CBSurf Xangri-lá Pro

Julia e Matheus são campeões

Carioca Julia Duarte assume a liderança do ranking brasileiro e o paulista Matheus Gomes é a grande surpresa com a vitória em sua segunda participação no Circuito Profissional da CBSurf.

A jovem carioca Julia Duarte, 20 anos, e o paulista Matheus Gomes, 22, foram os campeões do CBSurf Xangri-lá Pro Surf nas finais contra a cearense Larissa dos Santos, 24, e o paraibano Samuel Igo, 29, na Praia de Atlântida, em Xangri-lá, litoral norte do Rio Grande do Sul. As vitórias valeram o mesmo prêmio de R$ 30.000 e 10.000 pontos decisivos na reta final do Circuito Profissional da Confederação Brasileira de Surf. Matheus Gomes subiu de 243 para 21 no ranking e Julia Duarte e Samuel Igo assumiram a liderança nesta penúltima etapa. A decisão dos títulos será na Praia da Taiba, na semana de 12 a 17 de dezembro no litoral norte do Ceará.

A única chance para a carioca tirar o primeiro lugar da catarinense Tainá Hinckel, era a vitória no CBSurf Xangri-lá Pro Surf e conseguiu derrotar Larissa dos Santos nas difíceis condições do mar do domingo (20), com ondas pequenas e vento nordeste forte na Praia de Atlântida. Essa foi a terceira final consecutiva de Julia Duarte, que tinha perdido a da etapa de Matinhos (PR) para Tainá Hinckel e a de Florianópolis (SC) para Silvana Lima. Agora festejou sua primeira vitória e a liderança no ranking brasileiro, em sua primeira temporada como surfista profissional.

“Estou muito feliz, queria muito liderar esse ranking e dedico a vitória aos meus pais. Agora vou pro Ceará, para cuidar do meu título pra ninguém pegar”, disse Julia Duarte. “Eu amei esse lugar aqui e não foi tão frio como eu imaginei. Foram baterias muito disputadas e estou muito feliz. É muito importante esse dinheiro todo que estamos recebendo de prêmio, incentivando mais meninas a competir. Lembro que o primeiro campeonato que eu corri, só teve final. Agora são mais de 40 meninas e isso é incrível. Quero que o surfe cresça mais, sem perder o espírito do surfe e o lifestyle. Estou muito feliz e essa vitória é pra minha mãe e meu pai”.

O ranking masculino também tem um novo líder, o vice-campeão no CBSurf Xangri-lá Pro Surf, Samuel Igo. O paraibano ganhou um confronto direto com o paulista Marcos Correa, que tiraria a liderança do capixaba Krystian Kymerson, se vencesse essa bateria das quartas de final. Samuel Igo ainda precisava chegar na final, para ultrapassar os dois. E o índio da Tribo Potiguara, na Paraíba, conseguiu, derrotando o experiente ex-top do CT, Paulo Moura.

“Estou muito feliz por fazer mais uma final. A bateria foi bem disputada, procurei surfar e no finalzinho ali, peguei a onda que achei que poderia vencer. Mas estou feliz por estar aqui em Xangri-lá, onde disputei meu primeiro QS muitos anos atrás e por sair daqui como líder do ranking”, disse Samuel Igo. “Agora vou tentar me manter na frente e ser campeão brasileiro né. Já fui vice-campeão no ano passado e eu sabia da possibilidade de sair daqui líder. Foquei bateria por bateria e deu certo. O Nordeste é um lugar que é a minha casa, me sinto confortável lá, com o mar, as pessoas, então vamos com tudo pra Taíba”.

Primeira vitória – Assim como Julia Duarte, Matheus Gomes conquistou sua primeira vitória em etapas da Divisão Principal do Circuito Profissional da CBSurf. O paulista de Ubatuba que tem o campeão mundial Filipe Toledo como ídolo, só havia competido na de Saquarema (RJ), onde perdeu de cara. Ele chegou em Xangri-lá na posição 243 do ranking, disputou oito baterias desde segunda-feira até domingo na Praia de Atlântida e saltou para o 21º lugar. A vitória já garantiu Matheus Gomes no grupo dos top-50 que vão disputar o Dream Tour 2023.

“Eu fiquei com muita ansiedade todos os dias, não conseguia dormir, tive que tomar remédio pra dormir e só tenho que agradecer a Deus. Estou sonhando acordado”, disse Matheus Gomes. “Eu fiz uma excelente bateria com um cara muito difícil e quero agradecer aos meus patrocinadores. Tem mais uma etapa lá na Taíba e vamos com tudo. Quero agradecer a todos que estavam na torcida, a galera de Ubatuba e é tudo nosso. Agora vou treinar o dobro e continuar no caminho certo, trabalhando muito para conseguir outros bons resultados”.

Matheus Gomes foi a grande revelação do CBSurf Xangri-lá Pro Surf. No domingo, usou os aéreos de frontside nas direitas da Praia de Atlântida, para liquidar seus adversários. Para chegar na final, superou surfistas bem mais experientes, que já fizeram parte da elite do CT, os cearenses Michael Rodrigues na semifinal e Heitor Alves nas quartas de final. Na sexta-feira (18), derrotou o paulista Flavio Nakagima, no primeiro duelo homem a homem da sua carreira no Circuito CBSurf Pro Surf. Os dois tinham passado juntos na primeira fase, na segunda-feira. Também barrou o ex-vice-líder do ranking, Yage Araujo, na estreia do baiano em Xangri-lá.

“Poxa, eu vim lá de baixo, vim pra cá pra matar mesmo, não vim pra morrer e estou amarradão. Eu treinei bastante pra estar aqui e papai lá do céu me abençoou, para conquistar esse título”, disse Matheus Gomes. “Deus tem me dado força pra poder chegar aonde eu cheguei e que toda honra e toda glória, seja dada a Ele. Eu tive baterias muito difíceis, contra o Michael (Rodrigues), o Heitor (Alves), o Nakagima (Flavio) e fui ganhando confiança a cada uma que eu vencia. Deu tudo certo e eu cheguei aonde era o objetivo pra chegar”.

A grande apresentação de Matheus Gomes em Xangri-lá, foi na semifinal com Michael Rodrigues. Ele começou forte, acertando os aéreos nas direitas da Praia de Atlântida para largar na frente com notas 8.50 e 6.77 pontos nas duas primeiras ondas que surfou. Michael entrou na briga quando restavam 10 minutos, com a nota 7.17 recebida pelo seu ataque de frontside numa direita. Mas, não conseguiu os 8.11 pontos que precisava para reverter o placar de 15.27 a 13.74 pontos. Michael Rodrigues já partiu direto para a estrada, pois logo vai embarcar para o Havaí, onde tentará sua classificação para o CT 2023, na última etapa do Challenger Series em Haleiwa Beach.

Tops mundiais – Nas semifinais ficaram os últimos participantes do CBSurf Xangri-lá Pro Surf que fizeram parte da elite mundial do CT, os cearenses Michael Rodrigues e Silvana Lima e o pernambucano Paulo Moura. Os três estão na briga pelos títulos brasileiros de 2022, que serão decididos na Praia da Taíba, em São Gonçalo do Amarante, no Ceará. Silvana se manteve em terceiro no ranking, Michael subiu do 22º para o 6º lugar e Paulo foi da 28ª para a 8ª posição. Paulo Moura ainda compete em alto nível com seus 42 anos de idade e é o vice-presidente da nova diretoria da CBSurf eleita esse ano, com Teco Padaratz na presidência.

“Eu estou duplamente feliz. Primeiro, porque sou um atleta e tenho muito amor pela profissão que escolhi muitos anos atrás. Me dedico muito e hoje estou aqui, ainda competindo em alta performance”, disse Paulo Moura. “Estou feliz como atleta, mas também como vice-presidente da CBSurf, junto com o Teco Padaratz, meu irmão do coração. Agradeço a todo mundo aqui que fez parte desse show e parabenizo todos os atletas. Esse é só o começo dessa nova CBSurf, é só o começo desse sonho, de ser surfista profissional no Brasil”.

Títulos brasileiros – Depois do CBSurf Xangri-lá Pro Surf fechar a quinta e penúltima etapa da temporada, 23 surfistas seguem com chances matemáticas de conquistar os títulos brasileiros de 2022. O campeão e a campeã vão receber um prêmio extra de R$ 30.000 da CBSurf. São vinte concorrentes ao título masculino e apenas três no feminino, a nova líder, Julia Duarte, Tainá Hinckel e Silvana Lima. A vice-campeã no Rio Grande do Sul, Larissa dos Santos, derrotou Silvana na semifinal, mas teria que vencer o evento para entrar na lista.

“Infelizmente, acabei não me encontrando na bateria, mas a semifinal foi um bom resultado e vamos pra decisão na Taíba. Lá vai ser o tudo ou nada”, disse Silvana Lima. “Vai ser irado, vou competir em casa e estou amarradona. Eu entrei no circuito não pelo título, mas pra voltar ao ritmo de competição. Eu tinha me machucado o tornozelo no começo do ano, depois o joelho, depois a escápula, to toda remendada, mas me sentindo quase nos meus 100% nesse final da temporada. O circuito foi irado esse ano e espero que feche aí com chave de ouro”.

20 concorrentes – A batalha do título masculino está bem mais aberta e até o vigésimo colocado no ranking, têm chances matemáticas de superar os 20.000 pontos do novo líder, Samuel Igo. A briga entre ele e Krystian Kymerson é fase a fase. O paulista Marcos Correa (3º do ranking), o baiano Yage Araujo (4º) e o potiguar Alan Jhones (5º), precisam chegar nas oitavas de final no Ceará e Michael Rodrigues (6º) nas quartas de final, para ultrapassar os 20.000 pontos. Nesta última etapa, será descartado o pior resultado nas seis etapas de 2022.

O também cearense Messias Félix (7º), o paranaense Peterson Crisanto (10º), o pernambucano Ian Gouveia (11º) e o potiguar Mateus Sena (13º), têm que chegar na semifinal na Praia da Taíba, para superar a pontuação do Samuel Igo. O pernambucano Paulo Moura (8º), o paulista Hizunomê Bettero (9º), o potiguar Israel Junior (11º) e o cearense Heitor Alves (15º), ultrapassam os 20.000 pontos se chegarem na grande final. Já para o paulista JP Ferreira (14º), os catarinenses Luiz Mendes (16º) e Willian Cardoso (17º), os paulistas Alex Ribeiro (18º) e Gabriel Klaussner (20º) e o cearense Glauciano Rodrigues (19º), só interessa a vitória na Praia da Taíba.

CBSurf Xangri-lá Pro 2022
Decisão do título masculino

Campeão: Matheus Gomes (SP) por 10.83 pts (5.83+5.00) – R$ 30.000 e 10.000 pts

2º lugar: Samuel Igo (PB) com 9.77 pts (5.27+4.50) – R$ 15.000 e 8.000 pts

Semifinais
3º lugar com R$ 11.000 e 6.500 pontos

1ª Matheus Gomes (SP) 15.27 x 13.74 Michael Rodrigues (CE)

2ª Samuel Igo (PB) 7.73 x 6.73 Paulo Moura (PE)

Quartas de final
5º lugar com R$ 7.000 e 5.100 pontos

1ª Michael Rodrigues (CE) 14.90 x 9.17 Israel Junior (RN)

2ª Matheus Gomes (SP) 13.50 x 11.97 Heitor Alves (CE)

3ª Paulo Moura (PE) 10.67 x 9.27 Glauciano Rodrigues (CE)

4ª Samuel Igo (PB) 12.17 x 9.53 Marcos Correa (SP)

Decisão do título feminino

Campeã: Julia Duarte (RJ) por 7.24 pts (3.67+3.57) – R$ 30.000 e 10.000 pts

2º lugar: Larissa dos Santos (CE) com 6.20 pts (3.20+3.00) – R$ 15.000 e 8.000 pts

Semifinais
3º lugar com R$ 11.000 e 6.500 pontos

1ª Julia Duarte (RJ) 10.90 x 8.13 Juliana dos Santos (CE)

2ª Larissa dos Santos (CE) 8.34 x 7.00 Silvana Lima (CE)

Ranking do Circuito Brasileiro CBSurf Pro

Top-10 do ranking masculino – 5 etapas

01: Samuel Igo (PB) – 20.000 pontos

02: Krystian Kymerson (ES) – 19.900

03: Marcos Correa (SP) – 19.200

04: Yage Araujo (BA) – 18.700

05: Alan Jhones (RN) – 18.400

06: Michael Rodrigues (CE) – 15.200

07: Messias Felix (CE) – 15.000

08: Paulo Moura (PE) – 14.400

09: Hizunomê Bettero (SP) – 14.300

10: Peterson Crisanto (PR) – 14.100

Top-10 do ranking feminino – 5 etapas

01: Julia Duarte (RJ) – 34.700 pontos

02: Tainá Hinckel (SC) – 33.000

03: Silvana Lima (CE) – 30.100

04: Larissa dos Santos (CE) – 25.200

05: Julia Santos (SP) – 24.000

06: Yanca Costa (RJ) – 23.500

07: Mariana Areno (RJ) – 21.900

08: Kemily Sampaio (SP) – 19.300

09: Sol Carrion (SP) – 18.700

10: Taís Almeida (RJ) – 18.600

Pedro Bettencourt Müller nasceu no Rio de Janeiro, no dia 21 de julho de 1966, num ambiente familiar que respirava praia. Seu pai, Guilherme Xavier de Brito Müller, economista e morador do Leblon, cresceu frequentando a Zona Sul. Sua mãe, Maria Isabel Bettencourt Müller, criada em Santa Teresa, compartilhava da mesma paixão pelas praias. Para o casal, fim de semana e férias tinham destino certo: areia, sol e mar. Foi assim que Pedro e o irmão, Guilherme, passaram a infância seguindo os pais para o meio da Barra ou para São Conrado, ainda de estradas de terra, sem prédios, calçadões ou qualquer urbanização. Nesse cenário quase intocado, Pedro foi se encantando pelas ondas. Lembra-se de observar alguns surfistas solitários no meio da Barra e sentir-se hipnotizado pela habilidade deles. O mar, desde cedo, era o lugar onde queria estar. Ele recorda também a rotina da infância: ia para as aulas de natação no Clube de Regatas Flamengo e, depois, caminhava até o judô, no Leblon, um trajeto longo para uma criança de 12 anos. Antes de entrar no tatame, sentava-se no calçadão para olhar o mar quebrando, entregue à mesma fascinação que o acompanharia por toda a vida. O mar lhe transmitia paz, calma e propósito. Ali, ainda menino, já entendia que queria se tornar surfista. A mudança para São Conrado, por volta dos 14 ou 15 anos, foi decisiva. Morando ao lado do Pepino, Müller muitas vezes cabulava a aula pra ir surfar. As ondas triangulares, rápidas e pesadas da região se transformaram no seu campo de treinamento permanente. Ali, guiado pela referência de Rony Lima e pela evolução proporcionada pelas pranchas dos shapers Rico e Pedro Battaglin, deu um salto técnico marcante. A “biquilha mágica” 5’4″ de Battaglin é lembrada até hoje como uma das grandes viradas em seu surfe, época em que adotou o apelido de “o Águia”, pela tatuagem no braço. Uma nova mudança, motivada pelo desemprego do pai, levou a família para a Barra. Para Müller, foi a oportunidade perfeita: entre o Postinho, o meio da Barra e o Quebra-Mar, encontrou três ondas consistentes e acessíveis a pé, permitindo treinos diários que aceleraram ainda mais sua evolução. Nessa fase, destacou-se nos campeonatos da ASBT – Associação de Surf da Barra da Tijuca – e entrou para a promissora equipe da Cristal Graffiti. Antes disso, havia vencido seu primeiro campeonato no Leblon, organizado por Marcelo Peninha, vitória que marcou sua confiança rumo ao profissionalismo. Os resultados na categoria Júnior renderam um prêmio decisivo: uma passagem para o Havaí. Aos 18 anos, Müller viveu sua primeira temporada no North Shore (1984/85), dividindo casa com surfistas brasileiros experientes. Pipeline, logo no primeiro dia, foi seu batismo de fogo: mar pesado, adrenalina no limite e a certeza de que o treino no Pepino o havia preparado para aquele cenário. De volta ao Brasil, enfrentou dificuldades para manter regularidade como profissional. A grande virada veio com o curso de meditação transcendental feito ao lado de Rodolfo Lima. O impacto competitivo foi imediato: venceu a etapa profissional do Quebra-Mar no circuito carioca, em 1986, e passou a frequentar pódios de forma consistente. A regularidade, marca registrada de sua carreira, nasceu ali. Em 1987, tornou-se vice-campeão do primeiro Circuito Brasileiro de Surf Profissional. Liderou boa parte da temporada, foi vice-campeão na etapa da Lightning Bolt e, depois, campeão no Fico Festival. Só perdeu o título na penúltima bateria do Circuito, por apenas 20 pontos, uma diferença mínima para quem tinha 850 pontos de vantagem sobre o terceiro colocado. Na época, era visto como o surfista mais consciente e estratégico do país. Nos anos seguintes, acumulou resultados expressivos: vitórias importantes na Abrasp e uma vitória significativa no QS de Florianópolis, superando Barton Lynch, Jojó e Julio Adler. Em 1995, viria um dos grandes destaques internacionais de sua carreira: o nono lugar em Pipeline, substituindo de última hora o australiano Damien Hardman. Ondas entre 10 e 15 pés confirmaram sua capacidade técnica em um dos palcos mais desafiadores do mundo. Pedro Müller seguiria competindo por mais de duas décadas. Em Ubatuba, já aos 38 anos, conquistou sua última vitória no Circuito Super Surf 2004, num dos triunfos mais marcantes de sua trajetória. Hoje, vive do surfe como treinador, comentarista da Sportv e um dos proprietários da @escola_pedromuller, na Barra da Tijuca, administrada pelo sócio Adelmo Noite. Acompanhe ns publicações nas redes sociais @museudosurfesantos. Coordenador de pesquisas históricas do surfe @diniziozzi, o Pardhal.

Como uma prancha largamente usada por surfistas fora do circuito mundial profissional pode ganhar atenção? Coloque a dita cuja nos pés de um bicampeão mundial. Quer um destaque ainda maior? Filipe Toledo vence o tricampeão Gabriel Medina. Pronto. Vamos por partes. Na etapa do Championship Tour, na Nova Zelândia (Maio 2023), Filipe acabou não vencendo a disputa da quarta de final contra Griffin Colapinto, mesmo obtendo a melhor nota da bateria. Faltou uma onda. Mas o assunto aqui é outro, ou quase. Em um universo dominado por triquilhas, desde 1981, a diversidade de pranchas, no século 21, começou a ganhar espaço fora das competições. No meio de antigas novidades, biquilhas com trailer fin (estabilizador central) se mostraram mais controláveis e amistosas, levando muita gente a adotá-las no quiver. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Filipe Toledo (@filipetoledo) O modelo de biquilha com estabilizador central já havia sido testado mas ganhou vida nova em 2003, com as Super Twins do shaper, tetracampeão mundial (79, 80, 81 e 82), Mark Richards. Ele trouxe de volta suas Twin Fins do início dos anos 80, adicionando uma “quilhinha” central. Daí, de repente, Filipe Toledo coloca no jogo do circuito mundial o modelo Modern 2, da Sharp Eye Surfboards. Vence Gabriel Medina nas esquerdas de Raglan e deixa muito mais gente antenada sobre as possibilidades de uma twin com trailer fin. Filipe não foi o primeiro a fazer algo que eu esperava há tempos. Kelly Slater inovou, diminuindo o tamanho das pranchas e competindo, em algumas situações, com o que eram mais bi do que triquilhas, na primeira década do século 21. Dane Reynolds também fez isso, mas vamos combinar que esses dois não são parâmetros de surf normal. Deivid Silva também ousou. Abiquilhou-se numa etapa. Mandou bem, mas não chamou tanta atenção. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Sharp Eye Surfboards (@sharpeyesurfboards_au) Quando se trata de altíssima performance pesa sempre o fato dos atletas da elite não terem muito tempo para experiências fora da casinha das triquilhas. Mas, pela primeira vez, Filipe, além de seu ano sabático, em 2024, teve, como todos os Tops, os mesmos raros sete meses de folga antes da temporada 2026. Isso parece ter criado espaço para lidar com pranchas diferentes, memória física e jogo mental para se arriscar com um equipamento não muito convencional na Nova Zelândia. Sim, pranchas realmente diferentes pedem ajustes na maneira de usá-las e isso requer tempo e, claro, talento. Duas coisas chamaram a minha atenção. Impressionante como podemos e devemos comparar os melhores do surf competitivo profissional com pilotos da Fórmula 1. É com eles que a indústria das pranchas evolui mais e melhor. Detalhes sutis, milimétricos, que essa turma sente no funcionamento de uma prancha podem ser incorporados aos modelos que a maioria dos surfistas não conseguiria detectar ou explicar. Eles dão o caminho do que será usado pelos consumidores “normais”. Shapers são mais teoria, estudo. Tops são prática. As mudanças surgem daí. Segunda, e mais curiosa. Um esporte que durante tanto tempo teve uma aura de vanguarda e ousadia leva muito tempo para propor ou acertar mudanças mais drásticas, seja na construção ou desenvolvimento de design. Não creio que seja culpa dos fabricantes, já que essa indústria nunca gerou dinheiro suficiente para que se desenvolvesse como deveria. Ainda por cima a competição tem um formato onde há pouco espaço para o diferente quanto à performance. Mas isso é conversa para outro texto. Por agora fica a dica. Mesmo ideias estranhas à normalidade podem resultar em bons resultados. Teste tudo que é prancha que você puder. Não tenha medo, você não depende de notas dos juízes para ser feliz.

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