Soul Surf

Uma história de surf – Parte VII

 

Mickey Dora, um do caras mais notáveis nos anos dourados do surf. Foto: Golden Breed.

VII – Um amor imaginário para o Miki Dora, o eremita das ondas; ou “O mito do surfista solitário” não é mito.

 

 

Enquanto folheava o livro sobre Miki Dora na casa do Pepe, fui resgatando ainda mais a personalidade do sacana das profundezas da minha memória sequelada. Ao mesmo tempo em que imaginava um diálogo entre Dora e uma bela mulher que quisesse fazer parte da sua vida. Tenha em mente que Miki é o representante extremo/radical do surfista solitário, auto-suficiente.

 

Um eremita que habita as cavernas dos tubos. Acrescente aí sarcasmo e uma mente ágil. Pense que a relação do estereotipado “surfista-individualista” com as mulheres foi sempre, no mínimo, conturbada. Sentimentos de rejeição, abandono, negligência, longas esperas em dias chuvosos dentro de carros com os vidros embaçados, ciúmes químicos com a prancha – seu objeto de prazer (parte do próprio corpo ), paixão alucinada na areia morna sob as diversas fases da lua, o confuso e sutil discernimento entre individualidade e egoísmo, cheiro de suor e parafina de morango misturados à brisa marinha sob a estridência das gaivotas, e mais, muito mais.

 

O encontro se dá num final de tarde de verão, já quase escuro, em meados dos anos 60, em meio às pilastras que Dora costuma driblar com sua prancha, sob um dos inúmeros piers que, como espinhas de peixe ou um cardume de valiosos violinos Stradivarius, desenham em diagonal a costa da Califórnia. A conversa seria mais ou menos assim:

 

Ele (em tom de brincadeira): Me tira desse vício da solidão, menina!!

Ela (genuinamente preocupada): Afinal, você gosta ou não desse vício? Se a minha presença estiver te fazendo muito mal, sumo do mapa agora!

Ele: Que tem a ver?! Que mapa?! Eu sou o mapa! O mundo está tatuado no meu coração. Você vai acabar me encontrando em todo lugar! Não tem para onde correr. Vem cá, baby…

Ela (desviando do beijo e disposta a uma conversa séria): Deus me livre! A impressão que eu tenho é que, no final, você é quem vive me evitando. Eu te faço sentir mareado?

Ele (sussurrando e sorrindo ao mesmo tempo): Não, você não é do mar, menina. Você é do departamento da carne. Gosto do teu balanço. E também gosto da loucura da sua cabecinha. Frustrações, sofrimentos, ausências e inseguranças dos outros é comigo mesmo. Vem que eu te protejo do medo, te protejo de mim mesmo… (colocando o braço esquerdo por sobre os ombros dela) Afinal, você tem razão: eu sou mesmo um cara ausente! Mas não se preocupe, entre uma ondulação e outra podemos fazemos amor.

Ela (repentinamente tensa, se livrando do abraço e com o rosto retorcido de raiva): Fazemos amor o cacête! Tá pensando que é assim? Na hora que você quiser tenho que estar pronta?

Ele (conciliador, sem se abalar, beliscando sua coxa): Relaxa. Mesmo sem estar pronta eu te pego. Eu estou bem em qualquer situação, não entendeu ainda, minha linda, amorosa, deliciosa, gostosa? O meu único receio é me acostumar demais com a solidão. Mas logo passa. De repente descubro uma nova praia deserta e pronto: tô em casa outra vez. Às vezes sinto como se a solidão fosse a minha amante, a minha companheira. Sinto-me namorando o vazio, apaixonado pelo nada. Me dá paz. Me sinto respirando o horizonte que preenche meu pulmão de mais horizonte e sempre me traz mais e mais ondas (ela ouvia em silêncio, entre assustada e irritada). Ele nunca me decepciona ou trai. O horizonte tem sempre mais. Com isso eu posso contar, meu amor. Tá certo que uma mulherzinha de vez em quando também não cai mal…

Ela (com uma ponta de amargura, como se constatasse algo novo): Você não precisa de mulher. Você é um eremita das ondas.

Ele (dando as costas, abrindo os braços dramaticamente e olhando para o mar): Isso é um elogio?! Você faz soar como insulto! Rsrsrs. Olha, não é pessoal: eu gosto de viajar sozinho. Assim vou treinando para a morte.

Ela: Ai! Que macabro!

Ele: (se voltando novamente, fixando o olhar nos olhos dela e rindo antes de dizer com ênfase) Ai! Que feliz! Me beija antes de eu morrer! Um beijo de adeus!

Ela (mais irritada): Que beijo!! Se vacilar você dorme com a prancha. Você não precisa de mulher mesmo…você não precisa de mim…

Ele (agora mais calmo): Eu não preciso de nada. Eu escolho. Você se ofende à toa com o fato de eu não precisar de você. Pense nisso: e-s-c-o-l-h-e-r é melhor que precisar. Eu escolho você agora. Eu escolho a minha prancha e a estrada das ondas, claro, para sempre, até para dentro da morte. Mas se quiser, ok, vamos brincar disso: dessa emoção com a qual você não me acaricia, mas me acusa.

Ela (confusa): Como?? Que brincadeira? Que emoção?

Ele(de olhos fechados, sonhador): Aquela emoção… A mesma que encontrei, mais uma vez, quando enfrentei o mar hoje de manhã. Tava de bom tamanho, e eu estava com aquele medo de quando eu era guri e quase morri afogado com o meu pai. Resgatei o medo, irmão-siamês da coragem, entende? Surfo até hoje para reconstituir aquele medo, para poder enfrentá-lo mais uma vez, e vencê-lo, toda vez, mais uma vez. E ele sempre se renova, como a Hidra de Lerna, o monstro de nove cabeças que o Hércules mitológico pelejava em cortar, uma a uma, e que sempre voltavam a crescer. Tenho que continuar cortando, sempre e sempre… A minha prancha é a minha espada.

Ela: Que horror! Você tem mais personalidades que a Hidra tem cabeças. É assustador sacar que o demônio usa bermuda, é bronzeado, fuma um cigarrinho estranho, fala manso e se amarra em caminhar suavemente sobre um longboard de nove pés.

Ele (corrigindo): …9´2´´… Achei que você já tinha desconfiado… rsrsrs. Do meu lado eu descobri que o importante não é o homem, não é a mulher, não é nem a relação. O fundamental é o sentimento gerado e que permanece da mistura disso tudo. Isso é que é a criação mágica do mesmo deus que fez o surf. É isso o que sobra. Você pode chamar de amor.

Ela (triunfante): É até engraçado você falar de amor. Você não tem idéia do que seja isso…você tem medo! Medo do amor. O grande Dora, o domador das ondas dos mares do mundo tem medo!

 

(continua)

 

Sidão Tenucci é diretor de marketing da OP Ocean Pacific, viajou 50 países para descobrir que a resposta não está nem na estrada, nem na cultura, nem nas mulheres, nem nas ondas. É autor dos livros Almaquatica (Livraria Fnac) e O Surfista Peregrino, nas livrarias Cultura, Saraiva, da Vila, La Selva e Argumento, Leblon (RJ).

 

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