Mestres da fotografia

Teahupoo quinze anos depois

Lendário fotógrafo Sebastian Rojas regressa à Teahupoo, Taiti, sua onda favorita, no maior dia do ano.

O Brasil tem grandes fotógrafos de surfe, mas talvez nenhum com uma trajetória tão marcante quanto a de Sebastian Rojas. Aliás, muitos dos fotógrafos espalhados pelas praias do extenso litoral brasileiro têm o trabalho de Sebá, como ele é mais chamado na praia, como referência e inspiração. E entre seus discípulos mais assíduos, estão também aqueles que frequentaram seus cursos, aprendendo diretamente com ele os segredos do clique perfeito. Especialmente as dicas do que fazer para sobreviver no ambiente desafiador que o Tião Vermelho, mais um dos seus apelidos, dominou como ninguém, que é a fotografia de dentro d’água.

Pois bem, depois de décadas viajando o planeta como principal fotógrafo da revista Fluir, a publicação líder no segmento surfe no Brasil, Sebastian Rojas teve que buscar novos rumos para sua carreira. À medida que tudo que era impresso foi sucumbindo diante do rolo compressor que se tornou a mídia digital, ele passou a focar em atender uma seleta clientela de surfistas que desejava ter uma foto sua clicada pelo grande mestre das lentes. Além de também seguir ministrando suas aulas por todo o Brasil.

Isso fez com que diminuísse a frequência de suas viagens internacionais, ainda que continuasse batendo ponto no Havaí por vários anos. Até que veio o momento de uma virada inesperada em sua carreira, que o levou a mudar do Guarujá para o interior de São Paulo. Foi quando recebeu o convite para ser um dos fotógrafos oficiais da primeira piscina de ondas a ser inaugurada no país, a Praia da Grama, em Itupeva.

Desde então, lá se vão mais de dois anos, Sebá praticamente só fez imagens de ondas artificiais. Apesar de colocar o mesmo empenho e obter resultados sensacionais na nova modalidade de fotografia, ele vinha acumulando uma grande saudade de registrar ondas de verdade. Principalmente na sua onda favorita no planeta, Teahupo’o, no Taiti. O icônico pico “No Fim da Estrada” é um lugar que ele já havia visitado várias vezes, inclusive como um dos pioneiros, na companhia de Carlos Burle, em 1999, expedição que rendeu uma matéria histórica com direito a capa e muitas páginas na Fluir.

Por uma daquelas coincidências presenteadas pelo destino, a Praia da Grama iniciou uma reforma às vésperas da entrada da maior ondulação do ano em Teahupo’o. Para tornar as coisas ainda mais interessantes, também no momento em que a elite do surfe mundial estava convergindo para a Polinésia Francesa devido ao iminente início do Lexus Tahiti Pro, prova do Circuito Mundial da WSL. Era a conjunção de motivos que Sebastian Rojas precisava para o reencontro com sua onda favorita, 15 anos após a última vez.

Para sorte do Waves e seus usuários, o site foi o escolhido por Sebá para receber seu emocionante relato e as imagens desta ocasião tão especial. Aproveite com a gente.

“A última vez que eu vim pra cá foi com o Adriano de Souza, o Mineirinho, se não me engano foi em 2010, então já fazem 15 anos. O Taiti sempre foi o meu lugar preferido. Devido às ondas e pela receptividade do povo local. A vibe geral da ilha e a simplicidade dos nativos, fazem que seja um lugar muito mais tranquilo que o Havaí.

Sempre se mantendo atualizado, Sebastian levou na bagagem seu drone, um equipamento que tem proporcionado a evolução do seu trabalho.

Parece o Havaí de 50 anos atrás e continua sendo continua sendo muito bem conservado. Não tem grandes edificações, voltei agora e percebi que continua bem parecido com o que era quando vim pela primeira vez. Os locais também, super generosos, continuam recebendo a gente muito bem, sempre fiquei aqui com o Marama, amigão de todos brasileiros. Quando nós chegamos aqui na década de 90, fomos pioneiros mesmo.

A primeira matéria que rolou de Teahupo’o foi com o Carlos Burle. Chegamos na onda sem nunca ter visto uma imagem, só ouvido falar do tubo no fim da estrada, pois o pico era conhecido como “The End of the Road”. Nós fomos sem barco e sem saber o que íamos encontrar, eu nadando com a caixa estanque, ele remando na prancha. Rendeu uma matéria na Fluir, fiz a capa com uma foto do Burle, e me apaixonei logo de cara pelo Taiti. Sempre curti demais essa vibração, essa tranquilidade, essa natureza exuberante, e claro, as ondas principalmente. O potencial de produzir altas imagens aqui é altíssimo.

A água transparente, mar azul, é o sonho de qualquer fotógrafo vir pro Taiti e pegar um swell como está acontecendo agora aqui. Graças a Deus eu pude materializar o meu sonho de voltar ao Taiti 15 anos depois, só que com uma bomba, um big swell, para que eu pudesse trabalhar o que hoje é meu hobby. Talvez essa seja a palavra correta para descrever o que estou fazendo, sem pautas da Fluir para cumprir, sem ter de fazer foto para ninguém, só numa vibe de fazer a mente, de descansar também, dessa longa jornada de trabalho de dois anos na piscina.

Tava merecendo umas férias e poder reviver aquilo que eu sempre fazia, que era vim pra cá e curtir com a galera, dar umas risadas, curtir o povo que nos recebe com muito carinho. O que mais impressiona aqui em Teahupo’o, é o quanto você consegue estar tão próximo de uma onda gigante. Na condição que você tem aqui, o barco fica na cara. Praticamente todas as ondas, quando o mar tá grande, dão uma baforada que molha o barco inteiro. Isso não existe em nenhum lugar do mundo, um barco tão perto da onda.

O surfista quando sai do tubo quase bate no barco, tem que desviar, de tão próximo que a gente fica de uma onda tão intensa, perigosa e insana, Dezenas de barcos ficam muito próximos um do outros, não sei como não batem, os taitianos são muito bons pilotos. Eu trouxe minha esposa, a Regina, e ela ficou impressionada.

Eu falei, antes de vir pra cá, você precisa ver a oitava maravilha do mundo acontecendo na sua cara, muito perto. Tomamos várias baforadas da onda, nos molhamos inteiros. Essa proximidade da ação, de tudo aquilo que está acontecendo, a vibração da galera ali no canal depois que um surfista completa o tubo, o olhar, a expressão no rosto de cada um, é tudo muito marcante. A galera tá ali, colada numa onda amedrontadora, onde é possível você trazer sua câmera e fazer a imagem da vida. Mas só quem já veio ver um grande swell como esse pode dar um relato de como é a onda.

Claro, o Taiti tem várias outras boas ondas, mas essa daqui é a mais especial. Foi muito bom poder juntar os locais com os profissionais treinando para o campeonato e ainda com alguns podendo experimentar fazer um tow in. Alguns se atiraram lá, o Jack Robinson, o João Chianca, não sei se o Ítalo chegou a fazer tow-in, ele estava bem ativo na remada. Deu pra ver que muitos competidores estavam se resguardando, muitos nem surfaram esse swell grande, não queriam arriscar.

Vim também com o objetivo de, pela primeira vez, voar um drone aqui, nunca tinha feito isso. A adrenalina subiu, tomei uma baforada gigante no drone, que molhou inteiro, aí a câmera deu um probleminha e tal, mas voltou a funcionar, graças a Deus. Mas é uma baita adrenalina voar drone aqui, a onda dá umas baforadas que, se vacilar, derruba o drone. E também tem que tomar todo o cuidado com outros drones voando ao mesmo tempo. Essa missão foi a missão cumprida das minhas férias, fotografar como hobby. Estou muito feliz, de cabeça feita, realizado por poder ter voltado a uma terra que eu amo tanto”.

Sebastian Rojas regressou do Taiti com a mala pesada, carregada de imagens sensacionais. Feliz com mais um sonho realizado. 

Pedro Bettencourt Müller nasceu no Rio de Janeiro, no dia 21 de julho de 1966, num ambiente familiar que respirava praia. Seu pai, Guilherme Xavier de Brito Müller, economista e morador do Leblon, cresceu frequentando a Zona Sul. Sua mãe, Maria Isabel Bettencourt Müller, criada em Santa Teresa, compartilhava da mesma paixão pelas praias. Para o casal, fim de semana e férias tinham destino certo: areia, sol e mar. Foi assim que Pedro e o irmão, Guilherme, passaram a infância seguindo os pais para o meio da Barra ou para São Conrado, ainda de estradas de terra, sem prédios, calçadões ou qualquer urbanização. Nesse cenário quase intocado, Pedro foi se encantando pelas ondas. Lembra-se de observar alguns surfistas solitários no meio da Barra e sentir-se hipnotizado pela habilidade deles. O mar, desde cedo, era o lugar onde queria estar. Ele recorda também a rotina da infância: ia para as aulas de natação no Clube de Regatas Flamengo e, depois, caminhava até o judô, no Leblon, um trajeto longo para uma criança de 12 anos. Antes de entrar no tatame, sentava-se no calçadão para olhar o mar quebrando, entregue à mesma fascinação que o acompanharia por toda a vida. O mar lhe transmitia paz, calma e propósito. Ali, ainda menino, já entendia que queria se tornar surfista. A mudança para São Conrado, por volta dos 14 ou 15 anos, foi decisiva. Morando ao lado do Pepino, Müller muitas vezes cabulava a aula pra ir surfar. As ondas triangulares, rápidas e pesadas da região se transformaram no seu campo de treinamento permanente. Ali, guiado pela referência de Rony Lima e pela evolução proporcionada pelas pranchas dos shapers Rico e Pedro Battaglin, deu um salto técnico marcante. A “biquilha mágica” 5’4″ de Battaglin é lembrada até hoje como uma das grandes viradas em seu surfe, época em que adotou o apelido de “o Águia”, pela tatuagem no braço. Uma nova mudança, motivada pelo desemprego do pai, levou a família para a Barra. Para Müller, foi a oportunidade perfeita: entre o Postinho, o meio da Barra e o Quebra-Mar, encontrou três ondas consistentes e acessíveis a pé, permitindo treinos diários que aceleraram ainda mais sua evolução. Nessa fase, destacou-se nos campeonatos da ASBT – Associação de Surf da Barra da Tijuca – e entrou para a promissora equipe da Cristal Graffiti. Antes disso, havia vencido seu primeiro campeonato no Leblon, organizado por Marcelo Peninha, vitória que marcou sua confiança rumo ao profissionalismo. Os resultados na categoria Júnior renderam um prêmio decisivo: uma passagem para o Havaí. Aos 18 anos, Müller viveu sua primeira temporada no North Shore (1984/85), dividindo casa com surfistas brasileiros experientes. Pipeline, logo no primeiro dia, foi seu batismo de fogo: mar pesado, adrenalina no limite e a certeza de que o treino no Pepino o havia preparado para aquele cenário. De volta ao Brasil, enfrentou dificuldades para manter regularidade como profissional. A grande virada veio com o curso de meditação transcendental feito ao lado de Rodolfo Lima. O impacto competitivo foi imediato: venceu a etapa profissional do Quebra-Mar no circuito carioca, em 1986, e passou a frequentar pódios de forma consistente. A regularidade, marca registrada de sua carreira, nasceu ali. Em 1987, tornou-se vice-campeão do primeiro Circuito Brasileiro de Surf Profissional. Liderou boa parte da temporada, foi vice-campeão na etapa da Lightning Bolt e, depois, campeão no Fico Festival. Só perdeu o título na penúltima bateria do Circuito, por apenas 20 pontos, uma diferença mínima para quem tinha 850 pontos de vantagem sobre o terceiro colocado. Na época, era visto como o surfista mais consciente e estratégico do país. Nos anos seguintes, acumulou resultados expressivos: vitórias importantes na Abrasp e uma vitória significativa no QS de Florianópolis, superando Barton Lynch, Jojó e Julio Adler. Em 1995, viria um dos grandes destaques internacionais de sua carreira: o nono lugar em Pipeline, substituindo de última hora o australiano Damien Hardman. Ondas entre 10 e 15 pés confirmaram sua capacidade técnica em um dos palcos mais desafiadores do mundo. Pedro Müller seguiria competindo por mais de duas décadas. Em Ubatuba, já aos 38 anos, conquistou sua última vitória no Circuito Super Surf 2004, num dos triunfos mais marcantes de sua trajetória. Hoje, vive do surfe como treinador, comentarista da Sportv e um dos proprietários da @escola_pedromuller, na Barra da Tijuca, administrada pelo sócio Adelmo Noite. Acompanhe ns publicações nas redes sociais @museudosurfesantos. Coordenador de pesquisas históricas do surfe @diniziozzi, o Pardhal.

Como uma prancha largamente usada por surfistas fora do circuito mundial profissional pode ganhar atenção? Coloque a dita cuja nos pés de um bicampeão mundial. Quer um destaque ainda maior? Filipe Toledo vence o tricampeão Gabriel Medina. Pronto. Vamos por partes. Na etapa do Championship Tour, na Nova Zelândia (Maio 2023), Filipe acabou não vencendo a disputa da quarta de final contra Griffin Colapinto, mesmo obtendo a melhor nota da bateria. Faltou uma onda. Mas o assunto aqui é outro, ou quase. Em um universo dominado por triquilhas, desde 1981, a diversidade de pranchas, no século 21, começou a ganhar espaço fora das competições. No meio de antigas novidades, biquilhas com trailer fin (estabilizador central) se mostraram mais controláveis e amistosas, levando muita gente a adotá-las no quiver. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Filipe Toledo (@filipetoledo) O modelo de biquilha com estabilizador central já havia sido testado mas ganhou vida nova em 2003, com as Super Twins do shaper, tetracampeão mundial (79, 80, 81 e 82), Mark Richards. Ele trouxe de volta suas Twin Fins do início dos anos 80, adicionando uma “quilhinha” central. Daí, de repente, Filipe Toledo coloca no jogo do circuito mundial o modelo Modern 2, da Sharp Eye Surfboards. Vence Gabriel Medina nas esquerdas de Raglan e deixa muito mais gente antenada sobre as possibilidades de uma twin com trailer fin. Filipe não foi o primeiro a fazer algo que eu esperava há tempos. Kelly Slater inovou, diminuindo o tamanho das pranchas e competindo, em algumas situações, com o que eram mais bi do que triquilhas, na primeira década do século 21. Dane Reynolds também fez isso, mas vamos combinar que esses dois não são parâmetros de surf normal. Deivid Silva também ousou. Abiquilhou-se numa etapa. Mandou bem, mas não chamou tanta atenção. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Sharp Eye Surfboards (@sharpeyesurfboards_au) Quando se trata de altíssima performance pesa sempre o fato dos atletas da elite não terem muito tempo para experiências fora da casinha das triquilhas. Mas, pela primeira vez, Filipe, além de seu ano sabático, em 2024, teve, como todos os Tops, os mesmos raros sete meses de folga antes da temporada 2026. Isso parece ter criado espaço para lidar com pranchas diferentes, memória física e jogo mental para se arriscar com um equipamento não muito convencional na Nova Zelândia. Sim, pranchas realmente diferentes pedem ajustes na maneira de usá-las e isso requer tempo e, claro, talento. Duas coisas chamaram a minha atenção. Impressionante como podemos e devemos comparar os melhores do surf competitivo profissional com pilotos da Fórmula 1. É com eles que a indústria das pranchas evolui mais e melhor. Detalhes sutis, milimétricos, que essa turma sente no funcionamento de uma prancha podem ser incorporados aos modelos que a maioria dos surfistas não conseguiria detectar ou explicar. Eles dão o caminho do que será usado pelos consumidores “normais”. Shapers são mais teoria, estudo. Tops são prática. As mudanças surgem daí. Segunda, e mais curiosa. Um esporte que durante tanto tempo teve uma aura de vanguarda e ousadia leva muito tempo para propor ou acertar mudanças mais drásticas, seja na construção ou desenvolvimento de design. Não creio que seja culpa dos fabricantes, já que essa indústria nunca gerou dinheiro suficiente para que se desenvolvesse como deveria. Ainda por cima a competição tem um formato onde há pouco espaço para o diferente quanto à performance. Mas isso é conversa para outro texto. Por agora fica a dica. Mesmo ideias estranhas à normalidade podem resultar em bons resultados. Teste tudo que é prancha que você puder. Não tenha medo, você não depende de notas dos juízes para ser feliz.

Michelle des Bouillons desceu uma onda de quase 25 metros em Nazaré e pode entrar para a história como a mulher que surfou a maior de todos os tempos. Em entrevista exclusiva ao Waves, ela conta como chegou até aqui.

De Bells Beach a Raglan, Brasil vive quatro etapas de domínio histórico: vitórias, finais, nota 10 e os quatro primeiros do ranking mundial com a mesma bandeira.