Soul Surf

Uma história de surf – Parte VI

As ondas surfadas no Sri Lanka ainda estão lá… fazem parte do autor. Foto: Darcy / DreamDeliver.com.

VI ? Sacrifício, em latim, ?Sacrum Facere?. Significa ?tornar sagrado?.

 

Eu sou e sempre fui surfista para aprender a transitar entre e dominar as paixões. Deus (alguns chamam de Vida, outros, de Tempo) sabe o quanto fracassei. Mas sabe também, na sua onisciência poética, que desatei alguns nós cármicos bem bacanas, mergulhei no escuro dos medos tubulares e emergi ainda mais apaixonado. Meio afobado e semi-afogado, mas ainda respirando. Segundo alguns amigos mais íntimos, num ?decurso de prazo irritante?. Não fiquei nem pior nem melhor, apenas diferente.

 

As ondas surfadas no Sri Lanka, em 1981 ainda estão lá, idênticas, e continuam parte de mim. O vento que soprava em Cloudbreak, em Fiji, em 1986, idem. A areia de Byron Bay, na Austrália, apesar dos novos condomínios, permanece na minha pele. E, ainda assim, nada é igual. Porque a monotonia é que é mortal. Observei e fui observado por todas essas entidades. Qual de nós mudou com a percepção do outro? As coisas são como as vemos, não como elas são. O mar não estagna, se movimenta o tempo todo. A vida, idem.

 

Água parada é água morta. Pato parado leva chumbo. O câncer, espelho temido e louco, já citado, por exemplo, é energia parada, é carne louca porque é carne fria. O surf não morre nunca dentro da nossa razão e fora dela. Não é bobo nem nada, então vive abraçado com as ondas, colado com essas mestras do movimento.

 

A Bíblia diz que Cristo andou sobre as águas ? o inconsciente revolto da humanidade. Esse fato simboliza que ele dominava as paixões. O que tudo isso tem a ver com Miki Dora? Nada. E tudo. Miki também andou sobre as águas, mas foi dominado pelas paixões. Observou e foi transmutado, pisou a terra em forma de areia a vida inteira e no final foi coberto por ela, no seu tubo derradeiro.

 

Mas terá emergido de sua própria consciência, se libertado da ?persona? criada por ele mesmo a fim de desafiar o mundo? O ?sacrifício? de Dora, ao se retirar do convívio humano não teria sido o velho e simples orgulho? Terá sido o sagrado do seu gesto contaminado pelo ego, pelo querer ou se achar ser melhor que o caipira do interior da Califórnia (Valley) de barriga grande e pele branca tostada em primeiro grau pelo sol de Malibu? Não foi envenenado pelo seu próprio desprezo? Dora dominou as paixões ou tinha tanto medo delas que se isolou? Miki tornou-se sagrado?

 

De uma estranha maneira, sim. Talvez não sagrado, mas endeusado. Por alguns. Endeusado por aqueles que não tiveram a coragem de confrontar o estabelecido. Ou seja: gente para cacete! Muitos podem argumentar que ele o fez de um jeito meio torto. Right. Ninguém sabe se foi sincero na sua ira santa contra o sistema, ou se era simplesmente mais um golpe para se dar bem. Provavelmente a segunda hipótese temperada com a primeira.

 

Mas ele foi um homem que não passou despercebido. Difícil ignorar Miki Dora. Ou ele é odiado ou é idolatrado. Seu legado não é, definitivamente, o da atitude meia-boca. Do beijo na vida por obrigação. Ele permanece porque não conseguimos decifrá-lo – senão já teria desaparecido nas correntezas de um tempo sem ondas e sem contornos.

 

Nesse sentido, conseguiu um resultado admirável, mesmo que construído sobre bases condenáveis. Mais humano que isso só isso. Tento aqui não elogiar ou condenar o personagem, simplesmente constatar, embora não consiga esconder um suave aroma de espanto reverencial pairando no próprio ar que eu respiro, na brisa de Cloudbreak. Muito humano isso.

 

Arrisco aqui sucumbir à voz e ao olhar insalubre de um leitor mais enérgico, que pretende que as pessoas e seus comportamentos tenham limites rígidos. Sorry, elas não têm.  Ok, eu não emprestaria dinheiro para Miki Dora, mas também não deixaria de ouvir o que ele tinha a dizer sobre direito e propriedade.

 

Miki era religioso ou ateu? Não sei. Considere: se você é um cético absoluto e considera que sua vida é tudo que existe, a tendência é precipitar-se a viver tudo o que for possível no menor tempo possível. Humm… isso se parece com Dora.

 

Mas, se, no entanto, compartilha a tese de que essa é apenas uma das inúmeras passagens (encarnações) por esse planetinha, o seu comportamento tem grande chance de privilegiar o postergamento das ações, afinal: ?para que ter pressa se temos toda a eternidade para viver??.

 

Isso também se assemelha ao comportamento de nosso anti-herói. Nós sabemos que a maioria das pessoas crava a coluna do meio. Dora não. Ele sabia que o sacrifício não é sagrado, mas a vida sim. Ele cravava nas extremidades. Tornou o profano sagrado. Isso o torna divinamente humano e, claro, condenável. Quem nunca surfou que atire a primeira parafina.

 

Sidão Tenucci é diretor de marketing da OP Ocean Pacific, viajou 50 países para descobrir o profano, enquanto o sagrado estava sendo levado o tempo todo na mochila. É autor dos livros Almaquatica (Livraria Fnac) e O Surfista Peregrino, nas livrarias Cultura, Saraiva, da Vila, La Selva e Argumento, no Leblon.

 

(continua)

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