Dream Tour 2025

Começo avassalador

Aéreos e notas excelentes marcam primeiro dia da etapa de abertura do Dream Tour 2025, que rola nas ondas da Praia do Borete, Porto de Galinhas (PE).

O Dream Tour 2025 começou na última terça-feira (13) apresentando, logo de cara, o alto nível da elite do surfe brasileiro. A Praia do Borete, em Porto de Galinhas (PE), recebeu 15 das 16 baterias da Fase 1 Masculino, em um dia de confrontos equilibrados e excelente aproveitamento das condições para manobras aéreas — o grande destaque do dia.

Todas as baterias tiveram 30 minutos de duração, com os vencedores avançando direto para a Fase 3, enquanto os segundos e terceiros colocados seguirão para a repescagem. O vento favoreceu a execução de aviões nas ondas para a esquerda, que rendeu quatro notas excelentes já na estreia.

O Dream Tour, realizado pela CBSurf e promovido pela Dream Factory , tem Corona Cero como patrocinadora master unido aos patrocínios da Gerdau e Prefeitura de Ipojuca.

Mateus Sena vence bateria contra atual campeão brasileiro

A estreia de Douglas Silva como campeão brasileiro foi cercada de expectativa. Natural de Ipojuca (PE), Dodô competiu em casa, diante da torcida, no mesmo pico onde iniciou sua campanha vitoriosa em 2024. A bateria 9 colocou no seu caminho o potiguar Mateus Sena, velho conhecido de outros confrontos ao longo da carreira. O cenário foi armado para um dos momentos mais esperados do dia — e a disputa entregou o que prometia.

As condições do dia favoreciam o espetáculo: tanto Dodô quanto Mateus surfam são patetas, ou seja, surfam de frente pra esquerda, e são especialistas em aéreos. O debate logo se transformou em uma sequência de manobras progressivas.

Dodô chegou a virar a bateria com uma nota alta, mas Mateus mostrou confiança e leitura do momento. Apostou nos aviões, como havia planejado, e encaixou um avião com quase uma rotação completa, que foi decisivo para garantir a virada e a vitória com 12.06 pontos, contra 11.20 do pernambucano.

“Foi animal competir com ele. A gente começou junto, e agora estar numa bateria com o Dodô como campeão brasileiro, num circuito desse tamanho, é diferente. Sabia que seria muito disputado. Dessa vez deu certo pra mim, mas tenho certeza que ele vai vir forte na repescagem”, afirma Mateus.

O terceiro colocado foi Gabriel André (SP), convidado do evento, que teve uma boa nota 5, mas não conseguiu encontrar a consistência necessária para avançar.

Luan Ferreyra repesenta Pernambuco

Representando Porto de Galinhas, Luan Ferreyra, de apenas 18 anos, fez a festa da torcida da casa ao vencer a terceira bateria do dia com um dos maiores somatórios do evento até agora: 14.27 pontos. A disputa foi considerada uma das mais fortes do dia, especialmente pelo alto desempenho também do segundo colocado, Cauã Costa (RJ), que somou 13.36 pontos e, mesmo com esse resultado expressivo, não avançou direto.

A bateria foi a única do dia com duas notas excelentes. Cauã Costa arrancou 8.03 pontos com uma rotação completa de backside, impressionando pela técnica apurada na execução do ar, mesmo em uma onda de menor tamanho. Luan Ferreyra respondeu com 8.17, numa manobra de muita amplitude, com rotações quase completas e uma aterrissagem limpa no seco, à frente da espuma.

Após a vitória, Luan comemorou o momento especial. “Estou amarrado. Sabia que ia ser uma bateria muito, então entrei pra soltar todas as cartas. A maré tava seca, que é uma condição que eu gosto muito — treino bastante aqui nessa maré. Tava confiante na minha prancha difícil, nas manobras, e graças a Deus consegui pegar a onda certa e fazer o que venho treinando”.

O surfista também relembrou sua participação no ano anterior e projetou mais. “Ano passado fiz boas baterias aqui, mas acabei cruzando com o Dodô nas oitavas, num dia em que ele tava muito inspirado. Esse ano caímos em chaves diferentes e já conversamos que queremos nos encontrar na final. Se Deus quiser, vai dar certo”.

O terceiro colocado foi Vitor Ferreira (RJ), que também apresentou um bom nível de surfe, mas não encontrou notas suficientes para ultrapassar os dois líderes da bateria.

Mormaii premia destaques do dia com maior somatório e maior nota

A Mormaii, parceira da CBSurf e apoiadora da etapa, promoveu duas ativações especiais durante o dia: o Mormaii Somatório, que premiou com um óculos Mormaii o atleta que fez o maior somatório do dia, e o Mormaii Highscore, que entregou um relógio Mormaii ao autor da maior nota.

Tudo se encaminhava para que Luan Ferreyra encerrasse o dia com o somatório maior e Adauto Sena levasse a nota maior (8.33), conquistada com um full rodízio. Mas na penúltima bateria do dia, Marcos Corrêa entrou em cena e mudou o panorama. Conectado com as ondas da Praia do Borete, ele marcou 14.67 pontos , incluindo um aéreo capotado em uma sessão crítica da onda que lhe rendeu 8.67, garantindo os dois prêmios da ativação no primeiro dia. Assim como Adauto, Marcos também foi terceiro colocado nesta mesma etapa em 2024, e começou 2025 repetindo as grandes performances.

“É uma onda que combina comigo. Consigo encaixar bem meu surfe aqui. Tava gripado semana passada, mas me recuperei o tempo e entrei confiante. Essa manobra é uma das minhas armas, meu treinador fala isso sempre. Foi um reverso capotado com muita projeção no buraco de uma onda da série, e os juízes valorizam isso”, afirma Marcos.

Estreia do Feminino nesta quarta (14)

O segundo dia conta com estreia do Feminino, com oito baterias de três competidoras, e depois a Repescagem Masculino (Fase 2), com oito baterias homem a homem. A previsão é de condições semelhantes às de terça-feira, com meio metro a um metro de onda, maré seca pela manhã e vento favorável para os aviões nas esquerdas.

O dia marcará também a estreia da campeã brasileira Juliana dos Santos, que declarou: “Estou chegando com os pés no chão, mas com a cabeça erguida, pronto pra encarar esse novo desafio. Sei que o nível tá altíssimo, mas me sinto preparado — tanto técnica quanto mentalmente. Tô focado e querendo dar o meu melhor em cada etapa. Quero usar essa nova fase pra continuar evoluindo como atleta e como pessoa também. Bora pra cima”.

Pedro Bettencourt Müller nasceu no Rio de Janeiro, no dia 21 de julho de 1966, num ambiente familiar que respirava praia. Seu pai, Guilherme Xavier de Brito Müller, economista e morador do Leblon, cresceu frequentando a Zona Sul. Sua mãe, Maria Isabel Bettencourt Müller, criada em Santa Teresa, compartilhava da mesma paixão pelas praias. Para o casal, fim de semana e férias tinham destino certo: areia, sol e mar. Foi assim que Pedro e o irmão, Guilherme, passaram a infância seguindo os pais para o meio da Barra ou para São Conrado, ainda de estradas de terra, sem prédios, calçadões ou qualquer urbanização. Nesse cenário quase intocado, Pedro foi se encantando pelas ondas. Lembra-se de observar alguns surfistas solitários no meio da Barra e sentir-se hipnotizado pela habilidade deles. O mar, desde cedo, era o lugar onde queria estar. Ele recorda também a rotina da infância: ia para as aulas de natação no Clube de Regatas Flamengo e, depois, caminhava até o judô, no Leblon, um trajeto longo para uma criança de 12 anos. Antes de entrar no tatame, sentava-se no calçadão para olhar o mar quebrando, entregue à mesma fascinação que o acompanharia por toda a vida. O mar lhe transmitia paz, calma e propósito. Ali, ainda menino, já entendia que queria se tornar surfista. A mudança para São Conrado, por volta dos 14 ou 15 anos, foi decisiva. Morando ao lado do Pepino, Müller muitas vezes cabulava a aula pra ir surfar. As ondas triangulares, rápidas e pesadas da região se transformaram no seu campo de treinamento permanente. Ali, guiado pela referência de Rony Lima e pela evolução proporcionada pelas pranchas dos shapers Rico e Pedro Battaglin, deu um salto técnico marcante. A “biquilha mágica” 5’4″ de Battaglin é lembrada até hoje como uma das grandes viradas em seu surfe, época em que adotou o apelido de “o Águia”, pela tatuagem no braço. Uma nova mudança, motivada pelo desemprego do pai, levou a família para a Barra. Para Müller, foi a oportunidade perfeita: entre o Postinho, o meio da Barra e o Quebra-Mar, encontrou três ondas consistentes e acessíveis a pé, permitindo treinos diários que aceleraram ainda mais sua evolução. Nessa fase, destacou-se nos campeonatos da ASBT – Associação de Surf da Barra da Tijuca – e entrou para a promissora equipe da Cristal Graffiti. Antes disso, havia vencido seu primeiro campeonato no Leblon, organizado por Marcelo Peninha, vitória que marcou sua confiança rumo ao profissionalismo. Os resultados na categoria Júnior renderam um prêmio decisivo: uma passagem para o Havaí. Aos 18 anos, Müller viveu sua primeira temporada no North Shore (1984/85), dividindo casa com surfistas brasileiros experientes. Pipeline, logo no primeiro dia, foi seu batismo de fogo: mar pesado, adrenalina no limite e a certeza de que o treino no Pepino o havia preparado para aquele cenário. De volta ao Brasil, enfrentou dificuldades para manter regularidade como profissional. A grande virada veio com o curso de meditação transcendental feito ao lado de Rodolfo Lima. O impacto competitivo foi imediato: venceu a etapa profissional do Quebra-Mar no circuito carioca, em 1986, e passou a frequentar pódios de forma consistente. A regularidade, marca registrada de sua carreira, nasceu ali. Em 1987, tornou-se vice-campeão do primeiro Circuito Brasileiro de Surf Profissional. Liderou boa parte da temporada, foi vice-campeão na etapa da Lightning Bolt e, depois, campeão no Fico Festival. Só perdeu o título na penúltima bateria do Circuito, por apenas 20 pontos, uma diferença mínima para quem tinha 850 pontos de vantagem sobre o terceiro colocado. Na época, era visto como o surfista mais consciente e estratégico do país. Nos anos seguintes, acumulou resultados expressivos: vitórias importantes na Abrasp e uma vitória significativa no QS de Florianópolis, superando Barton Lynch, Jojó e Julio Adler. Em 1995, viria um dos grandes destaques internacionais de sua carreira: o nono lugar em Pipeline, substituindo de última hora o australiano Damien Hardman. Ondas entre 10 e 15 pés confirmaram sua capacidade técnica em um dos palcos mais desafiadores do mundo. Pedro Müller seguiria competindo por mais de duas décadas. Em Ubatuba, já aos 38 anos, conquistou sua última vitória no Circuito Super Surf 2004, num dos triunfos mais marcantes de sua trajetória. Hoje, vive do surfe como treinador, comentarista da Sportv e um dos proprietários da @escola_pedromuller, na Barra da Tijuca, administrada pelo sócio Adelmo Noite. Acompanhe ns publicações nas redes sociais @museudosurfesantos. Coordenador de pesquisas históricas do surfe @diniziozzi, o Pardhal.

Como uma prancha largamente usada por surfistas fora do circuito mundial profissional pode ganhar atenção? Coloque a dita cuja nos pés de um bicampeão mundial. Quer um destaque ainda maior? Filipe Toledo vence o tricampeão Gabriel Medina. Pronto. Vamos por partes. Na etapa do Championship Tour, na Nova Zelândia (Maio 2023), Filipe acabou não vencendo a disputa da quarta de final contra Griffin Colapinto, mesmo obtendo a melhor nota da bateria. Faltou uma onda. Mas o assunto aqui é outro, ou quase. Em um universo dominado por triquilhas, desde 1981, a diversidade de pranchas, no século 21, começou a ganhar espaço fora das competições. No meio de antigas novidades, biquilhas com trailer fin (estabilizador central) se mostraram mais controláveis e amistosas, levando muita gente a adotá-las no quiver. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Filipe Toledo (@filipetoledo) O modelo de biquilha com estabilizador central já havia sido testado mas ganhou vida nova em 2003, com as Super Twins do shaper, tetracampeão mundial (79, 80, 81 e 82), Mark Richards. Ele trouxe de volta suas Twin Fins do início dos anos 80, adicionando uma “quilhinha” central. Daí, de repente, Filipe Toledo coloca no jogo do circuito mundial o modelo Modern 2, da Sharp Eye Surfboards. Vence Gabriel Medina nas esquerdas de Raglan e deixa muito mais gente antenada sobre as possibilidades de uma twin com trailer fin. Filipe não foi o primeiro a fazer algo que eu esperava há tempos. Kelly Slater inovou, diminuindo o tamanho das pranchas e competindo, em algumas situações, com o que eram mais bi do que triquilhas, na primeira década do século 21. Dane Reynolds também fez isso, mas vamos combinar que esses dois não são parâmetros de surf normal. Deivid Silva também ousou. Abiquilhou-se numa etapa. Mandou bem, mas não chamou tanta atenção. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Sharp Eye Surfboards (@sharpeyesurfboards_au) Quando se trata de altíssima performance pesa sempre o fato dos atletas da elite não terem muito tempo para experiências fora da casinha das triquilhas. Mas, pela primeira vez, Filipe, além de seu ano sabático, em 2024, teve, como todos os Tops, os mesmos raros sete meses de folga antes da temporada 2026. Isso parece ter criado espaço para lidar com pranchas diferentes, memória física e jogo mental para se arriscar com um equipamento não muito convencional na Nova Zelândia. Sim, pranchas realmente diferentes pedem ajustes na maneira de usá-las e isso requer tempo e, claro, talento. Duas coisas chamaram a minha atenção. Impressionante como podemos e devemos comparar os melhores do surf competitivo profissional com pilotos da Fórmula 1. É com eles que a indústria das pranchas evolui mais e melhor. Detalhes sutis, milimétricos, que essa turma sente no funcionamento de uma prancha podem ser incorporados aos modelos que a maioria dos surfistas não conseguiria detectar ou explicar. Eles dão o caminho do que será usado pelos consumidores “normais”. Shapers são mais teoria, estudo. Tops são prática. As mudanças surgem daí. Segunda, e mais curiosa. Um esporte que durante tanto tempo teve uma aura de vanguarda e ousadia leva muito tempo para propor ou acertar mudanças mais drásticas, seja na construção ou desenvolvimento de design. Não creio que seja culpa dos fabricantes, já que essa indústria nunca gerou dinheiro suficiente para que se desenvolvesse como deveria. Ainda por cima a competição tem um formato onde há pouco espaço para o diferente quanto à performance. Mas isso é conversa para outro texto. Por agora fica a dica. Mesmo ideias estranhas à normalidade podem resultar em bons resultados. Teste tudo que é prancha que você puder. Não tenha medo, você não depende de notas dos juízes para ser feliz.

Michelle des Bouillons desceu uma onda de quase 25 metros em Nazaré e pode entrar para a história como a mulher que surfou a maior de todos os tempos. Em entrevista exclusiva ao Waves, ela conta como chegou até aqui.

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