Mega Tour

Só em sonho

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Teahupoo épico em 2014 e a coroação triunfal do maior talento da nova geração, Gabriel Medina. Foto: © WSL / Kirstin

 
        Quando o Dream Tour foi concebido, em 1999, durante a gestão de Wayne “Rabbit” Bartholomew à frente da ASP, hoje tornada em WSL, a premissa era ter “os melhores surfistas nas melhores ondas”. Desde então o Circuito Mundial passou por altos e baixos, com alguns anos memoráveis se aproximando do objetivo almejado, e outros nem tanto, nos quais uma combinação de fatores, da falta de ondulações durante os períodos de espera até a escolha duvidosa dos picos para os eventos, cooperou para que a materialização do sonho ficasse ainda mais distante.

        Se 2014 foi um ano marcante, com ondas de qualidade em boa parte das etapas, o “melhor evento da história” num Teahupoo épico e a coroação triunfal do maior talento da nova geração, Gabriel Medina, como campeão mundial durante uma final com tubos de sonho em Pipeline, 2015 até agora está devendo, e muito. Enquanto escrevo este texto, os Top 34 encaram as primeiras baterias do Billabong Pro Tahiti num Teahupoo torto e ventoso, que se não fosse pela obrigação eles não estariam nem surfando.

        De memorável mesmo até agora, dentro do conceito dos “melhores surfistas nas melhores ondas”, fica a performance de Owen Wright em Fiji, com as duas baterias nota 20 estabelecendo um novo recorde a ser batido. Filipe Toledo também teve uma performance de sonho, na etapa brasileira, mas em ondas com as quais ninguém sonha, muito menos sabendo a quantidade de coliformes fecais que elas carregam. Mas como o evento em Teahupoo está só no começo, resta ainda bastante tempo para que entrem os tubos perfeitos que todos almejam, surfistas, organizadores e espectadores. E como faltam ainda serem realizadas 4 etapas – em Trestles, Hossegor, Supertubos e Pipeline – com potencial de oferecer, senão campeonatos inteiros, ao menos momentos de sonho, nem tudo está perdido.

        É óbvio ululante afirmar que quanto melhores forem as ondas no decorrer de um campeonato, maior serão as chances de performances arrebatadoras, com muitas notas acima de 9 e a realização de um espetáculo capaz de atrair uma grande audiência. Foi justamente o que aconteceu na etapa de Teahupoo no ano passado, com picos de assistência online até então apenas sonhados. Mas qual a razão para que o Tour ainda tenha no seu calendário lugares como: Bell’s Beach, que por mais tradicional e emblemática que seja não passa de uma onda gorda; o Main Break de Margaret River, outro pico que deixa a desejar ao ser comparado aos seus vizinhos de muito mais qualidade na área de Margaret River, e ainda por cima é um reconhecido habitat de dentuços; o Postinho, na Barra da Tijuca, inconsistente ao extremo além de fedido; Hossegor e Supertubos, tão voláteis ao ponto de serem capazes de estar de gala num momento como de afundar as esperanças de título dos mais competentes surfistas poucos minutos depois? E, dizem os boatos, a WSL estaria considerando abandonar Fiji em troca de Huntington Beach, e sua multidão na praia, para 2016.

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Durante o Fiji Pro 2015, Owen Wright, em condições perfeitas, fez duas baterias nota 20, estabelecendo um novo recorde a ser batido. Foto: © WSL / Kirstin

 
        E mesmo nos picos realmente acima de qualquer questionamento, onde o fundo “fixo” garante que, no swell certo e vento ideal, o esperado será cumprido, como em Snapper’s, Fiji, Teahupoo, Trestles e Pipeline, podem ocorrer grandes desapontamentos, bastando para isso a não entrada da ondulação ou a insistência de uma ventania maral. Em suma, garantir, no atual formato, a segunda parte da equação que deveria reger o Dream Tour, referente às melhores ondas, é definitivamente impossível, e com isso a primeira parte, que é ter os melhores surfistas a bordo do Tour, fica comprometida. Presos a um calendário rígido, que de um lado impede que estejam nos melhores swells ao redor do planeta, e por outro os obriga a se afastar de casa, da família e amigos para surfar em condições muitas vezes insatisfatórias, alguns dos mais talentosos surfistas da atualidade acabam sonhando mesmo é com o dia em que poderão escapar do Circuito para sair de verdade em busca da onda perfeita.

        Dane Reynolds, Jamie O’Brien, Rob Machado, Bobby Martinez, Clay Marzo, Albee Layer, Shane Dorian, Bruno Santos, por exemplo, são todos excelentes surfistas, na minha opinião capazes de figurar em qualquer lista de melhores do mundo quando se estiver falando de performances em ondas de sonho. Mas a não ser ocasionalmente, como convidados, como foi o caso de Dane Reynolds em duas etapas este ano, ou quando conquistam uma vaga no evento principal, o que Bruninho acabou de fazer em Teahupoo, seus fãs não tem como vê-los competindo por um título mundial.

        Ao falar em sonho, os criadores do Dream Tour aludiam ao sentido da palavra que se refere à perseguição consciente, de “um ideal dominante que alguém ou um grupo busca com interesse ou paixão”. Mas outro dos significados que podem ser encontrados no dicionário é o do sonho sendo “um plano ou desejo absurdo; fantasia, utopia”. E é nesse tipo de devaneio que me pego muitas vezes quando estou assistindo baterias como as de hoje, e outras tantas que testemunhei ao longo deste ano no que eu classificaria sem vacilar de Circuito de Sonhos Meia Boca até agora. Fico imaginando como seria um Dream Tour que atendesse minhas preferências e desejos, não importando o quanto esses possam parecer absurdos aos olhos dos outros.

        E você, não tem o seu Dream Tour? Como seria? Em quais ondas, com quais surfistas, disputando que tipo de baterias? Deixe sua imaginação correr solta, não se prenda a orçamentos, imagine que a GoPro ou a Nike, ou melhor ainda, as duas empresas juntas, fecharam o patrocínio exclusivo do Circuito Mundial e destinaram uma verba nunca antes sequer sonhada para que a sua fantasia se torne realidade. Dá ou não dá para pensar em propostas que elevariam o surf de competição a um patamar de performance muitas vezes superior ao atual?

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Longe do Tour, o havaiano Clay Marzo diverte-se nas ondas de Nicarágua, na América Central. 

 
        Acredito que sim. E vou expor aqui algumas das minhas propostas, mas sem nenhuma intenção de que sejam melhores que as de ninguém. Trata-se de um simples exercício, de um tempestade cerebral, a famosa “brainstorm”. E aqueles que desejarem postar suas próprias visões para um Dream Tour, não se acanhem, façam o uso construtivo do fórum. Quem sabe se algum cartola do surf ou diretor de marketing de alguma marca poderosa não se inspira com as ideias surgidas de brincadeira e decida as levar a sério. 

1)      Para iniciar, eu transformaria o WCT na segunda divisão do Circuito Mundial, criando um Mega Tour para apontar o World Surfing Mega Champion. No primeiro ano do Mega Tour tomariam parte os 10 melhores classificados no WCT do ano anterior, mais 2 surfistas eleitos por votação dos fãs na internet, a partir de uma lista de 10 nomes apontada pelo Corpo de Juízes, que pode incluir surfistas que já estão no Tour ou não. A partir do segundo ano, os 4 primeiros colocados do Mega Tour permaneceriam para o próximo ano e os 8 últimos retornariam ao WCT, sendo substituídos no Mega Tour pelos 6 primeiros colocados do WCT e mais 2 votados pela internet a partir de uma lista atualizada pelo Corpo de Juízes. O WQS passaria a ser a terceira divisão do surf. Dessa maneira, com 3 divisões, mantidos o WCT e WQS, muito mais dinheiro seria distribuído e não seria necessário o tão temido corte do número de surfistas participantes do WCT, já tantas vezes cogitado, nem de etapas.

2)    Exclusivamente para o Mega Tour, seria apontado um Corpo de Juízes Internacional formado apenas de ex-campeões mundiais e lendas vivas do esporte, grandes surfistas como Gerry Lopez, Ben Aipa, Peter Townend, Wayne “Rabbit” Bartholomew, Shaun Tomson, Martin Potter, Ricardo Bocão, Picuruta Salazar etc. Para cada etapa, seis deles seriam convocados, e teriam como missão não a tarefa inglória de dar notas para cada onda surfada e sim a de emitir um parecer final, ao término de cada Mega Bateria, de quem foi o melhor surfista na água, o segundo, terceiro, quarto e assim por diante até o último colocado. A cada posição corresponderia uma pontuação a partir da qual seria formado um ranking acumulativo.

3)     Cada etapa do Mega Tour seria constituída de uma única Mega Bateria de 6 horas de duração, que teria seu horário de início determinado de acordo com a previsão do swell, vento e maré, para que acontecesse nas melhores condições possíveis do dia designado. Os surfistas teriam liberdade de ficar na água as seis horas totais ou o tempo que desejarem, podendo entrar e sair do mar para descansar, se alimentar, hidratar, trocar de prancha, observar ou descansar ao seu bel prazer. O critério de prioridade na disputa de ondas seria o mesmo utilizado em uma sessão de freesurf, onde quem rema mais, se coloca melhor, tem mais paciência e dropa mais pra dentro do pico, costuma levar vantagem ao pegar as melhores ondas. O Corpo de Juízes seria orientado a eliminar surfistas que interferissem intencionalmente em ondas de seus adversários, prejudicando suas performances e/ou os colocando em risco. Os eliminados não receberiam qualquer tipo de premiação. Todas as ondas surfadas durante as seis horas da Mega Bateria seriam filmadas do maior número de ângulos possível, da terra, mar e ar, sendo colocadas à disposição do Corpo de Juízes para consultas.

4)     Um time exclusivo de especialistas em previsão de ondas seria montado para monitorar permanentemente toda e qualquer atividade ondulacional ao redor do planeta com o objetivo de prever onde irão quebrar as melhores ondas a cada semana. Quando essa equipe emitir o alerta com uma semana de antecedência de que um Mega  Swell irá atingir em condições ideais de direção, vento e maré um dos 20 picos pré selecionados, os 12 surfistas, mais o Corpo de Juízes, seriam informados onde e quando ocorreria a próxima etapa. Um avião fretado seria colocado à disposição para o transporte dos competidores, juízes, organizador e mídia. Esse avião iria aguardar os competidores no aeroporto mais central possível, de onde partiria para o local da etapa. Quem desejasse poderia se dirigir ao local de competição diretamente e por meios próprios.

5)    As etapas só seriam realizadas em ondas acima de 6 pés e com ao menos uma seção verdadeiramente tubular, não havendo limite para tamanho máximo.

6)     Seriam realizadas somente 6 etapas ao ano, nos dias absolutamente mais perfeitos que se apresentarem. No corrente ano por exemplo já poderiam ter ocorrido algumas etapas que superariam tudo que se viu no WCT 2015 até o momento: em maio, no dia seguinte ao “Domingo Grande”, o maior Puerto Escondido da história, o famoso beach break mexicano, já um pouquinho mais calmo, produziu tubos de 8 a 12 pés irretocavelmente perfeitos; a sequência de swells que entraram entre maio e julho em Teahupoo, proporcionaram momentos inacreditáveis, como os protagonizados por Owen Wright no tubo mais profundo da sua vida no pico, e “a melhor onda já surfada na remada em Teahupoo”, segundo Kelly Slater, completada com incrível maestria por Nathan Florence; no final de junho, quebrou “o melhor Kandui de todos os tempos”, com extensos cilindros de até 10 pés, que fizeram a cabeça inclusive de alguns ex-integrantes do WCT, como Dean Morrison e Paulo Moura; Cloudbreak proporcionou boas ondas para a final do Fiji Pro, mas nada que se compare ao swell épico surfado lá no início de julho por Reef McIntosh, Makua Rothman, Danny Fuller e Dane Gudauskas. 

7)   A premiação total de cada etapa seria de 7 milhões de dólares, com 1 milhão para o primeiro colocado e 500 mil dólares para cada um dos outros competidores, independente da classificação. O surfista que surfasse a onda mais impressionante do evento receberia uma premiação extra de 500 mil reais.

8)   A organização teria recursos para, além do avião, dispor de um navio, que seria despachado para o local de cada etapa e serviria como base dotada de toda a infraestrutura necessária para a transmissão via internet e tv ao vivo do evento. No caso de problemas logísticos para acomodação dos competidores, juízes, mídia e organizadores em terra, a embarcação poderia ser utilizada também para essa função.

9)   Todas as localidades passiveis de se tornarem palco de uma etapa receberiam uma comitiva enviada pela organização do evento, que identificaria as necessidades prioritárias da comunidade para a melhoria das condições de vida de seus habitantes e seriam oferecidas propostas de parceria nesse sentido. Isso garantiria que a organização pudesse ter o local liberado para competição a qualquer momento do ano, com aviso prévio de apenas uma semana, com a comunidade local recebendo em troca os benefícios acordados, independente da ocorrência da competição ou não naquele ano.

10)   O Mega Campeão Mundial receberia um bônus de 2 milhões de dólares ao final do Mega Tour e seu shaper uma premiação de um milhão de dólares. Cada surfista só poderia usar pranchas de um mesmo shaper ao longo do ano. Os demais shapers também receberiam premiações no encerramento do Circuito, decrescendo de 600 mil para o segundo colocado até 100 mil para o 12º. 

      Será que “viajei” demais? Não importa, até porque foi essa mesmo a intenção, dar uma extrapolada em relação ao que existe hoje. E nada me impede de amanhã resonhar tudo de novo e terminar com uma concepção totalmente diferente, desde que mantidos alguns princípios que julgo fundamentais, como dar prioridade para que se possa garantir a qualidade das ondas, aprimorar/inovar os métodos de julgamento, aumentar a premiação de maneira significativa, dar a devida importância e reconhecimento aos shapers e remunerar de maneira sustentável as comunidades em que os evento são realizados.

        Mas sonhemos juntos mais um pouco. Imagine ter G-land, onde a ideia de um Circuito de Sonhos foi geminada nos anos de 1995, 96 e 97, com números recordes de notas 10, de volta ao Dream Tour, ou ver os 12 melhores do mundo entubando durante horas em Desert Point, quem sabe fazer a final do Circuito Mundial em P-Pass quebrando com 12 pés. Skeleton Bay, na Namíbia, Anchor Point, no Marrocos, Cabo Blanco, no Peru, Mataveri, na Ilha de Páscoa, Honolua Bay, em Maui, Lagundri Bay, em Nias, North Point, na Austrália… as possibilidades são muitas. Com o Mega Tour, ai sim teríamos os melhores surfistas do mundo nas melhores ondas do planeta.

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G-Land, Indonésia. Foto: Arquivo pessoal Marcelo Bueno

P.S. Acabei de assistir à vitória de Gabriel Medina sobre John John Florence, no Billabong Pro Tahiti. Foi sem dúvida emocionante, com os dois maiores nomes da nova geração dando tudo de si numa disputa pra lá de acirrada. Mas poderia ter sido muito melhor, de sonho mesmo, se houvesse uma maneria de garantir tubos de 8 a 10 pés baforando na temida bancada de Teahupoo.   

Foto de capa Alan Van Gysen

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