Depois de duas das melhores etapas da história do WCT, tanto pela qualidade das ondas, como pela performance de alguns atletas que certamente ficarão registradas na história do esporte, provando mais uma vez que quem vence campeonato sendo premiado com notas altas nada mais é do que um excelente surfista de se ver, admirar e obviamente de julgar, vamos aos fatos.
Bali expôs claramente aos olhos de quem quis ver, a verdadeira fronteira entre quem veio fazer história na elite e quem simplesmente continuará fazendo figuração.
Não que essa segunda opção não seja digna de glória, afinal estar presente entre o seleto grupo de atletas que compõem o WCT é conseqüência de merecimento, porém permanecer também é, e isso deixa claro a quem quiser ver também, que continuar o velho discurso de culpar árbitros ou qualquer outra ?ironia? do destino não vai ajudar em nada a rever ter em vitórias as expectativas até então frustradas a
que vêm sendo submetidos nossos ?pobres? guerreiros.
Não vou me ater aos resultados de Bali em si, até mesmo porque alguns dos ?figurões? do tour experimentaram seus piores resultados na temporada, alguns das últimas temporadas, como é o caso de Kelly Slater, que amargou uma derrota no round 3 para um dos lanternas do ranking, o português Tiago Pires, e mesmo assim continua sendo alvo constante das infames acusações de favorecimento, apadrinhamento ou qualquer baboseira do gênero que já passou de bla bla bla a ridículo há muito tempo.
O que é importante ressaltar é como o árbitro interpreta e premia ou não a performance de um atleta durante uma bateria de WCT e como Tiago Pires, que teve uma campanha brilhante durante todo o evento, fez o que parecia impossível ou improvável ao vencer o bicho papão do ano em condições épicas, onde todos sabem que Kelly sempre foi e sempre será franco favorito a vencer.
Tiago surfou com extrema precisão, técnica e ?sangue frio?, revertendo a bateria contra Slater na regressiva, mas não só contra Slater. Durante todas as baterias em que participou, Tiago foi brilhante e impecável, dentro e fora d?água, não indo para a final por pura falta de sorte, além de ter encontrado outro iluminado desta etapa, o havaiano Fred Patacchia, nas semifinais.
Mais uma vez as performances durante a primeira fase, ainda em Padang Padang, serviram de parâmetro para os árbitros definirem como avaliariam as seguintes fases, mesmo com o campeonato sendo movido para Uluwatu, onda mais longa e que proporciona um repertório um pouco mais variado de manobras.
Com totais méritos e sem nenhuma sombra de dúvida, Bruce Irons levantou o caneco, e para quem quiser conferir o que o dicionário classifica de coerência (ligação ou harmonia entre situações, acontecimentos ou idéias; relação harmônica; conexão, nexo, lógica), basta acessar os vídeos do campeonato e assistir como Bruce surfou do round 1 à final, e só então criticar, mas com base.
Partindo para a Califórnia, parece que pelo menos alguns dos que não foram bem sucedidos em Bali aprenderam e aplicaram os ensinamentos da derrota em outra oportunidade de condições clássicas.
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Durante a parada da Califórnia, os árbitros tiveram sua maior prova de fogo ate então na temporada. Com um nível de surf altíssimo e ondas extremamente semelhantes durante a maior parte da competição, ficava muito difícil o trabalho de quebra das notas na comparação entre performances excelentes e boas, mas principalmente quando duas notas obviamente excelentes tinham que ser dadas em seqüência, com uma mínima margem de diferença, que só quem é treinado profissionalmente para a função consegue imparcialmente distinguir.
Totalmente parcial e incoerente são os comentários, apelos e desculpas esfarrapadas para a derrota, sucesso só aparece antes de trabalho no dicionário, e trabalho em relação ao esporte, no caso o surf, não se resume apenas em estar na água.
Já faz muito tempo que rebato as reclamações de atletas, técnicos e empresários de atletas, indicando que uma trajetória de sucesso deve
rigorosamente passar por treinamento, organização, disciplina e reavaliações constantes da estrutura que cerca um competidor, especialmente um atleta de elite, desde o ponto mais elementar da estratégia de competição quanto os cuidados com logística e assessoria.
Retomando o raciocínio prático, ao mesmo tempo em que árbitros e comissão técnica tiveram muito trabalho, a etapa da Califórnia foi um espetáculo memorável para quem admira surf profissional, dentro e fora d?água.
Adriano, depois de um tropeço em Bali, voltou a justificar a sua condição de top 5, mesmo tendo saído de Trestles como sexto colocado no ranking, mas surfou e competiu perfeitamente, e infelizmente escolheu uma estratégia errada na segunda metade da bateria contra Jeremy Flores, que venceu o duelo com todos os méritos.
Guerreiro, e também pela primeira vez no ano maduro, foi Heitor Alves. Guerreiro por toda sua historia e trajetória e não porque a quilha quebrou, a prancha não era a preferida ou qualquer outra possível desculpa que não é digna de uma performance como a dele, que brilhou e simplesmente não venceu o vice-campeão da etapa porque não achou o seu melhor dentro d?água, e pronto, nada de ficar apontando para qualquer outra justificativa, um atleta do potencial e do quilate de Heitor não merece isso.
Maduro porque pela primeira vez no ano conseguiu achar o equilíbrio exato, quase que perfeito, entre a fúria no potencial do seu surf e a precisão e inteligência que um atleta da elite deve ter. Parabéns Heitor!
No final, quem mais parece estar apenas se divertindo este ano papou mais uma, único 10 unânime da competição, Kelly não está para brincadeira, mais maduro e voraz do que nunca faturou em casa, dando espetáculo a cada bateria, a quinta de sete etapas realizadas este ano.
Está prestes a quebrar mais um recorde, o de número de vitórias numa temporada, e aposte quem tiver coragem, mas para mim ele vai ao Brasil sim, e ano que vem os demais que se preparem, todos os boatos de que o careca vai parar não passam de especulação, aliás, torço muito para mais alguns anos de deleite e apreciação de um dos atletas mais completos da história do esporte e que contribuiu e muito para determinar o nível em que o surf profissional está hoje.
Temos que criar e cultivar sim nossos próprios heróis e referências, mas não podemos negligenciar o que o resto do mundo inteiro reconhece e respeita, não é assim que se fazem campeões.

