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Cliff Kapono, PhD havaiano

Cientista havaiano utiliza ferramentas de biologia molecular para coletar e analisar amostras de surfistas em diversas partes do mundo.

Nascido e criado no Havaí, Cliff Kapono, 30 anos, é um dos nomes mais singulares da atualidade: surfista profissional, PhD em Química pela University of California, San Diego, documentarista e defensor da cultura indígena havaiana.

PhD é um título de doutorado acadêmico que representa o mais alto grau de formação numa área de conhecimento, obtido através de pesquisa original e inédita sobre um tema específico.

Embora a sigla venha do latim Philosophiae Doctor (Doutor em Filosofia), este título é concedido em diversas disciplinas, não se limitando à filosofia.

A conclusão de um PhD envolve a elaboração e a defesa de uma tese perante uma banca examinadora, com o objetivo de expandir o conhecimento da área. No caso de Cliff, sua investigação científica se conecta diretamente com o oceano.

Cliff liderou o Surfer Biome Project, no qual utilizou ferramentas de biologia molecular, sequenciamento genético e espectrometria de massa para analisar como a imersão no mar altera o microbioma de surfistas ao redor do mundo, explorando a relação entre microrganismos, saúde e estilo de vida.

Ao longo de sua carreira, o havaiano tem mostrado como a cultura do surfe pode dialogar com pesquisas científicas, sempre com o mar como fio condutor de sua vida.

Surfista de alto nível, mergulhador e fotógrafo, ele prova que é possível unir tradição e ciência, espiritualidade e tecnologia, ondas gigantes e moléculas microscópicas.

A seguir, ele compartilha com o Waves suas experiências e visões sobre o futuro dos recifes, a importância da ciência no surfe e o papel de integrar conhecimentos ancestrais e saber acadêmico.

Você cresceu no Havaí, berço do surfe. Como esse patrimônio cultural moldou sua visão de mundo e inspirou sua jornada científica?
Tenho muita sorte de ser do Havaí. Temos muitas histórias sobre como nos conectamos com o mundo natural como povo havaiano. Acho que isso moldou a forma como vejo o mundo e me mantém interessado em aprender mais sobre como estamos conectados à natureza em níveis moleculares.

Qual foi o ponto de virada que o levou a buscar um PhD em química ao mesmo tempo em que mantinha a vida como surfista profissional?
Eu não sou um surfista competitivo e nunca busquei de fato uma carreira no circuito. A maior parte do meu surfe gira em torno de encontrar as melhores ondas do ano, o que significa que muitas vezes sobra bastante tempo livre.

Como acontece com muitos free surfers viajantes, três ou quatro sessões realmente boas por ano já rendem um vídeo que faz parecer que você está pegando altas ondas todos os dias.

Percebi que, se priorizasse essas sessões e usasse o tempo livre para me manter em forma, ainda teria bastante espaço para outras atividades.

Naturalmente, acabei usando esse tempo para aprender ciência, o que evoluiu para um curso universitário. No começo, a ciência era apenas uma forma de passar o tempo fora d’água. Nunca pensei que ambas se transformariam em carreiras.

No Surfer Biome Project*, você estudou o microbioma de surfistas em diferentes oceanos. Que descobertas mais o surpreenderam nesse trabalho?
Os instrumentos que usei para analisar moléculas eram muito sensíveis. Cheguei a ver traços de drogas na pele de surfistas durante o projeto.

Não fiquei exatamente surpreso, mas foi curioso perceber como os efeitos de festas fora do surfe podem ser rastreados na pele mesmo depois de uma sessão no mar.

Em nível de bactérias, foi surpreendente ver que existem espécies oceânicas que parecem favorecer tanto humanos quanto baleias.

O MEGA Lab** tem a meta de mapear um milhão de recifes até 2030. Como equilibrar tecnologia de ponta com o conhecimento tradicional das comunidades locais nesse processo?
Acredito que a tecnologia de ponta é também conhecimento tradicional. De certa forma, os smart-phones podem ser vistos como pouco avançados, já que são apenas blocos de vidro que nos distraem.

Navegar ao redor do mundo em canoas de madeira usando estrelas e correntes, isso sim é uma das formas mais avançadas de transporte. Totalmente sustentável e conectado às nossas tradições.

Nosso projeto de mapeamento busca justamente criar essa ponte: usar os dispositivos, mas permanecendo em contato com o oceano. Quanto mais recifes mapeamos, mais aprendemos a protegê-los.

O que você aprendeu sobre corais e saúde do oceano que ainda não é suficientemente discutido fora da comunidade científica?
Existe muito discurso pessimista sobre a morte dos recifes. É verdade que os corais estão criticamente ameaçados em várias partes do mundo, e que muitos recifes já não são como eram há 10 anos. Mas também há esperança.

Além dos esforços de conservação, ainda existem recifes belíssimos e vibrantes a serem descobertos. Podemos preservá-los garantindo que saibamos onde estão localizados.

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Esse é o benefício do mapeamento: ele mostra onde está o tesouro, para que possamos protegê-lo.Muitos vêem o surfe apenas como esporte. Para você, como surfista-cientista, o que significa estar no oceano em termos de pesquisa, espiritualidade e cultura?

O surfe é minha profissão, minha arte, minha prática de estudo e, provavelmente, o mais importante: minha cultura. O surfe tem aspectos de esporte, mas para mim é mais um pilar de quem eu sou e de quem eu quero ser para as pessoas que amo.

Suas produções audiovisuais já chegaram às grandes plataformas como The New York Times e The Surfer’s Journal. Qual a importância de contar essas histórias para além do mundo acadêmico?
Muitas vezes, na academia, seguimos rápido demais para a próxima ideia. Não dedicamos tempo suficiente para construir sobre o que já foi feito.

Quando mensagens e histórias chegam além da academia, mais pessoas podem acessá-las. Isso aumenta as chances de o trabalho ser aprimorado e gerar impactos mais duradouros.

Você é um defensor ativo do conhecimento indígena havaiano. Como a ciência ocidental e a sabedoria ancestral podem trabalhar juntas em favor do oceano?
Acho que é preciso reconhecer as diferenças entre as duas e usar os pontos fortes de cada uma para criar uma comunicação melhor. Sempre gostei do ditado de que a escola pode não ser para todos, mas a educação é.

Há muito a aprender com os mais velhos que passaram a vida pescando ou que sabem prever o clima observando o comportamento dos animais.

Podemos então usar os dados empíricos para responder questões imediatas, que talvez sejam pouco familiares para comunidades afetadas por mudanças rápidas. Há benefícios nos dois mundos. Juntá-los pode não ser fácil, mas as coisas mais valiosas muitas vezes surgem do trabalho árduo.

O surfe moderno está se tornando cada vez mais tecnológico, das pranchas às piscinas de ondas. Como você vê o papel da ciência nesse novo cenário?
A ciência continua transformando todos os setores da indústria outdoor. Desde as pranchas até a fabricação de roupas, tudo está se tornando mais eficiente e continuará evoluindo.

Se a essência de nossa cultura vai abraçar isso ou não, ainda é cedo para dizer. Para mim, acredito que um equilíbrio saudável entre arte e ciência nunca falha.

Que conselho daria para jovens surfistas que também desejam seguir uma carreira acadêmica sem perder a conexão com o oceano e com suas raízes culturais?
A sociedade está mudando. Ser uma pessoa multidimensional vai torná-la mais valiosa em qualquer carreira futura. Eu os encorajaria a permanecer comprometidos com o oceano, pois ele será a armadura que os protegerá dos muitos desafios que, sem dúvida, irão enfrentar.

*O Surfer Biome Project busca investigar a relação entre surfistas, o oceano e a microbiologia. A ideia central do projeto é entender como o contato constante com o mar, ondas e diferentes ambientes costeiros influencia a microbiota humana, as comunidades de microrganismos que vivem no corpo, especialmente na pele e no intestino.

**O MEGA Lab (Multiscale Environmental Graphical Analysis Laboratory) é um laboratório colaborativo de ciência e inovação fundado pelo surfista e cientista havaiano Cliff Kapono.

A proposta do MEGA Lab é unir pesquisadores, artistas, surfistas, comunidades locais e instituições de ensino em torno de um objetivo comum: entender e preservar os ecossistemas costeiros e marinhos.

Enquanto alguns fotógrafos documentam a história, Fedoca Lima fez diferente: viveu dentro dela enquanto fotografava. Carioca do Posto 5, começou a surfar com 11 anos e a fotografar quase ao mesmo tempo, com uma máquina fotográfica alemã do pai. Aos 14, registrou a Rainha Elizabeth passando de Rolls-Royce aberto pela orla de Copacabana, em frente à casa do Assis Chateaubriand. No mesmo período, fotografou o Mick Jagger dando o dedo do meio no Copacabana Palace. Não era fotógrafo profissional. Era um moleque com olho bom e câmera na mão, sem perceber ainda o tamanho do que estava construindo. O que veio depois é história do surfe brasileiro. O Píer de Ipanema nos anos 70, quando o Rio era o centro do surfe nacional, com Daniel Friedmann, Pepê Lopes, Rico de Souza e Ricardo Bocão dominando o circuito. A Brasil Surf, primeira revista especializada do país, na qual Fedoca jogou em todas as posições: fotógrafo, redator e capa. O Havaí entre 1978 e 1981, surfando e fotografando ao lado de Gerry Lopez, Shaun Tomson e Michael Ho em Pipeline e Waimea. Os shows históricos, de Bob Marley ao ar livre no Havaí até Rolling Stones e Paul McCartney no Maracanã. “A foto que eu não tirei, essa me persegue.” Fedoca Lima Mais de cinquenta anos depois, esse arquivo vira livro. “Surf, Clicks e Rock’n Roll” tem 220 páginas, cerca de 180 fotografias e percorre a transformação do surfe brasileiro desde a era analógica até o digital, passando por Arpoador, Saquarema, Havaí, Califórnia e Macumba. Com captação aprovada de R$ 203 mil via incentivo cultural e apio da Fu Wax, o lançamento está previsto para o segundo semestre de 2026. Conversamos com Fedoca sobre tudo isso. Antes de se consolidar como fotógrafo, você também virou personagem da própria história do surfe brasileiro ao sair na capa da Brasil Surf em 1975. Como foi viver aquele momento por dentro? Saí na capa da Brasil Surf. Na época eu trabalhei na revista de março de 75 até janeiro de 79, só não peguei o primeiro número. Jogava todas as posições: saí na capa, escrevia, tirava foto, ajudava na redação, dava palpite, fazia matéria. Por muito tempo achei que era o único fotógrafo de surfe que tinha saído numa capa. Depois o Bruno Alves me falou que o irmão dele, o Alberto, saiu na capa da Fluir número 1. A história dele bate um pouco com a minha: ele pegava onda, saiu na capa, era fotógrafo. Mas durante anos eu achei que era caso único. Até hoje tem um restaurante aqui que o cara pediu, eu tirei uma foto com a revista na mão, ele botou na parede, eu assinei. A influência continua. A Brasil Surf ajudou a mudar a imagem do surfista no Brasil. Como era ser surfista naquela época, antes dessa mudança de percepção acontecer? O surfe saía no caderno B do Jornal do Brasil, do Globo. Não saía no esporte. E o surfista era tido como vagabundo de praia. Maconheiro. Isso, aliás, até hoje tem um pouco, mas na época tinha muito mais. A Brasil Surf não vou dizer que limpou essa imagem completamente, mas ajudou a transformar o surfe em esporte e também a fomentar o mercado de surfwear. Os irmãos Wady e Fuad Mansur, da loja Mansur, em Ipanema, foram dos primeiros anunciantes. Acreditaram na revista, fizeram anúncios de contracapa e página inteira, e as camisetas personalizadas vendidas pelo correio viraram um sucesso. A Brasil Surf acabou impulsionando fabricantes de pranchas, calções, parafinas e diversos outros anunciantes ligados ao surfe. Os fabricantes de prancha tinham um veículo para anunciar. Os fotógrafos ganhavam uma graninha, viajavam. Fui para a América Central, Porto Rico, Barbados, El Salvador, Fernando de Noronha, Peru, várias viagens bancadas pela Brasil Surf de uma forma ou de outra. O Nilton Barbosa foi ao Havaí duas vezes bancado pela revista. No caso dele, eles bancavam os filmes, ele vendia as fotos e a viagem se pagava. Tinha uma diferença entre mim e o Nilton nessa época: ele chegava na praia e ficava na areia fotografando, fotografando, fotografando. Eu chegava e ia para dentro da água. Se não estava o Daniel, não estava o Pepê, não estava o Cauli, não estava o Bocão, não estavam os caras top, eu entrava e surfava. Então tem foto minha na Brasil Surf publicada pelo Nilton Barbosa, pelo Rogério Ehrlich. Eu estava mais dentro da água do que fora. Eu estudava. Primeiro vestibular, depois faculdade. Boa parte dos meus amigos só queria saber de surfar. Eu dividia meu tempo. Chegava na praia, já tinha estudado de manhã, aí ficava naquele dilema: vou pegar onda ou vou fotografar? Por isso tem poucas fotos do Píer. Em três anos não tirei nem metade do que tiro hoje num dia bom na Macumba com o digital. Você viveu o Píer, a Brasil Surf, o Havaí dos anos 70, o nascimento do surfe brasileiro moderno. Em que momento percebeu que estava no meio de uma transformação cultural que iria muito além do esporte? O Píer foi o que fomentou o surfe no Rio de Janeiro. Por dez anos, foi domínio completo do Rio no cenário brasileiro. O Daniel Friedmann, em 77, foi o último carioca a vencer uma etapa do circuito internacional, ganhou no Quebra-Mar, em cima do Pepê Lopes, que tinha ganho em 76. Os dois de Ipanema, meus vizinhos de rua. E esse pessoal do Píer que dominou, o Daniel, o Pepê Lopes, o Cauli Rodrigues, e também o Otávio Pacheco, o Rico de Souza, o Ricardo Bocão. E tinha o Betão, que era o melhor surfista do Brasil na época mas não era competitivo, não corria atrás de patrocinador, acabou saindo cedo. Em 75 ele ganhou o Campeonato de Saquarema e foi saindo, saindo. O Píer influenciou a revista, influenciou os fabricantes de prancha, influenciou o modo de viver. Começaram a ter fábricas em Guaratiba, Vargem Grande, no Recreio, depois em Saquarema. As pessoas foram morar lá. O Penho foi, o Otávio comprou

O que define uma boa onda? Tamanho, força, parede, qualidade da linha, formação e surfabilidade, dentre outros elementos. No oceano, todos esses fatores mudam a cada swell, a cada vento, a cada maré. Em Búzios, a proposta é diferente: construir essas variáveis de forma controlada, repetível e ajustável. A piscina do Brasil Surfe Clube Aretê Búzios opera com a tecnologia Endless Surf, do grupo canadense WhiteWater, com 48 câmaras de ar de alta precisão. O sistema permite criar configurações distintas dentro da mesma estrutura. Dentro de um universo de grandes possibilidades, as cinco primeiras ondas já foram nomeadas e reveladas, cada uma com perfil próprio, e muito mais ainda está por vir. Onda #01: Pointbreak + Junção Linha longa, seções conectadas, tempo de onda que pode ultrapassar 25 segundos. A junção encadeia diferentes partes da onda sem perder velocidade, criando uma das experiências mais difíceis de encontrar no oceano com consistência. Para quem quer mais de 10 manobras na mesma onda ou simplesmente mais tempo de linha para ler e decidir. Onda #02: Manobras + Bowl A parede fica mais íngreme. O bowl abre seções críticas para manobras verticais e aéreos. É o ambiente para quem quer empurrar os limites do que consegue fazer sobre a prancha, com repetição suficiente para transformar cada tentativa em aprendizado real. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Onda #03: Rampa + Tubo Uma onda que combina duas experiências na mesma seção. A rampa prepara o surfista para a manobra e o tubo roda na sequência. Para quem quer encaixar um aéreo e ainda sair do tubo na mesma onda, essa configuração entrega os dois elementos sem precisar escolher. Onda #04: Rampa Nível Intermediário Parede consistente, menor intensidade, mais previsível. A configuração certa para quem está desenvolvendo manobras progressivas e precisa de repetição para consolidar o que está aprendendo. A seção cria a rampa no ângulo certo, com velocidade suficiente para executar sem exigir o nível avançado. Onda #05: Rampa Nível Avançado Mais potência, mais velocidade, mais projeção. A rampa avançada é para quem já chegou em Búzios com manobras no repertório e quer testá-las com pressão real. Com capacidade para gerar até 700 ondas por hora, o intervalo entre uma tentativa e outra é curto o suficiente para transformar cada sessão em treino de alto rendimento. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Para todos os níveis As cinco configurações cobrem desde quem está aprendendo até quem treina em alto rendimento. A piscina ainda opera em dois modos: single peak, com ondas quebrando para um lado e maior extensão de linha, e split peak, com direitas e esquerdas simultâneas, permitindo que surfistas compartilhem a mesma série em direções opostas. Yago Dora, campeão mundial de surfe em 2025, Victor Bernardo, um dos maiores freesurfers da atualidade, e Michelle des Bouillons, referência mundial em ondas gigantes, integram o time do BSC e já testaram a tecnologia na piscina Adrena Red Sea, na Arábia Saudita. “Muito animal esse lance de ter essa variedade de onda também. Um leque de ondas absurdo. Mal posso esperar para Búzios”, disse Victor Bernardo após a sessão. A versão de Búzios será maior: 48 câmaras contra 36 da estrutura do Mar Vermelho, com 13 mil metros quadrados de lâmina d’água. Variedade de ondas para testar, arriscar, aprender e evoluir todos os dias. Com inauguração prevista para o segundo semestre de 2026, é o que o Brasil Surfe Clube Aretê Búzios chega para entregar.

Pedro Bettencourt Müller nasceu no Rio de Janeiro, no dia 21 de julho de 1966, num ambiente familiar que respirava praia. Seu pai, Guilherme Xavier de Brito Müller, economista e morador do Leblon, cresceu frequentando a Zona Sul. Sua mãe, Maria Isabel Bettencourt Müller, criada em Santa Teresa, compartilhava da mesma paixão pelas praias. Para o casal, fim de semana e férias tinham destino certo: areia, sol e mar. Foi assim que Pedro e o irmão, Guilherme, passaram a infância seguindo os pais para o meio da Barra ou para São Conrado, ainda de estradas de terra, sem prédios, calçadões ou qualquer urbanização. Nesse cenário quase intocado, Pedro foi se encantando pelas ondas. Lembra-se de observar alguns surfistas solitários no meio da Barra e sentir-se hipnotizado pela habilidade deles. O mar, desde cedo, era o lugar onde queria estar. Ele recorda também a rotina da infância: ia para as aulas de natação no Clube de Regatas Flamengo e, depois, caminhava até o judô, no Leblon, um trajeto longo para uma criança de 12 anos. Antes de entrar no tatame, sentava-se no calçadão para olhar o mar quebrando, entregue à mesma fascinação que o acompanharia por toda a vida. O mar lhe transmitia paz, calma e propósito. Ali, ainda menino, já entendia que queria se tornar surfista. A mudança para São Conrado, por volta dos 14 ou 15 anos, foi decisiva. Morando ao lado do Pepino, Müller muitas vezes cabulava a aula pra ir surfar. As ondas triangulares, rápidas e pesadas da região se transformaram no seu campo de treinamento permanente. Ali, guiado pela referência de Rony Lima e pela evolução proporcionada pelas pranchas dos shapers Rico e Pedro Battaglin, deu um salto técnico marcante. A “biquilha mágica” 5’4″ de Battaglin é lembrada até hoje como uma das grandes viradas em seu surfe, época em que adotou o apelido de “o Águia”, pela tatuagem no braço. Uma nova mudança, motivada pelo desemprego do pai, levou a família para a Barra. Para Müller, foi a oportunidade perfeita: entre o Postinho, o meio da Barra e o Quebra-Mar, encontrou três ondas consistentes e acessíveis a pé, permitindo treinos diários que aceleraram ainda mais sua evolução. Nessa fase, destacou-se nos campeonatos da ASBT – Associação de Surf da Barra da Tijuca – e entrou para a promissora equipe da Cristal Graffiti. Antes disso, havia vencido seu primeiro campeonato no Leblon, organizado por Marcelo Peninha, vitória que marcou sua confiança rumo ao profissionalismo. Os resultados na categoria Júnior renderam um prêmio decisivo: uma passagem para o Havaí. Aos 18 anos, Müller viveu sua primeira temporada no North Shore (1984/85), dividindo casa com surfistas brasileiros experientes. Pipeline, logo no primeiro dia, foi seu batismo de fogo: mar pesado, adrenalina no limite e a certeza de que o treino no Pepino o havia preparado para aquele cenário. De volta ao Brasil, enfrentou dificuldades para manter regularidade como profissional. A grande virada veio com o curso de meditação transcendental feito ao lado de Rodolfo Lima. O impacto competitivo foi imediato: venceu a etapa profissional do Quebra-Mar no circuito carioca, em 1986, e passou a frequentar pódios de forma consistente. A regularidade, marca registrada de sua carreira, nasceu ali. Em 1987, tornou-se vice-campeão do primeiro Circuito Brasileiro de Surf Profissional. Liderou boa parte da temporada, foi vice-campeão na etapa da Lightning Bolt e, depois, campeão no Fico Festival. Só perdeu o título na penúltima bateria do Circuito, por apenas 20 pontos, uma diferença mínima para quem tinha 850 pontos de vantagem sobre o terceiro colocado. Na época, era visto como o surfista mais consciente e estratégico do país. Nos anos seguintes, acumulou resultados expressivos: vitórias importantes na Abrasp e uma vitória significativa no QS de Florianópolis, superando Barton Lynch, Jojó e Julio Adler. Em 1995, viria um dos grandes destaques internacionais de sua carreira: o nono lugar em Pipeline, substituindo de última hora o australiano Damien Hardman. Ondas entre 10 e 15 pés confirmaram sua capacidade técnica em um dos palcos mais desafiadores do mundo. Pedro Müller seguiria competindo por mais de duas décadas. Em Ubatuba, já aos 38 anos, conquistou sua última vitória no Circuito Super Surf 2004, num dos triunfos mais marcantes de sua trajetória. Hoje, vive do surfe como treinador, comentarista da Sportv e um dos proprietários da @escola_pedromuller, na Barra da Tijuca, administrada pelo sócio Adelmo Noite. Acompanhe ns publicações nas redes sociais @museudosurfesantos. Coordenador de pesquisas históricas do surfe @diniziozzi, o Pardhal.

Como uma prancha largamente usada por surfistas fora do circuito mundial profissional pode ganhar atenção? Coloque a dita cuja nos pés de um bicampeão mundial. Quer um destaque ainda maior? Filipe Toledo vence o tricampeão Gabriel Medina. Pronto. Vamos por partes. Na etapa do Championship Tour, na Nova Zelândia (Maio 2023), Filipe acabou não vencendo a disputa da quarta de final contra Griffin Colapinto, mesmo obtendo a melhor nota da bateria. Faltou uma onda. Mas o assunto aqui é outro, ou quase. Em um universo dominado por triquilhas, desde 1981, a diversidade de pranchas, no século 21, começou a ganhar espaço fora das competições. No meio de antigas novidades, biquilhas com trailer fin (estabilizador central) se mostraram mais controláveis e amistosas, levando muita gente a adotá-las no quiver. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Filipe Toledo (@filipetoledo) O modelo de biquilha com estabilizador central já havia sido testado mas ganhou vida nova em 2003, com as Super Twins do shaper, tetracampeão mundial (79, 80, 81 e 82), Mark Richards. Ele trouxe de volta suas Twin Fins do início dos anos 80, adicionando uma “quilhinha” central. Daí, de repente, Filipe Toledo coloca no jogo do circuito mundial o modelo Modern 2, da Sharp Eye Surfboards. Vence Gabriel Medina nas esquerdas de Raglan e deixa muito mais gente antenada sobre as possibilidades de uma twin com trailer fin. Filipe não foi o primeiro a fazer algo que eu esperava há tempos. Kelly Slater inovou, diminuindo o tamanho das pranchas e competindo, em algumas situações, com o que eram mais bi do que triquilhas, na primeira década do século 21. Dane Reynolds também fez isso, mas vamos combinar que esses dois não são parâmetros de surf normal. Deivid Silva também ousou. Abiquilhou-se numa etapa. Mandou bem, mas não chamou tanta atenção. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Sharp Eye Surfboards (@sharpeyesurfboards_au) Quando se trata de altíssima performance pesa sempre o fato dos atletas da elite não terem muito tempo para experiências fora da casinha das triquilhas. Mas, pela primeira vez, Filipe, além de seu ano sabático, em 2024, teve, como todos os Tops, os mesmos raros sete meses de folga antes da temporada 2026. Isso parece ter criado espaço para lidar com pranchas diferentes, memória física e jogo mental para se arriscar com um equipamento não muito convencional na Nova Zelândia. Sim, pranchas realmente diferentes pedem ajustes na maneira de usá-las e isso requer tempo e, claro, talento. Duas coisas chamaram a minha atenção. Impressionante como podemos e devemos comparar os melhores do surf competitivo profissional com pilotos da Fórmula 1. É com eles que a indústria das pranchas evolui mais e melhor. Detalhes sutis, milimétricos, que essa turma sente no funcionamento de uma prancha podem ser incorporados aos modelos que a maioria dos surfistas não conseguiria detectar ou explicar. Eles dão o caminho do que será usado pelos consumidores “normais”. Shapers são mais teoria, estudo. Tops são prática. As mudanças surgem daí. Segunda, e mais curiosa. Um esporte que durante tanto tempo teve uma aura de vanguarda e ousadia leva muito tempo para propor ou acertar mudanças mais drásticas, seja na construção ou desenvolvimento de design. Não creio que seja culpa dos fabricantes, já que essa indústria nunca gerou dinheiro suficiente para que se desenvolvesse como deveria. Ainda por cima a competição tem um formato onde há pouco espaço para o diferente quanto à performance. Mas isso é conversa para outro texto. Por agora fica a dica. Mesmo ideias estranhas à normalidade podem resultar em bons resultados. Teste tudo que é prancha que você puder. Não tenha medo, você não depende de notas dos juízes para ser feliz.