V ? A ortografia, os gremlins e o câncer moral, para o qual não há surf-terapia que dê jeito.
Pepe fez a sua proposta para que eu desse apenas uma pequena olhada no seu trabalho. O livro sobre Miki Dora. Dentro do seu texto impecável surgiram dois pequenos erros de ortografia que, sem que eu tivesse lido todas as linhas, me chamaram a atenção. Foi como se duas pequenas formigas perdidas num formigueiro de duzentas páginas gritassem lá de baixo que estavam vivas, mas queriam morrer, ou melhor, gostariam de sofrer uma sutil operação plástica, no caso, um implante.
Uma letra em cada seio. Um silicone semântico do bem. Foi como se eu tivesse aberto o livro quase que exclusivamente para encontrá-las. Não me lembro de muita coisa mais: só sei que vi claramente aquelas duas pequenas palavras, brilhando para mim, seu algoz, prestes a alterar suas frágeis integridades erradas.
Quem escreve livros sabe que, por mais que revisemos enetrozentas vezes o texto, sempre vão surgir pequenos e inesperados gremlins na forma de maquiavélicos equívocos escondidos, nadando dentro do corpo da matéria como espermatozóides esquizofrênicos, ou, mais além, dentro da nossa própria distração. Não importa.
O importante é o resultado, a reverberação na zona de impacto da consciência. O detalhe mágico da existência de ondas – essas células que formam o mar. E elas, ainda por cima, falam entre si. Telepatia de espuma. Esse livro, esse trabalho, eu garanto, vai arrebentar muitas cordinhas (?leashs?, Pepe), na arrebentação da percepção de quem somos como surfistas.
Deu gosto observar que ali estava bem mais que a história de um maluco beleza – ou nem tanto, mas uma verdadeira tomografia, escaneada com precisão e alento, de quem somos. Uma pequenina célula de câncer moral que todos nós possuímos. O que se detecta é o céu e o inferno dentro do mar, que borbulha e grita, ao mesmo tempo em que delicia com a safadeza e as manobras artísticas de Dora. O mar vira mulher de malandro. Testemunhamos aí as vísceras do surf.
Sim, porque todos nós que já botamos os pés em cima de um poliuretano com resina e parafina por cima, temos um pouco de Miki Dora. Conformamos-nos na sociedade para sermos aceitos e sobreviver, mas, no fundo, dentro de todo surfista verdadeiro ? ou o que quer que seja isso – tem aquele cara que quer mandar tudo à merda e ir surfar lá bem longe, onde urubus gorjeiam seu bafo de carniça, pelicanos peitudos sobrevoam golfinhos que jamais serão amestrados, e jacarés de papo-amarelo não têm coragem de nadar, nem de frente nem de costas.
Quase me esqueci dos tubarões ? mais uma vez a lembrança adrenal de Kahuku – que não estão nem aí com a gente enquanto devoram atuns sarados – o instinto existe para ser extinto. Lá, onde estaremos sós dia e noite, madrugadas adentro e luzes da manhã, completamente sozinhos, disputando com o universo a plenitude. Logo ali, depois da ante-sala da morte. Vivenciando a realidade, não o sonho. A realidade. Miki mandou tudo à merda. O mundo mandou Miki à merda de volta. Estamos todos quites.
Sidão Tenucci é diretor de marketing da OP Ocean Pacific, viajou 50 países para descobrir que ás vezes é preciso se locomover para entender, e que o mau caráter, embora não pareça dissolver a carne, é o câncer do espírito, e não um atributo relativo. É autor do livro ?O Surfista Peregrino?, nas livrarias da Vila, Cultura, La Selva e Argumento, no Leblon.
(continua)