IX – Um quiver de respeito: de pranchas e de amigos.
Passeamos pelos cômodos da casa do Pepe e pela caprichosa coleção de 97 pranchas penduradas em suas próprias histórias. Sim, eu continuo dizendo: Pepe possui 97 pranchas. Num dos quartos uma inesperada homenagem: ele pegou quatro capas do meu primeiro livro – feito com o fotógrafo Klaus Mitteldorf – o Almaquatica, e criada pelo nosso parceiro e design gráfico David Carson, e juntou-as, formando um quadrado.
No interior dessa figura geométrica revelou-se um inesperado coração de fogo. Pepe emoldurou o mosaico, eternizando a ideia. Ficou inesperadamente bom. Criou-se uma metáfora em papel colorido do coração de um surfista quando alcança o
sentimento das águas.
Juntando-as num ângulo inusitado acabou criando uma nova vertigem. Gostei, embora não tenha ainda conseguido traduzir a estranheza de ver a nossa capa emoldurada, circunscrita dentro daquele vidro anticéptico, cauterizando qualquer outra possibilidade.
Todas as outras paredes estavam, literalmente, forradas com pranchas das mais variadas procedências, tamanhos, cores, personalidades, eras. Não havia nenhuma triquilha. As paredes estavam forradas e eu, mesmerizado com tanta informação.
Já começava a pressentir os fantasmas das 97 pranchas, dos pelo menos 97 surfistas, das 97 manhãs, tardes e madrugadas, das 97.000 ondas que permearam aquela coleção, sobrevoando o ambiente e rasgando as águas da memória.
A grande maioria das peças egressa dos anos 70. São pranchas representativas da época de transição entre os longboards e as shortboards. O período em que tudo virou outra coisa, um painel sólido do espectro da mudança.
Algumas biquilhas anos 1980, uma monoquilha dos anos 1960, dada pelo ex-presidente da ASP, o Randy Rarick (meu primeiro e único patrão, quando me convidou para ser juiz do Bali Pro / Am, na mágica Uluwatu de 1981, em Bali), uma Gordon & Smith 9’6″, vermelha.
Muitas monoquilhas dos anos 1970, algumas com as sombras dos pés de Mike Tabeling. Parafinas de 40, 45 anos de idade. Cracas de parafina ornadas com pelos dos joelhos que sobreviveram aos seus donos.
Longboards antológicas com o cheiro e a voz de Peter Troy. Shapes de Johnny Rice, Homero, Mark Jackola, Pearl, Island, Rico, Twin, a São Conrado do velho Parreiras, K & K, La Barre, Piu, Mike Purpus, e muito mais. DNAs resinais de vários tipos de sangue & personalidades. Tudo família. Velhos amigos.
Poderíamos reconstituir um Cyborg ou um Frankstein do surf feito da combinação das células desses surfistas. Ele surfaria de pé trocado. Seria a combinação de um ideal exótico de estilos, um mosaico de almas do mar. Uma concha. Uma anêmola. A sensação de fazer parte da egrégora familiar do surf foi forte. Remeteu-me aos colegas colunistas do Waves, por exemplo. Estão mais próximos no espaço e no tempo dos que os citados acima, mas no dentro do mesmo perímetro emocional. Tenho alguma relação de amizade com pelo menos oitenta por cento deles.
Esse fato é anterior à circunstância de estarmos dissertando no mesmo site. Não é mera coincidência. Agobar Jr. fotografou para mim um catálogo da OP Ocean Pacific na praia da Guarda em 1990, já surfamos juntos e nos damos bem, numa indisfarçável simpatia mútua, faz tempo.
Cachorrão Venansi é compadre de longa data não só nas praias e nas fotos, mas nas conversas, festas, risadas e filosofadas em Sampa. Surfo com o Edu Faria até hoje. Nós já nos conhecemos da época do Guarujá das antigas. Tive a oportunidade de receber algumas de suas dicas sobre bem-estar físico. Sempre realço, talvez com excessiva insistência, os benefícios que a yoga me trouxe.
O Flavinho Vidigal foi o cara que eu contratei para fazer o vídeo do OP PRO Fernando de Noronha – 1995, o primeiro campeonato nacional feito na ilha, e foi lá que começou a nossa amizade e a carreira dele como videomaker. Nessa época ele já atuava como fotógrafo, sendo um dos mestres na difícil arte de fotografar dentro d´água.
O Motaury eu conheço há décadas, mas só recentemente tivemos a oportunidade de conversar com mais calma quando ele e sua esposa, Luciana, me deram uma carona de Floripa para Ibiraquera, por ocasião do lançamento do meu livro “O Surfista Peregrino” na capital catarinense. Na seqüência, ao aterrisar na mágica Ibiraquera, me quedei com meu compadre de quarenta anos de surftrips para campeonatos de Saquarema e campeonatos Legends, Paulo Sefton.
O Taiu foi um dos meus primeiros patrocinados na OP, junto com seu irmão, Totó, e a outra dupla de irmãos talentosos: Christian e Dodô Von Sydow. Os quatro eram conhecidos como os “Irmãos Brothers”.
Enfim, tudo em casa… Cada um deixou sua marca na minha história e nas memórias que eu levo do surf. Cada prancha de cada um deles estava e está representada, de alguma maneira estranha, na coleção do Pepe.
O que eu vi, espalhadas por aquela casa, entulhando com seus carismas e seus mistérios cada espaço disponível, foram 97 pranchas órfãs adotadas pelo Pepe. Criaturas inocentes, mas com aquele ar de maturidade dos que passaram por experiências marcantes e sobreviveram para contar.
Pranchas sisudas, alegres, calmas, vívidas, adormecidas. Algumas com cicatrizes, outras com algum pó. Vi inocentes mini-models da era pré-triquilhas; encharcadas e potentes trusters da era Simon Anderson, restauradas cuidadosamente pelo glasser Thyola e pelo Kalunga, mas mantendo a pátina antiga, a intocável aura de uma vivência mítica, só intuída por iniciados.
Algumas vieram da era pré-leash e, obviamente, carregam a esquisitice de não ter um lugar para prender uma cordinha que ainda não existia – ou ainda o perigoso e ainda ancestral estratagema de amarrá-la num furo feito na parte de trás da quilha, técnica que se provou ineficaz com o tempo que voa dentro das ondas e com as quilhas arrancadas pelo poder dos impactos.
Na época o negócio era nadar. Pagar o erro com uma penalidade desproporcional ou com um prazer desproporcional. Desculpem: pensar em proporções é tentar arrastar o touro mental para a arena da alma. Não cabe. O surf atua na mente espiritual. Não pode ser circunscrito. Nadar era simplesmente parte do surf. Tudo era parte do surf.
(continua)
Sidão Tenucci é diretor de marketing da OP Ocean Pacific, viajou 50 países para descobrir que a resposta não está nem na estrada, nem na cultura, nem nas mulheres, nem nas ondas. É autor dos livros Almaquatica (Livraria Fnac) e O Surfista Peregrino, nas livrarias Cultura, Saraiva, da Vila, La Selva e Argumento, Leblon (RJ).