Museu do Surfe de Santos

Arpoador, berço do surfe

Gabriel Pierin volta ao passado para contar as origens do surfe no Rio de Janeiro (RJ).

O Rio de Janeiro era a principal porta de entrada para as novidades e tendências mundiais que aportavam na América do Sul. Na década de 1950, o ritmo da vida de um grupo de jovens cariocas era definido pelas condições do tempo e do mar.

A intimidade desses rapazes com o mar vinha da pesca submarina. Os praticantes mergulhavam com arpões e entendiam das correntes marítimas e das condições climáticas. Nos dias de ressaca, esse grupo de rapazes aproveitava para pegar onda de peito ou com pequenas tábuas de madeira. Entre eles estava Gertz, Arnica, Afonso Bebiano e até alguns salva-vidas. A diversão era democrática.

A brincadeira pegou. Aos poucos, outros rapazes aumentaram o grupo. As tábuas eram subtraídas das obras dos prédios na orla, num período de franco crescimento do Rio de Janeiro, a capital federal.

Foi num desses dias de grandes ondas que os garotos viram pela primeira vez um surfista pegar onda de pé. Era o Paulo Preguiça e o ano, 1954.

Sua tábua, um pouco maior e sem quilha, foi apelidada de Porta de Igreja. Preguiça desceu reto, sem cortar a onda. O desafio de surfar daquele jeito passou a ser perseguido pelos cariocas.

Por volta de 1955, um dos mergulhadores da turma do Clube dos Marimbás, Luís Bisão, resolveu fabricar pranchas maiores e melhores. A tábua de compensado ganhou forma, um bico envergado e uma régua longa que servia de quilha. Nascia a prancha de madeirite.

Para estrear o novo modelo foram escolhidos os amigos Gilberto Laport, Arduíno Colasanti, Paulo Bebiano e Jorge Paulo Lemann, o Jorge Americano. Nas primeiras tentativas eles ficaram de joelhos, mas pouco depois conseguiram descer de pé. O surfe no Rio de Janeiro jamais seria o mesmo. Eles eram os grandes destaques dos primórdios do surfe carioca e se tornaram os “donos” do Pontão do Arpoador. Os aspirantes surfavam no meio da praia.

A identidade de praia da juventude carioca estava sendo formada. Um casamento perfeito. Durante a década de 1960 o mundo vive um período de contradição. Guerras ideológicas e intolerância racial contracenavam com uma juventude movida por novos valores e hábitos. Embalados pelo rock e surf music, a cultura de praia se disseminava pelo mundo. No Brasil, o surfe ganhava cada vez mais adeptos.

O aumento de surfistas trouxe um problema. As pranchas não tinham cordinha e a curiosidade dos banhistas e turistas acarretava acidentes. A polícia e as autoridades passaram a reprimir e a proibir a prática de surfe. Os conflitos se tornaram inevitáveis. A ordem era apreender as pranchas.

Nessa época, o jornalista esportivo e colunista do Jornal do Brasil Yllen Kerr, pai do surfista Fabio Kerr, se uniu ao pai de Fernanda, Walter Guerra, para criar uma federação organizar o surfe. As primeiras reuniões ocorreram na casa de Walter. Estava criada em 15 de junho de 1965 a Federação Carioca de Surf. A diretoria era formada por: Arduíno Colasanti, Armando Serra e Irencyr Beltrão.

Walter conhecia o sobrinho do governador do Estado da Guanabara, Negrão de Lima. O amigo intercedeu junto ao político para legalizar a prática do surfe em espaço e horário determinado. O esporte passou a ser liberado após às 14 horas numa faixa de 200 metros a partir da Pedra.

A outra demanda da Federação era promover o surfe e agregar os praticantes, fortalecendo e obtendo o reconhecimento do esporte pela sociedade. A Federação passou a viabilizar os primeiros campeonatos organizados. Os clubes sociais e o primeiro surfclub, o Arpoador Surf Club, também se engajaram para apoiar as iniciativas da Federação.

Nos dias 25 e 26 de setembro aconteceram as fases eliminatórias da disputa. Devido as condições das ondas, o local escolhido para a abertura do Campeonato Carioca de Surf, o primeiro do País, em 1965, foi a Praia da Macumba. O local ficava longe e tinha pouca frequência. O Clube Radar precisou ceder uma Lotação para levar surfistas e pranchas. A pequena plateia não tirou o entusiasmo dos jovens que manobravam suas pranchas sobre as ondas e disputavam a classificação.

Na primeira experiência competitiva, os próprios surfistas mais experientes se revezavam na função de juízes. Quando não estavam na água disputando as baterias, eles estavam avaliando seus amigos e concorrentes.

O mar estava manso e as ondas pequenas no canto junto ao Morro dos Cabritos. Ao todo foram oito baterias com cinco competidores no primeiro dia de disputa. Os dois melhores surfistas de cada bateria classificaram-se para as semifinais.

No dia seguinte, organizados em três baterias, os melhores competidores garantiam suas vagas para a final. O vento mudou e o canto da disputa também.

As ondas ofereciam melhor formação no Canto do Recreio e para lá foram os 15 concorrentes classificados.

O júri decidiu-se a favor de seis finalistas: Jorge Bally, Rafael Gonzalez, Mario “Bração” Brant, Alexandre Bastos, Antônio Bastos e Geraldo Fonseca. A disputa feminina foi organizada em bateria única e sagrou Fernanda Guerra a primeira campeã carioca de surfe.

As finais masculinas foram realizadas na Praia do Arpoador, em novembro. As ondas estavam boa formação. Com apenas 16 anos, Jorge Bally, o Persegue, confirmou o seu favoritismo e se tornou o primeiro campeão carioca oficial de surfe, enquanto Alexandre Bastos, Mario Brant e Rafael Gonzalez ficaram com a segunda, terceira e quarta colocações.

O sucesso do campeonato carioca inspirou outras cidades a organizar suas competições e instituições. O surfe avançava no País.

Uma praia e suas origens

No passado, a costa do Rio de Janeiro era repleta de baleias. Os animais eram alvo de grandes caçadas e a Pedra do Arpoador tinha papel fundamental no processo.

Há quem defenda a tese de que alguns caçadores de baleia usavam a pedra para lançar arpões nas baleias. Contudo, renomados historiadores defendem outra teoria para o batismo da pedra e, consequentemente, da região.

Segundo o historiador Milton Teixeira:

“É muito pouco provável que caçassem baleias de cima da Pedra do Arpoador. Esse tipo de caça era muito complexa e de cima da Pedra, apenas, não seria fácil. O que acontecia era que os caçadores usavam a Pedra do Arpoador como mirante para avistar baleias que vinham longe.”

Em 1751, a Ponta do Arpoador foi registrada oficialmente. A praia do Arpoador fica entre a Ponta do Arpoador e o encontro da Rua Francisco Otaviano com a Rua Francisco Bhering, no início da Avenida Vieira Souto.

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