Palanque móvel

Senhor das notas

Árbitros observam atentamente para não vacilar na hora dos julgamentos. Foto: Arquivo pessoal Gustavo Oliveira.

O surfista deve surfar com radicalidade e controle nas manobras na sessão mais crítica da onda, sempre com velocidade, força e fluidez para maximizar uma potencial nota.

 

Manobras modernas e progressivas, assim como um variado repertório será considerado na avaliação de cada onda. O surfista que executar com máximo grau de dificuldade e comprometimento, será recompensado com a nota mais alta.

 

Essas são as diretrizes que regem e orientam os árbitros durante as competições da ASP. Para que isto não seja esquecido, fica escrito na planilha de julgamento usada durante toda a competição, assim como as variações da escala de julgamento.

 

É importante deixar claro que, mesmo o árbitro mais experiente, recorre com freqüência a estes recursos, principalmente quando uma determinada onda entra em comparação imediata com outra, gerando discussão na cabine de julgamento.

 

Quando digo que o julgamento no surf trabalha arduamente para eliminar a subjetividade da análise dos árbitros, não quero dizer que não haja divergência entre os mesmos durante uma competição. Isto é freqüente, e acreditem, na grande maioria das vezes é o que impulsiona o julgamento a ser muito menos subjetivo.

 

Quando uma onda surfada gera análises divergentes por parte dos juizes, imediatamente abre-se um debate, rápido e objetivo, na intenção de equalizar as opiniões dentro de um senso comum.

 

O intermediador desse debate é o head-judge (juiz chefe), que age sobre as opiniões na tentativa de aproximar as análises de cada árbitro a uma nota justa para a determinada performance. Mas nunca faz valer que a sua avaliação particular seja a que prevalecerá na hora de digitar a nota.

 

Para um árbitro, o mais importante durante toda a competição é conseguir manter arquivado na memória as notas que servem como base de comparação para as fases seguintes, mesmo que a onda foi surfada no primeiro dia.

 

Por exemplo, primeiro dia de competição com 1 metro de onda perfeito, condições impecáveis para um excelente espetáculo, segunda bateria do dia, e pimba, uma excelente onda é surfada, gerando uma avaliação comum de uma nota dentro da escala excelente, 9.00 pontos.

 

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Head-judge dá a palavra final quando ocorrem divergências nos julgamentos. Foto: Arquivo pessoal Gustavo Oliveira.

Durante a competição muitas outras ondas são surfadas, e sempre esse 9.00 será lembrado como base de comparação. ?Quão excelente é essa onda agora, mais ou menos do aquele 9.00 que vimos no primeiro dia??, pergunta o head-judge.

 

Chegamos à final do campeonato, infelizmente aquele surfista que arrebentou na segunda bateria do primeiro dia ficou no meio do caminho. Além disso, as condições mudaram drasticamente, fazendo com que os juízes adaptem os critérios de análise a uma nova realidade dentro da mesma competição.

 

Agora na final, as condições são muito distantes do que estavam no primeiro dia, as ondas estão com mais de 2 metros, com muita correnteza e o line-up completamente distorcido pelo vento.

 

É óbvio que será praticamente impossível assistir performances idênticas ao 9.00 do primeiro dia, com uma média de cinco a seis manobras na onda com uma qualidade visual impressionante.

 

Com certeza nesta fase e com essas condições, o que será mais apreciado será a competência dos atletas em conseguir aplicar um surf preciso, dentro de uma linha fluída, determinando claramente sua intenção na onda, mesmo que aplicando duas ou três manobras somente. Mas deixando evidente o trabalho de base e lip, que mostra aos juízes um comprometimento com os critérios de competição.

 

Volto a um ponto que já expus anteriormente, não adianta despejar um arsenal de manobras repetidas numa mesma onda, isso é simplesmente um tédio para quem está julgando.

 

Por mais que você seja compelido a encaixar essa onda dentro de uma escala de bom surf, mas na hora em que um oponente dentro da mesma bateria surfar com mais criatividade e inovação no repertório, essa nota anterior vai ficar atolada dentro da escala, e com certeza impulsionar a outra para um excelente score.

 

Voltando ao nosso exemplo, para a surpresa de muitos, nas piores condições de mar durante toda a competição, a maior nota do campeonato é digitada, 9.80 pontos para uma onda com apenas três manobras.

 

?Que é isso, tá maluco??, grita um desavisado virando-se para o palanque, ?como uma onda dessas pode receber um 9.80??. Na realidade, o 9.80 foi uma media, na qual três juízes digitaram 10 e outros dois avaliaram como 9.50 pontos.

 

Mais importante, e que provavelmente o fanático desavisado não sabe, é que para todos os cinco juízes, aquela onda foi superior ao 9.00 do primeiro dia. Quem deu 9.50 na média anterior, agora foi ?obrigado? a dar uma nota superior. Afinal, não existem performances idênticas, sempre se faz uma comparação entre cada uma.

 

Esse árbitro poderia dar 9.80 ao invés de 10? Claro que sim, mas vamos ser justos, um atleta que merece uma nota acima de 9.50 num mar em fúria, onde a maioria que crítica está na areia sentado, em minha opinião é nota 10.

 

É simples, e está no dicionário. Julgar: ato ou efeito de apreciar.

 

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