrada pelo sócio Adelmo Noite. Acompanhe ns publicações nas redes sociais @museudosurfesantos. Coordenador de pesquisas históricas do surfe @diniziozzi, o Pardhal.

Como uma prancha largamente usada por surfistas fora do circuito mundial profissional pode ganhar atenção? Coloque a dita cuja nos pés de um bicampeão mundial. Quer um destaque ainda maior? Filipe Toledo vence o tricampeão Gabriel Medina. Pronto. Vamos por partes. Na etapa do Championship Tour, na Nova Zelândia (Maio 2023), Filipe acabou não vencendo a disputa da quarta de final contra Griffin Colapinto, mesmo obtendo a melhor nota da bateria. Faltou uma onda. Mas o assunto aqui é outro, ou quase. Em um universo dominado por triquilhas, desde 1981, a diversidade de pranchas, no século 21, começou a ganhar espaço fora das competições. No meio de antigas novidades, biquilhas com trailer fin (estabilizador central) se mostraram mais controláveis e amistosas, levando muita gente a adotá-las no quiver. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Filipe Toledo (@filipetoledo) O modelo de biquilha com estabilizador central já havia sido testado mas ganhou vida nova em 2003, com as Super Twins do shaper, tetracampeão mundial (79, 80, 81 e 82), Mark Richards. Ele trouxe de volta suas Twin Fins do início dos anos 80, adicionando uma “quilhinha” central. Daí, de repente, Filipe Toledo coloca no jogo do circuito mundial o modelo Modern 2, da Sharp Eye Surfboards. Vence Gabriel Medina nas esquerdas de Raglan e deixa muito mais gente antenada sobre as possibilidades de uma twin com trailer fin. Filipe não foi o primeiro a fazer algo que eu esperava há tempos. Kelly Slater inovou, diminuindo o tamanho das pranchas e competindo, em algumas situações, com o que eram mais bi do que triquilhas, na primeira década do século 21. Dane Reynolds também fez isso, mas vamos combinar que esses dois não são parâmetros de surf normal. Deivid Silva também ousou. Abiquilhou-se numa etapa. Mandou bem, mas não chamou tanta atenção. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Sharp Eye Surfboards (@sharpeyesurfboards_au) Quando se trata de altíssima performance pesa sempre o fato dos atletas da elite não terem muito tempo para experiências fora da casinha das triquilhas. Mas, pela primeira vez, Filipe, além de seu ano sabático, em 2024, teve, como todos os Tops, os mesmos raros sete meses de folga antes da temporada 2026. Isso parece ter criado espaço para lidar com pranchas diferentes, memória física e jogo mental para se arriscar com um equipamento não muito convencional na Nova Zelândia. Sim, pranchas realmente diferentes pedem ajustes na maneira de usá-las e isso requer tempo e, claro, talento. Duas coisas chamaram a minha atenção. Impressionante como podemos e devemos comparar os melhores do surf competitivo profissional com pilotos da Fórmula 1. É com eles que a indústria das pranchas evolui mais e melhor. Detalhes sutis, milimétricos, que essa turma sente no funcionamento de uma prancha podem ser incorporados aos modelos que a maioria dos surfistas não conseguiria detectar ou explicar. Eles dão o caminho do que será usado pelos consumidores “normais”. Shapers são mais teoria, estudo. Tops são prática. As mudanças surgem daí. Segunda, e mais curiosa. Um esporte que durante tanto tempo teve uma aura de vanguarda e ousadia leva muito tempo para propor ou acertar mudanças mais drásticas, seja na construção ou desenvolvimento de design. Não creio que seja culpa dos fabricantes, já que essa indústria nunca gerou dinheiro suficiente para que se desenvolvesse como deveria. Ainda por cima a competição tem um formato onde há pouco espaço para o diferente quanto à performance. Mas isso é conversa para outro texto. Por agora fica a dica. Mesmo ideias estranhas à normalidade podem resultar em bons resultados. Teste tudo que é prancha que você puder. Não tenha medo, você não depende de notas dos juízes para ser feliz.