Muitas águas

Surf é cultura

 

Ilha de Páscoa une altas ondas aos tesouros culturais das antigas civilizações. Foto: Aleko Stergiou.

Desde que me conheço por gente, era quase que unânime na visão da sociedade, que ser surfista era sinônimo de alienado ou vagabundo, maconheiro, etc. Seres marginalizados numa sociedade capitalista e consumista que sempre nos cobrou resultados.

Eu, mais uma centena e hoje milhares de felizardos, tivemos a benção divina de sermos apresentados a um dos estilos mais maravilhosos de vida que um ser humano pode ter nesta breve passagem pelo planeta Terra. O surf!

Sim. Ser surfista é algo que só quem já foi ou é praticante deste estilo de vida, sabe dizer ao certo o que é fazer parte deste universo de cores, movimentos, sons e as mais intensas sensações de contato com a criação. Deslizar sobre as ondas, fazendo uma dança sobre o mar, é algo que transcende nosso intelecto!

Depis de mais de 30 anos como surfista e mais de 25 como fotógrafo de surf, posso dizer que sou uma pessoa muito mais culta do que se não tivesse seguido esta estrada da vida. Exatamente isto, estrada da vida!

 

Enquanto muitas vezes ficamos sentados nas carteiras escolares “aprendendo” a decorar regras de matemática, como a tabuada ou datas e acontecimentos políticos, sociais e econômicos da história do Brasil, estudos detalhados sobre a geografia e clima dos países, ou mesmo a grafia correta da língua portuguesa, entre tantas outras matérias do currículo escolar, o surf pode nos levar a um universo extremamente rico, culturalmente falando.

Na minha primeira viagem internacional para surfar no Peru, onde creio que deve ter sido também o destino de outros tantos surfistas do Brasil, reservei alguns dias para ir com meu parceiro de viagem Roberto “Shot” para Machu Picchu.

Ficamos maravilhados com a cultura Inca! Fizemos parte da trilha Inca mata adentro, conhecendo mais profundamente as raízes de um povo milenar, as diferentes manifestações artísticas e científicas de uma civilização evoluidíssima. Conhecemos Cuzco, Ollantaytambo e Pisac no vale sagrado dos Incas, entre outros lugares. Foram dias de muita, muita cultura!

Depois fomos ao litoral surfar altas ondas e continuar a aprender. O que dizer das ruínas de Chan Chan, perto das maravilhosas esquerdas de Huanchaco, hoje momumento histórico da Unesco, ou dos Caballitos de Totora, possivelmente o real berço do surf, antes mesmo dos polinésios no Hawaii, ou mais ainda, das linhas de Nazca, ao caminho de uma das melhores direitas do Peru, Isla de San Gallan, dentro do parque nacional de Puerto Paracas.

 

Isto é apenas uma parte das centenas de informações que aprendemos no continuar de nossa viagem ao Peru, que teve passagem no Equador e por último em Galápagos, santuário da natureza mundial, lugar fundamental nas pesquisas de Charles Darwin.

Isto foi em 1984. De lá pra cá, coube a Deus mandar-me para tantos países e culturas diferentes, onde aprendi mais do que em qualquer banco de escola, e mais precioso ainda, ter feito tantos amigos, aprendido um pouco sobre línguas e costumes, sobre o movimento que é a vida propriamente dita!

Hoje o surf se profissionalizou como esporte, gerando carreiras promissoras dentro de um esporte, até então marginalizado e até influenciando a sociedade com um estilo de vida que remete à liberdade, usada em campanhas de grandes empresas nacionais e mundiais em suas estratégias de  marketing.

Sim, surf é cultura! Cultura aqui mesmo no nosso querido Brasil, desde os pampas gaúchos até as ondas da pororoca amazônica, ou no Peru, ou em qualquer outro país do mundo onde tenha uma onda quebrando, nem que seja numa onda de rio na Alemanha.

Para aqueles que não tinham ideia ou ainda não têm, o surf é uma grande escola da vida, na qual aprende-se e muito bem sobre matemática, matemática financeira, economia, administração, português, línguas estrangeiras, ciências, política, geografia, história, climatologia, ecologia, biologia, psicologia, marketing, etc.

Ser surfista é, e deve ser, sinônimo de cultura sim! Alienados, maconheiros, drogados, malandros, vagabundos, oportunistas, falsos e mentirosos existem em qualquer área da sociedade.

A escolha é pessoal e de responsabilidade única de cada um. Se ser surfista é ser um ou outro tipo de pessoa, depende de onde nosso livre arbítrio nos levar!

Conheci e conheço muitos surfistas cultos e educados. Agradeço a Deus por todo livramento e ter usado o surf como uma verdadeira escola de vida.

Viva o surf, viva a vida!

Surf é cultura…

 

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