Território peruano

Visita ao paraíso solitário

Tom Almeida rasga forte em Poema Pe. Foto: Tom Almeida.

Perto de casa, a poucas horas de avião, estão duas potências latino-americanas em relação à qualidade e tamanho das ondas. Peru e Chile são destinos certos para quem deseja pegar muita e pouco crowd.

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Qualquer freqüentador acostumado, sabe que na costa do Peru, banhada pelo Pacífico, há todo tipo de onda, desde as perfeitas e hot-dogs ?olas? de Caballero, até quarteirão tipo Waimea-Sunset que é Pico Alto.

 

No norte estão ?las olas más perfectas? do território Peruano. Com um

pouco mais de localismo, as ondas de Mancora, Lobitos, Panic Point,

Gabriel Villaran decola em San Gallan. Foto: Tom Almeida.

Cabo Blanco e Pacasmayo são perolas de tubos e extensão que fazem a cabeça até dos mais exigentes surfistas.

Entretanto, nosso foco será outro, por diversas vezes no Peru, tive a satisfação de pela primeira vez surfar no santuário de San Gallan, uma ilha desabitada, dentro da maior reserva de Leões Marinhos de toda América.

Tudo começou através de Roberto Meza, amigo de alguns anos e atual presidente da Associação Peruana de Surf.

 

Meza, surfista das antigas e competidor nato (6 vezes campeão nacional), profundo conhecedor dos picos da sua terra, nos ligou a noite e avisou, ?sexta-feira vai entrar o swell certo para Gallan, já fretamos a lancha, é só você fechar a barca e convidar mais gente que está tudo certo!?.

 

Fechamos a barca lá mesmo na Pousada do Luisfer. Iriam eu, Railton Lemos parceiro de viagem, três curitibanos, um carioca, dois californianos, Meza e Pedro, parceiro inseparável de Robero Meza e quem toma conta do monitoramento das ondas no seu site.

Depois de dois dias de expectativa finalmente chegou a partida. Saímos de Punta Hermosa na calada da noite e rumamos ao sul, em direção a Pisco, a 237 quilômetros, onde fica o porto de Paracas e pela manhã pegaríamos uma lancha, para com duas horas de viagem no mar, chegarmos a Gallan.

 

Dormimos num hotelzinho da cidade, para as 4:30 horas da manhã sairmos para o porto. Todo mundo agasalhado, já que o frio na lancha, com os respingos da água, ficava sofrível.

A beleza dessa trip começa quando testemunhamos um nascer do sol que mais parecia um céu incendiado, continua com a lancha passando por diversas falésias, verdadeiros penhascos de rochas altas e íngremes à beira-mar, para depois vislumbrarmos uma gigantesca figura desenhada na encosta do morro que mede 177 metros de altura, 54 metros de largura e 1 metro de profundidade.

 

Desenhado sobre a rocha e conhecido como o grande Candelabro, uma maravilha que faz parte de vestígios arqueológicos, conhecido mundialmente como as famosas ?Linhas de Nazca?, algo ainda inexplicável pelo homem.

 

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Céu incendiado pelo pôr-do-sol em Porto Parracas. Foto: Tom Almeida.

A escassez de vento e chuva nessa região contribuem para a preservação dessa figura, que foi algo fantástico de fotografar.

Ao chegarmos à Reserva Natural da ilha de San Gallan, fomos impactados pelo visual de tirar o fôlego. Uma ilha deserta e montanhosa, pequena, que tem um canal oceânico que entra em sua enseada pelo lado leste, bate na bancada e cria ondas com perfeição delirante.

 

Um barulho ensurdecedor vinha do largo da enseada, onde milhares de Leões Marinhos brincavam e acasalavam. São centenas deles gritando ao mesmo tempo e tomando sol na praia, mas que ao verem o barco, caem na água e nos seguem, dando saltos e brincando.

 

Aqui, mais aula cultural. O Californiano que batizamos de Little John

Leões marinhos dominam o território gelado. Foto: Tom Almeida.

(o cara era enorme, parecia jogador de basquete e surfava bem), está radicado no Peru a trabalho, é oceanógrafo e me apontou uma ave rara, um condor de cabeça vermelha (santa ignorância, eu pensando que se tratava de um urubu), eles baixam das partes altas dos Andes em busca de alimento.

 

Aqui também vimos albatrozes enormes, flamingos e uma grande variedade de aves. Esperamos a maré baixar um pouco, pois as ondas quebram melhores na maré baixa, e vimos as direitas perfeitas de San Gallan funcionar.

 

Está é considerada uma das melhores direitas do Peru, e nos testemunhamos o porquê. Uma onda rápida, forte e perfeita, com uma sessão de tubo e um lip que lança longe, com uma face maravilhosa que vai dando volta na ilharga, uma onda como as que vemos nos filmes de surf em paraísos remotos.

Bastou a primeira sessão de surf para todos no barco se magnetizarem com a energia dessas ondas, o sorriso era largo na face de todos.

 

Fizemos e testemunhamos muitos tubos, surfamos lado a lado com os leões marinhos, muitas batidas e cut-backs, todos tiveram um sessão mágica nas ondas de San Gallan.

 

Alguns ficavam no barco batendo as fotos enquanto os outros surfavam e depois revezávamos, ainda que ninguém além de mim soubesse usar realmente a câmera, vários se revezaram com a lente, as fotos saíram boas apesar de várias perdidas.

 

Foram horas e horas de surf perfeito, várias caídas e regresso ao barco para matar a fome. Não fosse a água gelada, alguns teriam ficado o dia todo na água. Observando as condições da maré e do vento e para não ficar preso na enseada sem conseguir sair devido o risco de virar a embarcação, no finalzinho da tarde, Pedro avisou que já era hora de levantar âncora e rumar de volta à segurança do porto.

Estava chegando ao fim uma trip mágica, a lancha foi se distanciando devagar da ilha, sentíamos certa tristeza em deixar aquelas ondas perfeitas, seguimos já com o desejo de voltar e tornar a surfar San Gallan novamente.

Os últimos raios de sol refletiam nas montanhas a distância, fazendo alusão a um imenso campo dourado, o ouro nós já tínhamos encontrado. A dança das ondas continuava entre as rochas das encostas.

 

Para traz o santuário de San Gallan, beleza solitária e desabitada. Voltamos ao porto cansados e calados no barco, talvez porque ainda existem lugares no mundo onde a mão do homem não conseguiu chegar e a beleza pura nos deixa emudecidos.
 
Depois dessa aventura fantástica em San Gallan, rumamos eu, Railton e os ?Curitibas? para o norte do Peru. O swell não bateu grande nos primeiros dias, mas quem sabe esperar com calma os ciclos naturais da região, sabe que o norte sempre quebra clássico, depois de cinco dias de ondas ?ticas?, Pacasmayo quebrou costumeiro, ondas boas e largas, de cansar as pernas até do mais bem preparado dos surfistas.

 

Fomos também mais para cima e encontramos tubos maravilhosos em Lobitos, e direitas ocas em frente a uma molhe de pedra, num pico secreto, que não posso revelar a localização ou corro o risco de ser ?decaptado? pelos locais quando regressar ao Peru.

Depois do internato do norte, se é que me entendem, rumei sozinho de regresso a Lima, de onde partiria para Tacna na fronteira Peru-Chile para encontrar com os brothers, Lawrence e Dodô em Iquique no Chile para a segunda parte da trip.

 

Para conhecer o trabalho de Tom ALmeida, acesse o site Tomalmeida.fot.br .

 

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