Surf Brasil Master 2026

Cearense seguem brilhando

Surfistas do Ceará ganham 6 das 13 baterias disputadas antes da competição ser paralisada pela chuva intensa com ventos fortes em Aracaju (SE).
Surf Brasil Master 2026, Praia dos Náufragos, Aracaju (SE)

O Surf Brasil Master abriu a segunda etapa da batalha pelos primeiros títulos brasileiros da temporada 2026 e os cearenses seguem brilhando na capital de Sergipe. Eles venceram 6 das 13 baterias disputadas, antes da competição ser interrompida devido à chuva muito intensa com ventos fortes na Praia dos Náufragos, em Aracaju. A programação era realizar 26 baterias na terça-feira (21), as 16 da primeira fase da categoria 40+ e mais 10 da 50+, porém só foi possível rolar metade delas. A 14ª da 40+ ficou então para abrir a quarta-feira, ao vivo pelo Canal Woohoo e pelo Surf Brasil TV no YouTube, que pode ser acessado no site SurfBrasil.org.br.

“Nós já concluímos a primeira etapa ontem, iniciamos a segunda hoje, mas devido à uma intercorrência climática com muita chuva e, visando uma excelente entrega desse evento Master, decidimos parar a competição por hoje”, disse Ricardo Tatuí, diretor de prova do Surf Brasil Master em Aracaju. “Nosso objetivo é que o evento role nas melhores ondas possíveis, para os atletas mostrarem o seu surf, até porque aqui está sendo decidido os títulos brasileiros e classificações para o Mundial Master da ISA. Então, retornaremos amanhã logo cedo, para dar andamento ao evento em melhores condições”.

A segunda das três etapas do Surf Brasil Master 2026 em Sergipe, que vão decidir os títulos brasileiros da temporada até o domingo, foi iniciada pela categoria dos surfistas com 40 anos ou mais de idade. E começou como terminou a primeira etapa, com vitória cearense de um dos finalistas na segunda-feira, Felipe Martins. Ele só completou 40 anos em dezembro, está estreando na categoria e largou em terceiro lugar na corrida do título brasileiro, atrás do líder e também cearense Edvan Silva e do baiano Flavio Costa. Os dois também estrearam com vitórias na manhã da terça-feira de muita chuva em Aracaju.

“Estou amarradão por ter passado a bateria, mas estou bem cansado ainda da primeira etapa ontem”, disse Felipe Martins. “Eu já sabia que a minha bateria ia ser a primeira do dia hoje, então fiquei no foco desde ontem. Não deu nem pra festejar nada, mas jantei bem porque nem almocei ontem, foi um dia muito corrido e dormi cedo pra descansar um pouco. Graças a Deus, consegui achar boas ondas hoje e achei que elas estão até com mais energia do que ontem. Consegui soltar meu surf, to amarradão, a pranchinha tá boa e estamos no jogo aí pelo título”.

Nessa bateria que abriu a segunda etapa do Surf Brasil Master, o atual campeão mundial Diego Rosa, avançou junto com Felipe Martins para as oitavas de final, eliminando Deyvison Ferreira de São João da Barra (RJ) e o potiguar Roberto Silva. Na segunda bateria do dia, o ídolo de toda uma geração e ex-top da elite mundial, Neco Padaratz, terminou em último na dobradinha paulista do Cristiano Rosario com Akio Saito. A terceira foi vencida pelo catarinense Adriano Lemos e a quarta deu Ceará de novo, com Itim Silva.

Cearenses com 100% de vitórias e duas dobradinhas na terça-feira – O Ceará apresentou 100% de aproveitamento na terça-feira, com vitórias em todas as seis baterias que participou e duas delas terminaram em dobradinhas cearenses. Na sétima bateria, Thiago de Sousa e Duda Carneiro derrotaram o baiano Ademar Neto e o carioca Alan Toledo. E na nona, Edvan Silva manteve a invencibilidade no sexto confronto que disputou na Praia dos Náufragos desde o sábado, com Jeova Rodrigues superando o paulista Sidnei Oliveira, para passar junto com o campeão da primeira etapa do Surf Brasil Master 2026 em Aracaju.

“Estou muito feliz de ter passado essa bateria, porque o mar tá muito difícil, o vento tá muito forte e não dá pra escutar nada das notas”, contou Edvan Silva. “Então só procurei pegar as melhores ondas, para poder fazer os maiores somatórios, porque a gente não conhece todos os adversários, o nível de cada um. É muito imprevisível, mas estou feliz de ter passado e quero agradecer a todos, a família, amigos e os alunos da minha escolinha, que estão lá me assistindo e torcendo. Passei mais uma, estou feliz e vamos pra próxima”.

Vice-líder do ranking também estreia com vitória na segunda etapa – A segunda defesa da liderança do ranking do Edvan Silva, será contra o também cearense Angelino Santos, o sergipano Gildeon Reis e o alagoano Fred Vilela, no quinto confronto das oitavas de final. Angelino mora na capital carioca há muitos anos e garantiu os 100% de vitórias cearenses na terça-feira em Aracaju. O vice-campeão 40+ na segunda-feira e campeão brasileiro desta categoria em 2023, Flavio Costa, também estreou com vitória na segunda etapa. Foi a primeira bateria que o baiano venceu na Praia dos Náufragos, derrotando o catarinense Fellipe Ximenes e os paulistas Ademar Gomes e Alexandre Felicio.

“Eu estou me sentindo em casa aqui nesse lugar maravilhoso que é Sergipe. É muito parecido com Ilhéus e tá todo mundo surfando bem aqui, então quem achar a onda boa, vai fazer o high score (nota alta)”, disse Flavio Costa. “Eu consegui pegar uma direita e saí castigando ela no inside, que foi legal. Por causa do vento, não dá pra escutar as notas, então fiquei só no relógio. A onda é distante aqui, você tem que remar muito, tem o desgaste físico e a gente está aqui numa maratona, um campeonato atrás do outro”.

Surfistas de sete estados vencem as baterias sem cearenses – Flavio Costa conquistou a única vitória da Bahia nas 13 baterias disputadas na terça-feira na Praia dos Náufragos. Surfistas de outros seis estados também saíram do mar em primeiro lugar nas baterias que não tinham cearenses disputando ondas, porque eles ganharam as 6 que participaram. Adriano Lemos computou uma vitória para Santa Catarina, Cristiano Rosario para São Paulo, Saulo Carvalho para a Paraíba, Alan Donato para Pernambuco, Claudio Freitas para o Rio de Janeiro e o potiguar José Junior ganhou a última do dia.

Mais três cearenses vão estrear na segunda etapa do Surf Brasil Master 2026 em Sergipe, Rogerio Dantas na 14ª bateria, Victor Araujo na 15ª e o atual campeão brasileiro 40+, Marcio Farney, fecha a primeira fase. Na sequência da quarta-feira, rola a primeira fase 50+, com Fabio Gouveia defendendo a liderança do ranking, depois será iniciada a categoria 60+ com o sergipano Tady tentando a segunda vitória em casa em Aracaju, na busca para conseguir um inédito título brasileiro de surf para o seu estado.

O Surf Brasil Master 2026 é mais uma realização de Surf Brasil e conta com patrocínio da Prefeitura de Aracaju pela Secretaria Municipal da Juventude e do Esporte (SEJESP) e do Governo do Estado de Sergipe através da Secretaria do Esporte e Lazer. O evento tem a Federação Sergipana de Surf (FSS) como parceira na organização e co-patrocínios e apoios de JISK, Arcus Hotel by Atlantica, Rei Beach Lounge Bar, Surfland Garopaba, Só Coco, Suntech e Brazilian Tiger Balm. A competição está sendo transmitida ao vivo pelo Canal Woohoo e pelo Surf Brasil TV no YouTube que pode ser acessado no site SurfBrasil.org.br.

Baterias do Surf Brasil em Sergipe
entre parênteses o estado que representa nas competições)

Resultados da terça-feira em Aracaju
40+ Primeira fase
3º=33º lugar (320 pts) e 4º=49º lugar (240 pts)

1ª 1-Felipe Martins (CE), 2-Diego Rosa (SC), 3-Deyvison Ferreira (RJ), 4-Roberto Silva (RN)

2ª 1-Cristiano Rosario (SP), 2-Akio Saito (SP), 3-Junior Rocha (RN), 4-Neco Padaratz (SC)

3ª 1-Adriano Lemos (SC) 2-Manoel de Assis (PE), 3-Leandro Mendes (BA), 4-Carlos Malheiros (PE)

4ª 1-Itim Silva (CE), 2-Rodrigo Jorge (RN), 3-Akma (SE), 4-Deivid Deja (SC)

5ª 1-Saulo Carvalho (PB), 2-Rogerio Galvão (PE), 3-Edson Papagaio (SE), 4-Fernando Junior (SC)

6ª 1-Isaias Silva (CE), 2-André Zanini (SC), 3-Leonel Brizola (RJ), 4-Tadeu Cunha (AL)

7ª 1-Thiago de Sousa (CE), 2-Duda Carneiro (CE), 3-Ademar Neto (BA), 4-Alan Toledo (RJ)

8ª 1-Flavio Costa (RJ), Fellipe Ximenes (SC), 3-Ademar Gomes (SP), 4-Alexandre Felicio (SP)

9ª 1-Edvan Silva (CE), 2-Jeova Rodrigues (CE), 3-Sidnei Oliveira (SP)

10 1-Alan Donato (PE), 2-Gildeon Reis (SE), 3-Bruno Silva (SC), w.o-Duda Tedesco (RJ)

11 1-Angelino Santos (RJ), 2-Edson Costa (PE), 3-Michell Silva (PE), 4-Gabriel Piccoli (SC)

12 1-Claudio Freitas (RJ), 2-Fred Vilela (AL), 3-Jeff Toco (SC), 4-Ricardo Vasconcelos (PE)

13 1-José Junior (RN), 2-Wilson Nora (BA), 3-Jorge Correa (SC), 4-Wallace Silva (PE)

Próximas baterias
40+ Primeira fase
3º=33º lugar (320 pts) e 4º=49º lugar (240 pts)

14 Rogerio Dantas (CE), Klinger Peixoto (AL), Igor Mathey (SP), Marcio Leal (SC)

15 Bruno Padilha (PB), Paulo Germano (PB), Victor Araujo (CE), Jonatas Rangel (RJ)

16 Marcio Farney (SC), Claudemir Bibi Lima (RJ), Jayme Pereira (SP), Alexandre Henrique (PB)

50+ Primeira fase
3º=33º lugar (320 pts) e 4º=49º lugar (240 pts)

1ª Gilberto Araujo (AL), Daniel Leça (RJ), Silverio Jorge Silver (SC)

2ª Paulo Germano (PB), Mauricio Weyll (BA), Chico Lavigne (BA), Rafael Guimarães (SC)

3ª Ivan Medeiros (RN), Leonel Brizola (RJ), Inaldo Segundo (BA), Alexandre Henrique (PB)

4ª Rodrigo Jorge (RN), Cardoso Junior (CE), Jonatas Rangel (RJ)

5ª Edson Papagaio (SE), Esdras Santos (BA), Marcelo Resende (SE), Duda Tedesco (RJ)

6ª Marcelo Alves (BA), Michell Silva (PE), Edson Vieira (SP)

7ª Fernando Conceição (PE), Sergio Noronha (RJ), Jofrey Seibel (SC), Tadeu Cunha (AL)

8ª Victor Ribas (RJ), Augusto Melo (SE), Ademar Neto (BA)

9ª Fabio Gouveia (PB), Ayrton Almeida (PE), Jeronimo Bomfim (BA)

10 Bruno Grilo (RN), Alessandro Macedo (RN), Saulo Carvalho (PB), Carlos Malheiros (PE)

11 Rogerio Dantas (CE), Luciano Alemão (SC), Robson Vinhas (BA)

12 Flavio Sukita (CE), Alvaro Bacana (MA), Wagner Augusto (RN)

13 Romeu Cruz (SE), Gildeon Reis (SE), Dalmo Meireles (BA)

14 Roni Ronaldo (SC), Armando Maciel (SC), Alexandre Felicio (SP), Sandro Rohden (SC)

15 Crhistiano Spirro (BA), Igor Mathey (SP), Davy Cristian (SE), Helvecio Santos (SE)

16 João Maria (RN), Fred Vilela (AL), Alan Toledo (RJ)

60+ Primeira fase
3º=13º lugar (450 pts) e 4º=19º lugar (390 pts)

1ª Cardoso Junior (CE), Walter Paz (RJ), Wlamir Reis (SP), Pedro Sobrinho (RN)

2ª Carlos Pereira (AL), Jaime Farinha (PE), Gama (SC), Davi Filho (SC)

3ª Edson Vieira (SP), Francisco Moura (RN), Jorge Bittencourt (BA)

4ª Tady (SE), Paulo Falcon (BA), Angelo Gulea (RS)

5ª Claudio Marroquim (PE), Zenato (RJ), Marco Leleu (RN), Saulo Lyra (SC)

6ª William Diegues (SP), Rubens Farias (SC), Roberto Campos (BA), Jaguaracy Gloria (BA)

40+ Oitavas de final
Baterias já formadas com os resultados da terça-feira

1ª Felipe Martins (CE), Adriano Lemos (SC), Akio Saito (SP), Rodrigo Jorge (RN)

2ª Itim Silva (CE), Manoel de Assis (PE), Diego Rosa (SC), Cristiano Rosario (SP)

3ª Thiago de Sousa (CE), Saulo Carvalho (PB), André Zanini (SC), Fellipe Ximenes (SC)

4ª Flavio Costa (RJ), Isaias Silva (CE), Rogerio Galvão (PE), Duda Carneiro (CE)

5ª Edvan Silva (CE), Angelino Santos (RJ), Gildeon Reis (SE), Fred Vilela (AL)

6ª Alan Donato (PE), Claudio Freitas (RJ), Edson Costa (PE), Jeova Rodrigues (CE)

Enquanto alguns fotógrafos documentam a história, Fedoca Lima fez diferente: viveu dentro dela enquanto fotografava. Carioca do Posto 5, começou a surfar com 11 anos e a fotografar quase ao mesmo tempo, com uma máquina fotográfica alemã do pai. Aos 14, registrou a Rainha Elizabeth passando de Rolls-Royce aberto pela orla de Copacabana, em frente à casa do Assis Chateaubriand. No mesmo período, fotografou o Mick Jagger dando o dedo do meio no Copacabana Palace. Não era fotógrafo profissional. Era um moleque com olho bom e câmera na mão, sem perceber ainda o tamanho do que estava construindo. O que veio depois é história do surfe brasileiro. O Píer de Ipanema nos anos 70, quando o Rio era o centro do surfe nacional, com Daniel Friedmann, Pepê Lopes, Rico de Souza e Ricardo Bocão dominando o circuito. A Brasil Surf, primeira revista especializada do país, na qual Fedoca jogou em todas as posições: fotógrafo, redator e capa. O Havaí entre 1978 e 1981, surfando e fotografando ao lado de Gerry Lopez, Shaun Tomson e Michael Ho em Pipeline e Waimea. Os shows históricos, de Bob Marley ao ar livre no Havaí até Rolling Stones e Paul McCartney no Maracanã. “A foto que eu não tirei, essa me persegue.” Fedoca Lima Mais de cinquenta anos depois, esse arquivo vira livro. “Surf, Clicks e Rock’n Roll” tem 220 páginas, cerca de 180 fotografias e percorre a transformação do surfe brasileiro desde a era analógica até o digital, passando por Arpoador, Saquarema, Havaí, Califórnia e Macumba. Com captação aprovada de R$ 203 mil via incentivo cultural e apio da Fu Wax, o lançamento está previsto para o segundo semestre de 2026. Conversamos com Fedoca sobre tudo isso. Antes de se consolidar como fotógrafo, você também virou personagem da própria história do surfe brasileiro ao sair na capa da Brasil Surf em 1975. Como foi viver aquele momento por dentro? Saí na capa da Brasil Surf. Na época eu trabalhei na revista de março de 75 até janeiro de 79, só não peguei o primeiro número. Jogava todas as posições: saí na capa, escrevia, tirava foto, ajudava na redação, dava palpite, fazia matéria. Por muito tempo achei que era o único fotógrafo de surfe que tinha saído numa capa. Depois o Bruno Alves me falou que o irmão dele, o Alberto, saiu na capa da Fluir número 1. A história dele bate um pouco com a minha: ele pegava onda, saiu na capa, era fotógrafo. Mas durante anos eu achei que era caso único. Até hoje tem um restaurante aqui que o cara pediu, eu tirei uma foto com a revista na mão, ele botou na parede, eu assinei. A influência continua. A Brasil Surf ajudou a mudar a imagem do surfista no Brasil. Como era ser surfista naquela época, antes dessa mudança de percepção acontecer? O surfe saía no caderno B do Jornal do Brasil, do Globo. Não saía no esporte. E o surfista era tido como vagabundo de praia. Isso, aliás, até hoje tem um pouco, mas na época tinha muito mais. A Brasil Surf não vou dizer que limpou essa imagem completamente, mas ajudou a transformar o surfe em esporte e também a fomentar o mercado de surfwear. Os irmãos Wady e Fuad Mansur, da loja Mansur, em Ipanema, foram dos primeiros anunciantes. Acreditaram na revista, fizeram anúncios de contracapa e página inteira, e as camisetas personalizadas vendidas pelo correio viraram um sucesso. A Brasil Surf acabou impulsionando fabricantes de pranchas, calções, parafinas e diversos outros anunciantes ligados ao surfe. Os fabricantes de prancha tinham um veículo para anunciar. Os fotógrafos ganhavam uma graninha, viajavam. Fui para a América Central, Porto Rico, Barbados, El Salvador, Fernando de Noronha, Peru, várias viagens bancadas pela Brasil Surf de uma forma ou de outra. O Nilton Barbosa foi ao Havaí duas vezes bancado pela revista. No caso dele, eles bancavam os filmes, ele vendia as fotos e a viagem se pagava. Tinha uma diferença entre mim e o Nilton nessa época: ele chegava na praia e ficava na areia fotografando, fotografando, fotografando. Eu chegava e ia para dentro da água. Se não estava o Daniel, não estava o Pepê, não estava o Cauli, não estava o Bocão, não estavam os caras top, eu entrava e surfava. Então tem foto minha na Brasil Surf publicada pelo Nilton Barbosa, pelo Rogério Ehrlich. Eu estava mais dentro da água do que fora. Eu estudava. Primeiro vestibular, depois faculdade. Boa parte dos meus amigos só queria saber de surfar. Eu dividia meu tempo. Chegava na praia, já tinha estudado de manhã, aí ficava naquele dilema: vou pegar onda ou vou fotografar? Por isso tem poucas fotos do Píer. Em três anos não tirei nem metade do que tiro hoje num dia bom na Macumba com o digital. Você viveu o Píer, a Brasil Surf, o Havaí dos anos 70, o nascimento do surfe brasileiro moderno. Em que momento percebeu que estava no meio de uma transformação cultural que iria muito além do esporte? O Píer foi o que fomentou o surfe no Rio de Janeiro. Por dez anos, foi domínio completo do Rio no cenário brasileiro. O Daniel Friedmann, em 77, foi o último carioca a vencer uma etapa do circuito internacional, ganhou no Quebra-Mar, em cima do Pepê Lopes, que tinha ganho em 76. Os dois de Ipanema, meus vizinhos de rua. E esse pessoal do Píer que dominou, o Daniel, o Pepê Lopes, o Cauli Rodrigues, e também o Otávio Pacheco, o Rico de Souza, o Ricardo Bocão. E tinha o Betão, que era o melhor surfista do Brasil na época mas não era competitivo, não corria atrás de patrocinador, acabou saindo cedo. Em 75 ele ganhou o Campeonato de Saquarema e foi saindo, saindo. O Píer influenciou a revista, influenciou os fabricantes de prancha, influenciou o modo de viver. Começaram a ter fábricas em Guaratiba, Vargem Grande, no Recreio, depois em Saquarema. As pessoas foram morar lá. O Penho foi, o Otávio comprou casa,

O que define uma boa onda? Tamanho, força, parede, qualidade da linha, formação e surfabilidade, dentre outros elementos. No oceano, todos esses fatores mudam a cada swell, a cada vento, a cada maré. Em Búzios, a proposta é diferente: construir essas variáveis de forma controlada, repetível e ajustável. A piscina do Brasil Surfe Clube Aretê Búzios opera com a tecnologia Endless Surf, do grupo canadense WhiteWater, com 48 câmaras de ar de alta precisão. O sistema permite criar configurações distintas dentro da mesma estrutura. Dentro de um universo de grandes possibilidades, as cinco primeiras ondas já foram nomeadas e reveladas, cada uma com perfil próprio, e muito mais ainda está por vir. Onda #01: Pointbreak + Junção Linha longa, seções conectadas, tempo de onda que pode ultrapassar 25 segundos. A junção encadeia diferentes partes da onda sem perder velocidade, criando uma das experiências mais difíceis de encontrar no oceano com consistência. Para quem quer mais de 10 manobras na mesma onda ou simplesmente mais tempo de linha para ler e decidir. Onda #02: Manobras + Bowl A parede fica mais íngreme. O bowl abre seções críticas para manobras verticais e aéreos. É o ambiente para quem quer empurrar os limites do que consegue fazer sobre a prancha, com repetição suficiente para transformar cada tentativa em aprendizado real. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Onda #03: Rampa + Tubo Uma onda que combina duas experiências na mesma seção. A rampa prepara o surfista para a manobra e o tubo roda na sequência. Para quem quer encaixar um aéreo e ainda sair do tubo na mesma onda, essa configuração entrega os dois elementos sem precisar escolher. Onda #04: Rampa Nível Intermediário Parede consistente, menor intensidade, mais previsível. A configuração certa para quem está desenvolvendo manobras progressivas e precisa de repetição para consolidar o que está aprendendo. A seção cria a rampa no ângulo certo, com velocidade suficiente para executar sem exigir o nível avançado. Onda #05: Rampa Nível Avançado Mais potência, mais velocidade, mais projeção. A rampa avançada é para quem já chegou em Búzios com manobras no repertório e quer testá-las com pressão real. Com capacidade para gerar até 700 ondas por hora, o intervalo entre uma tentativa e outra é curto o suficiente para transformar cada sessão em treino de alto rendimento. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Para todos os níveis As cinco configurações cobrem desde quem está aprendendo até quem treina em alto rendimento. A piscina ainda opera em dois modos: single peak, com ondas quebrando para um lado e maior extensão de linha, e split peak, com direitas e esquerdas simultâneas, permitindo que surfistas compartilhem a mesma série em direções opostas. Yago Dora, campeão mundial de surfe em 2025, Victor Bernardo, um dos maiores freesurfers da atualidade, e Michelle des Bouillons, referência mundial em ondas gigantes, integram o time do BSC e já testaram a tecnologia na piscina Adrena Red Sea, na Arábia Saudita. “Muito animal esse lance de ter essa variedade de onda também. Um leque de ondas absurdo. Mal posso esperar para Búzios”, disse Victor Bernardo após a sessão. A versão de Búzios será maior: 48 câmaras contra 36 da estrutura do Mar Vermelho, com 13 mil metros quadrados de lâmina d’água. Variedade de ondas para testar, arriscar, aprender e evoluir todos os dias. Com inauguração prevista para o segundo semestre de 2026, é o que o Brasil Surfe Clube Aretê Búzios chega para entregar.

Pedro Bettencourt Müller nasceu no Rio de Janeiro, no dia 21 de julho de 1966, num ambiente familiar que respirava praia. Seu pai, Guilherme Xavier de Brito Müller, economista e morador do Leblon, cresceu frequentando a Zona Sul. Sua mãe, Maria Isabel Bettencourt Müller, criada em Santa Teresa, compartilhava da mesma paixão pelas praias. Para o casal, fim de semana e férias tinham destino certo: areia, sol e mar. Foi assim que Pedro e o irmão, Guilherme, passaram a infância seguindo os pais para o meio da Barra ou para São Conrado, ainda de estradas de terra, sem prédios, calçadões ou qualquer urbanização. Nesse cenário quase intocado, Pedro foi se encantando pelas ondas. Lembra-se de observar alguns surfistas solitários no meio da Barra e sentir-se hipnotizado pela habilidade deles. O mar, desde cedo, era o lugar onde queria estar. Ele recorda também a rotina da infância: ia para as aulas de natação no Clube de Regatas Flamengo e, depois, caminhava até o judô, no Leblon, um trajeto longo para uma criança de 12 anos. Antes de entrar no tatame, sentava-se no calçadão para olhar o mar quebrando, entregue à mesma fascinação que o acompanharia por toda a vida. O mar lhe transmitia paz, calma e propósito. Ali, ainda menino, já entendia que queria se tornar surfista. A mudança para São Conrado, por volta dos 14 ou 15 anos, foi decisiva. Morando ao lado do Pepino, Müller muitas vezes cabulava a aula pra ir surfar. As ondas triangulares, rápidas e pesadas da região se transformaram no seu campo de treinamento permanente. Ali, guiado pela referência de Rony Lima e pela evolução proporcionada pelas pranchas dos shapers Rico e Pedro Battaglin, deu um salto técnico marcante. A “biquilha mágica” 5’4″ de Battaglin é lembrada até hoje como uma das grandes viradas em seu surfe, época em que adotou o apelido de “o Águia”, pela tatuagem no braço. Uma nova mudança, motivada pelo desemprego do pai, levou a família para a Barra. Para Müller, foi a oportunidade perfeita: entre o Postinho, o meio da Barra e o Quebra-Mar, encontrou três ondas consistentes e acessíveis a pé, permitindo treinos diários que aceleraram ainda mais sua evolução. Nessa fase, destacou-se nos campeonatos da ASBT – Associação de Surf da Barra da Tijuca – e entrou para a promissora equipe da Cristal Graffiti. Antes disso, havia vencido seu primeiro campeonato no Leblon, organizado por Marcelo Peninha, vitória que marcou sua confiança rumo ao profissionalismo. Os resultados na categoria Júnior renderam um prêmio decisivo: uma passagem para o Havaí. Aos 18 anos, Müller viveu sua primeira temporada no North Shore (1984/85), dividindo casa com surfistas brasileiros experientes. Pipeline, logo no primeiro dia, foi seu batismo de fogo: mar pesado, adrenalina no limite e a certeza de que o treino no Pepino o havia preparado para aquele cenário. De volta ao Brasil, enfrentou dificuldades para manter regularidade como profissional. A grande virada veio com o curso de meditação transcendental feito ao lado de Rodolfo Lima. O impacto competitivo foi imediato: venceu a etapa profissional do Quebra-Mar no circuito carioca, em 1986, e passou a frequentar pódios de forma consistente. A regularidade, marca registrada de sua carreira, nasceu ali. Em 1987, tornou-se vice-campeão do primeiro Circuito Brasileiro de Surf Profissional. Liderou boa parte da temporada, foi vice-campeão na etapa da Lightning Bolt e, depois, campeão no Fico Festival. Só perdeu o título na penúltima bateria do Circuito, por apenas 20 pontos, uma diferença mínima para quem tinha 850 pontos de vantagem sobre o terceiro colocado. Na época, era visto como o surfista mais consciente e estratégico do país. Nos anos seguintes, acumulou resultados expressivos: vitórias importantes na Abrasp e uma vitória significativa no QS de Florianópolis, superando Barton Lynch, Jojó e Julio Adler. Em 1995, viria um dos grandes destaques internacionais de sua carreira: o nono lugar em Pipeline, substituindo de última hora o australiano Damien Hardman. Ondas entre 10 e 15 pés confirmaram sua capacidade técnica em um dos palcos mais desafiadores do mundo. Pedro Müller seguiria competindo por mais de duas décadas. Em Ubatuba, já aos 38 anos, conquistou sua última vitória no Circuito Super Surf 2004, num dos triunfos mais marcantes de sua trajetória. Hoje, vive do surfe como treinador, comentarista da Sportv e um dos proprietários da @escola_pedromuller, na Barra da Tijuca, administrada pelo sócio Adelmo Noite. Acompanhe ns publicações nas redes sociais @museudosurfesantos. Coordenador de pesquisas históricas do surfe @diniziozzi, o Pardhal.

Como uma prancha largamente usada por surfistas fora do circuito mundial profissional pode ganhar atenção? Coloque a dita cuja nos pés de um bicampeão mundial. Quer um destaque ainda maior? Filipe Toledo vence o tricampeão Gabriel Medina. Pronto. Vamos por partes. Na etapa do Championship Tour, na Nova Zelândia (Maio 2023), Filipe acabou não vencendo a disputa da quarta de final contra Griffin Colapinto, mesmo obtendo a melhor nota da bateria. Faltou uma onda. Mas o assunto aqui é outro, ou quase. Em um universo dominado por triquilhas, desde 1981, a diversidade de pranchas, no século 21, começou a ganhar espaço fora das competições. No meio de antigas novidades, biquilhas com trailer fin (estabilizador central) se mostraram mais controláveis e amistosas, levando muita gente a adotá-las no quiver. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Filipe Toledo (@filipetoledo) O modelo de biquilha com estabilizador central já havia sido testado mas ganhou vida nova em 2003, com as Super Twins do shaper, tetracampeão mundial (79, 80, 81 e 82), Mark Richards. Ele trouxe de volta suas Twin Fins do início dos anos 80, adicionando uma “quilhinha” central. Daí, de repente, Filipe Toledo coloca no jogo do circuito mundial o modelo Modern 2, da Sharp Eye Surfboards. Vence Gabriel Medina nas esquerdas de Raglan e deixa muito mais gente antenada sobre as possibilidades de uma twin com trailer fin. Filipe não foi o primeiro a fazer algo que eu esperava há tempos. Kelly Slater inovou, diminuindo o tamanho das pranchas e competindo, em algumas situações, com o que eram mais bi do que triquilhas, na primeira década do século 21. Dane Reynolds também fez isso, mas vamos combinar que esses dois não são parâmetros de surf normal. Deivid Silva também ousou. Abiquilhou-se numa etapa. Mandou bem, mas não chamou tanta atenção. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Sharp Eye Surfboards (@sharpeyesurfboards_au) Quando se trata de altíssima performance pesa sempre o fato dos atletas da elite não terem muito tempo para experiências fora da casinha das triquilhas. Mas, pela primeira vez, Filipe, além de seu ano sabático, em 2024, teve, como todos os Tops, os mesmos raros sete meses de folga antes da temporada 2026. Isso parece ter criado espaço para lidar com pranchas diferentes, memória física e jogo mental para se arriscar com um equipamento não muito convencional na Nova Zelândia. Sim, pranchas realmente diferentes pedem ajustes na maneira de usá-las e isso requer tempo e, claro, talento. Duas coisas chamaram a minha atenção. Impressionante como podemos e devemos comparar os melhores do surf competitivo profissional com pilotos da Fórmula 1. É com eles que a indústria das pranchas evolui mais e melhor. Detalhes sutis, milimétricos, que essa turma sente no funcionamento de uma prancha podem ser incorporados aos modelos que a maioria dos surfistas não conseguiria detectar ou explicar. Eles dão o caminho do que será usado pelos consumidores “normais”. Shapers são mais teoria, estudo. Tops são prática. As mudanças surgem daí. Segunda, e mais curiosa. Um esporte que durante tanto tempo teve uma aura de vanguarda e ousadia leva muito tempo para propor ou acertar mudanças mais drásticas, seja na construção ou desenvolvimento de design. Não creio que seja culpa dos fabricantes, já que essa indústria nunca gerou dinheiro suficiente para que se desenvolvesse como deveria. Ainda por cima a competição tem um formato onde há pouco espaço para o diferente quanto à performance. Mas isso é conversa para outro texto. Por agora fica a dica. Mesmo ideias estranhas à normalidade podem resultar em bons resultados. Teste tudo que é prancha que você puder. Não tenha medo, você não depende de notas dos juízes para ser feliz.