Soul Surf

Uma história de surf – Parte X

 

Uma pequena parte do quiver de Oswaldo Pepe. Foto: Marcia Aguiar.

X – Centenas de fantasmas do mar e a magia que existe entre pranchas.

As centenas de pranchas que o Pepe coleciona estavam prostradas nas paredes como numa cerimônia de um luau que já aconteceu há muito tempo. Egressas da lembrança atávica do surf somavam uma vibração difícil de descrever.

 

Era como se pudéssemos perceber e surfar as milhares de ondas que cada uma dessas pranchas e seus surfistas sem face surfaram, como se pudéssemos conter em nós as emoções de décadas de drops, batidas, tubos, rasgadas, delírios, medos, êxtases e paz trazidos por essas entidades.

 

Quantos fundos se formaram e se desfizeram nas praias do

Na casa de Pepe há pranchas por todos os lados, elas fazem parte do ambiente. Foto: Marcia Aguiar.

Brasil e do mundo pinceladas por essas dezenas de quilhas? Eu podia ver os olhos abertos dos caras que droparam todos os mares com esse arsenal, compartilhar as paisagens e ondas que viram, podia ouvir seus gritos, seus suspiros, seus silêncios.

 

Podia sentir sua camaradagem, sua solidão. Podia viver um pouco suas vidas. Podia imaginar o que cada uma dessas pranchas significou para cada um dos seus donos invisíveis, muitos ainda surfando, muitos que talvez desistiram, alguns que já se foram para a praia de cima afim de intimidar os anjos com sua voluntariedade, ou ainda rivalizar com eles em ousadas manobras sobre nuvens carregadas.

 

Cada quarto revelava um repertório inédito que se espalhava pela minha vista e pela minha nova memória, agora recriada.

Quarta de baixo para cima, prancha do Patrô escondida em meio às mais diversas emoções. Foto: Marcia Aguiar.

Eu sonhava acordado com todas as ondas do mundo. Foi nesse estado quase levitativo que chegamos ao último quarto.

 

 

Um pouco antes de me despedir, algo me chamou a atenção de maneira extremamente sutil. Quase imperceptível. Sem motivo aparente olhei para cima e vi a borda de uma prancha mais escura ensanduichada por duas menores, lá em cima, num dos racks presos à parede.

 

Não tenho a mínima idéia de porque aquela prancha específica me chamou a atenção, considerando que era praticamente igual a todas as outras. Apontei em sua direção e perguntei ao Pepe: “que prancha é aquela?”.

 

Ele me disse que não sabia, não se lembrava de todas, mas que podia pegar para que eu desse uma olhada. Eu enfatizei que não precisava, já antecipando a mão-de-obra para retirá-la lá de cima. Ele não se intimidou e já foi pegando a escada e subindo para sacar a tal prancha do seu ninho.

 

Um segundo antes de puxá-la debaixo das outras, algumas palavras incontroláveis e aparentemente sem sentido surgiram na minha boca, perguntei: “Você tem alguma prancha do Patrô?”. Não havia motivo razoável para essa pergunta.

 

Patrô era um ótimo surfista e shaper que eu conheci nas décadas de 1970 e 1980 no Guarujá. Local do morro do Maluf. No entanto, não lembrava dele e não falava nele havia décadas. Pepe disse simplesmente: “Não”.

 

Nesse exato segundo ele esticou o braço do topo da escada e sacou a prancha. A primeira coisa que vimos, escrita em cima do deck da prancha foi: “Patrô”.

(fim)

 

Sidão Tenucci é diretor de marketing da OP Ocean Pacific, viajou 50 países para descobrir que a resposta não está nem na estrada, nem na cultura, nem nas mulheres, nem nas ondas. É autor dos livros Almaquatica (Livraria Fnac) e O Surfista Peregrino, nas livrarias Cultura, Saraiva, da Vila, La Selva e Argumento, Leblon (RJ).


Michelle des Bouillons desceu uma onda de quase 25 metros em Nazaré e pode entrar para a história como a mulher que surfou a maior de todos os tempos. Em entrevista exclusiva ao Waves, ela conta como chegou até aqui.

De Bells Beach a Raglan, Brasil vive quatro etapas de domínio histórico: vitórias, finais, nota 10 e os quatro primeiros do ranking mundial com a mesma bandeira.

Mais de cinquenta anos de câmera na mão: do Píer de Ipanema a Pipeline com Gerry Lopez, de Bob Marley no Havaí aos Rolling Stones no Maracanã. Fernando “Fedoca” Lima viveu e fotografou tudo isso. Agora reúne tudo em um livro.

Maior onda já surfada por uma mulher no Brasil é registrada por Michaela Fregonese durante swell histórico em Jaguaruna (SC)