Entrevista

Lucas Silveira em foco

Em entrevista exclusiva ao Waves, Lucas Silveira fala sobre ambições na carreira, mudanças no QS, canal no YouTube e se posiciona sobre fomento ao esporte.

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Silveira busca vaga no Challenger Series.

As direitas de Ericeira despertaram daquele jeito em 13 de janeiro de 2016. Um bom swell com condições alinhadas construiu longas paredes no pico de Portugal, para a final do Mundial Pro Junior.

Ao 19 anos, um brasileiro assombrava no evento com suas marteladas de frontside. Tijolo por tijolo, derrubou favoritos e abriu caminho para o lugar mais alto do pódio – o topo da categoria no mundo.

Cinco anos após o título de campeão mundial júnior, Lucas Silveira retorna à Europa em busca de pavimentar sua estrada à elite do surfe profissional. Após se recuperar de grave lesão em 2019, o carioca radicado em Floripa (SC) treinou nas melhores ondas do mundo e está com as armas afiadas.

Nesta semana, ele estreia sua participação no Pro Anglet, etapa do QS na França. Em entrevista exclusiva ao Waves, Silveira fala sobre as suas ambições na carreira, as mudanças no QS, viagens, pandemia, se posiciona sobre o fomento ao esporte, dentre outros assuntos.

Lucas Silveira (à esquerda) com o troféu de campeão Mundial Pro Junior em 2016.WSL / Poullenot
Lucas Silveira (à esquerda) com o troféu de campeão Mundial Pro Junior em 2016.

Protagonista do canal Hammer Tales (Contos de Martelo em português), Lucas Silveira tem apenas 25 anos e agora também divulga suas marretadas no YouTube.

Durante a pandemia você viajou para alguns dos melhores picos do mundo. Como foi essa experiência?

Realmente eu tenho viajado bastante. Muita gente me pergunta como eu consegui viajar tanto na pandemia. Nos primeiros seis meses o mundo estava muito fechado, tenso. Mas depois comecei a ver uns lugares reabrindo e voltei à minha rotina normal de viagens. Não estava tendo campeonato, mas tinha muita logística para fazer nos lugares, com um monte de testes PCR. A gente estudava onde daria para ir mesmo.

Não está cansado de pegar tanta onda perfeita (risos)?

Passei uma temporada bem longa em Portugal durante o inverno europeu, peguei altos swells. Mas não tenho pegado só onda boa não! No meu canal o que passa é a parte das ondas boas para o vídeo ficar legal. Mas sou bem fissurado. Hoje mesmo aqui em Floripa o mar está muito ruim e estou indo para a segunda queda (risos).

Você sofreu uma lesão séria em 2019, mas parece estar em plena forma pelo que vemos nos vídeos.

Tenho surfado bastante. Não estou no auge do que pode chegar o meu surfe, mas cada vez mais perto disso. A pandemia veio junto com a minha recuperação da lesão. Então juntou a ‘instiga’ que eu estava para voltar a surfar com a pandemia, quando não tinha muita coisa para fazer. Então foquei total no surfe, nos primeiros seis meses passei os dias surfando e isso ajudou muito na recuperação da minha forma. Estou me sentindo muito bem e preparado para qualquer tipo de mar.

E como foi voltar a competir em duas etapas do QS em Portugal em maio, o Santa Cruz Pro, em Cascais, e o Caparica Surf Fest?

Eu e todo mundo que ficou um tempo sem competir estávamos bem empolgados para voltar. Deu aquele nervosinho de não estar mais a acostumado a fazer alguma coisa, mas acho que todo mundo estava na mesma.

No que eu fiquei em quinto (Cascais) a minha performance geral no evento me deixou bem contente. Tive várias baterias boas, com high score. Foi um detalhe que faltou para ir mais longe e talvez até vencer o campeonato.

No outro as condições estavam muito difíceis. Durante o free surf e os primeiros rounds eu estava muito bem, mas campeonato é detalhe. Um mínimo detalhe faz o outro cara passar ou não. Mas a minha estratégia e o meu surfe estavam bem.

Quais as suas expectativa para o Pro Anglet, nesta semana?

Já fui várias vezes, fiz duas quartas de final lá. Nas duas fiquei em quinto, então tive bons resultados. Já fiz final lá também em outro tipo de evento. As condições são básicas de QS. Beach break e normalmente tem onda, é difícil estar flat, sempre vai ter alguma oportunidade. Estou confiante e amarradão em voltar para a Europa. Estão bem estranhas as regras pela Covid, teremos que fazer vários testes durante a semana. Mas é a condição que tem para competir, então vamos nos adaptando.

Qual é a sua meta para as próximas etapas e o restante da temporada?

No momento estou na lista de espera para ver se vou ter vaga nos Challenger Series desse ano. Acho que tenho chances, depende de quantos atletas do CT vão concorrer. Mas como a temporada do CT acabou, isso diminui um pouco o número de atletas (do Tour) que vão competir. Acho que só os que não se reclassificaram mesmo.

Neste ano a temporada vai ser curta, só quatro Challenger Series para definir os classificados. Se eu entrar na lista e emendar alguns resultados seguidos, tenho grande chance de me classificar. Caso não role, esse campeonato da França é o primeiro classificatório para o ano que vem, temporada 2022 do Challenger. Então vai ser muito importante, começou a temporada do zero agora com esse novo formato, vou buscar essa vaga.

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O que você achou das mudanças no QS e do Challenger Series anunciados recentemente pela WSL?

As mudanças são positivas. Após a pandemia eles vão conseguir realizar vários eventos em diversas regiões. No momento está muito difícil, no Brasil ainda não tem nada (etapa) então dá pouca oportunidade de classificar para o Challenger. Mas na medida em que eles conseguirem fazer mais eventos, acho ótima essa ideia de separar por região e depois ter um Challenger mais forte e valorizado.

(Clique aqui para entender as mudanças do formato e calendário no sistema de classificação para o CT da WSL, incluindo QS e Challenger Series).

E as mudanças no CT, com a realização de uma final única?

Acho que não é justo para quem está em primeiro, mas pensando no lado de vender o show é interessante. A gente não está acostumado a ver coisa nova, por isso muita gente não gostou. Mas acredito que vamos nos acostumar e eles (WSL) vão acertando os detalhes. Faz sentido como business porque dá para televisionar melhor a final, como no Superbowl. Mas só vendo como vai ser para ter uma opinião mais fixa.

Lucas Silveira encara swell histórico em Nias, em 2018.

Além das competições, você agora também está com canal no YouTube. Como surgiu a ideia?

O Badfilmer (@badfilmer) me chamou e deu ideia de fazer um canal no YouTube. Ele achava que eu ia falar: está maluco, canal no YouTube? Mas comprei a ideia, começamos e a galera já aprovou no primeiro momento.

Agora virou rotina, toda semana tem episódio novo e já deve ter quase cem. Chegando perto dos domingos eu já puxo a orelha dele. “E aí, está pronto?” (risos). Virou parte da rotina, toda semana tem que ter o trampo de gravar alguma coisa. Tem vezes que tem muita coisa acontecendo, mas às vezes está difícil e procuramos inventar algo.

E como é conciliar o trabalho de competidor com o de produtor de conteúdo na internet?

Meu sonho é influenciar positivamente o maior número de pessoas possível, principalmente crianças. E acho que quanto mais resultados competitivos eu tiver, mais condições terei de influenciar e ajudar mais pessoas ainda por conta da visibilidade.

Como você vê a questão do incentivo aos atletas que não fazem parte da elite do Tour hoje no Brasil?

Estamos em uma fase complicada. Até surfistas da elite estão sem patrocínio. Eu também estou sem um principal. Mas vendo pelo lado das empresas de surfe, teve uma queda muito grande nas marcas tradicionais, ainda mais pela pandemia. Quem vai vender mais os produtos deles são as estrelas, o Gabriel, Italo, Filipe. Concentrou muito nesses caras.

O que você acha que é necessário para isso mudar?

Acredito que pode dar uma virada. Tem a questão da confederação nacional, que estava em uma fase muito ruim. Acho que está prestes a dar a virada com uma nova presidência. Voltando a ter vários eventos no Brasil, um evento de nível como era o SuperSurf antigamente, vai dar mais visibilidade e trazer empresar de fora do surfe para também ajudar o esporte.

Além disso tem a questão do surfe ter virado olímpico também, o esporte pode ser muito beneficiado com essa visibilidade. Onde chove, respinga (risos). Se melhorar o cenário nacional de base e o circuito interno, acho que vamos evoluir muito.

Falando em incentivo, você participa de projetos para ajudar pessoas carentes em comunidades, como o Vivendo um Sonho Surf (@vussurfrocinha). Como surgiu essa iniciativa?

Comecei a me envolver mais com essas causas na pandemia. Chegou um momento em que muita gente comentava como estava difícil. Muitas pessoas não podem trabalhar e passam dificuldades. Comecei a pensar muito em quem precisa mesmo, porque cada dia de trabalho é essencial para eles. Senti algo dentro de mim que pesou. Não é justo da minha parte ficar só surfando e curtindo a vida, enquanto via muitas pessoas passando necessidade. Esperava poder ajudar alguém.

Tem muita gente muito do bem querendo ajudar, crianças e pessoas, fazendo um trabalho legal. Sempre que eu posso ajudar com alguma coisa, me sinto realizado.

Parabéns pela iniciativa! Obrigado pela entrevista, conte sempre conosco e boa sorte nesta etapa da França.

Show! Obrigado a vocês pelo espaço de sempre. Vocês sempre me dão moral e estamos juntos, qualquer coisa estou aqui, abração.

Lucas Silveira à vontade em Pipeline.Lucas Graça
Lucas Silveira à vontade em Pipeline.