Surf Brasil Master 2026

Cearenses comandam etapa

Felipe Martins, Flavio Sukita e Cardoso Junior festejam vitórias na segunda das três etapas que decidem os primeiros títulos brasileiros de 2026 na Praia dos Náufragos, em Aracaju, Sergipe.
Surf Brasil Master 2026, Praia dos Náufragos, Aracaju (SE)

A segunda etapa do Surf Brasil Master 2026 terminou com os cearenses ganhando tudo na quinta-feira em Aracaju, capital de Sergipe. Felipe Martins acabou com invencibilidade do também cearense Edvan Silva em baterias na categoria 40+, Flavio Sukita foi o campeão na 50+ e Cardoso Junior também bateu o líder do ranking da 60+, o sergipano Tady, na última decisão do melhor dia de ondas na Praia dos Náufragos. A terceira e última batalha pelos primeiros títulos brasileiros da temporada 2026, já começa nessa sexta-feira com transmissão ao vivo pelo Canal Woohoo e pelo Surf Brasil TV no YouTube, que pode ser acessado no site SurfBrasil.org.br.

“Estou amarradão. Deus é bom demais com a gente, Ele vê nosso esforço e o quanto eu lutei para estar aqui”, disse Felipe Martins. “Eu nem ia vir pra cá, estava lá em Fernando de Noronha pegando altos tubos, mas a galera me ajudou, minha namorada deu uma grana também e só quero agradecer a todos que torcem por mim. Eu nem sabia como tava a situação na bateria, aí consegui achar aquela última onda, o Edvan Silva tinha feito um 7 (nota) e ficou aquela tensão. Mas, quando a galera disse que eu precisava de 5.70, aí já sabia que a onda que tinha feito era no mínimo um 6.0 e consegui a virada. Deus é muito maravilhoso na minha vida e é só isso que tenho a dizer”.

Edvan Silva venceu a primeira etapa do Surf Brasil Master e tinha assumido a ponta há 2 minutos do fim da bateria, com uma nota 7.23. Mas, Felipe Martins ainda conseguiu pegar uma onda para somar 6.73 na vitória por 13.23 pontos, que valeu o prêmio máximo de 5.500 Reais. Edvan terminou em segundo com 12.06 e segue liderando o ranking. O pernambucano Alan Donato ficou em terceiro com 10.67 e outro cearense, Itim Silva, foi o quarto colocado com 7.60 pontos. Os quatro ainda competem no Circuito Profissional e participaram da primeira etapa do Surf Brasil Pro 2026, realizada em fevereiro no Ceará.

Flavio Sukita garante a vitória na 50+ nas duas primeiras ondas – A segunda decisão do Surf Brasil Master na quinta-feira, foi a da categoria dos surfistas que já fizeram 50 anos de idade. O grande favorito era o cabo-friense Victor Ribas, que já havia tirado a liderança do ranking do paraibano Fábio Gouveia, eliminado nas oitavas de final. Mas, o cearense Flavio Sukita começou muito bem e acabou garantindo a vitória nas duas primeiras ondas que surfou, totalizando imbatíveis 12.07 pontos com notas 5.40 e 6.67. O sergipano Romeu Cruz foi o segundo colocado com 9.96 pontos, o alagoano Gilberto Araujo que não tinha perdido nenhuma bateria nessa segunda etapa, ficou em terceiro om 7.53 e Victor Ribas acabou em quarto com 5.63, mas agora lidera a corrida pelo título brasileiro 50+.

“Eu estava no foco de fazer um bom resultado e pedi ajuda ao Nosso Senhor, porque já estava cansado, sem força. Mas, confiei, acreditei e Ele me deu força na hora certa, no momento certo e essa vitória é toda honra e toda glória em nome Dele”, dedicou Flavio Sukita, que é pai da campeã brasileira Larissa dos Santos. “Meus braços já estavam doendo, dando câimbras e só pedi ao Senhor para pegar mais uma onda. Não é fácil você passar o dia na praia, numa competição, sem se alimentar bem. O desgaste é muito grande, mas só tentei surfar meu melhor. Os quatro que fizeram a final são todos campeões, então só agradeço a Deus por Ele me ter me dado essa oportunidade de vencer”.

Cardoso Junior confirma os 100% de títulos cearenses na quinta-feira – Assim como o cearense Edvan Silva na categoria 40+, o sergipano Tady também buscava sua segunda vitória no Surf Brasil Master na 60+. Mas, os três líderes dos rankings foram batidos nas finais da quinta-feira em Aracaju. Tady tinha sido o único a derrotar Cardoso Junior nessa segunda etapa, quando os dois passaram juntos pelas semifinais. Essa última decisão foi mais fraca de ondas e o cearense largou na frente com uma nota 4.00. Quando Tady ameaçou com 4.20, Cardoso Junior conseguiu somar 4.17 para vencer por 8.17 pontos. Tady ficou em segundo lugar com 7.97, seguido pelo pernambucano Claudio Marroquim com 6.66 e o alagoano Carlos Pereira com 6.27.

“É uma honra estar com esses caras que a gente competia 20, 30 anos atrás e a gente continua com a mesma essência do surf na veia”, disse Cardoso Junior. “Hoje deu altas ondas, todos tiveram chances de mostrar serviço e fico feliz de ter achado duas ondas boas para vencer. Agora tem a última etapa que vai ser decisiva pro título brasileiro e vamos pra cima. O Tady ainda tá um pouco na frente do ranking, mas agora to na briga também. Agradeço a todos da Surf Brasil que estão fazendo um trabalho maravilhoso e amanhã começa tudo de novo. Vamos pra cima ver se levo esse título e pego a vaga pro Mundial, que é o meu sonho”.

Campeões brasileiros representam o país no mundial master da ISA – Os campeões brasileiros que estão sendo decididos nesse novo formato inaugurado no Surf Brasil Master, com três etapas sendo disputadas em um evento único com 9 dias de duração em Aracaju, garantem vagas no Mundial Master de 2027 da International Surfing Association (ISA), órgão máximo do esporte no mundo. Em cada uma das três etapas, está sendo dividida uma premiação de 50.000 Reais para os finalistas e semifinalistas, com todos os resultados sendo computados nos rankings que definem a classificação final de 2026.

Os vencedores da primeira etapa, o cearense Edvan Silva na categoria 40+ e o sergipano Tady na 60+, seguiram na frente computando 93% dos 2.000 pontos disputados, pois ambos terminaram em segundo lugar nas finais da quinta-feira. Já na 50+, o cabo-friense Victor Ribas assumiu a ponta mesmo ficando em quarto lugar. Somente ele e o alagoano Gilberto Araujo, que aparece em quarto no ranking, decidiram os dois primeiros títulos na Praia dos Náufragos. O vencedor da primeira etapa, Fábio Gouveia, não passou das oitavas de final e caiu da primeira para a quinta posição no ranking.

39 surfistas seguem na disputa pelos títulos brasileiros de 2026 – Esta categoria 50+ é a que a disputa do título brasileiro está mais aberta, com 26 surfistas ainda tendo chances matemáticas de conquistar o troféu de campeão do Surf Brasil Master 2026. Na 40+ só restaram sete concorrentes e os cearenses dominam o topo do ranking, com Edvan Silva em primeiro lugar, Felipe Martins em segundo, Itim Silva em terceiro e o defensor do título, Marcio Farney, em quarto. A lista dos que ainda podem ser campeões da categoria 40+, é completada pelo baiano Flavio Costa em quinto lugar, o potiguar José Junior em sexto e o pernambucano Alan Donato em sétimo.

Entre os sete, dois estão estreando na categoria Master por terem completado 40 anos de idade em 2025. Um deles é o vencedor da segunda etapa do Surf Brasil Master na quinta-feira, Felipe Martins. O outro é Alan Donato, que precisava ficar entre os três primeiros colocados na final para entrar na briga do título brasileiro. Na categoria 60+, a disputa ficou limitada a seis surfistas apenas. O sergipano Tady segue na frente, com Cardoso Junior em segundo lugar, o paulista Edson Vieira em terceiro, o pernambucano Claudio Marroquim em quarto, o alagoano Carlos Pereira em quinto e outro paulista fecha a lista, William Diegues.

O Surf Brasil Master 2026 é mais uma realização de Surf Brasil e conta com patrocínio da Prefeitura de Aracaju pela Secretaria Municipal da Juventude e do Esporte (SEJESP) e do Governo do Estado de Sergipe através da Secretaria do Esporte e Lazer. O evento tem a Federação Sergipana de Surf (FSS) como parceira na organização e co-patrocínios e apoios de JISK, Arcus Hotel by Atlantica, Rei Beach Lounge Bar, Surfland Garopaba, Só Coco, Suntech e Brazilian Tiger Balm. A competição está sendo transmitida ao vivo pelo Canal Woohoo e pelo Surf Brasil TV no YouTube que pode ser acessado no site SurfBrasil.org.br.

Resultados da quinta-feira no Surf Brasil Master
(entre parênteses o estado que representa nas competições)

Decisão do título 40+

Campeão Felipe Martins (CE) por 13,23 pts (6,73+6,50) – R$ 5.500 e 1.000 pts

2º lugar Edvan Silva (CE) com 12,06 pts (7,23+4,83) – R$ 3.000 e 860 pts

3º lugar Alan Donato (PE) com 10,67 pts (5,67+5,00) – R$ 2.500 e 730 pts

4º lugar Itim Silva (CE) com 7,60 pts (4,00+3,60) – R$ 1.500 e 670 pts

40+ Semifinais
3º=5º lugar (r$ 1.160 e 610 pts) e 4º=7º lugar (R$ 673,33 e 555 pts)

1 1-Felipe Martins (CE), 2-Edvan Silva (CE), 3-Marcio Farney (SC), 4-Rogerio Galvão (PE)

2 1-Itim Silva (CE), 2-Alan Donato (PE), 3-José Junior (RN), 4-Diego Rosa (SC)

40+ Quartas de final
3º=9º lugar com 500 pontos

1 1-Felipe Martins (CE), 2-Itim Silva (CE), 3-Thiago de Sousa (CE), 4-Duda Carneiro (CE)

2 1-Diego Rosa (SC), 2-Rogerio Galvão (PE), 3-Fellipe Ximenes (SC), 4-Rodrigo Jorge (RN)

3 1-Edvan Silva (CE), 2-José Junior (RN), 3-Klinger Peixoto (AL), 4-Jeova Rodrigues (CE)

4 1-Alan Donato (PE), 2-Marcio Farney (SC), 3-Wilson Nora (BA), 4-Gildeon Reis (SE)

40+ Oitavas de final
3º=17º lugar (400 pts) e 4º=25º lugar (360 pts)

As 2 primeiras fecharam a quarta-feira

3 1-Thiago de Sousa (CE), 2-Fellipe Ximenes (SC), 3-André Zanini (SC), 4-Saulo Carvalho (PB)

4 1-Rogerio Galvão (PE), 2-Duda Carneiro (CE), 3-Flavio Costa (RJ), 4-Isaias Silva (CE)

5 1-Edvan Silva (CE), 2-Gildeon Reis (SE), 3-Angelino Santos (RJ), 4-Fred Vilela (AL)

6 1-Alan Donato (PE), 2-Jeova Rodrigues (CE), 3-Claudio Freitas (RJ), 4-Edson Costa (PE)

7 1-José Junior (RN), 2-Marcio Farney (SC), 3-Bruno Padilha (PB), 4-Marcio Leal (SC)

8 1-Wilson Nora (BA), 2-Klinger Peixoto (AL), 3-Jayme Pereira (SP), 4-Paulo Germano (PB)

Decisão do título 50+

Campeão Flavio Sukita (CE) por 12,07 pts (6,67+5,40) – R$ 5.500 e 1.000 pts

2º lugar Romeu Cruz (SE) com 9,96 pts (5,03+4,93) – R$ 3.000 e 860 pts

3º lugar Gilberto Araujo (AL) com 7,53 pts (3,83+3,70) – R$ 2.500 e 730 pts

4º lugar Victor Ribas (RJ) com 5,63 pts (3,23+2,40) – R$ 1.500 e 670 pts

50+ Semifinais
3º=5º lugar (r$ 1.160 e 610 pts) e 4º=7º lugar (R$ 673,33 e 555 pts)

1 1-Gilberto Araujo (AL), 2-Romeu Cruz (SE), 3-Alessandro Macedo (RN), 4-Leonel Brizola (RJ)

2 1-Flavio Sukita (CE), 2-Victor Ribas (RJ), 3-Marcelo Alves (BA), 4-Jeronimo Bomfim (BA)

50+ Quartas de final
3º=9º lugar com 500 pontos

1 1-Gilberto Araujo (AL), 2-Marcelo Alves (BA), 3-Edson Vieira (SP), 4-Ivan Medeiros (RN)

2 1-Victor Ribas (RJ), 2-Leonel Brizola (RJ), 3-Ademar Neto (BA), 4-Paulo Germano (PB)

3 1-Romeu Cruz (SE), 2-Flavio Sukita (CE), 3-Igor Mathey (SP), 4-Luciano Alemão (SC)

4 1-Jeronimo Bomfim (BA), 2-Alessandro Macedo (RN), 3-Crhistiano Spirro (BA), 4-Gildeon Reis (SE)

50+ Oitavas de final
3º=17º lugar (400 pts) e 4º=25º lugar (360 pts)

1 1-Gilberto Araujo (AL), 2-Leonel Brizola (RJ), 3-Mauricio Weyll (BA), 4-Cardoso Junior (CE)

2 1-Paulo Germano (PB), 2-Ivan Medeiros (RN), 3-Silverio Jorge Silver (SC), 4-Rodrigo Jorge (RN)

3 1-Edson Vieira (SP), 2-Ademar Neto (BA), 3-Edson Papagaio (SE), 4-Fernando Conceição (PE)

4 1-Victor Ribas (RJ), 2-Marcelo Alves (BA), 3-Sergio Noronha (RJ), 4-Marcelo Resende (SE)

5 1-Luciano Alemão (SC), 2-Jeronimo Bomfim (BA), 3-Saulo Carvalho (PB), 4-Wagner Augusto (RN)

6 1-Alessandro Macedo (RN), 2-Flavio Sukita (CE), 3-Fabio Gouveia (PB), 4-Rogerio Dantas (CE)

7 1-Romeu Cruz (SE), 2-Crhistiano Spirro (BA), 3-Fred Vilela (AL), 4-Roni Ronaldo (SC)

8 1-Gildeon Reis (SE), 2-Igor Mathey (SP), 3-Armando Maciel (SC), 4-João Maria (RN)

Decisão do título 60+

Campeão Cardoso Junior (CE) por 8,17 pts (4,17+4,00) – R$ 5.500 e 1.000 pts

2º lugar Tady (SE) com 7,97 pontos (4,20+3,77) – R$ 3.000 e 860 pts

3º lugar Claudio Marroquim (PE) com 6,66 pts (4,03+2,63) – R$ 2.500 e 730 pts

4º lugar Carlos Pereira (AL) com 6,27 pts (3,27+3,00) – R$ 1.500 e 670 pts

60+ Semifinais
3º=5º lugar (r$ 1.160 e 610 pts) e 4º=7º lugar (R$ 673,33 e 555 pts)

1 1-Tady (SE), 2-Cardoso Junior (CE), 3-William Diegues (SP), 4-Walter Paes (RJ)

2 1-Claudio Marroquim (PE), 2-Carlos Pereira (AL), 3-Edson Vieira (SP), 4-Saulo Lyra (SC)

60+ Quartas de final
3º=9º lugar com 500 pontos

1 1-Cardoso Junior (CE), 2-Edson Vieira (SP), 3-Davi Filho (SC)

2 1-Carlos Pereira (AL), 2-Walter Paes (RJ), 3-Francisco Moura (RN)

3 1-Tady (SE), 2-Saulo Lyra (SC), 3-Rubens Farias (SC)

4 1-Claudio Marroquim (PE), 2-William Diegues (SP), 3-Paulo Falcon (BA)

Pedro Bettencourt Müller nasceu no Rio de Janeiro, no dia 21 de julho de 1966, num ambiente familiar que respirava praia. Seu pai, Guilherme Xavier de Brito Müller, economista e morador do Leblon, cresceu frequentando a Zona Sul. Sua mãe, Maria Isabel Bettencourt Müller, criada em Santa Teresa, compartilhava da mesma paixão pelas praias. Para o casal, fim de semana e férias tinham destino certo: areia, sol e mar. Foi assim que Pedro e o irmão, Guilherme, passaram a infância seguindo os pais para o meio da Barra ou para São Conrado, ainda de estradas de terra, sem prédios, calçadões ou qualquer urbanização. Nesse cenário quase intocado, Pedro foi se encantando pelas ondas. Lembra-se de observar alguns surfistas solitários no meio da Barra e sentir-se hipnotizado pela habilidade deles. O mar, desde cedo, era o lugar onde queria estar. Ele recorda também a rotina da infância: ia para as aulas de natação no Clube de Regatas Flamengo e, depois, caminhava até o judô, no Leblon, um trajeto longo para uma criança de 12 anos. Antes de entrar no tatame, sentava-se no calçadão para olhar o mar quebrando, entregue à mesma fascinação que o acompanharia por toda a vida. O mar lhe transmitia paz, calma e propósito. Ali, ainda menino, já entendia que queria se tornar surfista. A mudança para São Conrado, por volta dos 14 ou 15 anos, foi decisiva. Morando ao lado do Pepino, Müller muitas vezes cabulava a aula pra ir surfar. As ondas triangulares, rápidas e pesadas da região se transformaram no seu campo de treinamento permanente. Ali, guiado pela referência de Rony Lima e pela evolução proporcionada pelas pranchas dos shapers Rico e Pedro Battaglin, deu um salto técnico marcante. A “biquilha mágica” 5’4″ de Battaglin é lembrada até hoje como uma das grandes viradas em seu surfe, época em que adotou o apelido de “o Águia”, pela tatuagem no braço. Uma nova mudança, motivada pelo desemprego do pai, levou a família para a Barra. Para Müller, foi a oportunidade perfeita: entre o Postinho, o meio da Barra e o Quebra-Mar, encontrou três ondas consistentes e acessíveis a pé, permitindo treinos diários que aceleraram ainda mais sua evolução. Nessa fase, destacou-se nos campeonatos da ASBT – Associação de Surf da Barra da Tijuca – e entrou para a promissora equipe da Cristal Graffiti. Antes disso, havia vencido seu primeiro campeonato no Leblon, organizado por Marcelo Peninha, vitória que marcou sua confiança rumo ao profissionalismo. Os resultados na categoria Júnior renderam um prêmio decisivo: uma passagem para o Havaí. Aos 18 anos, Müller viveu sua primeira temporada no North Shore (1984/85), dividindo casa com surfistas brasileiros experientes. Pipeline, logo no primeiro dia, foi seu batismo de fogo: mar pesado, adrenalina no limite e a certeza de que o treino no Pepino o havia preparado para aquele cenário. De volta ao Brasil, enfrentou dificuldades para manter regularidade como profissional. A grande virada veio com o curso de meditação transcendental feito ao lado de Rodolfo Lima. O impacto competitivo foi imediato: venceu a etapa profissional do Quebra-Mar no circuito carioca, em 1986, e passou a frequentar pódios de forma consistente. A regularidade, marca registrada de sua carreira, nasceu ali. Em 1987, tornou-se vice-campeão do primeiro Circuito Brasileiro de Surf Profissional. Liderou boa parte da temporada, foi vice-campeão na etapa da Lightning Bolt e, depois, campeão no Fico Festival. Só perdeu o título na penúltima bateria do Circuito, por apenas 20 pontos, uma diferença mínima para quem tinha 850 pontos de vantagem sobre o terceiro colocado. Na época, era visto como o surfista mais consciente e estratégico do país. Nos anos seguintes, acumulou resultados expressivos: vitórias importantes na Abrasp e uma vitória significativa no QS de Florianópolis, superando Barton Lynch, Jojó e Julio Adler. Em 1995, viria um dos grandes destaques internacionais de sua carreira: o nono lugar em Pipeline, substituindo de última hora o australiano Damien Hardman. Ondas entre 10 e 15 pés confirmaram sua capacidade técnica em um dos palcos mais desafiadores do mundo. Pedro Müller seguiria competindo por mais de duas décadas. Em Ubatuba, já aos 38 anos, conquistou sua última vitória no Circuito Super Surf 2004, num dos triunfos mais marcantes de sua trajetória. Hoje, vive do surfe como treinador, comentarista da Sportv e um dos proprietários da @escola_pedromuller, na Barra da Tijuca, administrada pelo sócio Adelmo Noite. Acompanhe ns publicações nas redes sociais @museudosurfesantos. Coordenador de pesquisas históricas do surfe @diniziozzi, o Pardhal.

Como uma prancha largamente usada por surfistas fora do circuito mundial profissional pode ganhar atenção? Coloque a dita cuja nos pés de um bicampeão mundial. Quer um destaque ainda maior? Filipe Toledo vence o tricampeão Gabriel Medina. Pronto. Vamos por partes. Na etapa do Championship Tour, na Nova Zelândia (Maio 2023), Filipe acabou não vencendo a disputa da quarta de final contra Griffin Colapinto, mesmo obtendo a melhor nota da bateria. Faltou uma onda. Mas o assunto aqui é outro, ou quase. Em um universo dominado por triquilhas, desde 1981, a diversidade de pranchas, no século 21, começou a ganhar espaço fora das competições. No meio de antigas novidades, biquilhas com trailer fin (estabilizador central) se mostraram mais controláveis e amistosas, levando muita gente a adotá-las no quiver. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Filipe Toledo (@filipetoledo) O modelo de biquilha com estabilizador central já havia sido testado mas ganhou vida nova em 2003, com as Super Twins do shaper, tetracampeão mundial (79, 80, 81 e 82), Mark Richards. Ele trouxe de volta suas Twin Fins do início dos anos 80, adicionando uma “quilhinha” central. Daí, de repente, Filipe Toledo coloca no jogo do circuito mundial o modelo Modern 2, da Sharp Eye Surfboards. Vence Gabriel Medina nas esquerdas de Raglan e deixa muito mais gente antenada sobre as possibilidades de uma twin com trailer fin. Filipe não foi o primeiro a fazer algo que eu esperava há tempos. Kelly Slater inovou, diminuindo o tamanho das pranchas e competindo, em algumas situações, com o que eram mais bi do que triquilhas, na primeira década do século 21. Dane Reynolds também fez isso, mas vamos combinar que esses dois não são parâmetros de surf normal. Deivid Silva também ousou. Abiquilhou-se numa etapa. Mandou bem, mas não chamou tanta atenção. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Sharp Eye Surfboards (@sharpeyesurfboards_au) Quando se trata de altíssima performance pesa sempre o fato dos atletas da elite não terem muito tempo para experiências fora da casinha das triquilhas. Mas, pela primeira vez, Filipe, além de seu ano sabático, em 2024, teve, como todos os Tops, os mesmos raros sete meses de folga antes da temporada 2026. Isso parece ter criado espaço para lidar com pranchas diferentes, memória física e jogo mental para se arriscar com um equipamento não muito convencional na Nova Zelândia. Sim, pranchas realmente diferentes pedem ajustes na maneira de usá-las e isso requer tempo e, claro, talento. Duas coisas chamaram a minha atenção. Impressionante como podemos e devemos comparar os melhores do surf competitivo profissional com pilotos da Fórmula 1. É com eles que a indústria das pranchas evolui mais e melhor. Detalhes sutis, milimétricos, que essa turma sente no funcionamento de uma prancha podem ser incorporados aos modelos que a maioria dos surfistas não conseguiria detectar ou explicar. Eles dão o caminho do que será usado pelos consumidores “normais”. Shapers são mais teoria, estudo. Tops são prática. As mudanças surgem daí. Segunda, e mais curiosa. Um esporte que durante tanto tempo teve uma aura de vanguarda e ousadia leva muito tempo para propor ou acertar mudanças mais drásticas, seja na construção ou desenvolvimento de design. Não creio que seja culpa dos fabricantes, já que essa indústria nunca gerou dinheiro suficiente para que se desenvolvesse como deveria. Ainda por cima a competição tem um formato onde há pouco espaço para o diferente quanto à performance. Mas isso é conversa para outro texto. Por agora fica a dica. Mesmo ideias estranhas à normalidade podem resultar em bons resultados. Teste tudo que é prancha que você puder. Não tenha medo, você não depende de notas dos juízes para ser feliz.

Michelle des Bouillons desceu uma onda de quase 25 metros em Nazaré e pode entrar para a história como a mulher que surfou a maior de todos os tempos. Em entrevista exclusiva ao Waves, ela conta como chegou até aqui.

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