Big Wave Mormaii

Chumbo e Michelle campeões

Lucas Chumbo e Michelle Des Bouillons levam título do Big Wave Mormaii, primeiro campeonato brasileiro de ondas grandes disputado na Praia do Cardoso, Laguna (SC).
Big Wave Mormaii 2024, praia do Cardoso, Laguna (SC).

A praia do Cardoso, no município de Laguna (SC), foi palco nesta segunda-feira, dia 1 de julho, do primeiro campeonato brasileiro de Surf de Ondas Grandes da história da Confederação Brasileira de Surf (CBSurf), realizado em parceria com o Movimento Big Waves Brasil (BWB), que possui ampla experiência em eventos da modalidade.

Patrocinado pelo Governo do Estado de Santa Catarina, por meio da Fundação Catarinense de Esporte (FESPORTE), e pela Prefeitura de Laguna, por meio da Secretaria Municipal de Turismo de Lazer, o evento está sendo considerado um marco na história do surf brasileiro, coroando o primeiro campeão e a primeira campeã brasileira de Surf de Ondas Grandes da história.

A categoria Feminina foi inserida na competição depois do lançamento do evento, por iniciativa da empresa Refix, que procurou o Movimento BWB oferecendo esta oportunidade. “A inclusão de gênero e um estilo de vida saudável estão no cerne da filosofia da Refix, assim, a empresa está feliz em liderar o patrocínio para a categoria Feminina e espera que outras marcas sigam o exemplo”, relata Ini Ghidirmic, Gerente Geral da Refix.

Dentro da água as atletas também fizeram a sua parte, mostrando que estão preparadas, e deram um show de surf para o público presente na praia e que acompanhou a transmissão streaming ao vivo nos canais CBSurfPlay e Ícaro Cavalheiro.

Michelle Des Bouillons (RJ) fez o maior somatório entre as mulheres e se tornou a primeira Campeã Brasileira de Surf de Ondas Grandes da CBSurf, fazendo o maior somatório da final (23,81 pontos). “Esse prêmio é para todas as mulheres do Brasil, que se desafiam, que quebram barreiras: acreditem, que vocês conseguem!” Exalta Michelle, logo após sair vencedora da água.

“A realização da categoria Feminina no Campeonato Brasileiro de Ondas Grandes da CBSurf é uma conquista gigantesca que nós mulheres, juntas, conseguimos realizar, com muita luta e muita insistência. Graças ao apoio da Refix, que patrocinou a categoria Feminina, nós conseguimos este espaço”, reflete a atleta após a competição.

“É um grande legado muito importante que nós estamos deixando e construindo para uma nova geração e para a geração atual, pra nós que já competimos e pra outras meninas que sei que já estão prontas para o ano que vem”, finaliza a atleta.

Na segunda colocação ficou a representante catarinense Uxa Zucareli, que entrou na competição como alternate. Uxa fez a maior nota da final (8,27) e surpreendeu a todos pelo seu ótimo desempenho, representando muito bem Santa Catarina.

As quartas-de-finais foram realizadas no início da manhã, momento em que estava previsto o mar com maior tamanho, pois a previsão indicava declínio de força da ondulação ao longo do dia. 50% dos atletas avançaram para a semi-final.

A semi-final manteve-se heterogenia, com atletas de variados estados brasileiros, contemplando a região sul, sudeste e nordeste. Avançaram para a final os seis principais destaque na competição, com grande destaque para o Rio de Janeiro, que possuiu 4 representantes, que se somaram à Carlos Henrique (de Santa Catarina) e Lapo Coutinho (da Bahia).

Confirmando o Rio de Janeiro como celeiro de grandes campeões, as 4 primeiras colocações da final foram ocupadas pelos cariocas, com o baiano na quinta colocação e o catarinense na sexta.

Lucas Chumbo, tido para muitos como o melhor atleta de Surf de Ondas Grandes do mundo, confirmou a expectativa e se tornou o primeiro Campeão Brasileiro de Surf de Ondas Grandes pela CBSurf, com um somatório de 23,81 pontos.

“Obrigado à toda a galera que fez isso acontecer! O Brasil precisa muito disso! E a nova geração precisa de uma plataforma assim! Pra ter muita gente representando sempre o Brasil mundo a fora!”, declarou Lucas Chumbo, ainda quando estava sendo levado no obro pelos amigos, após sair da água com o resultado de campeão.

“Eu comecei a minha vida no big surf em um evento como este aqui no Cardoso. É um sonho realizado estar ganhando este título aqui, estar saindo como o primeiro Campeão Brasileiro de Surf de Ondas Grandes. Graças a Deus, tudo aconteceu da forma mais perfeita possível”, conta Chumbo durante a premiação.

O atleta Marcos Monteiro foi quem inscreveu Lucas Chumbo no primeiro campeonato de big surf da sua carreira: o Desafio Mormaii de Ondas Grandes 2015, realizado na praia do Cardoso pelo Movimento BWB, em parceria com a Associação de Surf e Tow-in do Farol de Santa Marta (ASTFSM). Agora em 2024 Marcos monteiro ficou com o 2º lugar, fazendo dobradinha com Chumbo ao levar este título para Saquarema (RJ). Lucas Chumbo reconheceu este impulsionamento na sua carreira, abraçando Marcos Monteiro no pódio e falando que: “esse foi o meu coach da vida, foi ele quem me ensinou a remar”.

Além da premiação em dinheiro, Lucas Chumbo ainda levou uma prancha gun do shapper local Gustavo Satto, que fez uma pintura na prancha com as cores da bandeira de Laguna em um dos lados e de Santa Catarina no outro, com uma seta significando “pra frente Laguna e SC”!

Os finalistas Masculino e Feminino também levaram kits da Garopaba Surf House e protetores solar da Suntech grip System.

A maior onda surfada na competição

Com o objetivo de estimular e recompensar o maior comprometimento e a maior atitude possível dos atletas, o evento premia com R$ 5.000,00 a maior onda surfada na competição.

Esta onda foi surfada na 4º bateria da primeira fase da categoria Masculina, pelo surfista catarinense Carlos Henrique, local da praia da Vila, em Imbituba. Além da nota 9, o atleta ainda levou de recordação um troféu e o prêmio em dinheiro.

Durante a cerimônia de premiação a galera da Associação de Surf de Imbituba (ASI) puxou um coro exaltando o atleta, que representou muito bem o seu município e o estado de Santa Catarina na competição. A ASI é conhecida por sempre lutar para inserir os seus atletas nas competições de Surf de Ondas Grandes na região, e tem conversado junto ao Movimento BWB para a realização do CBSurf Trials Big Wave na praia da Vila.

Carlos Henrique relatou como foi esta onda surfada:

Eu surfei aquela onda na minha primeira bateria. Eu estava precisando de uma nota alta para virar, a bateria estava bem pegada, entrando bastante onda.

O mar tinha dado uma parada, e quando a gente olhou para fora vimos uma série se aproximando, que fez o pessoal do resgate náutico apitar para avisar.

Eu vi que seria uma série com bastante ondas, veio a primeira da série e como eu vi que o Caio Vaz entrou, eu puxei o bico, e quando olhei para trás, vi que já estava muito pra baixo do pico, na zona de impacto, e pensei: vou tomar na cabeça.

Voltei remando com tudo pra fora, dando o meu máximo, já preparado para ejetar a prancha.

Quando percebi, a onda deu uma segurada, e vi que ela era gigante. Pensei: eu tenho que dropar essa, mesmo que seja um ‘retoside’.

Consegui virar bem embaixo do pico, espetei no triângulo e consegui dropar ‘na unha’. Foi um ‘dropasso’ que a prancha começou até a parar.

Quando ejetei a prancha levei um caldo tão forte que fiquei muito tempo embaixo da água, muito tempo, e como estava apenas com um colete fininho por baixo da roupa, foi pior. Foi um terror, mas valeu a recompensa.

Na segunda bateria já peguei o colete maior, pois não queria passar por este sufoco novamente.

Como os juízes estavam demorando para dar a nota, comecei a pensar que talvez não tinham visto a minha onda, até que ouvi eles falando que estava vindo uma nota boa para o Carlos.

Como ficaram segurando um pouco mais a minha nota, comparando as ondas, eu já imaginei que tinha sido uma onda boa, um ‘notasso’, então fiquei tranquilo, sem mais desespero para pegar uma onda para virar.

“O campeonato foi irado! Deu uma grande motivada para seguir carreira no big surf, era isso que eu estava precisando para tentar arrumar um patrocínio para fazer uma temporada em Nazaré ou Hawaii. É a hora certa, estou bem equipado, mas agora sem pranchas, pois parti as minhas duas nesta competição”, comenta Carlos sobre o evento.

Grande público movimenta o turismo em baixa temporada

A pacata e paradisíaca comunidade do Farol de Santa Marta recebeu nos últimos dias parte dos melhores big riders do Brasil para a disputa do CBSURF BIG WAVE MORMAII, e junto a eles um grande público espectador que, conforme algumas autoridades públicas, foi estimado em aproximadamente 5 mil pessoas.

O público compareceu em peso para ver atletas preparados colocando as suas vidas em risco numa das maiores ondas do Brasil. Neste swell e praia do Cardoso ofereceu ondas de 12 a 18 pés (algumas pessoas creem que quebraram algumas ondas até maiores), com formação clássica e um dia completamente ensolarado.

“Um dia lindo aqui no Cardoso, mais uma vez o Cardoso fazendo história no big surf.” Disse Lucas Chumbo, durante a cerimônia de premiação.

Um dos objetivos deste evento foi movimentar o turismo em baixa temporada na região. Em uma segunda-feira fria de inverno, milhares de pessoas compareceram na região do Farol de Santa Marta, aquecendo o mercado de hospedagem e alimentação.

Em dois momentos o evento conduziu público para o coração comercial do bairro: na confraternização do dia anterior do evento (domingo) no Cardoso Surf Camping e Pousada; e na cerimônia de premiação na Baiuka Pousada e Restaurante. Em ambos os casos houve uma grande lotação, gerando falta de produtos a serem comercializados.

“Quem não se preparou e abriu o seu comércio neste domingo e nesta segunda-feira perdeu uma grande oportunidade de ter um ganho no inverno. Não havia mais lugar para estacionar e grande parte dos estabelecimentos que estavam abertos venderam praticamente todo o seu estoque, principalmente os ambulantes que ficaram próximos ao evento.” Relata Vitor Serafim, big rider competidor que representou a comunidade do Farol de Santa Marta no CBSRUF BIG WAVE MORMAII 2024.

Autoridades visitam o evento

Além do público em geral, a praia do Cardoso recebeu diversas autoridades políticas durante o evento, tanto relacionadas à Prefeitura Municipal de Laguna quanto ao Governo do Estado de Santa Catarina e à Fundação Catarinense de Esportes. Deputados Estaduais, Federais e pré-candidatos à Prefeito também se fizeram presentes.

“O Circuito CBSurf Big Waves merece a atenção da CBSurf. Estamos com ele no nosso planejamento para 2025, visando engrandecer cada vez mais ele”. Destaca Geraldo Cavalcanti, Diretor de Relações Institucionais da CBSurf.

Resultados

Massculino

1 Lucas Chumbo (RJ)

2 Marcos Monteiro (RJ)

3 Guilherme Hilel (RJ)

4 Pedro Calado (RJ)

5 Lapo Coutinho (BA)

6 Carlos Henrique (SC)

Feminino

1 Michelle Des Bouillons (RJ)

2 Uxa Zucareli (SC)

3 Catarina Lorenzo (BA)

4 Nicoli Pacelli (SP)

5 Debora Silveira (RJ)

6 Michaela Fregonese (PR)

Realização: Confederação Brasileira de Surf (CBSurf) e Big waves Brasil (BWB).

Patrocínios Master: Governo do Estado de Santa Catarina, por meio da Fundação Catarinense de Esportes (Fesporte); Prefeitura Municipal de Laguna, por meio da Secretaria de Turismo e lazer; Mormaii.

Patrocínio: Garopaba Surf House; BK Brands; NG86; Surfland Brasil; Mercado Camacho.

Patrocínio da Categoria Feminina: REFIX.

Copatrocínio: Index Krown; Freesurf; Nob; RP JUR Inteligência Jurídica; Satto Surf Co.

Apoiadores: Alaia Surf Shop; Big Rider House; Grud Comunicação Visual; TAC Telecom; Session Store; Suntech; Baiuka Pousada e Restaurante; Cardoso Surf Camping e Pousada; Restaurante Camarú; Posto Amizade; Kamuri Empreendimentos; Auto Posto Farol; Barbearia 1990; Nômade Farol; Waves.

Homologação: Confederação Brasileira de Surf (CBSurf); Federação Catarinense de Surf (Fecasurf) e Associação de Surf e Tow-in do Farol de Santa Marta (ASTFSM).

Certificação Socioambiental: Selo Evento Sustentável Fecasurf; Programa CarbonOk.

Enquanto alguns fotógrafos documentam a história, Fedoca Lima fez diferente: viveu dentro dela enquanto fotografava. Carioca do Posto 5, começou a surfar com 11 anos e a fotografar quase ao mesmo tempo, com uma máquina fotográfica alemã do pai. Aos 14, registrou a Rainha Elizabeth passando de Rolls-Royce aberto pela orla de Copacabana, em frente à casa do Assis Chateaubriand. No mesmo período, fotografou o Mick Jagger dando o dedo do meio no Copacabana Palace. Não era fotógrafo profissional. Era um moleque com olho bom e câmera na mão, sem perceber ainda o tamanho do que estava construindo. O que veio depois é história do surfe brasileiro. O Píer de Ipanema nos anos 70, quando o Rio era o centro do surfe nacional, com Daniel Friedmann, Pepê Lopes, Rico de Souza e Ricardo Bocão dominando o circuito. A Brasil Surf, primeira revista especializada do país, na qual Fedoca jogou em todas as posições: fotógrafo, redator e capa. O Havaí entre 1978 e 1981, surfando e fotografando ao lado de Gerry Lopez, Shaun Tomson e Michael Ho em Pipeline e Waimea. Os shows históricos, de Bob Marley ao ar livre no Havaí até Rolling Stones e Paul McCartney no Maracanã. “A foto que eu não tirei, essa me persegue.” Fedoca Lima Mais de cinquenta anos depois, esse arquivo vira livro. “Surf, Clicks e Rock’n Roll” tem 220 páginas, cerca de 180 fotografias e percorre a transformação do surfe brasileiro desde a era analógica até o digital, passando por Arpoador, Saquarema, Havaí, Califórnia e Macumba. Com captação aprovada de R$ 203 mil via incentivo cultural e apio da Fu Wax, o lançamento está previsto para o segundo semestre de 2026. Conversamos com Fedoca sobre tudo isso. Antes de se consolidar como fotógrafo, você também virou personagem da própria história do surfe brasileiro ao sair na capa da Brasil Surf em 1975. Como foi viver aquele momento por dentro? Saí na capa da Brasil Surf. Na época eu trabalhei na revista de março de 75 até janeiro de 79, só não peguei o primeiro número. Jogava todas as posições: saí na capa, escrevia, tirava foto, ajudava na redação, dava palpite, fazia matéria. Por muito tempo achei que era o único fotógrafo de surfe que tinha saído numa capa. Depois o Bruno Alves me falou que o irmão dele, o Alberto, saiu na capa da Fluir número 1. A história dele bate um pouco com a minha: ele pegava onda, saiu na capa, era fotógrafo. Mas durante anos eu achei que era caso único. Até hoje tem um restaurante aqui que o cara pediu, eu tirei uma foto com a revista na mão, ele botou na parede, eu assinei. A influência continua. A Brasil Surf ajudou a mudar a imagem do surfista no Brasil. Como era ser surfista naquela época, antes dessa mudança de percepção acontecer? O surfe saía no caderno B do Jornal do Brasil, do Globo. Não saía no esporte. E o surfista era tido como vagabundo de praia. Isso, aliás, até hoje tem um pouco, mas na época tinha muito mais. A Brasil Surf não vou dizer que limpou essa imagem completamente, mas ajudou a transformar o surfe em esporte e também a fomentar o mercado de surfwear. Os irmãos Wady e Fuad Mansur, da loja Mansur, em Ipanema, foram dos primeiros anunciantes. Acreditaram na revista, fizeram anúncios de contracapa e página inteira, e as camisetas personalizadas vendidas pelo correio viraram um sucesso. A Brasil Surf acabou impulsionando fabricantes de pranchas, calções, parafinas e diversos outros anunciantes ligados ao surfe. Os fabricantes de prancha tinham um veículo para anunciar. Os fotógrafos ganhavam uma graninha, viajavam. Fui para a América Central, Porto Rico, Barbados, El Salvador, Fernando de Noronha, Peru, várias viagens bancadas pela Brasil Surf de uma forma ou de outra. O Nilton Barbosa foi ao Havaí duas vezes bancado pela revista. No caso dele, eles bancavam os filmes, ele vendia as fotos e a viagem se pagava. Tinha uma diferença entre mim e o Nilton nessa época: ele chegava na praia e ficava na areia fotografando, fotografando, fotografando. Eu chegava e ia para dentro da água. Se não estava o Daniel, não estava o Pepê, não estava o Cauli, não estava o Bocão, não estavam os caras top, eu entrava e surfava. Então tem foto minha na Brasil Surf publicada pelo Nilton Barbosa, pelo Rogério Ehrlich. Eu estava mais dentro da água do que fora. Eu estudava. Primeiro vestibular, depois faculdade. Boa parte dos meus amigos só queria saber de surfar. Eu dividia meu tempo. Chegava na praia, já tinha estudado de manhã, aí ficava naquele dilema: vou pegar onda ou vou fotografar? Por isso tem poucas fotos do Píer. Em três anos não tirei nem metade do que tiro hoje num dia bom na Macumba com o digital. Você viveu o Píer, a Brasil Surf, o Havaí dos anos 70, o nascimento do surfe brasileiro moderno. Em que momento percebeu que estava no meio de uma transformação cultural que iria muito além do esporte? O Píer foi o que fomentou o surfe no Rio de Janeiro. Por dez anos, foi domínio completo do Rio no cenário brasileiro. O Daniel Friedmann, em 77, foi o último carioca a vencer uma etapa do circuito internacional, ganhou no Quebra-Mar, em cima do Pepê Lopes, que tinha ganho em 76. Os dois de Ipanema, meus vizinhos de rua. E esse pessoal do Píer que dominou, o Daniel, o Pepê Lopes, o Cauli Rodrigues, e também o Otávio Pacheco, o Rico de Souza, o Ricardo Bocão. E tinha o Betão, que era o melhor surfista do Brasil na época mas não era competitivo, não corria atrás de patrocinador, acabou saindo cedo. Em 75 ele ganhou o Campeonato de Saquarema e foi saindo, saindo. O Píer influenciou a revista, influenciou os fabricantes de prancha, influenciou o modo de viver. Começaram a ter fábricas em Guaratiba, Vargem Grande, no Recreio, depois em Saquarema. As pessoas foram morar lá. O Penho foi, o Otávio comprou casa,

O que define uma boa onda? Tamanho, força, parede, qualidade da linha, formação e surfabilidade, dentre outros elementos. No oceano, todos esses fatores mudam a cada swell, a cada vento, a cada maré. Em Búzios, a proposta é diferente: construir essas variáveis de forma controlada, repetível e ajustável. A piscina do Brasil Surfe Clube Aretê Búzios opera com a tecnologia Endless Surf, do grupo canadense WhiteWater, com 48 câmaras de ar de alta precisão. O sistema permite criar configurações distintas dentro da mesma estrutura. Dentro de um universo de grandes possibilidades, as cinco primeiras ondas já foram nomeadas e reveladas, cada uma com perfil próprio, e muito mais ainda está por vir. Onda #01: Pointbreak + Junção Linha longa, seções conectadas, tempo de onda que pode ultrapassar 25 segundos. A junção encadeia diferentes partes da onda sem perder velocidade, criando uma das experiências mais difíceis de encontrar no oceano com consistência. Para quem quer mais de 10 manobras na mesma onda ou simplesmente mais tempo de linha para ler e decidir. Onda #02: Manobras + Bowl A parede fica mais íngreme. O bowl abre seções críticas para manobras verticais e aéreos. É o ambiente para quem quer empurrar os limites do que consegue fazer sobre a prancha, com repetição suficiente para transformar cada tentativa em aprendizado real. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Onda #03: Rampa + Tubo Uma onda que combina duas experiências na mesma seção. A rampa prepara o surfista para a manobra e o tubo roda na sequência. Para quem quer encaixar um aéreo e ainda sair do tubo na mesma onda, essa configuração entrega os dois elementos sem precisar escolher. Onda #04: Rampa Nível Intermediário Parede consistente, menor intensidade, mais previsível. A configuração certa para quem está desenvolvendo manobras progressivas e precisa de repetição para consolidar o que está aprendendo. A seção cria a rampa no ângulo certo, com velocidade suficiente para executar sem exigir o nível avançado. Onda #05: Rampa Nível Avançado Mais potência, mais velocidade, mais projeção. A rampa avançada é para quem já chegou em Búzios com manobras no repertório e quer testá-las com pressão real. Com capacidade para gerar até 700 ondas por hora, o intervalo entre uma tentativa e outra é curto o suficiente para transformar cada sessão em treino de alto rendimento. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Para todos os níveis As cinco configurações cobrem desde quem está aprendendo até quem treina em alto rendimento. A piscina ainda opera em dois modos: single peak, com ondas quebrando para um lado e maior extensão de linha, e split peak, com direitas e esquerdas simultâneas, permitindo que surfistas compartilhem a mesma série em direções opostas. Yago Dora, campeão mundial de surfe em 2025, Victor Bernardo, um dos maiores freesurfers da atualidade, e Michelle des Bouillons, referência mundial em ondas gigantes, integram o time do BSC e já testaram a tecnologia na piscina Adrena Red Sea, na Arábia Saudita. “Muito animal esse lance de ter essa variedade de onda também. Um leque de ondas absurdo. Mal posso esperar para Búzios”, disse Victor Bernardo após a sessão. A versão de Búzios será maior: 48 câmaras contra 36 da estrutura do Mar Vermelho, com 13 mil metros quadrados de lâmina d’água. Variedade de ondas para testar, arriscar, aprender e evoluir todos os dias. Com inauguração prevista para o segundo semestre de 2026, é o que o Brasil Surfe Clube Aretê Búzios chega para entregar.

Pedro Bettencourt Müller nasceu no Rio de Janeiro, no dia 21 de julho de 1966, num ambiente familiar que respirava praia. Seu pai, Guilherme Xavier de Brito Müller, economista e morador do Leblon, cresceu frequentando a Zona Sul. Sua mãe, Maria Isabel Bettencourt Müller, criada em Santa Teresa, compartilhava da mesma paixão pelas praias. Para o casal, fim de semana e férias tinham destino certo: areia, sol e mar. Foi assim que Pedro e o irmão, Guilherme, passaram a infância seguindo os pais para o meio da Barra ou para São Conrado, ainda de estradas de terra, sem prédios, calçadões ou qualquer urbanização. Nesse cenário quase intocado, Pedro foi se encantando pelas ondas. Lembra-se de observar alguns surfistas solitários no meio da Barra e sentir-se hipnotizado pela habilidade deles. O mar, desde cedo, era o lugar onde queria estar. Ele recorda também a rotina da infância: ia para as aulas de natação no Clube de Regatas Flamengo e, depois, caminhava até o judô, no Leblon, um trajeto longo para uma criança de 12 anos. Antes de entrar no tatame, sentava-se no calçadão para olhar o mar quebrando, entregue à mesma fascinação que o acompanharia por toda a vida. O mar lhe transmitia paz, calma e propósito. Ali, ainda menino, já entendia que queria se tornar surfista. A mudança para São Conrado, por volta dos 14 ou 15 anos, foi decisiva. Morando ao lado do Pepino, Müller muitas vezes cabulava a aula pra ir surfar. As ondas triangulares, rápidas e pesadas da região se transformaram no seu campo de treinamento permanente. Ali, guiado pela referência de Rony Lima e pela evolução proporcionada pelas pranchas dos shapers Rico e Pedro Battaglin, deu um salto técnico marcante. A “biquilha mágica” 5’4″ de Battaglin é lembrada até hoje como uma das grandes viradas em seu surfe, época em que adotou o apelido de “o Águia”, pela tatuagem no braço. Uma nova mudança, motivada pelo desemprego do pai, levou a família para a Barra. Para Müller, foi a oportunidade perfeita: entre o Postinho, o meio da Barra e o Quebra-Mar, encontrou três ondas consistentes e acessíveis a pé, permitindo treinos diários que aceleraram ainda mais sua evolução. Nessa fase, destacou-se nos campeonatos da ASBT – Associação de Surf da Barra da Tijuca – e entrou para a promissora equipe da Cristal Graffiti. Antes disso, havia vencido seu primeiro campeonato no Leblon, organizado por Marcelo Peninha, vitória que marcou sua confiança rumo ao profissionalismo. Os resultados na categoria Júnior renderam um prêmio decisivo: uma passagem para o Havaí. Aos 18 anos, Müller viveu sua primeira temporada no North Shore (1984/85), dividindo casa com surfistas brasileiros experientes. Pipeline, logo no primeiro dia, foi seu batismo de fogo: mar pesado, adrenalina no limite e a certeza de que o treino no Pepino o havia preparado para aquele cenário. De volta ao Brasil, enfrentou dificuldades para manter regularidade como profissional. A grande virada veio com o curso de meditação transcendental feito ao lado de Rodolfo Lima. O impacto competitivo foi imediato: venceu a etapa profissional do Quebra-Mar no circuito carioca, em 1986, e passou a frequentar pódios de forma consistente. A regularidade, marca registrada de sua carreira, nasceu ali. Em 1987, tornou-se vice-campeão do primeiro Circuito Brasileiro de Surf Profissional. Liderou boa parte da temporada, foi vice-campeão na etapa da Lightning Bolt e, depois, campeão no Fico Festival. Só perdeu o título na penúltima bateria do Circuito, por apenas 20 pontos, uma diferença mínima para quem tinha 850 pontos de vantagem sobre o terceiro colocado. Na época, era visto como o surfista mais consciente e estratégico do país. Nos anos seguintes, acumulou resultados expressivos: vitórias importantes na Abrasp e uma vitória significativa no QS de Florianópolis, superando Barton Lynch, Jojó e Julio Adler. Em 1995, viria um dos grandes destaques internacionais de sua carreira: o nono lugar em Pipeline, substituindo de última hora o australiano Damien Hardman. Ondas entre 10 e 15 pés confirmaram sua capacidade técnica em um dos palcos mais desafiadores do mundo. Pedro Müller seguiria competindo por mais de duas décadas. Em Ubatuba, já aos 38 anos, conquistou sua última vitória no Circuito Super Surf 2004, num dos triunfos mais marcantes de sua trajetória. Hoje, vive do surfe como treinador, comentarista da Sportv e um dos proprietários da @escola_pedromuller, na Barra da Tijuca, administrada pelo sócio Adelmo Noite. Acompanhe ns publicações nas redes sociais @museudosurfesantos. Coordenador de pesquisas históricas do surfe @diniziozzi, o Pardhal.

Como uma prancha largamente usada por surfistas fora do circuito mundial profissional pode ganhar atenção? Coloque a dita cuja nos pés de um bicampeão mundial. Quer um destaque ainda maior? Filipe Toledo vence o tricampeão Gabriel Medina. Pronto. Vamos por partes. Na etapa do Championship Tour, na Nova Zelândia (Maio 2023), Filipe acabou não vencendo a disputa da quarta de final contra Griffin Colapinto, mesmo obtendo a melhor nota da bateria. Faltou uma onda. Mas o assunto aqui é outro, ou quase. Em um universo dominado por triquilhas, desde 1981, a diversidade de pranchas, no século 21, começou a ganhar espaço fora das competições. No meio de antigas novidades, biquilhas com trailer fin (estabilizador central) se mostraram mais controláveis e amistosas, levando muita gente a adotá-las no quiver. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Filipe Toledo (@filipetoledo) O modelo de biquilha com estabilizador central já havia sido testado mas ganhou vida nova em 2003, com as Super Twins do shaper, tetracampeão mundial (79, 80, 81 e 82), Mark Richards. Ele trouxe de volta suas Twin Fins do início dos anos 80, adicionando uma “quilhinha” central. Daí, de repente, Filipe Toledo coloca no jogo do circuito mundial o modelo Modern 2, da Sharp Eye Surfboards. Vence Gabriel Medina nas esquerdas de Raglan e deixa muito mais gente antenada sobre as possibilidades de uma twin com trailer fin. Filipe não foi o primeiro a fazer algo que eu esperava há tempos. Kelly Slater inovou, diminuindo o tamanho das pranchas e competindo, em algumas situações, com o que eram mais bi do que triquilhas, na primeira década do século 21. Dane Reynolds também fez isso, mas vamos combinar que esses dois não são parâmetros de surf normal. Deivid Silva também ousou. Abiquilhou-se numa etapa. Mandou bem, mas não chamou tanta atenção. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Sharp Eye Surfboards (@sharpeyesurfboards_au) Quando se trata de altíssima performance pesa sempre o fato dos atletas da elite não terem muito tempo para experiências fora da casinha das triquilhas. Mas, pela primeira vez, Filipe, além de seu ano sabático, em 2024, teve, como todos os Tops, os mesmos raros sete meses de folga antes da temporada 2026. Isso parece ter criado espaço para lidar com pranchas diferentes, memória física e jogo mental para se arriscar com um equipamento não muito convencional na Nova Zelândia. Sim, pranchas realmente diferentes pedem ajustes na maneira de usá-las e isso requer tempo e, claro, talento. Duas coisas chamaram a minha atenção. Impressionante como podemos e devemos comparar os melhores do surf competitivo profissional com pilotos da Fórmula 1. É com eles que a indústria das pranchas evolui mais e melhor. Detalhes sutis, milimétricos, que essa turma sente no funcionamento de uma prancha podem ser incorporados aos modelos que a maioria dos surfistas não conseguiria detectar ou explicar. Eles dão o caminho do que será usado pelos consumidores “normais”. Shapers são mais teoria, estudo. Tops são prática. As mudanças surgem daí. Segunda, e mais curiosa. Um esporte que durante tanto tempo teve uma aura de vanguarda e ousadia leva muito tempo para propor ou acertar mudanças mais drásticas, seja na construção ou desenvolvimento de design. Não creio que seja culpa dos fabricantes, já que essa indústria nunca gerou dinheiro suficiente para que se desenvolvesse como deveria. Ainda por cima a competição tem um formato onde há pouco espaço para o diferente quanto à performance. Mas isso é conversa para outro texto. Por agora fica a dica. Mesmo ideias estranhas à normalidade podem resultar em bons resultados. Teste tudo que é prancha que você puder. Não tenha medo, você não depende de notas dos juízes para ser feliz.