Terra do Terral

Surfari pela América

Nada como férias do trabalho para matar a sede de viagens. Confesso que estava me matando, pois fazia quase dois anos que não viajava (a última vez tinha sido em 2007, para El Salvador).

Depois de meses de pesquisa, eu e mais três amigos resolvemos tentar a sorte na Nicarágua.

Os estudos eram promissores, descobrimos que o mês de maio é o mais constante em swells no ano. A direção do vento não era um problema, já que, devido a um fenômeno natural da região envolvendo o lago da Nicarágua, o terral é constante por quase todos os meses do ano.

Nosso plano inicial era ficar 17 dias no país. Fechamos um hotel na região de Rivas, Playa Santana, por uma semana e alugamos um carro 4×2 (depois descobrimos não ter sido uma boa idéia, mesmo na época da seca).

Deixamos a mente aberta para conhecer novos lugares,
éramos quatro pessoas e todos na mesma vibe (o que foi fundamental para o sucesso da viagem).

O único empecilho parecia ser o baque da gripe suína pelo mundo, e os constantes alarmes para se evitar as viagens internacionais.

Discutimos algumas vezes, mas chegamos à conclusão que, com os devidos cuidados, os riscos diminuiriam bastante. Isso sem falar que o lugar não oferecia perigo algum, pois era muito aberto e com pouca concentração de pessoas.

Início de maio, do próprio avião tive a impressão que o país era extremamente simples e pouco desenvolvido. A impressão se confirmou ao deixar o aeroporto de Manágua.

A simplicidade se confunde com a pobreza e a falta de condições dignas de moradia que se espalham por todas as partes. Infelizmente, o país é de longe mais atrasado do que El Salvador.

Seguimos rumo à região de Rivas, Sul do país. A estrada Pan-americana é muito boa, porém, conforme nos aproximávamos do nosso destino, ela piorava cada vez mais.

Os animais apareciam por todas as partes. Porcos, bois, cavalos, cachorros, galinhas, gatos, cabras, pássaros, completavam a bela paisagem.

Chegamos ao hotel no final da tarde, e soubemos que logo ali algumas ondas quebravam. Naquele momento nada teria soado melhor.

Deixamos as coisas no carro mesmo e corremos os 200 metros que nos separavam da praia. Parem um segundo. Imaginem o seu pico predileto, há uns 40 ou 50 anos. Ruas de terra, terrenos vazios, animais pastando por todos os lados e o melhor, ninguém na água.

O que poderia ser melhor? Você e seus amigos, água quente e 1,5 metros de onda com terral! Confesso que a alegria daquela primeira tarde já havia feito à viagem valer a pena, e ainda fomos recebidos por um pôr-do-sol que se comparava facilmente a Kuta ou Gold Coast.

De noite, no hotel, não conseguíamos controlar nossa alegria e ansiedade para o dia seguinte. Acordamos bem cedo e fomos ver as ondas. Mas, erramos na dose e atolamos o carro na praia antes mesmo do dia raiar.

Eventos como este fizeram parte de toda a viagem, posso dizer que teve tanto rally quanto surf, tamanho o número de buracos em que nos metemos com o carro.

No mesmo dia, perguntamos no hotel sobre a onda de Popoyo e como era seu acesso. Segundo John, era só andar até o canto da praia, e lá estaria o pico.

Pegamos as pranchas e chegamos à grande formação de pedras existente no canto direito da praia de Santana. Encontramos meio metro de onda, ninguém na água, esquerda longa e fácil.

Achamos aquilo estranho, afinal Popoyo é a onda mais popular da região e geralmente quebra com mais tamanho que as outras ondas.

Não quisemos nem saber, caímos ali mesmo e surfamos por quase três horas seguidas. Quando saímos, já com a maré baixa, vimos que o fundo era forrado de pedras pontudas.

No mesmo dia descobrimos que ali não era Popoyo (esta a uns dois quilômetros adiante), e que ninguém surfava naquele canto devido às pedras rasas e perigosas.

Nomeamos o pico de Little Popoyo, e nos dias seguintes devido ao crowd em Popoyo sempre considerávamos surfar em Little Popoyo.

No dia que o mar subiu e as ondas estavam fechando um pouco em Popoyo, Little Popoyo fez a nossa cabeça. Ondas de até 1,5 metros quebravam bem rente às pedras e abriam por longos metros, sorte que a maré cheia garantia nossa segurança. E, de novo, ninguém por perto.

No decorrer da primeira semana, tentamos conhecer o máximo de lugares possíveis na região de Rivas e San Juan Del Sur. Acordávamos bem cedo e íamos atrás das ondas.

Fomos a Colorado, Chacocente, Lances, Popoyo, Rosada, entre outras. Agradecemos ao Chepe, nosso amigo local que nos ajudou como guia. Uma dica legal é conhecer algumas ondas que são acessíveis somente de barco, como Vera Cruz, são quase 40 minutos de Santana no sentido Norte.

A onda é realmente muito boa, fundo misto de areia e pedra para esquerda, nem preciso dizer, ninguém por perto. Neste dia, o terral estava tão forte que estava atrapalhando um pouco o posicionamento, mas mesmo assim o surf foi excelente.

Ao final dos nove primeiros dias, tínhamos que ir a Manágua levar um dos quatro integrantes que regressaria ao Brasil. Aproveitamos e fomos até Puerto Sandino, perto de Leon.

Se o surf tinha sido bom nos primeiros dias, o que encontramos ao Norte foi muito além do que esperávamos, mas essa história eu vou deixar para um outro momento.

Para conhecer mais sobre o trabalho de Leonardo Spencer, acesse o blog Around the World.

Michelle des Bouillons desceu uma onda de quase 25 metros em Nazaré e pode entrar para a história como a mulher que surfou a maior de todos os tempos. Em entrevista exclusiva ao Waves, ela conta como chegou até aqui.

De Bells Beach a Raglan, Brasil vive quatro etapas de domínio histórico: vitórias, finais, nota 10 e os quatro primeiros do ranking mundial com a mesma bandeira.

Maior onda já surfada por uma mulher no Brasil é registrada por Michaela Fregonese durante swell histórico em Jaguaruna (SC)

Doutor Guilherme Vieira Lima, explica como a estabilidade do core define a potência das manobras e protege o corpo de lesões crônicas.