Já vai longe (e tarde) o tempo em que nós, surfistas, éramos vistos pela sociedade como jovens vagabundos, alienados e irresponsáveis, que só queriam saber de ?ir para a Califórnia, viver a vida sobre as ondas?.
Não que tenhamos desistido de viver a vida sobre as ondas; nem pensar! Essa ainda é a meta principal de todo surfista.
Mas aqueles garotos que passavam todo o tempo disponível (e boa parte do tempo não disponível também; atire a primeira parafina quem nunca matou aula para ir à praia) surfando cresceram, se formaram, batalharam e conquistaram seu lugar ao sol.
Hoje, surfistas podem não ser mais tão jovens; é comum encontrar senhores grisalhos desfrutando o prazer de andar sobre as ondas. Surfistas, mesmo os que passam seus dias na praia, não são mais vagabundos; segundo a revista Você S.A. (julho de 2002, edição 49), o mercado de surfe no Brasil movimenta cerca de R$ 2 bilhões ao ano e emprega, direta e indiretamente, cerca de 140 mil pessoas.
Nas faculdades, não é incomum o professor ouvir, ao indagar a ocupação do rapaz de cabelos dourados: ?surfista profissional?; resposta sempre acompanhada de um sorriso da mais pura satisfação.
Os garotões bronzeados de outrora, que carregavam suas pranchas debaixo do braço, alegres e altaneiros, são hoje empresários, médicos, arquitetos, advogados. Mas continuam bronzeados. E ainda carregam, alegres, suas pranchas debaixo do braço.
À primeira oportunidade, estão dentro d?água, disputando a série com os futuros advogados, engenheiros, médicos…
Enfim: os surfistas estão dominando o mundo. Nada mais natural, portanto, que chegassem ao poder.
No Espírito Santo, existem pelo menos dois casos conhecidos de amantes das ondas que exercem importantes cargos eletivos.
Max Filho, surfista há décadas, é um deles. Elegeu-se vereador aos 20 anos. Posteriormente, concorreu a uma vaga na Assembléia Legislativa, sendo o deputado estadual mais votado da história do estado.
Atualmente, exerce o segundo mandato (foi reeleito no primeiro turno, com cerca de 65% dos votos) na prefeitura de Vila Velha, uma das mais importantes cidades do Espírito Santo.
Outro surfista poderoso é Ricardo Ferraço. Nascido na capital secreta do mundo, Cachoeiro de Itapemirim, também exerceu mandatos de vereador e deputado estadual, tendo presidido aquela casa legislativa. Foi o deputado federal mais votado do Espírito Santo. Hoje é o vice-governador do estado.
Nos finais de semana, Ferraço pode ser visto com seu funboard desfrutando, junto com seu filho e com Nelson Ferreira (ex-surfista profissional, atual presidente da Federação Capixaba de Surfe e seu amigo de longa data), as ondas do Ulé ou de Setiba, seus picos preferidos.
Jovens, competentes, populares (a quantidade avassaladora de votos recebidos por ambos nas urnas demonstra que o povo capixaba acredita e confia neles), determinados, surfistas.
Certamente, Max Filho e Ricardo Ferraço ainda têm um longo caminho a percorrer em suas carreiras. Por tudo isso, não é nenhum desvario achar que o Espírito Santo poderá ser o primeiro estado da Federação a ser governado por um surfista.
Nossa torcida será para que os representantes da tribo das ondas na política exerçam seus mandatos com honestidade, integridade, competência e trabalho duro; que apliquem na política os princípios do surfe: respeito e amor ao próximo, ao mar e à natureza; que sejam capazes de encarar os desafios de seus cargos como se estivessem diante de uma série pesada: com desassombro, sem ?puxar o bico?; que saibam que haverá dias de mar flat, dias de mar storm e dias de mar perfeito… E que saibam que os outros surfistas estarão de olho neles!
Nosso plano de conquistar o mundo está funcionando a pleno vapor. Próximo passo: a presidência da República! Alguém se habilita?