Soul Surf

Uma história de surf – Parte VIII

Greg Noll em cena do filme Riding Giants (EUA, 2004). Foto: Reprodução Sony Pictures Classics.

VIII – A parte B do diálogo amoroso de Miki com sua amante tão ideal quanto temporária, e uma sessão de sonho para Dora – com a participação especial de Greg Noll.

Miki, deitado na cama com o velcro da bermuda aberta e com a barba por fazer, havia ouvido o que quis e o que não quis da sua namorada mais recente, da qual, ele não confessava, havia esquecido o nome. Quando ela afinal e previsivelmente o acusou de ser um covarde emocional, ele simplesmente disse:

Miki: Dessa vez você acertou. O meu medo está aparecendo mais ultimamente. Talvez porque eu o tenha deixado de lado. O meu medo é uma criança carente. Precisa de atenção. Tenho medo de ficar parado e estagnar, de ser sugado pela sociedade. Tenho medo do mar.

Mickey Dora, um do caras mais notáveis nos anos dourados do surf. Foto: Golden Breed.

Ela (incrédula, achando que era mais uma sacanagem dele): Do mar?!

Miki (sério): Na verdade, eu mesmo tenho invocado esse medo. Quero olhar para ele, acalmá-lo, torná-lo meu aliado nos momentos de desespero. Ele apareceu de repente hoje de manhã enquanto eu alongava na areia, no mesmo segundo em que olhei o mar por entre as minhas pernas e através das minhas sobrancelhas brancas. Sonhei que tinha ficado velho.

 

Um siri me disse: “É assim mesmo: quando você fica velho demora mais tempo alongando que surfando!” Mesmo sonhando e com medo, entrei. O siri correu de lado e eu arrastei meu long até a beira. O sol estava maravilhoso. Aquecia sem queimar. Uma segunda-feira, eu acho – os sonhos não têm calendário. Só um cara na água. Eu. Ninguém na areia. Só o mesmo siri esperto e um amigo um pouco menor, ambos gingando como se estivessem chapados e perdidões.

 

Uma água verde me abraçou, transparente, com a temperatura ainda boa, apesar do avançado do outono. Alguns peixes não me deixavam sentir só, mas a presença deles já me fez sentir crowdeado. Acho que eu estava sensível demais. Nesse pico isolado da vigília e do mundo eu estava completo. No mar é onde eu me sinto menos sozinho. E sempre quando não tem ninguém. Esperei um bom tempo sentado lá fora, olhando para as montanhas no horizonte à esquerda da praia, distraído, as pernas balançando suavemente. Quase tomei uma série de uns dez pés plus na cabeça. Não sei por que, naquela hora, lembrei-me do meu velho amigo Greg Noll.

 

Quando vi aquelas massas d´água em cima de mim senti um gosto de bílis subir pela garganta e ouvi a voz do Greg: “Rema para ela, Miki!”. Movi-me mais lentamente do que gostaria. Meus reflexos estavam envenenados pelo medo. Por milagre, escapei. Ainda bem. A minha velha cordinha apodrecida não agüentaria. A minha dor na coluna também não. Um bico de papagaio aqui, uma hérnia ali, uma artrose acolá…

 

Elas me incomodavam na remada e, certamente, não contribuiriam caso houvesse uma sessão forçada de natação. É chato sonhar que se está velho, pensei – ainda dentro do sonho. Tentei não ligar para as dores para não transformá-las em sofrimento. Ouvi Greg rindo. Consegui esquecer pelo menos a dor na cervical o tempo suficiente para passar a série.

 

Você sabe: essa dor é um inquilino indesejado que sempre esteve em mim. Tempo demais. Tomei coragem, remei para a zona de impacto. Veio outra série. Dropei a segunda. Bem cavada, um pouco demais. Atirou-me lá de cima. Pensei ver a bermuda branco-e-preto listada do Greg passar por debaixo de mim.

 

Consegui controlar a prancha, numa mistura de instinto e confiança, autoridade e fé. É, autoridade. O drop aconteceu, provando mais uma vez que sonhos e milagres são irmãos. Caí com fluidez. Tentei não pensar para manter a pureza do movimento. Só vi o bico azul da prancha avançar para o vazio e, rápida e finalmente chegar lá embaixo, junto com um frio que atravessou o meu estomago até um passado remoto, onde aquele homem que vencia o medo não era aquele eu que me era familiar.

 

Ao mesmo tempo fiz a curva, tornando-me parte da onda. Assim que eu me senti acima dos mortais de gravata deu-me um nó na garganta. Agora Greg ria muito, sem parar, até eu começar a rir também ao ver a sua barriga de cerveja balançando obscenamente. Nesse instante o medo desapareceu dentro da unidade, diluído na integridade entre as três formas: eu, a prancha e a onda.

 

Foi como se toda a sociedade, meus pais, as críticas e os caras de cara feia me cobrando os cartões de crédito estourados tivessem ficado para trás, sugados pela força do tubo que me perseguia, enquanto eu seguia em frente, para um nada que, claro, era um tudo. Surfei-a inteira. Sem dó. Usei o seu corpo como veículo. Fiz amor com ela.

 

Ela me usou como um aval de carne, osso e neoprene para a sua curta existência. Aqueci sua trajetória. Ela me deu vida. Usei seu corpo como uso o corpo das mulheres. Não foi muito longa, mas forte o suficiente para eu viajar, me sentir livre, tranquilo, feliz, energizado, eterno. Venci a mim mesmo e não decepcionei o Greg. Aliei-me com o medo. Fui fazendo amor e f*** com a onda ao mesmo tempo. É isso.

Ela (de olhos fechados, sentida): Você não precisa de mim, você não precisa de ninguém, você não precisa de nada…

Ele (sorrindo): Eu não sou nada. Eu não sou ninguém.

Ela (reagindo agressiva): E não é mesmo…Só um nada não tem coração, não dá nada a ninguém nem precisa de nada.

Ele: Não é assim que o coração funciona: na ilusão da necessidade. O coração não é afetado pela distância nem pelo tempo. Nem pela necessidade. São outras coisas que o crucificam. das quais nada sabemos. O surf não padece desse vírus: é tudo, menos ausência. Então, é sempre amor. Esse amor que sobrevive mal e sem sabor no teu discurso vazio.

Ela (desanimada): Eu te sinto sempre ausente. Você nunca está por perto, nem física nem emocionalmente. É como se eu me relacionasse com um fantasma.

Ele (pensativo) : Nós sempre nos relacionamos com fantasmas. Alguns segundos, a vida inteira. Tanto faz. Ninguém nunca está realmente aqui, e o pouco que resta de todos nós acaba sumindo sem vestígios na névoa do tempo.

Ela (tentando reagir à angústia que tomou conta do seu corpo e mente): Só você mesmo para achar possível evoluir nessa vida sem se relacionar!

Ele: Eu já tenho trabalho suficiente tentando me relacionar com as minhas múltiplas personalidades, com as ondas que me abandonam, com as cabeças da minha Hidra particular…e com o teu corpo.

Ela (irritada): Você confunde relacionamento com carência, sexo, tesão ou medo da solidão. Tudo menos amor. Te julguei erradamente. Sinto-me fracassada. Fracassei nessa relação.

Ele (irônico): Define “relacionamento”…

Ele: Definir relacionamento não está definitivamente dentro da minha capacidade nesse momento. (soando entre desesperada e arrependida) Porque eu fui me meter com você?!… (respirando forte) Pelo menos estou aprendendo uma porrada sobre mim mesmo no meio desse tsunami emocional!

Ele (iluminando o sorriso): Mas é exatamente essa a ordem correta!: primeiro aprendemos sobre nós mesmos para só DEPOIS nos relacionarmos. As pessoas tentam se apoiar nas outras antes de terem estrutura própria. Aí tudo desmorona…só dá merda.

Ela (irada): Quem é você para falar em “aprender sobre si mesmo”??!

Ele (conciliador): Olha, baby wave, o que eu sinto por você não é aquela paixão que idealiza e não vê. É um amor que, exatamente por ver o outro tão claramente, se apaixona.

Ela (surpresa, apaziguada): Isso é verdade? Nunca senti isso de você, nunca…

Ele: Quanto menos eu penso mais eu sinto, e quanto mais eu sinto mais verdadeiro tudo se torna, pussy cat…

Ela (mais morna): Tô vendo que você tá a fim de transar…não é, “Da Cat”? Não é você que faz o amor dos gatos, gritando e arranhando? rsrsrs

Ele: Claro, essa é a minha manobra mais radical e mais bem-vinda, mas só se você conseguir deixar o cinismo de lado e subir no telhado. Essa cama é pequena demais para nós três.

Ela (como se a lembrança de algo lhe incutisse uma repentina amargura): Se deixarmos a hipocrisia e o cinismo de lado não vai sobrar nada. Como você consegue dormir à noite sendo quem você é, sabendo quem você é?

Ele: Eu durmo feito pedra (de coral). Os sonhos batem em mim e quebram perfeitos até o infinito.

Pepe me agradeceu o olho involuntariamente clínico que deitei sobre o seu livro e, encerrados meus comentários sobre a obra e as maravilhosas ilustrações e aquarelas de autoria de Julia Bax, mostrou-me a sua pequena coleção de 97 pranchas. Sim, eu disse 97.

 

(continua)

 

Sidão Tenucci é diretor de marketing da OP Ocean Pacific, viajou 50 países para descobrir que a resposta não está nem na estrada, nem na cultura, nem nas mulheres, nem nas ondas. É autor dos livros Almaquatica (Livraria Fnac) e O Surfista Peregrino, nas livrarias Cultura, Saraiva, da Vila, La Selva e Argumento, Leblon (RJ).

 

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