Em busca da prancha perfeita.
Exatamente o que aconteceu com dublê de shaper e big rider Fernando Lopes Ribeiro, o Sheena, em 21 de outubro de 2001, durante uma sessão de kite surf na praia de Mokuleia, no lado norte da ilha de Oahu, no Hawaii, ninguém nunca vai saber. O mais provável é que, velejando sozinho a uma boa distância da costa, ele tenha sido atingido na cabeça por sua própria prancha e desmaiado em virtude do forte impacto. Sem socorro imediato, a conseqüência foi seu afogamento.
A notícia da sua morte se espalhou rapidamente entre a comunidade do surf, a essa altura já muito abalada pelo falecimento, apenas dois dias antes, da campeã brasileira profissional de 1997 Deborah Farah. Mas independente dos detalhes de como se deu o fato irreversível, o que se sabe com certeza absoluta é que Sheena viveu seus 33 anos no planeta Terra de maneira plena, com uma intensidade impressionante. Como se de alguma maneira pressentisse que tinha muito o que fazer num tempo menor do que o reservado à maioria das pessoas.
Nesse sentido, é significativo que ele tenha dito para seu grande amigo Neco Padaratz, na última vez em que estiveram juntos, que sua nova paixão, o kite surf, era “mais radical do que surfar Pipeline. Dá até para morrer”. Ou que ao encerrar mais uma de suas visitas anuais ao Brasil, prestes a embarcar de volta para o Hawaii, onde residia desde 1988, tenha se despedido de sua mãe com um pedido no mínimo estranho para quem estava com a saúde perfeita e em excelente forma física: “Olha, mãe, comigo não acontece nada, mas se acontecer algum dia, você deixa tudo pro Havenga (o shaper catarinense Igor Lopes Gabilan), ele vai saber fazer meu trabalho”. Havenga acabou mesmo recebendo a plaina e outras ferramentas que seu guru lhe deixara, e sentenciou: “Pecado um cara daquele morrer, super inteligente, trabalhador, testava tudo exaustivamente, buscava a perfeição em tudo, queria fazer a prancha perfeita”.
E Sheena era mesmo obcecado pelo novo e pela experimentação. Dono de uma curiosidade e criatividade infinitas, ele as aplicava sem economia nas duas atividades pelas quais era fissurado, fazer pranchas e surfar ondas cascudas. Como shaper, havia prestado seus serviços para marcas de renome como a Hawaiian Blades, Blue Hawaii, Local Motion e HIC, antes de partir para uma carreira solo, onde produzia seus próprios designs – solicitados por surfistas do calibre de Carlos Burle, Eraldo Gueiros, Neco Padaratz, Fabio Gouveia e Binho Nunes – e lançou, em parceria com o professor da Universidade do Hawaii, Jim Richardson, a Surflight Hawaii, que propunha o uso de um material inovador, uma exclusiva espuma emborrachada, apostando na flexibilidade e absorção de impactos da mesma (numa triste ironia do destino, no dia de sua morte Sheena não estava usando sua prancha de kite emborrachada, o que teria possivelmente evitado sua morte).
Já nas ondas, ele havia trocado o Arpoador, no Rio de Janeiro, onde havia aprendido a surfar, pelo power do North Shore. Especialista em surfar o terceiro reef de Pipeline, só caía no temido pico quando o mar passava dos 8 pés. Com menos que isso preferia ficar de fora esperando os dias de Banzai, quando pegava sua 9 pés, se posicionava mais lá fora que todos e vinha só nas maiores, de braços pro alto em tubos de 12 pés. De Pipe passou para o tow in usando sua biquilha Surflight 6’6” para rabiscar os outer reefs. E depois veio o kite surf, sobre o qual comentaria: “Ando com mais velocidade do que em Pipeline e vôo metros de altura de cabeça pra baixo. Só que é perigoso pra caramba, pode quebrar uma braço, quebrar um tornozelo, o fio passar pelo pescoço”. Como disse seu “irmão e discípulo” Guga Arruda, em matéria póstuma publicada aqui mesmo nas páginas da FLUIR, “o que Sheena viveu em 30, ninguém vai viver em 80”.
