Minha Narrativa

Uma história que inspira

Filme Minha Narrativa, interpretado por Natália Regina, dirigido por Débora Carvalho e produzido por Ronie Pasini, tem exibição em Ubatuba (SP).
Praia do Sapê, Ubatuba (SP).

Na última sexta-feira, dia 4 de julho, foi exibido o filme documental Minha Narrativa, produzido por Ronie Pasini, dirigido por Débora Carvalho e interpretado pela surfista local da praia do Sapê, Ubatuba (SP), Natália Regina, mais conhecida como Naty. O evento aconteceu no Makai Bar e Restaurante, localizado na região e teve início às 19 horas e o filme foi exibido às 21 horas. Como atração musical ao vivo, Pedro Musicando, artista local de Ubatuba, que possui um repertório de reggae, rock nacional e MPB.

O filme Minha Narrativa retrata Naty nas ondas do Sapê, representando as pessoas pretas no mar, especialmente mulheres e transmitindo uma mensagem importante que impacta a comunidade do surfe, a sociedade e que incentiva o movimento negro e a busca pelo seu espaço no mar e pela representatividade no surfe. Ela inicia contando como vive sua vida hoje com o lifestyle do surfe e no final do filme, fala sobre sua história de vida, família e como tudo era antes de começar a surfar.

O evento que aconteceu na última sexta-feira foi realizado com o propósito de transmitir o filme pela primeira vez, para amigos, admiradores e comunidade do surfe.

Em entrevista ao Waves, Natália Regina conta qual a sensação de ter feito um filme de surfe, ter seu filme exibido em um evento, o processo criativo, propósito e perspectivas.

Qual a sensação de fazer um filme sobre sua história e poder apresentar para os amigos e quem a admira?

O evento foi mágico para mim, eu estava nervosa, pois não é fácil para mim exibir a minha vida, ainda mais quando a plateia se ocupa na grande maioria por pessoas brancas. Na verdade senti que essa seria a primeira barreira que eu teria que enfrentar para lançar mais longe esse projeto.

Senti um frio na barriga o momento todo, mas foi lindo. Todos estavam lá para me prestigiar e para conhecer mais a fundo minha história. A galera já me conhecia no mar, já me viram surfando e na pousada que trabalho, mas ninguém ali sabia nem 1% da minha história até chegar aqui, e isso que me deixou com medo. Não gosto de me vitimizar, mas o mais importante é que fiz eles pensarem um pouco fora da caixa com a minha história, consegui passar a mensagem que era o meu objetivo para a exibição.

Como foi fazer esse filme?

Antes do projeto Minha Narrativa fui convidada por amigos, que admiram muito a minha história a fazer parte de um projeto chamado Amar-é, esse projeto fala um pouco sobre a negritude em Ubatuba, eu no surfe e outras meninas no empreendedorismo, religião e etc. Mas infelizmente não foi para frente, pois não conseguimos o edital para realmente colocar em prática.

Sempre fui muito fechada para muitas pessoas a minha volta em relação ao surfe, por além de serem pessoas brancas, terem uma vida (falando de classe social) muito diferente da minha, pranchas novas, os melhores equipamentos e surftrips em vários países diferentes, me fazia me distanciar e não me expor muito sobre mim. Mas evoluí no surfe muito rápido e recebi convites para falarem sobre minha história em páginas e em outros projetos. Porém, não me sentia confortável com essa ideia, tinha muita vergonha em me expor para essas pessoas.

Um dia conversando sobre isso com a minha amiga Débora Carvalho, ela sugeriu que eu fizesse meu próprio filme e então ela já começou a falar o roteiro todo, que veio na cabeça dela na hora e com isso surgiu o Minha Narrativa, que o nome veio dessa ideia mesmo, de eu estar contando a minha própria história.

O processo inteiro foi lindo, nunca tinha feito algo do tipo e nem imaginava que poderia fazer. A Débora fez o roteiro se baseando em algumas respostas de perguntas íntimas que ela me fez, e juntas, montamos todo o roteiro.

Depois fomos buscar alguém para produzir o filme e convidamos o Ronie Pasini, mostramos para ele o nosso roteiro e na hora ele apoiou a ideia e começamos a produzir o Minha Narrativa, o processo durou quase 6 meses e aprendi muitas coisas nesse processo, até sobre eu mesma.

Qual sua participação no processo criativo e como foi realizado?

A minha intenção desde o início era contar a minha história sem vírgulas, e o que eu queria com isso era incentivar pessoas que se identificam com a minha história, ir atrás para escrever a sua própria história. Queria que o Minha Narrativa levasse esperança para as pessoas como eu e levar o sentimento que é possível sim e esse sempre foi o meu propósito com esse projeto.

Conversamos também com a Débora Carvalho, diretora do Minha Narrativa e Ronie Pasini, quem produziu e editou o filme.

Como foi o processo criativo do filme e qual sua experiência nesse tipo de projeto?

Sempre estive envolvida em projetos fora da caixa, seja na escola, na faculdade, na igreja. O novo é muito estimulante para mim e já participei de um projeto chamado Elas também Dropam, liderado pela Tina Villela, em Floripa (SC). Por esse projeto fui convidada a fazer parte do documentário produzido pelo Canal Off Criado nas Ondas, que estrelava Donavon Frankenreiter e família e o Zaka Kappel. Neste projeto, participei como convidada e não como alguém que fez parte da ideia desde o início. Recentemente pude fazer isso no projeto do filme da Natália Minha Narrativa.

Como conheceu Naty?

Natália e eu fomos unidas pelo surfe e pelo Instagram. Lembro de estar andando pela praia e falar com ela “oi tudo bem? Eu acho que te conheço do Instagram” a partir daí nossa relação foi ficando cada vez mais forte.

Como surgiu a ideia do projeto?

Na minha visão, digo isso porque a Naty pode ter outra, o projeto nasceu de uma conversa rotineira de amigas, ela me contou algo sobre entrevistas e sugeri a ela fazer seu próprio material e de repente, já começamos a viajar ali no gramado do Yabás Praia, pousada que Natália trabalha e fomos criando algumas ideias. Assim começou, a gente imaginou e fez acontecer. Desde o começo nós duas levamos o projeto a sério como se fosse um segundo trabalho mesmo. Falamos de orçamento, acordos, prazos, apertamos as mãos e falamos de fazer até junho e cumprimos nossa promessa.

Como foi trabalhar na construção do Minha Narrativa?

Em primeiro lugar acho importante dizer que esse projeto tem dois propósitos: o público e o dos bastidores. O público é a Natália se colocando como voz para o empoderamento de mulheres do seu recorte social no surfe. O dos bastidores era tanto ela, quanto eu nos entendermos como mulheres que colocam um projeto independente para rodar, mesmo não sendo especialistas na área, aquela coisa de pensar alto, sonhar grande, pegar o “alto e o grande” e colocar em um lugar de realizável.

Em depoimento ao Waves, Ronie conta como foi fazer parte do projeto e produzir o filme.

Como foi fazer parte do projeto?

Participar desse documentário foi um desafio, mas, ao mesmo tempo, uma experiência leve que fluiu conforme planejamos.

Para mim, esse documentário foi muito especial por ter a oportunidade de participar de todo o processo. Acompanho a Naty desde que chegou por aqui, e, para alguém que trabalha com surfe como eu, fica muito visível a sua evolução, que aumenta a cada dia.

Qual sua experiência nesse nicho de trabalho?

Trabalho com imagens de surfe, e essa conexão com a natureza é a minha vibe e o que me motiva.

Minha rotina envolve capturar fotos e vídeos de surfe, geralmente em clipes curtos. Já participei de outros projetos onde colaborei com imagens aquáticas e filmagens com drone.

Como foi esse processo criativo das imagens que representam o filme?

Sobre o processo criativo, pude colaborar com imagens que mostram a beleza do lugar onde vivemos e o surfe em harmonia.

Em primeiro momento, o filme foi exibe nesse evento em Ubatuba (SP), mas a ideia é atingir plataformas grandes, como emissoras de televisão, para conseguir levar a mensagem para muita gente, principalmente para as pessoas que se identificam com a história.

Natália, Ronie e Débora pretendem também também será exibir o filme em projetos sociais em Ubatuba, São José dos Campos e São Paulo, nas periferias, que abraçam a ideia proposta no filme.

Após atingirem esses objetivos, o filme será disponibilizado no You Tube também.

Enquanto alguns fotógrafos documentam a história, Fedoca Lima fez diferente: viveu dentro dela enquanto fotografava. Carioca do Posto 5, começou a surfar com 11 anos e a fotografar quase ao mesmo tempo, com uma máquina fotográfica alemã do pai. Aos 14, registrou a Rainha Elizabeth passando de Rolls-Royce aberto pela orla de Copacabana, em frente à casa do Assis Chateaubriand. No mesmo período, fotografou o Mick Jagger dando o dedo do meio no Copacabana Palace. Não era fotógrafo profissional. Era um moleque com olho bom e câmera na mão, sem perceber ainda o tamanho do que estava construindo. O que veio depois é história do surfe brasileiro. O Píer de Ipanema nos anos 70, quando o Rio era o centro do surfe nacional, com Daniel Friedmann, Pepê Lopes, Rico de Souza e Ricardo Bocão dominando o circuito. A Brasil Surf, primeira revista especializada do país, na qual Fedoca jogou em todas as posições: fotógrafo, redator e capa. O Havaí entre 1978 e 1981, surfando e fotografando ao lado de Gerry Lopez, Shaun Tomson e Michael Ho em Pipeline e Waimea. Os shows históricos, de Bob Marley ao ar livre no Havaí até Rolling Stones e Paul McCartney no Maracanã. “A foto que eu não tirei, essa me persegue.” Fedoca Lima Mais de cinquenta anos depois, esse arquivo vira livro. “Surf, Clicks e Rock’n Roll” tem 220 páginas, cerca de 180 fotografias e percorre a transformação do surfe brasileiro desde a era analógica até o digital, passando por Arpoador, Saquarema, Havaí, Califórnia e Macumba. Com captação aprovada de R$ 203 mil via incentivo cultural e apio da Fu Wax, o lançamento está previsto para o segundo semestre de 2026. Conversamos com Fedoca sobre tudo isso. Antes de se consolidar como fotógrafo, você também virou personagem da própria história do surfe brasileiro ao sair na capa da Brasil Surf em 1975. Como foi viver aquele momento por dentro? Saí na capa da Brasil Surf. Na época eu trabalhei na revista de março de 75 até janeiro de 79, só não peguei o primeiro número. Jogava todas as posições: saí na capa, escrevia, tirava foto, ajudava na redação, dava palpite, fazia matéria. Por muito tempo achei que era o único fotógrafo de surfe que tinha saído numa capa. Depois o Bruno Alves me falou que o irmão dele, o Alberto, saiu na capa da Fluir número 1. A história dele bate um pouco com a minha: ele pegava onda, saiu na capa, era fotógrafo. Mas durante anos eu achei que era caso único. Até hoje tem um restaurante aqui que o cara pediu, eu tirei uma foto com a revista na mão, ele botou na parede, eu assinei. A influência continua. A Brasil Surf ajudou a mudar a imagem do surfista no Brasil. Como era ser surfista naquela época, antes dessa mudança de percepção acontecer? O surfe saía no caderno B do Jornal do Brasil, do Globo. Não saía no esporte. E o surfista era tido como vagabundo de praia. Isso, aliás, até hoje tem um pouco, mas na época tinha muito mais. A Brasil Surf não vou dizer que limpou essa imagem completamente, mas ajudou a transformar o surfe em esporte e também a fomentar o mercado de surfwear. Os irmãos Wady e Fuad Mansur, da loja Mansur, em Ipanema, foram dos primeiros anunciantes. Acreditaram na revista, fizeram anúncios de contracapa e página inteira, e as camisetas personalizadas vendidas pelo correio viraram um sucesso. A Brasil Surf acabou impulsionando fabricantes de pranchas, calções, parafinas e diversos outros anunciantes ligados ao surfe. Os fabricantes de prancha tinham um veículo para anunciar. Os fotógrafos ganhavam uma graninha, viajavam. Fui para a América Central, Porto Rico, Barbados, El Salvador, Fernando de Noronha, Peru, várias viagens bancadas pela Brasil Surf de uma forma ou de outra. O Nilton Barbosa foi ao Havaí duas vezes bancado pela revista. No caso dele, eles bancavam os filmes, ele vendia as fotos e a viagem se pagava. Tinha uma diferença entre mim e o Nilton nessa época: ele chegava na praia e ficava na areia fotografando, fotografando, fotografando. Eu chegava e ia para dentro da água. Se não estava o Daniel, não estava o Pepê, não estava o Cauli, não estava o Bocão, não estavam os caras top, eu entrava e surfava. Então tem foto minha na Brasil Surf publicada pelo Nilton Barbosa, pelo Rogério Ehrlich. Eu estava mais dentro da água do que fora. Eu estudava. Primeiro vestibular, depois faculdade. Boa parte dos meus amigos só queria saber de surfar. Eu dividia meu tempo. Chegava na praia, já tinha estudado de manhã, aí ficava naquele dilema: vou pegar onda ou vou fotografar? Por isso tem poucas fotos do Píer. Em três anos não tirei nem metade do que tiro hoje num dia bom na Macumba com o digital. Você viveu o Píer, a Brasil Surf, o Havaí dos anos 70, o nascimento do surfe brasileiro moderno. Em que momento percebeu que estava no meio de uma transformação cultural que iria muito além do esporte? O Píer foi o que fomentou o surfe no Rio de Janeiro. Por dez anos, foi domínio completo do Rio no cenário brasileiro. O Daniel Friedmann, em 77, foi o último carioca a vencer uma etapa do circuito internacional, ganhou no Quebra-Mar, em cima do Pepê Lopes, que tinha ganho em 76. Os dois de Ipanema, meus vizinhos de rua. E esse pessoal do Píer que dominou, o Daniel, o Pepê Lopes, o Cauli Rodrigues, e também o Otávio Pacheco, o Rico de Souza, o Ricardo Bocão. E tinha o Betão, que era o melhor surfista do Brasil na época mas não era competitivo, não corria atrás de patrocinador, acabou saindo cedo. Em 75 ele ganhou o Campeonato de Saquarema e foi saindo, saindo. O Píer influenciou a revista, influenciou os fabricantes de prancha, influenciou o modo de viver. Começaram a ter fábricas em Guaratiba, Vargem Grande, no Recreio, depois em Saquarema. As pessoas foram morar lá. O Penho foi, o Otávio comprou casa,

O que define uma boa onda? Tamanho, força, parede, qualidade da linha, formação e surfabilidade, dentre outros elementos. No oceano, todos esses fatores mudam a cada swell, a cada vento, a cada maré. Em Búzios, a proposta é diferente: construir essas variáveis de forma controlada, repetível e ajustável. A piscina do Brasil Surfe Clube Aretê Búzios opera com a tecnologia Endless Surf, do grupo canadense WhiteWater, com 48 câmaras de ar de alta precisão. O sistema permite criar configurações distintas dentro da mesma estrutura. Dentro de um universo de grandes possibilidades, as cinco primeiras ondas já foram nomeadas e reveladas, cada uma com perfil próprio, e muito mais ainda está por vir. Onda #01: Pointbreak + Junção Linha longa, seções conectadas, tempo de onda que pode ultrapassar 25 segundos. A junção encadeia diferentes partes da onda sem perder velocidade, criando uma das experiências mais difíceis de encontrar no oceano com consistência. Para quem quer mais de 10 manobras na mesma onda ou simplesmente mais tempo de linha para ler e decidir. Onda #02: Manobras + Bowl A parede fica mais íngreme. O bowl abre seções críticas para manobras verticais e aéreos. É o ambiente para quem quer empurrar os limites do que consegue fazer sobre a prancha, com repetição suficiente para transformar cada tentativa em aprendizado real. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Onda #03: Rampa + Tubo Uma onda que combina duas experiências na mesma seção. A rampa prepara o surfista para a manobra e o tubo roda na sequência. Para quem quer encaixar um aéreo e ainda sair do tubo na mesma onda, essa configuração entrega os dois elementos sem precisar escolher. Onda #04: Rampa Nível Intermediário Parede consistente, menor intensidade, mais previsível. A configuração certa para quem está desenvolvendo manobras progressivas e precisa de repetição para consolidar o que está aprendendo. A seção cria a rampa no ângulo certo, com velocidade suficiente para executar sem exigir o nível avançado. Onda #05: Rampa Nível Avançado Mais potência, mais velocidade, mais projeção. A rampa avançada é para quem já chegou em Búzios com manobras no repertório e quer testá-las com pressão real. Com capacidade para gerar até 700 ondas por hora, o intervalo entre uma tentativa e outra é curto o suficiente para transformar cada sessão em treino de alto rendimento. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Para todos os níveis As cinco configurações cobrem desde quem está aprendendo até quem treina em alto rendimento. A piscina ainda opera em dois modos: single peak, com ondas quebrando para um lado e maior extensão de linha, e split peak, com direitas e esquerdas simultâneas, permitindo que surfistas compartilhem a mesma série em direções opostas. Yago Dora, campeão mundial de surfe em 2025, Victor Bernardo, um dos maiores freesurfers da atualidade, e Michelle des Bouillons, referência mundial em ondas gigantes, integram o time do BSC e já testaram a tecnologia na piscina Adrena Red Sea, na Arábia Saudita. “Muito animal esse lance de ter essa variedade de onda também. Um leque de ondas absurdo. Mal posso esperar para Búzios”, disse Victor Bernardo após a sessão. A versão de Búzios será maior: 48 câmaras contra 36 da estrutura do Mar Vermelho, com 13 mil metros quadrados de lâmina d’água. Variedade de ondas para testar, arriscar, aprender e evoluir todos os dias. Com inauguração prevista para o segundo semestre de 2026, é o que o Brasil Surfe Clube Aretê Búzios chega para entregar.

Pedro Bettencourt Müller nasceu no Rio de Janeiro, no dia 21 de julho de 1966, num ambiente familiar que respirava praia. Seu pai, Guilherme Xavier de Brito Müller, economista e morador do Leblon, cresceu frequentando a Zona Sul. Sua mãe, Maria Isabel Bettencourt Müller, criada em Santa Teresa, compartilhava da mesma paixão pelas praias. Para o casal, fim de semana e férias tinham destino certo: areia, sol e mar. Foi assim que Pedro e o irmão, Guilherme, passaram a infância seguindo os pais para o meio da Barra ou para São Conrado, ainda de estradas de terra, sem prédios, calçadões ou qualquer urbanização. Nesse cenário quase intocado, Pedro foi se encantando pelas ondas. Lembra-se de observar alguns surfistas solitários no meio da Barra e sentir-se hipnotizado pela habilidade deles. O mar, desde cedo, era o lugar onde queria estar. Ele recorda também a rotina da infância: ia para as aulas de natação no Clube de Regatas Flamengo e, depois, caminhava até o judô, no Leblon, um trajeto longo para uma criança de 12 anos. Antes de entrar no tatame, sentava-se no calçadão para olhar o mar quebrando, entregue à mesma fascinação que o acompanharia por toda a vida. O mar lhe transmitia paz, calma e propósito. Ali, ainda menino, já entendia que queria se tornar surfista. A mudança para São Conrado, por volta dos 14 ou 15 anos, foi decisiva. Morando ao lado do Pepino, Müller muitas vezes cabulava a aula pra ir surfar. As ondas triangulares, rápidas e pesadas da região se transformaram no seu campo de treinamento permanente. Ali, guiado pela referência de Rony Lima e pela evolução proporcionada pelas pranchas dos shapers Rico e Pedro Battaglin, deu um salto técnico marcante. A “biquilha mágica” 5’4″ de Battaglin é lembrada até hoje como uma das grandes viradas em seu surfe, época em que adotou o apelido de “o Águia”, pela tatuagem no braço. Uma nova mudança, motivada pelo desemprego do pai, levou a família para a Barra. Para Müller, foi a oportunidade perfeita: entre o Postinho, o meio da Barra e o Quebra-Mar, encontrou três ondas consistentes e acessíveis a pé, permitindo treinos diários que aceleraram ainda mais sua evolução. Nessa fase, destacou-se nos campeonatos da ASBT – Associação de Surf da Barra da Tijuca – e entrou para a promissora equipe da Cristal Graffiti. Antes disso, havia vencido seu primeiro campeonato no Leblon, organizado por Marcelo Peninha, vitória que marcou sua confiança rumo ao profissionalismo. Os resultados na categoria Júnior renderam um prêmio decisivo: uma passagem para o Havaí. Aos 18 anos, Müller viveu sua primeira temporada no North Shore (1984/85), dividindo casa com surfistas brasileiros experientes. Pipeline, logo no primeiro dia, foi seu batismo de fogo: mar pesado, adrenalina no limite e a certeza de que o treino no Pepino o havia preparado para aquele cenário. De volta ao Brasil, enfrentou dificuldades para manter regularidade como profissional. A grande virada veio com o curso de meditação transcendental feito ao lado de Rodolfo Lima. O impacto competitivo foi imediato: venceu a etapa profissional do Quebra-Mar no circuito carioca, em 1986, e passou a frequentar pódios de forma consistente. A regularidade, marca registrada de sua carreira, nasceu ali. Em 1987, tornou-se vice-campeão do primeiro Circuito Brasileiro de Surf Profissional. Liderou boa parte da temporada, foi vice-campeão na etapa da Lightning Bolt e, depois, campeão no Fico Festival. Só perdeu o título na penúltima bateria do Circuito, por apenas 20 pontos, uma diferença mínima para quem tinha 850 pontos de vantagem sobre o terceiro colocado. Na época, era visto como o surfista mais consciente e estratégico do país. Nos anos seguintes, acumulou resultados expressivos: vitórias importantes na Abrasp e uma vitória significativa no QS de Florianópolis, superando Barton Lynch, Jojó e Julio Adler. Em 1995, viria um dos grandes destaques internacionais de sua carreira: o nono lugar em Pipeline, substituindo de última hora o australiano Damien Hardman. Ondas entre 10 e 15 pés confirmaram sua capacidade técnica em um dos palcos mais desafiadores do mundo. Pedro Müller seguiria competindo por mais de duas décadas. Em Ubatuba, já aos 38 anos, conquistou sua última vitória no Circuito Super Surf 2004, num dos triunfos mais marcantes de sua trajetória. Hoje, vive do surfe como treinador, comentarista da Sportv e um dos proprietários da @escola_pedromuller, na Barra da Tijuca, administrada pelo sócio Adelmo Noite. Acompanhe ns publicações nas redes sociais @museudosurfesantos. Coordenador de pesquisas históricas do surfe @diniziozzi, o Pardhal.

Como uma prancha largamente usada por surfistas fora do circuito mundial profissional pode ganhar atenção? Coloque a dita cuja nos pés de um bicampeão mundial. Quer um destaque ainda maior? Filipe Toledo vence o tricampeão Gabriel Medina. Pronto. Vamos por partes. Na etapa do Championship Tour, na Nova Zelândia (Maio 2023), Filipe acabou não vencendo a disputa da quarta de final contra Griffin Colapinto, mesmo obtendo a melhor nota da bateria. Faltou uma onda. Mas o assunto aqui é outro, ou quase. Em um universo dominado por triquilhas, desde 1981, a diversidade de pranchas, no século 21, começou a ganhar espaço fora das competições. No meio de antigas novidades, biquilhas com trailer fin (estabilizador central) se mostraram mais controláveis e amistosas, levando muita gente a adotá-las no quiver. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Filipe Toledo (@filipetoledo) O modelo de biquilha com estabilizador central já havia sido testado mas ganhou vida nova em 2003, com as Super Twins do shaper, tetracampeão mundial (79, 80, 81 e 82), Mark Richards. Ele trouxe de volta suas Twin Fins do início dos anos 80, adicionando uma “quilhinha” central. Daí, de repente, Filipe Toledo coloca no jogo do circuito mundial o modelo Modern 2, da Sharp Eye Surfboards. Vence Gabriel Medina nas esquerdas de Raglan e deixa muito mais gente antenada sobre as possibilidades de uma twin com trailer fin. Filipe não foi o primeiro a fazer algo que eu esperava há tempos. Kelly Slater inovou, diminuindo o tamanho das pranchas e competindo, em algumas situações, com o que eram mais bi do que triquilhas, na primeira década do século 21. Dane Reynolds também fez isso, mas vamos combinar que esses dois não são parâmetros de surf normal. Deivid Silva também ousou. Abiquilhou-se numa etapa. Mandou bem, mas não chamou tanta atenção. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Sharp Eye Surfboards (@sharpeyesurfboards_au) Quando se trata de altíssima performance pesa sempre o fato dos atletas da elite não terem muito tempo para experiências fora da casinha das triquilhas. Mas, pela primeira vez, Filipe, além de seu ano sabático, em 2024, teve, como todos os Tops, os mesmos raros sete meses de folga antes da temporada 2026. Isso parece ter criado espaço para lidar com pranchas diferentes, memória física e jogo mental para se arriscar com um equipamento não muito convencional na Nova Zelândia. Sim, pranchas realmente diferentes pedem ajustes na maneira de usá-las e isso requer tempo e, claro, talento. Duas coisas chamaram a minha atenção. Impressionante como podemos e devemos comparar os melhores do surf competitivo profissional com pilotos da Fórmula 1. É com eles que a indústria das pranchas evolui mais e melhor. Detalhes sutis, milimétricos, que essa turma sente no funcionamento de uma prancha podem ser incorporados aos modelos que a maioria dos surfistas não conseguiria detectar ou explicar. Eles dão o caminho do que será usado pelos consumidores “normais”. Shapers são mais teoria, estudo. Tops são prática. As mudanças surgem daí. Segunda, e mais curiosa. Um esporte que durante tanto tempo teve uma aura de vanguarda e ousadia leva muito tempo para propor ou acertar mudanças mais drásticas, seja na construção ou desenvolvimento de design. Não creio que seja culpa dos fabricantes, já que essa indústria nunca gerou dinheiro suficiente para que se desenvolvesse como deveria. Ainda por cima a competição tem um formato onde há pouco espaço para o diferente quanto à performance. Mas isso é conversa para outro texto. Por agora fica a dica. Mesmo ideias estranhas à normalidade podem resultar em bons resultados. Teste tudo que é prancha que você puder. Não tenha medo, você não depende de notas dos juízes para ser feliz.