Soul Surf

Roubada no Guarujá

A praia de Pitangueiras traz muitas recordações para Sidão Tenucci. Foto: Aleko Stergiou.

O Guarujá foi e sempre será o meu paraíso. Como aquela mulher que já não tem mais 18 anos, mas ainda tem o mesmo cheiro, a mesma sensualidade. Mesmo hoje, com a poluição das praias e com a segurança comprometida pela histórica discrepância social, o Guarujá ainda é um lugar especial.

 

Em 1975, a rodovia Piaçagüera, que liga o continente à ilha, não existia. A balsa era um teste de paciência aos freqüentadores. A fila podia demorar horas e chegar até o aquário de Santos. Mas, quando chegávamos ao “Guaru”, a cidade era nossa. Todos se conheciam e caminhavam – seguros – pela areia, até a madrugada.

 

No verão, a molecada chegava em 1 de dezembro e ia embora em 1 de março. A galera, literalmente, se mudava para a ilha. Nessa época, é provável que o número de surfistas no país inteiro não chegasse a 200.

 

Não havia surfe no Nordeste nem no Sul. Dá para imaginar? Somente Rio, São Paulo e Santos tinham feito contato com o milenar esporte dos reis havaianos. Além dos filhos dos zeladores dos prédios, era a moçada de Sampa que ia o ano inteiro curtir o esporte.

 

Figuras como Thyola, Brito, Egas, Ad, Carlicha Motta, Teixeira, Dragão, Zezinho, Serjão, Magoo, Mané e Lucha eram tão íntimos do lugar quanto as cracas das pedras dos costões.

 

Sem filmes, revistas ou escolinhas de surfe, todos tinham de aprender a surfar na orelhada, na tentativa, num incansável vaivém de erros eacertos, no caldo, no mico.

 

Histórias? Trocentas! A primeira que me vem à cabeça aconteceu num fim de tarde de ressaca forte, no verão de 1975.

 

Ninguém na água. Do lado esquerdo da ilha, na praia das Pitangueiras, rolava um surfe grande, mas possível.

 

Entramos na água. Eu e o meu amigo Roberto Teixeira, que desde então virou meu irmão e companheiro de viagens por cantos remotos do planeta.

 

O canal estava bem mexido com a turbulência e a violência da ondulação. Conseguimos varar depois de várias tentativas. Surfamos algumas horas sem problemas, a não ser pelos caldos de praxe. Mas engolir água salgada e ter as narinas e os seios nasais lavados pelo impacto das ondas já era rotina.

 

Peguei uma onda para a esquerda, para dentro do canal. Acelerando na parede de água turva e espumada, tentei uma batida mais ousada.

 

Foi quando a onda fechou e me jogou para o alto, ainda em águas profundas. Ao cair, senti a cordinha que me prendia à prancha me arrastar por alguns metros, e, em seguida, dar um estalo. Havia se rompido.

 

Comecei a ser embrulhado e desossado, com força, para cima e para baixo, como se estivesse dentro de uma máquina de lavar roupas. Depois do caldo, a barriga da perna se contraiu e endureceu. A câimbra
não estava no programa, mas se instalou sem dó. Afundei com a dor.

 

Puxei a perna até a barriga para distender os músculos e liberar a contração, mas não adiantou. Ao contrário, a barriga da perna direita também foi dominada por uma câimbra. Aí não deu jeito: afundei como um prego no meio da espumeira que convergia da ilha para o mar aberto.

 

Por sorte, o meu cabelo batia no ombro naquela época. Ele subiu para a superfície antes de mim, como se quisesse respirar o ar que eu mesmo não conseguia. Devia estar aparecendo lá em cima, flutuando como uma água-viva de cabeça para baixo, entre um caldo e outro.

 

Quando eu começava a apagar, senti um puxão para cima que quase arrancou a raiz dos meus cabelos. O Teixeira tinha visto a situação e remara ao meu encontro. Ele visualizou o meu periscópio capilar subindo e descendo entre as ondas.

 

Não teve dúvidas: me puxou pela crina e, devagar, me trouxe ao ar. Já tinha engolido uma bela quantidade da urina de Netuno e foi com satisfação que entrei novamente em contato com o oxigênio.

 

Fomos sendo arrastados pela prancha dele para a praia, enquanto nós dois ajudávamos como podíamos, remando com as forças que nos restavam.

 

É, meu companheiro… Se não fosse por você, essa não seria mais uma história engraçada do Guarujá, mas a minha última aventura, certamente contada por terceiros.

Michelle des Bouillons desceu uma onda de quase 25 metros em Nazaré e pode entrar para a história como a mulher que surfou a maior de todos os tempos. Em entrevista exclusiva ao Waves, ela conta como chegou até aqui.

De Bells Beach a Raglan, Brasil vive quatro etapas de domínio histórico: vitórias, finais, nota 10 e os quatro primeiros do ranking mundial com a mesma bandeira.

Mais de cinquenta anos de câmera na mão: do Píer de Ipanema a Pipeline com Gerry Lopez, de Bob Marley no Havaí aos Rolling Stones no Maracanã. Fernando “Fedoca” Lima viveu e fotografou tudo isso. Agora reúne tudo em um livro.

Maior onda já surfada por uma mulher no Brasil é registrada por Michaela Fregonese durante swell histórico em Jaguaruna (SC)