X – Centenas de fantasmas do mar e a magia que existe entre pranchas.
As centenas de pranchas que o Pepe coleciona estavam prostradas nas paredes como numa cerimônia de um luau que já aconteceu há muito tempo. Egressas da lembrança atávica do surf somavam uma vibração difícil de descrever.
Era como se pudéssemos perceber e surfar as milhares de ondas que cada uma dessas pranchas e seus surfistas sem face surfaram, como se pudéssemos conter em nós as emoções de décadas de drops, batidas, tubos, rasgadas, delírios, medos, êxtases e paz trazidos por essas entidades.
Quantos fundos se formaram e se desfizeram nas praias do
Brasil e do mundo pinceladas por essas dezenas de quilhas? Eu podia ver os olhos abertos dos caras que droparam todos os mares com esse arsenal, compartilhar as paisagens e ondas que viram, podia ouvir seus gritos, seus suspiros, seus silêncios.
Podia sentir sua camaradagem, sua solidão. Podia viver um pouco suas vidas. Podia imaginar o que cada uma dessas pranchas significou para cada um dos seus donos invisíveis, muitos ainda surfando, muitos que talvez desistiram, alguns que já se foram para a praia de cima afim de intimidar os anjos com sua voluntariedade, ou ainda rivalizar com eles em ousadas manobras sobre nuvens carregadas.
Cada quarto revelava um repertório inédito que se espalhava pela minha vista e pela minha nova memória, agora recriada.
Eu sonhava acordado com todas as ondas do mundo. Foi nesse estado quase levitativo que chegamos ao último quarto.
Um pouco antes de me despedir, algo me chamou a atenção de maneira extremamente sutil. Quase imperceptível. Sem motivo aparente olhei para cima e vi a borda de uma prancha mais escura ensanduichada por duas menores, lá em cima, num dos racks presos à parede.
Não tenho a mínima idéia de porque aquela prancha específica me chamou a atenção, considerando que era praticamente igual a todas as outras. Apontei em sua direção e perguntei ao Pepe: “que prancha é aquela?”.
Ele me disse que não sabia, não se lembrava de todas, mas que podia pegar para que eu desse uma olhada. Eu enfatizei que não precisava, já antecipando a mão-de-obra para retirá-la lá de cima. Ele não se intimidou e já foi pegando a escada e subindo para sacar a tal prancha do seu ninho.
Um segundo antes de puxá-la debaixo das outras, algumas palavras incontroláveis e aparentemente sem sentido surgiram na minha boca, perguntei: “Você tem alguma prancha do Patrô?”. Não havia motivo razoável para essa pergunta.
Patrô era um ótimo surfista e shaper que eu conheci nas décadas de 1970 e 1980 no Guarujá. Local do morro do Maluf. No entanto, não lembrava dele e não falava nele havia décadas. Pepe disse simplesmente: “Não”.
Nesse exato segundo ele esticou o braço do topo da escada e sacou a prancha. A primeira coisa que vimos, escrita em cima do deck da prancha foi: “Patrô”.
(fim)
Sidão Tenucci é diretor de marketing da OP Ocean Pacific, viajou 50 países para descobrir que a resposta não está nem na estrada, nem na cultura, nem nas mulheres, nem nas ondas. É autor dos livros Almaquatica (Livraria Fnac) e O Surfista Peregrino, nas livrarias Cultura, Saraiva, da Vila, La Selva e Argumento, Leblon (RJ).