#Não é difícil esbarrar com o shaper Gustavo Kronig surfando no Rio de Janeiro. Como ele mesmo se define, Kronig é um shaper?surfista e não abre mão dessa condição. ?Para mim, a melhor forma de um shaper se atualizar é surfando?. E isso, o carioca Kronig, 43 anos de idade e shaper há 27, faz muito bem.
Reconhecido como um dos melhores shapers de prancha grande do Brasil, antigo parceiro do big rider pernambucano Carlos Burle, passa pelo menos dois meses por ano surfando as melhores ondas do mundo e costuma desfrutar da companhia de surfistas como o lendário havaiano Gerry Lopes, com quem recentemente fez uma surf trip a G-Land.
O começo do surfe na vida de Kronig tem a ver com o começo do esporte no Brasil. Em 70, o Colégio Brasileiro de Almeida , situado na zona sul carioca, reunia a maior quantidade de talentos da época.
#Além do próprio Gustavo Kronig, ali estudaram vários nomes que marcaram aquela geração: Rogério Broca, Paulo e Zeca Proença, Cacau, Bocão, Tico, Pêpê, Betão, Roberto Valério. Até o príncipe João Orleans e Bragança, herdeiro do trono real brasileiro, estudava no Brasileiro de Almeida.
Renan Pitanguy e Foca eram de outra escola, mas rapidamente se enturmaram na galera.
Com o surgimento do Pier em 72, a garagem do Pepê, que morava em frente ao pico, virou um depósito de pranchas da galera que começou a surfar sério. A partir daí, o esporte virou opção de vida para essa turma que lançou as bases do surfe moderno brasileiro.
Kronig, como é chamado pela galera (?Ganso?, para os íntimos), faz parte desta geração carioca. Ele conheceu o surfe como esporte de marginais. Quase um ato de rebeldia contra o sistema. Hoje, ele fala com a maturidade de quem apostou no crescimento do esporte e não se arrependeu.
?Naquela época, conseguimos um respaldo de patrocínio que hoje não vemos mais?, lembra Kronig. De fato, entre o final da década de 70 e início dos anos 80, empresas do porte da Rede Globo, Brahma e Antarctica, hoje Ambev, e Volkswagen patrocinavam surfistas e, em troca, usavam suas imagens na mídia.
#?Hoje, você vê o surfe sendo explorado comercialmente na mídia por grandes empresas, sem que elas demonstrem qualquer preocupação em desenvolver o esporte. Nem se preocupam em patrocinar um atleta?, ressalta Kronig.
?A responsabilidade de apoiar o esporte não pode recair unicamente ao fabricante de prancha, no final quem lucra menos?, admite.
?Essas empresas deveriam mostrar um comprometimento maior com o esporte, e não apenas usá-lo para vender seus produtos. Imagine se você soubesse que cada vez que compra um produto, estivesse ajudando uma escola de surfe para comunidades carentes, por exemplo?, reflete o shaper.
?Como se isso não bastasse, a mídia ainda gosta de colocar o surfista como um alienado, irresponsável. Isso só prejudica o esporte, pois um pai jamais vai apoiar o filho a entrar num esporte com esse tipo de imagem. Neste sentido, o pessoal do Casseta & Planeta atrapalha, e muito, a imagem do nosso esporte?, analisa Kronig.
?Na minha visão, o futebol pertence ao passado. Os esportes do futuro no Brasil serão o surfe, vôlei de praia e tênis. Aí, está o futuro?, prevê.
Para Kronig, os americanos e australianos dão ótimo exemplo em apoio ao surfe. ?Caras como o Rusty investem na marca sem deixar de investir no esporte. Há um comprometimento maior. Aqui, não posso deixar de citar o Alfio Lagnado (Hang Loose) como grande incentivador do surfe. Pena que hoje, no Rio, não tem ninguém como ele. Antes, havia o Roberto Valério?, explica.
Neste ponto Kronig é taxativo: ?Tem muita gente preocupada em ganhar dinheiro em cima do esporte, mas pouco preocupada em formar uma estrutura forte para o seu desenvolvimento?.
Referindo-se a exemplos do que acontece no Exterior, Kronig cita nomes de surfistas que se tornaram profissionais ligados ao crescimento do surfe, quando pararam de competir, como Peter Townend, Joey Buran, Wes Layne e, mais recentemente, Tom Carroll.
Visionário, Kronig acha que as escolinhas de surfe deveriam ensinar a história do esporte. ?Perderemos uma grande oportunidade se não formarmos uma cultura do surfe para as novas gerações. Os alunos deveriam aprender quem é, por exemplo, o shaper havaiano Dick Brewer. As turmas de alunos deveriam ter patronos, como é comum ver nas escolas de iatismo. Nosso surfe já ultrapassou os americanos há tempo, temos talento e garra suficiente para alcançarmos os australianos. Basta termos mais estrutura e comprometimento com as bases?.
Atualmente, Kronig conta com o patrocínio da Osken para suas viagens. ?Como já disse, é surfando que eu reciclo meu trabalho. Não adianta eu patrocinar 40 caras e não surfar. É testando minhas pranchas que eu mais aprimoro meus conhecimentos. Admiro muito o shaper e surfista australiano Terry Richardson, patrocinado pela Oxbow, de estilo de vida parecido com o meu?.
Quanto à idade, Kronig não tem dúvida: ?A idade faz o surfista ficar mais maduro e preparado, principalmente para o big surfe. Basta ver a idade média dos big riders, é tudo acima de 30?, atesta.
Ao final do nosso papo, Kronig confessa que não ficou materialmente rico com o surfe, mas adquiriu riqueza espiritual de valor inestimável. ?Como dizem lá fora, shapear para mim é um ?labor of love? (trabalho de amor).
Para trocar uma idéia com Gustavo Kronig, envie mensagem para [email protected]