Surf Brasil Master 2026

Campeões festejam em Sergipe

Fábio Gouveia, Edvan Silva e Tady vencem a primeira etapa do Surf Brasil Master 2026 disputada na Praia dos Náufragos, em Sergipe.
Surf Brasil Master 2026, Praia dos Náufragos, Aracaju (SE)

O paraibano Fábio Gouveia, o cearense Edvan Silva e o sergipano Tady, venceram a primeira etapa do Surf Brasil Master e largaram na frente da corrida pelos primeiros títulos brasileiros da temporada 2026 em Sergipe. Na categoria dos surfistas com 40 anos, Edvan foi campeão invicto na Praia dos Náufragos. Na dos 50 anos, Fabinho iniciou a busca do bicampeonato brasileiro e na dos 60 anos, Tady repetiu a vitória em Sergipe no ano passado. A primeira das três etapas em Aracaju, terminou na segunda-feira (20) e a segunda já começa nesta terça-feira (21), ao vivo pelo Canal Woohoo e pelo Surf Brasil TV no YouTube, que pode ser acessado no site SurfBrasil.org.br.

“Foi uma história muito longa pra chegar até aqui. Meus alunos (da sua escolinha de surf em Fortaleza) que compraram minha passagem, ganhei uma prancha pra sortear, minha esposa me incentivou a vir e estou muito feliz que deu tudo certo”, contou Edvan Silva. “A pousada que eu estou, do Tady e do filho dele, tem uma vibe surreal da galera lá. O Neco (Padaratz) tá lá, o cara tem uma história incrível e só passa mais garra pra gente. Estou feliz de ter dado meu máximo em todas as baterias e agradeço a todos que me ajudaram, minha família, meus alunos, é muita gente e obrigado a todos. Eu consegui galera, fui campeão e tem mais duas etapas pra acontecer, então vamos lá seguir nesse ritmo”.

Fábio Gouveia também era só alegria pela terceira vitória consecutiva no Circuito Brasileiro Master desde o ano passado: “É mais um troféu pra estante, mas realmente não é fácil. Eu tenho treinado bastante, mas por mais que você fique ativo, aqui foi bem difícil. Hoje fui agraciado com boas ondas nas baterias, só que não é fácil, porque tem muita gente surfando bem. Os 60+ nos empolgam, os 40+ nos dá aquela instiga, então nós queremos andar bem também. A galera toda tá arrebentando, isso mostra o gás que os surfistas masters estão e a gente serve de exemplo pra geração que está aí arrebentando no Circuito Mundial agora”.

O sergipano Tady também festejou o bicampeonato em casa, sendo carregado pelo filho e pela torcida até a arena do Surf Brasil Master na Praia dos Náufragos: “É coisa de Deus! É muito importante esse título, você sabe que defender um título é muito complicado e eu era a bola da vez, porque ganhei no ano passado. Mas no final deu certo, graças a Deus. Eu fico sem palavras, já são 4 anos de etapas do Master aqui em Sergipe e só tenho que agradecer a todos que fazem esse evento acontecer, agradecer meus amigos e ver essa galera toda torcendo por mim, é complicado e todas as vezes eu choro de emoção (em lágrimas)”.

Importante destacar que os campeões brasileiros nas três categorias, garantem vagas para representar o país no Mundial Master da International Surfing Association (ISA) em 2027. O título da categoria 40+ foi o primeiro a ser decidido na segunda-feira de boas ondas na Praia dos Náufragos e Edvan Silva foi o único surfista a vencer todas as baterias que disputou no Surf Brasil Master 2026. Desde quando derrotou o ídolo Neco Padaratz e o campeão mundial Master, Diego Rosa, na primeira bateria do campeonato no sábado, até a decisão contra o baiano Flavio Costa (2.o lugar) e os cearenses Felipe Martins (3.o) e o atual campeão brasileiro 40+, Marcio Farney (4.o), quando garantiu o prêmio máximo de 5.500 Reais da vitória.

Campeão invicto e recordista absoluto do Surf Brasil Master – Além de ter sido o único invicto na primeira etapa do Surf Brasil Master 2026 em Aracaju, ganhando todas as cinco baterias que disputou, Edvan Silva também se tornou o recordista absoluto nas ondas da Praia dos Náufragos. Na semifinal 100% cearense contra Felipe Martins, Itim Silva e Isaias Silva, o campeão deu um show surfando de frontside nas direitas e de backside nas esquerdas. Edvan fez o maior placar do campeonato, 15,36 pontos, somando também a maior nota de todo o evento, 8,83. Só ele conseguiu superar as marcas do potiguar José Junior no domingo, nota 8,50 e 13,83 pontos.

O surfista de Baía Formosa, José Junior, tinha vencido a etapa sergipana do Circuito Brasileiro Master do ano passado na Praia de Abaís, na cidade de Estância. O defensor do título acabou barrado na segunda semifinal, por dois surfistas que já têm título de campeão brasileiro 40+ no currículo, o cearense Marcio Farney que venceu no ano passado e o baiano Flavio Costa em 2023. José Junior ficou em quinto lugar nessa primeira etapa do Surf Brasil Master 2026, seguido pelos três cearenses que também perderam nas semifinais, Itim Silva em sexto lugar, Isaias Silva em sétimo e Angelino Santos em oitavo.

Surf Brasil promove o circuito nacional master mais rico do mundo – Todos os finalistas e semifinalistas recebem parte da premiação de 50.000 Reais, dividida em cada uma das três etapas do Surf Brasil Master em Sergipe. Uma das metas da gestão Teco Padaratz, desde que foi eleito presidente da Confederação Brasileira de Surf pela primeira vez em 2022, era resgatar e valorizar a rica história do surf brasileiro, voltando a promover competições para os ídolos que pavimentaram o caminho para o Brasil ser hoje a maior potência do esporte no mundo. Em nenhum outro país do planeta, existe um circuito nacional da categoria Master com os valores da premiação oferecida pela Surf Brasil.

Em cada uma das três etapas realizadas em nove dias neste novo formato que está sendo inaugurado na capital de Sergipe, o campeão das categorias 40+, 50+ e 60+, recebem o mesmo prêmio de 5.500 Reais. Os vice-campeões ganham R$ 3.000, os terceiros colocados nas finais levam R$ 2.500 e os quartos ficam com R$ 1.500. Quem perde nas semifinais, também é premiado com R$ 1.160 para os terceiros colocados nas baterias e R$ 673,33 para quem termina em quarto lugar. Todos os competidores marcam pontos conforme suas posições, que são computados nos rankings que definirão os campeões brasileiros.

Ídolos do circuito mundial protagonistas na decisão do título 50+ – Na categoria 50+, os protagonistas do Surf Brasil Master foram os dois maiores nomes do país no Circuito Mundial de Surf Profissional, antes dessa geração Brazilian Storm. Fábio Gouveia foi o quinto colocado no ranking do CT em 1992 e Victor Ribas o terceiro melhor do mundo em 1999, melhor posição do Brasil antes do primeiro título mundial do Gabriel Medina em 2014. Fabinho conquistou o seu segundo troféu de campeão brasileiro Master no ano passado, vencendo as duas últimas etapas em Santa Catarina. Já Vitinho vinha de duas vitórias em Sergipe, em 2023 em Itaporanga D´Ajuda e no ano passado em Estância.

Fábio Gouveia largou na frente com nota 5,33 na sua primeira onda e liquidou seus adversários na segunda que surfou e valeu 6,67. Os 12,00 pontos das duas primeiras ondas, acabaram confirmando a sua terceira vitória consecutiva no Circuito Brasileiro Master, repetindo os feitos conseguidos no ano passado em Itapoá e Navegantes. Victor Ribas terminou em segundo lugar com 9,50 pontos, com o alagoano Gilberto Araújo em terceiro com 7,43 e o potiguar João Maria em quarto com 7,33 pontos nas duas notas computadas.

Tady faz a festa em casa com o bicampeonato na categoria 60+ – A decisão do título 60+ fechou a primeira etapa do Surf Brasil Master e foi a que atraiu mais atenção da torcida que compareceu na Praia dos Náufragos na segunda-feira. Isso porque nela estava o único surfista de Sergipe a chegar na final em Aracaju e Tady conseguiu se classificar com a última vaga, passando em segundo lugar na semifinal vencida pelo cearense Cardoso Junior. Era a chance que precisava para tentar o bicampeonato em casa, repetir a vitória conquistada no Abaís Surf Festival do ano passado em Estância.

Tady teria que superar três surfistas estreantes na categoria, que completaram 60 anos de idade em dezembro do ano passado, o cearense Cardoso Junior e os paulistas Edson Vieira e William Diegues. O carismático sergipano não começou bem, mas logo achou uma esquerda boa, que abriu a parede para combinar cinco batidas e rasgadas de frontside, executadas com pressão e velocidade. Os juízes deram nota 6,67 e a onda seguinte foi boa também, uma direita para mostrar a força do seu backside, com quatro manobras que receberam 5,33.

Curiosamente, as duas notas foram exatamente iguais as do Fábio Gouveia na final 50+ e também garantiram a vitória e o bicampeonato do Tady por 12,00 pontos. Em segundo lugar ficou Edson Vieira com 7,73 pontos, em terceiro Cardoso Junior com 7,50 e em quarto William Diegues com 6,33 pontos nas duas notas. Nesta terça-feira já começa a segunda etapa do Surf Brasil Master 2026, com Tady defendendo a liderança do ranking com os 1.000 pontos da vitória na segunda-feira. Os três resultados serão computados para definir os campeões brasileiros de 2026, que vão disputar o Mundial Master da ISA em 2027.

O Surf Brasil Master 2026 é mais uma realização de Surf Brasil e conta com patrocínio da Prefeitura de Aracaju pela Secretaria Municipal da Juventude e do Esporte (SEJESP) e do Governo do Estado de Sergipe através da Secretaria do Esporte e Lazer. O evento tem a Federação Sergipana de Surf (FSS) como parceira na organização e co-patrocínios e apoios de JISK, Arcus Hotel by Atlantica, Rei Beach Lounge Bar, Surfland Garopaba, Só Coco, Suntech e Brazilian Tiger Balm. A competição está sendo transmitida ao vivo pelo Canal Woohoo e pelo Surf Brasil TV no YouTube que pode ser acessado no site SurfBrasil.org.br.

Resultados da segunda-feira no Surf Brasil Master
(entre parênteses o estado que representa nas competições)

40+ Final

Campeão Edvan Silva (CE) por 11,53 pts (6,20+5,33) – R$ 5.500 e 1.000 pontos

2º lugar Flavio Costa (RJ) com 10,14 pts (6,67+3,47) – R$ 3.000 e 860 pontos

3º lugar Felipe Martins (CE) com 9,00 pts (4,77+4,23) – R$ 2.500 e 730 pontos

4º lugar Marcio Farney (SC) com 8,90 pts (4,63+4,27) – R$ 1.500 e 670 pontos

40+ Semifinais
3º=5º lugar (R$ 1.160 e 610 pts) e 4º=7º lugar (R$ 673,33 e 555 pts)

1 1-Edvan Silva (CE), 2-Felipe Martins (CE),3-Itim Silva (CE), 4-Isaias Silva (CE)

2 1-Marcio Farney (SC), 2-Flavio Costa (RJ), 3-José Junior (RN), 4-Angelino Santos (RJ)

40+ Quartas de final
3º=9º lugar (500 pts) e 4º=13º lugar (450 pts)

1 1-Edvan Silva (CE), 2-Flavio Costa (BA), 3-Adriano Lemos (SC), 4-Bruno Padilha (PB)

2 1-José Junior (RN), 2-Itim Silva (CE), 3-Rogerio Galvão (PE), 4-Gildeon Reis (SE)

3 1-Felipe Martins (CE), 2-Marcio Farney (SC), 3-Jeff Toco (SC), 4-Thiago de Sousa (CE)

4 1-Angelino Santos (CE), 2-Isaias Silva (CE), 3-Rogerio Dantas (CE), 4-Junior Rocha (RN)

50+ Final

Campeão Fabio Gouveia (PB) por 12,00 pts (6,67+5,33) – R$ 5.500 e 1.000 pontos

2º lugar Victor Ribas (RJ) com 9,50 pts (5,30+4,20) – R$ 3.000 e 860 pontos

3º lugar Gilberto Araujo (AL) com 7,43 pts (3,93+3,57) – R$ 2.500 e 730 pontos

4º lugar João Maria (RN) com 7,33 pts (3,90+3,43) – R$ 1.500 e 670 pontos

50+ Semifinais
3º=5º lugar (R$ 1.160 e 610 pts) e 4º=7º lugar (R$ 673,33 e 555 pts)

1 1-Fabio Gouveia (PB), 2-Victor Ribas (RJ), 3-Romeu Cruz (SE), 4-Rogerio Dantas (CE)

2 1-Gilberto Araujo (AL), 2-João Maria (RN), 3-Rodrigo Jorge (RN), 4-Marcelo Alves (BA)

50+ Quartas de final
3º=9º lugar (500 pts) e 4º=13º lugar (450 pts)

1 1-Victor Ribas (RJ), 2-Rodrigo Jorge (RN), 3-Edson Papagaio (SE), 4-Bruno Grilo (RN)

2 1-Gilberto Araujo (AL), 2-Romeu Cruz (SE), 3-Flavio Sukita (CE), 4-Crhistiano Spirro (BA)

3 1-Fabio Gouveia (PB), 2-João Maria (RN), 3-Roni Ronaldo (SC), 4-Fernando Conceição (PE)

4 1-Marcelo Alves (BA), 2-Rogerio Dantas (CE), 3-Ivan Medeiros (RN), 4-Paulo Germano (PB)

50+ Oitavas de final
3º=17º lugar (400 pts) e 4º=25º lugar (360 pts)

1 1-Victor Ribas (RJ), 2-Gilberto Araujo (AL), 3-Alvaro Bacana (SC), 4-Michell Silva (PE)

2 1-Crhistiano Spirro (BA), 2-Bruno Grilo (RN), 3-Esdras Santos (BA), 4-Fred Vilela (AL)

3 1-Edson Papagaio (SE), 2-Romeu Cruz (SE), 3-Alessandro Macedo (RN), 4-Ayrton Almeida (PE)

4 1-Flavio Sukita (CE), 2-Rodrigo Jorge (RN), 3-Mauricio Weyll (BA), 4-Cardoso Junior (CE)

5 1-Roni Ronaldo (SC), 2-Ivan Medeiros (PB), 3-Sergio Noronha (RJ), 4-Luciano Alemão (SC)

6 1-Marcelo Alves (BA), 2-Fabio Gouveia (PB), 3-Armando Maciel (SC), 4-Daniel Leça (RJ)

7 1-João Maria (RN), 2-Paulo Germano (PB), 3-Igor Mathey (SP), 4-Gildeon Reis (SE)

8 1-Rogerio Dantas (CE), 2-Fernando Conceição (PE), 3-Leonel Brizola (RJ), 4-Augusto Melo (SE)

60+ Final

Campeão Tady (SE) por 12,00 pontos (6,67+5,33) – R$ 5.500 e 1.000 pontos

2º lugar Edson Vieira (SP) com 7,73 pts (4,50+3,23) – R$ 3.000 e 860 pontos

3º lugar Cardoso Junior (CE) com 7,50 pts (3,77+3,73) – R$ 2.500 e 730 pontos

4º lugar William Diegues (SP) com 6,33 pts (3,33+3,00) – R$ 1.500 e 670 pontos

60+ Semifinais
3º=5º lugar (R$ 1.160 e 610 pts) e 4º=7º lugar (R$ 673,33 e 555 pts)

1 1-Edson Vieira (SP), 2-William Diegues (SP), 3-Claudio Marroquim (PE), 4-Zenato (RJ)

2 1-Cardoso Junior (CE), 2-Tady (SE), 3-Carlos Pereira (AL), 4-Jaime Farinha (PE)

60+ Quartas de final = Segunda fase
3º=9º lugar com 500 pontos

1 1-Edson Vieira (SP), 2-Tady (SE), 3-Rubens Farias (SC)

2 1-Jaime Farinha (PE), 2-Zenato (RJ), 3-Paulo Falcon (BA)

3 1-Claudio Marroquim (PE), 2-Carlos Pereira (AL), 3-Francisco Moura (RN)

4 1-Cardoso Junior (CE), 2-William Diegues (SP), 3-Walter Filho (RJ)

Enquanto alguns fotógrafos documentam a história, Fedoca Lima fez diferente: viveu dentro dela enquanto fotografava. Carioca do Posto 5, começou a surfar com 11 anos e a fotografar quase ao mesmo tempo, com uma máquina fotográfica alemã do pai. Aos 14, registrou a Rainha Elizabeth passando de Rolls-Royce aberto pela orla de Copacabana, em frente à casa do Assis Chateaubriand. No mesmo período, fotografou o Mick Jagger dando o dedo do meio no Copacabana Palace. Não era fotógrafo profissional. Era um moleque com olho bom e câmera na mão, sem perceber ainda o tamanho do que estava construindo. O que veio depois é história do surfe brasileiro. O Píer de Ipanema nos anos 70, quando o Rio era o centro do surfe nacional, com Daniel Friedmann, Pepê Lopes, Rico de Souza e Ricardo Bocão dominando o circuito. A Brasil Surf, primeira revista especializada do país, na qual Fedoca jogou em todas as posições: fotógrafo, redator e capa. O Havaí entre 1978 e 1981, surfando e fotografando ao lado de Gerry Lopez, Shaun Tomson e Michael Ho em Pipeline e Waimea. Os shows históricos, de Bob Marley ao ar livre no Havaí até Rolling Stones e Paul McCartney no Maracanã. “A foto que eu não tirei, essa me persegue.” Fedoca Lima Mais de cinquenta anos depois, esse arquivo vira livro. “Surf, Clicks e Rock’n Roll” tem 220 páginas, cerca de 180 fotografias e percorre a transformação do surfe brasileiro desde a era analógica até o digital, passando por Arpoador, Saquarema, Havaí, Califórnia e Macumba. Com captação aprovada de R$ 203 mil via incentivo cultural e apio da Fu Wax, o lançamento está previsto para o segundo semestre de 2026. Conversamos com Fedoca sobre tudo isso. Antes de se consolidar como fotógrafo, você também virou personagem da própria história do surfe brasileiro ao sair na capa da Brasil Surf em 1975. Como foi viver aquele momento por dentro? Saí na capa da Brasil Surf. Na época eu trabalhei na revista de março de 75 até janeiro de 79, só não peguei o primeiro número. Jogava todas as posições: saí na capa, escrevia, tirava foto, ajudava na redação, dava palpite, fazia matéria. Por muito tempo achei que era o único fotógrafo de surfe que tinha saído numa capa. Depois o Bruno Alves me falou que o irmão dele, o Alberto, saiu na capa da Fluir número 1. A história dele bate um pouco com a minha: ele pegava onda, saiu na capa, era fotógrafo. Mas durante anos eu achei que era caso único. Até hoje tem um restaurante aqui que o cara pediu, eu tirei uma foto com a revista na mão, ele botou na parede, eu assinei. A influência continua. A Brasil Surf ajudou a mudar a imagem do surfista no Brasil. Como era ser surfista naquela época, antes dessa mudança de percepção acontecer? O surfe saía no caderno B do Jornal do Brasil, do Globo. Não saía no esporte. E o surfista era tido como vagabundo de praia. Maconheiro. Isso, aliás, até hoje tem um pouco, mas na época tinha muito mais. A Brasil Surf não vou dizer que limpou essa imagem completamente, mas ajudou a transformar o surfe em esporte e também a fomentar o mercado de surfwear. Os irmãos Wady e Fuad Mansur, da loja Mansur, em Ipanema, foram dos primeiros anunciantes. Acreditaram na revista, fizeram anúncios de contracapa e página inteira, e as camisetas personalizadas vendidas pelo correio viraram um sucesso. A Brasil Surf acabou impulsionando fabricantes de pranchas, calções, parafinas e diversos outros anunciantes ligados ao surfe. Os fabricantes de prancha tinham um veículo para anunciar. Os fotógrafos ganhavam uma graninha, viajavam. Fui para a América Central, Porto Rico, Barbados, El Salvador, Fernando de Noronha, Peru, várias viagens bancadas pela Brasil Surf de uma forma ou de outra. O Nilton Barbosa foi ao Havaí duas vezes bancado pela revista. No caso dele, eles bancavam os filmes, ele vendia as fotos e a viagem se pagava. Tinha uma diferença entre mim e o Nilton nessa época: ele chegava na praia e ficava na areia fotografando, fotografando, fotografando. Eu chegava e ia para dentro da água. Se não estava o Daniel, não estava o Pepê, não estava o Cauli, não estava o Bocão, não estavam os caras top, eu entrava e surfava. Então tem foto minha na Brasil Surf publicada pelo Nilton Barbosa, pelo Rogério Ehrlich. Eu estava mais dentro da água do que fora. Eu estudava. Primeiro vestibular, depois faculdade. Boa parte dos meus amigos só queria saber de surfar. Eu dividia meu tempo. Chegava na praia, já tinha estudado de manhã, aí ficava naquele dilema: vou pegar onda ou vou fotografar? Por isso tem poucas fotos do Píer. Em três anos não tirei nem metade do que tiro hoje num dia bom na Macumba com o digital. Você viveu o Píer, a Brasil Surf, o Havaí dos anos 70, o nascimento do surfe brasileiro moderno. Em que momento percebeu que estava no meio de uma transformação cultural que iria muito além do esporte? O Píer foi o que fomentou o surfe no Rio de Janeiro. Por dez anos, foi domínio completo do Rio no cenário brasileiro. O Daniel Friedmann, em 77, foi o último carioca a vencer uma etapa do circuito internacional, ganhou no Quebra-Mar, em cima do Pepê Lopes, que tinha ganho em 76. Os dois de Ipanema, meus vizinhos de rua. E esse pessoal do Píer que dominou, o Daniel, o Pepê Lopes, o Cauli Rodrigues, e também o Otávio Pacheco, o Rico de Souza, o Ricardo Bocão. E tinha o Betão, que era o melhor surfista do Brasil na época mas não era competitivo, não corria atrás de patrocinador, acabou saindo cedo. Em 75 ele ganhou o Campeonato de Saquarema e foi saindo, saindo. O Píer influenciou a revista, influenciou os fabricantes de prancha, influenciou o modo de viver. Começaram a ter fábricas em Guaratiba, Vargem Grande, no Recreio, depois em Saquarema. As pessoas foram morar lá. O Penho foi, o Otávio comprou

O que define uma boa onda? Tamanho, força, parede, qualidade da linha, formação e surfabilidade, dentre outros elementos. No oceano, todos esses fatores mudam a cada swell, a cada vento, a cada maré. Em Búzios, a proposta é diferente: construir essas variáveis de forma controlada, repetível e ajustável. A piscina do Brasil Surfe Clube Aretê Búzios opera com a tecnologia Endless Surf, do grupo canadense WhiteWater, com 48 câmaras de ar de alta precisão. O sistema permite criar configurações distintas dentro da mesma estrutura. Dentro de um universo de grandes possibilidades, as cinco primeiras ondas já foram nomeadas e reveladas, cada uma com perfil próprio, e muito mais ainda está por vir. Onda #01: Pointbreak + Junção Linha longa, seções conectadas, tempo de onda que pode ultrapassar 25 segundos. A junção encadeia diferentes partes da onda sem perder velocidade, criando uma das experiências mais difíceis de encontrar no oceano com consistência. Para quem quer mais de 10 manobras na mesma onda ou simplesmente mais tempo de linha para ler e decidir. Onda #02: Manobras + Bowl A parede fica mais íngreme. O bowl abre seções críticas para manobras verticais e aéreos. É o ambiente para quem quer empurrar os limites do que consegue fazer sobre a prancha, com repetição suficiente para transformar cada tentativa em aprendizado real. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Onda #03: Rampa + Tubo Uma onda que combina duas experiências na mesma seção. A rampa prepara o surfista para a manobra e o tubo roda na sequência. Para quem quer encaixar um aéreo e ainda sair do tubo na mesma onda, essa configuração entrega os dois elementos sem precisar escolher. Onda #04: Rampa Nível Intermediário Parede consistente, menor intensidade, mais previsível. A configuração certa para quem está desenvolvendo manobras progressivas e precisa de repetição para consolidar o que está aprendendo. A seção cria a rampa no ângulo certo, com velocidade suficiente para executar sem exigir o nível avançado. Onda #05: Rampa Nível Avançado Mais potência, mais velocidade, mais projeção. A rampa avançada é para quem já chegou em Búzios com manobras no repertório e quer testá-las com pressão real. Com capacidade para gerar até 700 ondas por hora, o intervalo entre uma tentativa e outra é curto o suficiente para transformar cada sessão em treino de alto rendimento. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Para todos os níveis As cinco configurações cobrem desde quem está aprendendo até quem treina em alto rendimento. A piscina ainda opera em dois modos: single peak, com ondas quebrando para um lado e maior extensão de linha, e split peak, com direitas e esquerdas simultâneas, permitindo que surfistas compartilhem a mesma série em direções opostas. Yago Dora, campeão mundial de surfe em 2025, Victor Bernardo, um dos maiores freesurfers da atualidade, e Michelle des Bouillons, referência mundial em ondas gigantes, integram o time do BSC e já testaram a tecnologia na piscina Adrena Red Sea, na Arábia Saudita. “Muito animal esse lance de ter essa variedade de onda também. Um leque de ondas absurdo. Mal posso esperar para Búzios”, disse Victor Bernardo após a sessão. A versão de Búzios será maior: 48 câmaras contra 36 da estrutura do Mar Vermelho, com 13 mil metros quadrados de lâmina d’água. Variedade de ondas para testar, arriscar, aprender e evoluir todos os dias. Com inauguração prevista para o segundo semestre de 2026, é o que o Brasil Surfe Clube Aretê Búzios chega para entregar.

Pedro Bettencourt Müller nasceu no Rio de Janeiro, no dia 21 de julho de 1966, num ambiente familiar que respirava praia. Seu pai, Guilherme Xavier de Brito Müller, economista e morador do Leblon, cresceu frequentando a Zona Sul. Sua mãe, Maria Isabel Bettencourt Müller, criada em Santa Teresa, compartilhava da mesma paixão pelas praias. Para o casal, fim de semana e férias tinham destino certo: areia, sol e mar. Foi assim que Pedro e o irmão, Guilherme, passaram a infância seguindo os pais para o meio da Barra ou para São Conrado, ainda de estradas de terra, sem prédios, calçadões ou qualquer urbanização. Nesse cenário quase intocado, Pedro foi se encantando pelas ondas. Lembra-se de observar alguns surfistas solitários no meio da Barra e sentir-se hipnotizado pela habilidade deles. O mar, desde cedo, era o lugar onde queria estar. Ele recorda também a rotina da infância: ia para as aulas de natação no Clube de Regatas Flamengo e, depois, caminhava até o judô, no Leblon, um trajeto longo para uma criança de 12 anos. Antes de entrar no tatame, sentava-se no calçadão para olhar o mar quebrando, entregue à mesma fascinação que o acompanharia por toda a vida. O mar lhe transmitia paz, calma e propósito. Ali, ainda menino, já entendia que queria se tornar surfista. A mudança para São Conrado, por volta dos 14 ou 15 anos, foi decisiva. Morando ao lado do Pepino, Müller muitas vezes cabulava a aula pra ir surfar. As ondas triangulares, rápidas e pesadas da região se transformaram no seu campo de treinamento permanente. Ali, guiado pela referência de Rony Lima e pela evolução proporcionada pelas pranchas dos shapers Rico e Pedro Battaglin, deu um salto técnico marcante. A “biquilha mágica” 5’4″ de Battaglin é lembrada até hoje como uma das grandes viradas em seu surfe, época em que adotou o apelido de “o Águia”, pela tatuagem no braço. Uma nova mudança, motivada pelo desemprego do pai, levou a família para a Barra. Para Müller, foi a oportunidade perfeita: entre o Postinho, o meio da Barra e o Quebra-Mar, encontrou três ondas consistentes e acessíveis a pé, permitindo treinos diários que aceleraram ainda mais sua evolução. Nessa fase, destacou-se nos campeonatos da ASBT – Associação de Surf da Barra da Tijuca – e entrou para a promissora equipe da Cristal Graffiti. Antes disso, havia vencido seu primeiro campeonato no Leblon, organizado por Marcelo Peninha, vitória que marcou sua confiança rumo ao profissionalismo. Os resultados na categoria Júnior renderam um prêmio decisivo: uma passagem para o Havaí. Aos 18 anos, Müller viveu sua primeira temporada no North Shore (1984/85), dividindo casa com surfistas brasileiros experientes. Pipeline, logo no primeiro dia, foi seu batismo de fogo: mar pesado, adrenalina no limite e a certeza de que o treino no Pepino o havia preparado para aquele cenário. De volta ao Brasil, enfrentou dificuldades para manter regularidade como profissional. A grande virada veio com o curso de meditação transcendental feito ao lado de Rodolfo Lima. O impacto competitivo foi imediato: venceu a etapa profissional do Quebra-Mar no circuito carioca, em 1986, e passou a frequentar pódios de forma consistente. A regularidade, marca registrada de sua carreira, nasceu ali. Em 1987, tornou-se vice-campeão do primeiro Circuito Brasileiro de Surf Profissional. Liderou boa parte da temporada, foi vice-campeão na etapa da Lightning Bolt e, depois, campeão no Fico Festival. Só perdeu o título na penúltima bateria do Circuito, por apenas 20 pontos, uma diferença mínima para quem tinha 850 pontos de vantagem sobre o terceiro colocado. Na época, era visto como o surfista mais consciente e estratégico do país. Nos anos seguintes, acumulou resultados expressivos: vitórias importantes na Abrasp e uma vitória significativa no QS de Florianópolis, superando Barton Lynch, Jojó e Julio Adler. Em 1995, viria um dos grandes destaques internacionais de sua carreira: o nono lugar em Pipeline, substituindo de última hora o australiano Damien Hardman. Ondas entre 10 e 15 pés confirmaram sua capacidade técnica em um dos palcos mais desafiadores do mundo. Pedro Müller seguiria competindo por mais de duas décadas. Em Ubatuba, já aos 38 anos, conquistou sua última vitória no Circuito Super Surf 2004, num dos triunfos mais marcantes de sua trajetória. Hoje, vive do surfe como treinador, comentarista da Sportv e um dos proprietários da @escola_pedromuller, na Barra da Tijuca, administrada pelo sócio Adelmo Noite. Acompanhe ns publicações nas redes sociais @museudosurfesantos. Coordenador de pesquisas históricas do surfe @diniziozzi, o Pardhal.

Como uma prancha largamente usada por surfistas fora do circuito mundial profissional pode ganhar atenção? Coloque a dita cuja nos pés de um bicampeão mundial. Quer um destaque ainda maior? Filipe Toledo vence o tricampeão Gabriel Medina. Pronto. Vamos por partes. Na etapa do Championship Tour, na Nova Zelândia (Maio 2023), Filipe acabou não vencendo a disputa da quarta de final contra Griffin Colapinto, mesmo obtendo a melhor nota da bateria. Faltou uma onda. Mas o assunto aqui é outro, ou quase. Em um universo dominado por triquilhas, desde 1981, a diversidade de pranchas, no século 21, começou a ganhar espaço fora das competições. No meio de antigas novidades, biquilhas com trailer fin (estabilizador central) se mostraram mais controláveis e amistosas, levando muita gente a adotá-las no quiver. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Filipe Toledo (@filipetoledo) O modelo de biquilha com estabilizador central já havia sido testado mas ganhou vida nova em 2003, com as Super Twins do shaper, tetracampeão mundial (79, 80, 81 e 82), Mark Richards. Ele trouxe de volta suas Twin Fins do início dos anos 80, adicionando uma “quilhinha” central. Daí, de repente, Filipe Toledo coloca no jogo do circuito mundial o modelo Modern 2, da Sharp Eye Surfboards. Vence Gabriel Medina nas esquerdas de Raglan e deixa muito mais gente antenada sobre as possibilidades de uma twin com trailer fin. Filipe não foi o primeiro a fazer algo que eu esperava há tempos. Kelly Slater inovou, diminuindo o tamanho das pranchas e competindo, em algumas situações, com o que eram mais bi do que triquilhas, na primeira década do século 21. Dane Reynolds também fez isso, mas vamos combinar que esses dois não são parâmetros de surf normal. Deivid Silva também ousou. Abiquilhou-se numa etapa. Mandou bem, mas não chamou tanta atenção. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Sharp Eye Surfboards (@sharpeyesurfboards_au) Quando se trata de altíssima performance pesa sempre o fato dos atletas da elite não terem muito tempo para experiências fora da casinha das triquilhas. Mas, pela primeira vez, Filipe, além de seu ano sabático, em 2024, teve, como todos os Tops, os mesmos raros sete meses de folga antes da temporada 2026. Isso parece ter criado espaço para lidar com pranchas diferentes, memória física e jogo mental para se arriscar com um equipamento não muito convencional na Nova Zelândia. Sim, pranchas realmente diferentes pedem ajustes na maneira de usá-las e isso requer tempo e, claro, talento. Duas coisas chamaram a minha atenção. Impressionante como podemos e devemos comparar os melhores do surf competitivo profissional com pilotos da Fórmula 1. É com eles que a indústria das pranchas evolui mais e melhor. Detalhes sutis, milimétricos, que essa turma sente no funcionamento de uma prancha podem ser incorporados aos modelos que a maioria dos surfistas não conseguiria detectar ou explicar. Eles dão o caminho do que será usado pelos consumidores “normais”. Shapers são mais teoria, estudo. Tops são prática. As mudanças surgem daí. Segunda, e mais curiosa. Um esporte que durante tanto tempo teve uma aura de vanguarda e ousadia leva muito tempo para propor ou acertar mudanças mais drásticas, seja na construção ou desenvolvimento de design. Não creio que seja culpa dos fabricantes, já que essa indústria nunca gerou dinheiro suficiente para que se desenvolvesse como deveria. Ainda por cima a competição tem um formato onde há pouco espaço para o diferente quanto à performance. Mas isso é conversa para outro texto. Por agora fica a dica. Mesmo ideias estranhas à normalidade podem resultar em bons resultados. Teste tudo que é prancha que você puder. Não tenha medo, você não depende de notas dos juízes para ser feliz.