Surf Brasil Master 2026

Segunda etapa termina quinta

Chuva com ventos fortes voltam a paralisar competição na tarde desta quarta-feira (22) depois de 27 baterias disputadas na Praia dos Náufragos em Aracaju.
Surf Brasil Master 2026, Praia dos Náufragos, Aracaju (SE)

O Surf Brasil Master fecha nesta quinta-feira (23), a segunda das três etapas que decidem os primeiros títulos brasileiros da temporada em Aracaju. A chuva intensa com ventos fortes, voltou a paralisar a competição na tarde da quarta-feira (22) na Praia dos Náufragos, como na terça-feira (21) pela manhã. Para recuperar o tempo, a duração das baterias foi reduzida de 20 para 15 minutos e foi possível realizar 27 até as 15h30, quando desabou outro temporal na capital de Sergipe. A quinta-feira vai começar com a continuação das oitavas de final da categoria 40+, ao vivo pelo Canal Woohoo e pelo Surf Brasil TV no YouTube, que pode ser acessado no site SurfBrasil.org.br.

Essa mesma divisão principal do Surf Brasil Master, dos surfistas com 40 anos ou mais de idade, foi interrompida na terça-feira, com as três últimas baterias da primeira fase ficando para abrir a quarta-feira em Aracaju. O dia amanheceu com boas condições, vento terral e ondas bem formadas na Praia dos Náufragos. Após as três baterias da rodada inicial da categoria 40+, foram realizadas as 16 da primeira fase da 50+, as seis da 60+ e as duas primeiras das oitavas de final da 40+. Todas as 27 baterias rolaram com apenas 15 minutos de duração, como nos tempos dos antigos circuitos brasileiros amadores.

“Estou feliz de ter avançado mais uma bateria. Não foi do jeito que eu planejei, mas o importante era passar”, disse Victor Ribas, após vencer a oitava bateria da 50+. “Choveu muito ontem, aí hoje tava esse vento terral, ficou bonito o mar, a onda lisinha, certinha, só que o vento virou pra ladal e aí mudou tudo, o mar ficou bem ruim. Mas, o importante é estar vivo na competição, porque hoje não foi fácil não se virar nos 15 (minutos). Estava até me sentindo naquela fase de campeonatos amadores. Foi uma volta no tempo, mas seguimos vivos na competição e é isso que importa”.

Victor Ribas é uma das estrelas do Surf Brasil Master que já representaram o país na elite do surf mundial. Ele foi o número 3 do mundo no CT em 1999, melhor posição de um brasileiro antes do primeiro título mundial do Gabriel Medina em 2014. Vitinho já venceu duas etapas da categoria Master em Sergipe, em 2023 em Itaporanga D´Ajuda e no ano passado em Estância. Ele chegou perto do tricampeonato, mas ficou em segundo lugar na vitória do atual campeão brasileiro 50+, Fabio Gouveia, na primeira etapa encerrada na segunda-feira em Aracaju.

Jeronimo Bomfim carimbando a faixa do campeão Fabio Gouveia – O paraibano é um dos grandes ídolos do passado, que pavimentaram o caminho para o Brasil ser hoje a maior potência do surf mundial. Fabinho conquistou seu segundo título de campeão brasileiro Master no ano passado, vencendo as duas últimas etapas realizadas em Santa Catarina, em Itapoá e Navegantes. Ele manteve a invencibilidade na primeira etapa do Surf Brasil Master em Sergipe, mas na quarta-feira teve sua faixa carimbada pelo baiano Jeronimo Bomfim. Mesmo assim, Fabio Gouveia avançou para as oitavas de final em segundo lugar na bateria, eliminando o pernambucano Ayrton Almeida.

“Lá dentro do mar, está muito difícil de achar as ondas. É aquela correria, rema pra cá, rema pra lá, aí peguei uma legal no meio da bateria que fortaleceu minha pontuação”, contou Jeronimo Bomfim, que já venceu uma etapa Master em Sergipe, em 2024 em Itaporanga D´Ajuda, mas tinha perdido para o mesmo Fabio Gouveia em sua estreia na primeira etapa em Aracaju. “No finalzinho da bateria, uma onda subiu pra mim, remei com toda força, aí consegui entrar nela pra fazer meu surfe. Eu forcei o máximo que eu pude e dessa vez consegui virar pro primeiro lugar, graças a Deus”.

Vitórias sergipanas com duas dobradinhas na categoria 50+ – Outro destaque nas baterias de 15 minutos da primeira fase 50+, foi o sergipano Romeu Cruz. Ele foi até as semifinais da primeira etapa do Surf Brasil Master na segunda-feira e está na briga direta pelo título brasileiro, que seria inédito para o estado de Sergipe. Romeu venceu a 13ª das 16 baterias com o maior placar da categoria 50+ até ali, 10,50 pontos, com um dos atletas que ele treina, Gildeon Reis, garantindo uma dobradinha sergipana sobre o baiano Dalmo Meireles.

“É um prazer imenso estar competindo novamente no Surf Brasil Master e, pra mim, é uma honra estar com os melhores surfistas do Brasil que fizeram história no mundo também”, destacou Romeu Cruz. “O mar está um pouco difícil, mas fico feliz em ter passado junto com o Gil Reis, que é meu atleta. Na bateria que eu perdi ontem, fiquei esperando muito pelas ondas boas, mas elas não vieram e isso serviu como lição. Hoje comecei a surfar mais embaixo do pico, a pegar mais ondas e foi uma tática certa. Peguei uma prancha quadriquilha que encaixou bem com esse tipo de onda e deu tudo certo, então estou superfeliz”.

Tady começa a defender a liderança do ranking 60+ com vitória – Outra dobradinha sergipana vencedora na primeira fase 50+, já havia acontecido na quinta bateria, com Edson Papagaio e Marcelo Resende eliminando outro baiano, Esdras Santos. E na categoria 60+, o único representante de Sergipe também estreou com vitória na segunda etapa do Surf Brasil Master na quarta-feira. Tady ganhou a primeira etapa e começou a defender a liderança do ranking derrotando o baiano Paulo Falcon e o único surfista do Rio Grande do Sul no evento, Angelo Gulea. Tady agora vai enfrentar dois catarinenses nas quartas de final, Rubens Farias e Saulo Lyra.

“A primeira bateria do evento, é sempre a mais complicada, porque a gente ainda não está sintonizado no tempo, no pico. Mas depois que o sangue esquenta, tudo funciona dentro da normalidade”, analisou Tady, que também tenta conquistar o primeiro título brasileiro de surfe para o estado de Sergipe. “Fico feliz que já tem uma galera aqui na praia, mesmo em um dia de trampo normal, com colégio. Daqui a pouco chega minha filhona, meu filho que é meu coach já está aqui, então vamos aproveitar bastante e desfrutar das coisas boas que a vida nos proporciona”.

Campeão mundial master vence a última bateria da quarta-feira – Após completar as primeiras fases das categorias 40+, 50+ e 60+, foi iniciada as oitavas de final da 40+, quando os temporais começaram a interromper a competição. A primeira bateria teve que ser interrompida e só depois de mais de meia hora, os atletas retornaram ao mar. A paralisação não mudou as primeiras classificações para as quartas de final, que ficaram com o cearense Felipe Martins e o potiguar Rodrigo Jorge. A segunda bateria acabou sendo a última do dia e o atual campeão mundial Master, Diego Rosa, conseguiu sua primeira vitória, com o cearense Itim Silva avançando junto com o catarinense.

“Eu acabei não indo bem na primeira etapa, mas não fiquei me culpando e tirei isso como um vídeo-game, que tivesse três vidas e perdi a minha primeira”, simplificou Diego Rosa. “Eu continuo vivo na competição e acho que a gente tem que manter a positividade. Eu venho treinando até mais agora, do que em 2024, quando fui campeão brasileiro e campeão mundial. Tenho certeza de que com 44 anos, estou na melhor fase física da minha vida e acredito que os resultados devem aparecer, conforme as oportunidades irem pintando. A primeira etapa já é passado, agora é o presente e já pensando no futuro”.

Surf Brasil promove curso de juízes de surfe na capital de Sergipe – Aproveitando a realização da decisão dos títulos brasileiros da categoria Master na capital de Sergipe, a Surf Brasil está promovendo pela segunda vez no estado, um curso de juízes de surfe ministrado pelo superexperiente e conhecido mundialmente, Jordão Bailo Junior. O objetivo é descobrir, preparar e capacitar novos integrantes para o quadro de árbitros de surfe no país e esse em Aracaju, especialmente para quem mora na Região Nordeste.

A Surf Brasil já realizou um curso de juízes com o mesmo catarinense Jordão Bailo em Sergipe em 2022, igualmente com suas despesas de viagem, hospedagem e alimentação, bem como da organização do evento, custeadas pela entidade máxima do surfe brasileiro. O curso é totalmente gratuito para até 30 pessoas e será realizado nesta quarta-feira e quinta-feira, das 20h00 às 22h00 na Sala Pirambu do Arcus Hotel by Atlantica em Aracaju.

O Surf Brasil Master 2026 é mais uma realização de Surf Brasil e conta com patrocínio da Prefeitura de Aracaju pela Secretaria Municipal da Juventude e do Esporte (SEJESP) e do Governo do Estado de Sergipe através da Secretaria do Esporte e Lazer. O evento tem a Federação Sergipana de Surf (FSS) como parceira na organização e co-patrocínios e apoios de JISK, Arcus Hotel by Atlantica, Rei Beach Lounge Bar, Surfland Garopaba, Só Coco, Suntech e Brazilian Tiger Balm. A competição está sendo transmitida ao vivo pelo Canal Woohoo e pelo Surf Brasil TV no YouTube que pode ser acessado no site SurfBrasil.org.br.

Baterias do Surf Brasil Master em Sergipe
(entre parênteses o estado que representa nas competições)

Baterias que vão abrir a quinta-feira em Aracaju
40+ Oitavas de final
3º=17º lugar (400 pts) e 4º=25º lugar (360 pts)

As 2 primeiras fecharam a quarta-feira

3 Thiago de Sousa (CE), Saulo Carvalho (PB), André Zanini (SC), Fellipe Ximenes (SC)

4 Flavio Costa (RJ), Isaias Silva (CE), Rogerio Galvão (PE), Duda Carneiro (CE)

5 Edvan Silva (CE), Angelino Santos (RJ), Gildeon Reis (SE), Fred Vilela (AL)

6 Alan Donato (PE), Claudio Freitas (RJ), Edson Costa (PE), Jeova Rodrigues (CE)

7 Marcio Farney (CE), José Junior (RN), Bruno Padilha (PB), Marcio Leal (SC)

8 Paulo Germano (PB), Klinger Peixoto (AL), Wilson Nora (BA), Jayme Pereira (SP)

50+ Oitavas de final
3º=17º lugar (400 pts) e 4º=25º lugar (360 pts)

1 Gilberto Araujo (AL), Mauricio Weyll (BA), Leonel Brizola (RJ), Cardoso Junior (CE)

2 Rodrigo Jorge (RN), Ivan Medeiros (RN), Paulo Germano (PB), Silverio Jorge Silver (SC)

3 Edson Papagaio (SE), Fernando Conceição (PE), Ademar Neto (BA), Edson Vieira (SP)

4 Victor Ribas (RJ), Marcelo Alves (BA), Sergio Noronha (RJ), Marcelo Resende (SE)

5 Luciano Alemão (SC), Jeronimo Bomfim (BA), Wagner Augusto (RN), Saulo Carvalho (PB)

6 Fabio Gouveia (PB), Rogerio Dantas (CE), Flavio Sukita (CE), Alessandro Macedo (RN)

7 Romeu Cruz (SE), Roni Ronaldo (SC), Crhistiano Spirro (BA), Fred Vilela (AL)

8 João Maria (RN), Igor Mathey (SP), Armando Maciel (SC), Gildeon Reis (SE)

60+ Quartas de final
3º=9º lugar com 500 pontos

1 Edson Vieira (SP), Cardoso Junior (CE), Davi Filho (SC)

2 Carlos Pereira (AL), Walter Paes (RJ), Francisco Moura (RN)

3 Tady (SE), Rubens Farias (SC), Saulo Lyra (SC)

4 William Diegues (SP), Claudio Marroquim (PE), Paulo Falcon (BA)

Resultados da quarta-feira na Praia dos Náufragos
40+ Primeira fase
3º=33º lugar (320 pts) e 4º=49º lugar (240 pts)

As 13 primeiras baterias aconteceram na terça-feira

14 1-Klinger Peixoto (AL), 2-Marcio Leal (SC), 3-Rogerio Dantas (CE), 4-Igor Mathey (SP)

15 1-Bruno Padilha (PB), 2-Paulo Germano (PB), 3-Victor Araujo (CE), 4-Jonatas Rangel (RJ)

16 1-Jayme Pereira (SP), 2-Marcio Farney (SC), 3-Claudemir Bibi Lima (RJ), 4-Alexandre Henrique (PB)

50+ Primeira fase
3º=33º lugar (320 pts) e 4º=49º lugar (240 pts)

1 1-Gilberto Araujo (AL), 2-Silverio Jorge Silver (SC), 3-Daniel Leça (RJ)

2 1-Paulo Germano (PB), 2-Mauricio Weyll (BA), 3-Rafael Guimarães (SC), 4-Chico Lavigne (BA)

3 1-Leonel Brizola (RJ), 2-Ivan Medeiros (RN), 3-Alexandre Henrique (PB), w.o-Inaldo Segundo (BA)

4 1-Rodrigo Jorge (RN), 2-Cardoso Junior (CE), 3-Jonatas Rangel (RJ)

5 1-Edson Papagaio (SE), 2-Marcelo Resende (SE), 3-Esdras Santos (BA), w.o-Duda Tedesco (RJ)

6 1-Marcelo Alves (BA), 2-Edson Vieira (SP), 3-Michell Silva (PE)

7 1-Fernando Conceição (PE), 2-Sergio Noronha (RJ), 3-Jofrey Seibel (SC), 4-Tadeu Cunha (AL)

8 1-Victor Ribas (RJ), 2-Ademar Neto (BA), 3-Augusto Melo (SE)

9 1-Jeronimo Bomfim (BA), 2-Fabio Gouveia (PB), 3-Ayrton Almeida (PE)

10 1-Alessandro Macedo (RN), 2-Saulo Carvalho (PB), 3-Carlos Malheiros (PE), 4-Bruno Grilo (RN)

11 1-Luciano Alemão (SC), 2-Rogerio Dantas (CE), 3-Robson Vinhas (BA)

12 1-Flavio Sukita (CE), 2-Wagner Augusto (RN), 3-Alvaro Bacana (MA)

13 1-Romeu Cruz (SE), 2-Gildeon Reis (SE), 3-Dalmo Meireles (BA)

14 1-Armando Maciel (SC), 2-Roni Ronaldo (SC), 3-Alexandre Felicio (SP), 4-Sandro Rohden (SC)

15 1-Crhistiano Spirro (BA), 2-Igor Mathey (SP), 3-Davy Cristian (SE), 4-Helvecio Santos (SE)

16 1-João Maria (RN), 2-Fred Vilela (AL), 3-Alan Toledo (RJ)

60+ Primeira fase
3º=13º lugar (450 pts) e 4º=19º lugar (390 pts)

1 1-Cardoso Junior (CE), 2-Walter Paes (RJ), 3-Wlamir Reis (SP), 4-Pedro Sobrinho (RN)

2 1-Carlos Pereira (AL), 2-Davi Filho (SC), 3-Gama (SC), 4-Jaime Farinha (PE)

3 1-Edson Vieira (SP), 2-Francisco Moura (RN), 3-Jorge Bittencourt (BA)

4 1-Tady (SE), 2-Paulo Falcon (BA), 3-Angelo Gulea (RS)

5 1-Claudio Marroquim (PE), 2-Saulo Lyra (SC), 3-Marco Leleu (RN), 4-Zenato (RJ)

6 1-Rubens Farias (SC), 2-William Diegues (SP), 3-Roberto Campos (BA), 4-Jaguaracy Gloria (BA)

40+ Oitavas de final
3º=17º lugar (400 pts) e 4º=25º lugar (360 pts)

1 1-Felipe Martins (CE), 2-Rodrigo Jorge (RN), 3-Adriano Lemos (SC), 4-Akio Saito (SP)

2 1-Diego Rosa (SC), 2-Itim Silva (CE), 3-Manoel de Assis (PE), 4-Cristiano Rosario (SP)

Enquanto alguns fotógrafos documentam a história, Fedoca Lima fez diferente: viveu dentro dela enquanto fotografava. Carioca do Posto 5, começou a surfar com 11 anos e a fotografar quase ao mesmo tempo, com uma máquina fotográfica alemã do pai. Aos 14, registrou a Rainha Elizabeth passando de Rolls-Royce aberto pela orla de Copacabana, em frente à casa do Assis Chateaubriand. No mesmo período, fotografou o Mick Jagger dando o dedo do meio no Copacabana Palace. Não era fotógrafo profissional. Era um moleque com olho bom e câmera na mão, sem perceber ainda o tamanho do que estava construindo. O que veio depois é história do surfe brasileiro. O Píer de Ipanema nos anos 70, quando o Rio era o centro do surfe nacional, com Daniel Friedmann, Pepê Lopes, Rico de Souza e Ricardo Bocão dominando o circuito. A Brasil Surf, primeira revista especializada do país, na qual Fedoca jogou em todas as posições: fotógrafo, redator e capa. O Havaí entre 1978 e 1981, surfando e fotografando ao lado de Gerry Lopez, Shaun Tomson e Michael Ho em Pipeline e Waimea. Os shows históricos, de Bob Marley ao ar livre no Havaí até Rolling Stones e Paul McCartney no Maracanã. “A foto que eu não tirei, essa me persegue.” Fedoca Lima Mais de cinquenta anos depois, esse arquivo vira livro. “Surf, Clicks e Rock’n Roll” tem 220 páginas, cerca de 180 fotografias e percorre a transformação do surfe brasileiro desde a era analógica até o digital, passando por Arpoador, Saquarema, Havaí, Califórnia e Macumba. Com captação aprovada de R$ 203 mil via incentivo cultural e apio da Fu Wax, o lançamento está previsto para o segundo semestre de 2026. Conversamos com Fedoca sobre tudo isso. Antes de se consolidar como fotógrafo, você também virou personagem da própria história do surfe brasileiro ao sair na capa da Brasil Surf em 1975. Como foi viver aquele momento por dentro? Saí na capa da Brasil Surf. Na época eu trabalhei na revista de março de 75 até janeiro de 79, só não peguei o primeiro número. Jogava todas as posições: saí na capa, escrevia, tirava foto, ajudava na redação, dava palpite, fazia matéria. Por muito tempo achei que era o único fotógrafo de surfe que tinha saído numa capa. Depois o Bruno Alves me falou que o irmão dele, o Alberto, saiu na capa da Fluir número 1. A história dele bate um pouco com a minha: ele pegava onda, saiu na capa, era fotógrafo. Mas durante anos eu achei que era caso único. Até hoje tem um restaurante aqui que o cara pediu, eu tirei uma foto com a revista na mão, ele botou na parede, eu assinei. A influência continua. A Brasil Surf ajudou a mudar a imagem do surfista no Brasil. Como era ser surfista naquela época, antes dessa mudança de percepção acontecer? O surfe saía no caderno B do Jornal do Brasil, do Globo. Não saía no esporte. E o surfista era tido como vagabundo de praia. Isso, aliás, até hoje tem um pouco, mas na época tinha muito mais. A Brasil Surf não vou dizer que limpou essa imagem completamente, mas ajudou a transformar o surfe em esporte e também a fomentar o mercado de surfwear. Os irmãos Wady e Fuad Mansur, da loja Mansur, em Ipanema, foram dos primeiros anunciantes. Acreditaram na revista, fizeram anúncios de contracapa e página inteira, e as camisetas personalizadas vendidas pelo correio viraram um sucesso. A Brasil Surf acabou impulsionando fabricantes de pranchas, calções, parafinas e diversos outros anunciantes ligados ao surfe. Os fabricantes de prancha tinham um veículo para anunciar. Os fotógrafos ganhavam uma graninha, viajavam. Fui para a América Central, Porto Rico, Barbados, El Salvador, Fernando de Noronha, Peru, várias viagens bancadas pela Brasil Surf de uma forma ou de outra. O Nilton Barbosa foi ao Havaí duas vezes bancado pela revista. No caso dele, eles bancavam os filmes, ele vendia as fotos e a viagem se pagava. Tinha uma diferença entre mim e o Nilton nessa época: ele chegava na praia e ficava na areia fotografando, fotografando, fotografando. Eu chegava e ia para dentro da água. Se não estava o Daniel, não estava o Pepê, não estava o Cauli, não estava o Bocão, não estavam os caras top, eu entrava e surfava. Então tem foto minha na Brasil Surf publicada pelo Nilton Barbosa, pelo Rogério Ehrlich. Eu estava mais dentro da água do que fora. Eu estudava. Primeiro vestibular, depois faculdade. Boa parte dos meus amigos só queria saber de surfar. Eu dividia meu tempo. Chegava na praia, já tinha estudado de manhã, aí ficava naquele dilema: vou pegar onda ou vou fotografar? Por isso tem poucas fotos do Píer. Em três anos não tirei nem metade do que tiro hoje num dia bom na Macumba com o digital. Você viveu o Píer, a Brasil Surf, o Havaí dos anos 70, o nascimento do surfe brasileiro moderno. Em que momento percebeu que estava no meio de uma transformação cultural que iria muito além do esporte? O Píer foi o que fomentou o surfe no Rio de Janeiro. Por dez anos, foi domínio completo do Rio no cenário brasileiro. O Daniel Friedmann, em 77, foi o último carioca a vencer uma etapa do circuito internacional, ganhou no Quebra-Mar, em cima do Pepê Lopes, que tinha ganho em 76. Os dois de Ipanema, meus vizinhos de rua. E esse pessoal do Píer que dominou, o Daniel, o Pepê Lopes, o Cauli Rodrigues, e também o Otávio Pacheco, o Rico de Souza, o Ricardo Bocão. E tinha o Betão, que era o melhor surfista do Brasil na época mas não era competitivo, não corria atrás de patrocinador, acabou saindo cedo. Em 75 ele ganhou o Campeonato de Saquarema e foi saindo, saindo. O Píer influenciou a revista, influenciou os fabricantes de prancha, influenciou o modo de viver. Começaram a ter fábricas em Guaratiba, Vargem Grande, no Recreio, depois em Saquarema. As pessoas foram morar lá. O Penho foi, o Otávio comprou casa,

O que define uma boa onda? Tamanho, força, parede, qualidade da linha, formação e surfabilidade, dentre outros elementos. No oceano, todos esses fatores mudam a cada swell, a cada vento, a cada maré. Em Búzios, a proposta é diferente: construir essas variáveis de forma controlada, repetível e ajustável. A piscina do Brasil Surfe Clube Aretê Búzios opera com a tecnologia Endless Surf, do grupo canadense WhiteWater, com 48 câmaras de ar de alta precisão. O sistema permite criar configurações distintas dentro da mesma estrutura. Dentro de um universo de grandes possibilidades, as cinco primeiras ondas já foram nomeadas e reveladas, cada uma com perfil próprio, e muito mais ainda está por vir. Onda #01: Pointbreak + Junção Linha longa, seções conectadas, tempo de onda que pode ultrapassar 25 segundos. A junção encadeia diferentes partes da onda sem perder velocidade, criando uma das experiências mais difíceis de encontrar no oceano com consistência. Para quem quer mais de 10 manobras na mesma onda ou simplesmente mais tempo de linha para ler e decidir. Onda #02: Manobras + Bowl A parede fica mais íngreme. O bowl abre seções críticas para manobras verticais e aéreos. É o ambiente para quem quer empurrar os limites do que consegue fazer sobre a prancha, com repetição suficiente para transformar cada tentativa em aprendizado real. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Onda #03: Rampa + Tubo Uma onda que combina duas experiências na mesma seção. A rampa prepara o surfista para a manobra e o tubo roda na sequência. Para quem quer encaixar um aéreo e ainda sair do tubo na mesma onda, essa configuração entrega os dois elementos sem precisar escolher. Onda #04: Rampa Nível Intermediário Parede consistente, menor intensidade, mais previsível. A configuração certa para quem está desenvolvendo manobras progressivas e precisa de repetição para consolidar o que está aprendendo. A seção cria a rampa no ângulo certo, com velocidade suficiente para executar sem exigir o nível avançado. Onda #05: Rampa Nível Avançado Mais potência, mais velocidade, mais projeção. A rampa avançada é para quem já chegou em Búzios com manobras no repertório e quer testá-las com pressão real. Com capacidade para gerar até 700 ondas por hora, o intervalo entre uma tentativa e outra é curto o suficiente para transformar cada sessão em treino de alto rendimento. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Para todos os níveis As cinco configurações cobrem desde quem está aprendendo até quem treina em alto rendimento. A piscina ainda opera em dois modos: single peak, com ondas quebrando para um lado e maior extensão de linha, e split peak, com direitas e esquerdas simultâneas, permitindo que surfistas compartilhem a mesma série em direções opostas. Yago Dora, campeão mundial de surfe em 2025, Victor Bernardo, um dos maiores freesurfers da atualidade, e Michelle des Bouillons, referência mundial em ondas gigantes, integram o time do BSC e já testaram a tecnologia na piscina Adrena Red Sea, na Arábia Saudita. “Muito animal esse lance de ter essa variedade de onda também. Um leque de ondas absurdo. Mal posso esperar para Búzios”, disse Victor Bernardo após a sessão. A versão de Búzios será maior: 48 câmaras contra 36 da estrutura do Mar Vermelho, com 13 mil metros quadrados de lâmina d’água. Variedade de ondas para testar, arriscar, aprender e evoluir todos os dias. Com inauguração prevista para o segundo semestre de 2026, é o que o Brasil Surfe Clube Aretê Búzios chega para entregar.

Pedro Bettencourt Müller nasceu no Rio de Janeiro, no dia 21 de julho de 1966, num ambiente familiar que respirava praia. Seu pai, Guilherme Xavier de Brito Müller, economista e morador do Leblon, cresceu frequentando a Zona Sul. Sua mãe, Maria Isabel Bettencourt Müller, criada em Santa Teresa, compartilhava da mesma paixão pelas praias. Para o casal, fim de semana e férias tinham destino certo: areia, sol e mar. Foi assim que Pedro e o irmão, Guilherme, passaram a infância seguindo os pais para o meio da Barra ou para São Conrado, ainda de estradas de terra, sem prédios, calçadões ou qualquer urbanização. Nesse cenário quase intocado, Pedro foi se encantando pelas ondas. Lembra-se de observar alguns surfistas solitários no meio da Barra e sentir-se hipnotizado pela habilidade deles. O mar, desde cedo, era o lugar onde queria estar. Ele recorda também a rotina da infância: ia para as aulas de natação no Clube de Regatas Flamengo e, depois, caminhava até o judô, no Leblon, um trajeto longo para uma criança de 12 anos. Antes de entrar no tatame, sentava-se no calçadão para olhar o mar quebrando, entregue à mesma fascinação que o acompanharia por toda a vida. O mar lhe transmitia paz, calma e propósito. Ali, ainda menino, já entendia que queria se tornar surfista. A mudança para São Conrado, por volta dos 14 ou 15 anos, foi decisiva. Morando ao lado do Pepino, Müller muitas vezes cabulava a aula pra ir surfar. As ondas triangulares, rápidas e pesadas da região se transformaram no seu campo de treinamento permanente. Ali, guiado pela referência de Rony Lima e pela evolução proporcionada pelas pranchas dos shapers Rico e Pedro Battaglin, deu um salto técnico marcante. A “biquilha mágica” 5’4″ de Battaglin é lembrada até hoje como uma das grandes viradas em seu surfe, época em que adotou o apelido de “o Águia”, pela tatuagem no braço. Uma nova mudança, motivada pelo desemprego do pai, levou a família para a Barra. Para Müller, foi a oportunidade perfeita: entre o Postinho, o meio da Barra e o Quebra-Mar, encontrou três ondas consistentes e acessíveis a pé, permitindo treinos diários que aceleraram ainda mais sua evolução. Nessa fase, destacou-se nos campeonatos da ASBT – Associação de Surf da Barra da Tijuca – e entrou para a promissora equipe da Cristal Graffiti. Antes disso, havia vencido seu primeiro campeonato no Leblon, organizado por Marcelo Peninha, vitória que marcou sua confiança rumo ao profissionalismo. Os resultados na categoria Júnior renderam um prêmio decisivo: uma passagem para o Havaí. Aos 18 anos, Müller viveu sua primeira temporada no North Shore (1984/85), dividindo casa com surfistas brasileiros experientes. Pipeline, logo no primeiro dia, foi seu batismo de fogo: mar pesado, adrenalina no limite e a certeza de que o treino no Pepino o havia preparado para aquele cenário. De volta ao Brasil, enfrentou dificuldades para manter regularidade como profissional. A grande virada veio com o curso de meditação transcendental feito ao lado de Rodolfo Lima. O impacto competitivo foi imediato: venceu a etapa profissional do Quebra-Mar no circuito carioca, em 1986, e passou a frequentar pódios de forma consistente. A regularidade, marca registrada de sua carreira, nasceu ali. Em 1987, tornou-se vice-campeão do primeiro Circuito Brasileiro de Surf Profissional. Liderou boa parte da temporada, foi vice-campeão na etapa da Lightning Bolt e, depois, campeão no Fico Festival. Só perdeu o título na penúltima bateria do Circuito, por apenas 20 pontos, uma diferença mínima para quem tinha 850 pontos de vantagem sobre o terceiro colocado. Na época, era visto como o surfista mais consciente e estratégico do país. Nos anos seguintes, acumulou resultados expressivos: vitórias importantes na Abrasp e uma vitória significativa no QS de Florianópolis, superando Barton Lynch, Jojó e Julio Adler. Em 1995, viria um dos grandes destaques internacionais de sua carreira: o nono lugar em Pipeline, substituindo de última hora o australiano Damien Hardman. Ondas entre 10 e 15 pés confirmaram sua capacidade técnica em um dos palcos mais desafiadores do mundo. Pedro Müller seguiria competindo por mais de duas décadas. Em Ubatuba, já aos 38 anos, conquistou sua última vitória no Circuito Super Surf 2004, num dos triunfos mais marcantes de sua trajetória. Hoje, vive do surfe como treinador, comentarista da Sportv e um dos proprietários da @escola_pedromuller, na Barra da Tijuca, administrada pelo sócio Adelmo Noite. Acompanhe ns publicações nas redes sociais @museudosurfesantos. Coordenador de pesquisas históricas do surfe @diniziozzi, o Pardhal.

Como uma prancha largamente usada por surfistas fora do circuito mundial profissional pode ganhar atenção? Coloque a dita cuja nos pés de um bicampeão mundial. Quer um destaque ainda maior? Filipe Toledo vence o tricampeão Gabriel Medina. Pronto. Vamos por partes. Na etapa do Championship Tour, na Nova Zelândia (Maio 2023), Filipe acabou não vencendo a disputa da quarta de final contra Griffin Colapinto, mesmo obtendo a melhor nota da bateria. Faltou uma onda. Mas o assunto aqui é outro, ou quase. Em um universo dominado por triquilhas, desde 1981, a diversidade de pranchas, no século 21, começou a ganhar espaço fora das competições. No meio de antigas novidades, biquilhas com trailer fin (estabilizador central) se mostraram mais controláveis e amistosas, levando muita gente a adotá-las no quiver. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Filipe Toledo (@filipetoledo) O modelo de biquilha com estabilizador central já havia sido testado mas ganhou vida nova em 2003, com as Super Twins do shaper, tetracampeão mundial (79, 80, 81 e 82), Mark Richards. Ele trouxe de volta suas Twin Fins do início dos anos 80, adicionando uma “quilhinha” central. Daí, de repente, Filipe Toledo coloca no jogo do circuito mundial o modelo Modern 2, da Sharp Eye Surfboards. Vence Gabriel Medina nas esquerdas de Raglan e deixa muito mais gente antenada sobre as possibilidades de uma twin com trailer fin. Filipe não foi o primeiro a fazer algo que eu esperava há tempos. Kelly Slater inovou, diminuindo o tamanho das pranchas e competindo, em algumas situações, com o que eram mais bi do que triquilhas, na primeira década do século 21. Dane Reynolds também fez isso, mas vamos combinar que esses dois não são parâmetros de surf normal. Deivid Silva também ousou. Abiquilhou-se numa etapa. Mandou bem, mas não chamou tanta atenção. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Sharp Eye Surfboards (@sharpeyesurfboards_au) Quando se trata de altíssima performance pesa sempre o fato dos atletas da elite não terem muito tempo para experiências fora da casinha das triquilhas. Mas, pela primeira vez, Filipe, além de seu ano sabático, em 2024, teve, como todos os Tops, os mesmos raros sete meses de folga antes da temporada 2026. Isso parece ter criado espaço para lidar com pranchas diferentes, memória física e jogo mental para se arriscar com um equipamento não muito convencional na Nova Zelândia. Sim, pranchas realmente diferentes pedem ajustes na maneira de usá-las e isso requer tempo e, claro, talento. Duas coisas chamaram a minha atenção. Impressionante como podemos e devemos comparar os melhores do surf competitivo profissional com pilotos da Fórmula 1. É com eles que a indústria das pranchas evolui mais e melhor. Detalhes sutis, milimétricos, que essa turma sente no funcionamento de uma prancha podem ser incorporados aos modelos que a maioria dos surfistas não conseguiria detectar ou explicar. Eles dão o caminho do que será usado pelos consumidores “normais”. Shapers são mais teoria, estudo. Tops são prática. As mudanças surgem daí. Segunda, e mais curiosa. Um esporte que durante tanto tempo teve uma aura de vanguarda e ousadia leva muito tempo para propor ou acertar mudanças mais drásticas, seja na construção ou desenvolvimento de design. Não creio que seja culpa dos fabricantes, já que essa indústria nunca gerou dinheiro suficiente para que se desenvolvesse como deveria. Ainda por cima a competição tem um formato onde há pouco espaço para o diferente quanto à performance. Mas isso é conversa para outro texto. Por agora fica a dica. Mesmo ideias estranhas à normalidade podem resultar em bons resultados. Teste tudo que é prancha que você puder. Não tenha medo, você não depende de notas dos juízes para ser feliz.