Terremoto no Chile

Ronaldinho vive pesadelo

Algum tempo depois do terremoto e do tsunami no Chile, muitas pessoas ainda não conseguem se esquecer do desastre que arrasou boa parte do litoral.


Quem vive no Chile é acostumado aos constantes terremotos que estremecem o país, mas os brasileiros não têm familiaridade com estes fenômenos da natureza.

 

O surfista profissional Ronaldinho Silveira, local da praia da Joaquina, Florianópolis (SC), viveu intensamente estes momentos, enquanto treinava e testava suas pranchas na região de Pichilemu. 

 

São e salvo, no aconchego de sua casa em Floripa, ele fala mais sobre a experiência que viveu no terremoto e do tempo que passou no Chile.

Como surgiu esta trip?

 

Eu sempre procuro fazer ao menos uma viagem por ano. Em setembro de 2009, ganhei um campeonato Pro / Am em Imbituba (SC) que me rendeu alguns trocados.

 

Pensei em guardar para fazer minha trip e, junto aos meus patrocinadores, consegui o resto que me faltava. Marquei a passagem para 13 de janeiro e a volta para 28 de fevereiro.

 

Como estavam as ondas no período antes do terremoto?

 

Foram tantos dias de ondas boas que até a última semana antes do terremoto não tinha visto um mar de meio metro. Teve um dia que estava muito clássico, um secret que onde o acesso é muito difícil, uma forte caminhada até o pico, para poucos.

 

Olhamos de cima e ficamos loucos. Este dia nos acabamos, surfamos até o anoitecer, final de tarde com a maré seca. Não tinha outro caminho a não ser por dentro dos tubos cristalinos e largos. Todas as pessoas que estavam na água eu vi entubando.

 

Você tinha em mente que naquela região do Chile pudesse acontecer o que aconteceu? Os moradores do local estavam preparados?

 

No fundo eu sabia, mas não esperava. No Sul do Chile, na zona do mar, há placas indicando para onde correr em caso de tsunami. Quanto aos moradores, acredito que foi surpresa para todos, pois a guarda municipal não tinha adiantado nada, nenhum aviso. Foi surpresa, e que surpresa.

 

Foi tudo muito rápido e sem nenhum aviso prévio. Vai demorar muito tempo para todos voltarem a tocar suas vidas normalmente, pois o estrago foi grande. Mas o Chile é um país muito bem estruturado e acredito que seus governantes agirão para retornar a vida da população ao normal.

 

Como foi o exato momento do tremor?

 

Era minha última noite em Pichilemu. No dia seguinte pegaria meu voo para o Brasil. Na pousada havia só eu de estrangeiro, pois era o último final de semana de verão.

 

Estava com dois amigos na trip e um deles foi embora duas semanas antes, o outro há uma semana. Como tenho amizade com alguns locais de lá, fomos a uma discoteca em frente ao mar, a 300 metros da pousada. Era minha última noite e queria aproveitar com meus amigos locais.

 

Umas 3 da manhã resolvi ir embora, pois estava cansado. Cheguei na pousada e não encontrava a chave do quarto que tinha escondido. Por sorte, meu amigo chegou logo em seguida. Foi o tempo de ele abrir a porta do quarto quando, de repente, começou a tremer fraco. Ele falou para eu ter calma que aquilo iria passar.

 

Foi só ele terminar de falar e veio a pancada. Meu Deus, era uma sensação de que a morte viria em poucos momentos, pois foi muito intenso. Segundo os estudiosos, foram 2 minutos tremendo em uma escala de 8.4 graus Richter. Vi estrelas.

 

A pousada parecia uma mola, se mexia muito e o barulho era assustador. Parecia que o mundo ia acabar. Quando passou, fomos todos para a rua, em frente ao mar.

 

E o tsunami, você chegou a ver a onda?

 

Isso tudo aconteceu em uma linda noite de lua cheia. Depois de uns 20 minutos apareceu um grupo da praia correndo e gritando: “tsunami, tsunami”. Eu não podia acreditar. Quando olhei para o mar não dava mais tempo de nada, pois ali em frente à rua estava um monstro branco. Com a lua cheia pude presenciar uma das cenas mais assustadoras.

 

Nossa sorte é que estávamos em uma parte alta, protegida por um cliff que costeia a praia. O tsunami se encontrou com este cliff e explodiu muito alto a uns 300 metros. Por sorte ela recuou. A onda tinha mais ou menos uns 15 metros, porque quando olhei ela tava maior que o cliff que tem uns 10.

 

Depois não vi mais nada, a cidade toda foi para as montanhas, que ficam a uns 2 km de onde estávamos e ficamos lá por umas 4 horas.

 

Passado o desastre, como ficou a região em que você estava?

 

Quando voltei das montanhas olhei para uma parte da cidade que fica ao nível do mar e não acreditei no que vi. As casas estavam no mar, cerca de 15 barcos pesqueiros destruídos e espalhados por diversas partes, muitos destroços. 

 

Ficamos sem água, sem luz e as pessoas saqueando o que podiam nos supermercados. Ficou um clima muito pesado, uma energia muito forte causada pelo fenômeno. Peguei meus documentos, fiz uma mala de comida e fui para as montanhas, pois sabia que se viesse outra onda não teria uma segunda chance.

 

Chegou a ver se as ondas da região foram afetadas?

 

Pelo que vi a onda em frente a pousada foi muito afetada. Era muito perfeita e muito fácil de surfar, um point break, que virou um beach break.

 

Inacreditável, e dizer que surfei meu último dia ali, antes de tudo, com 1 metro e mais de dez manobras. Observei ondas espalhadas por toda a praia sem bancada, mais uma vez senti a força da natureza como se fosse um aviso.

 

Agora, de volta a Floripa, o que mudou em sua vida com a experiência que você viveu?

 

Não muda muita coisa, só estou tentando me estruturar, pois deixei algumas coisas para trás como as minhas pranchas. O meu psicológico foi muito afetado e ainda sinto aquela energia, sonho com o barulho, mas isso tudo é tranquilo, tenho saúde e tudo voltará ao normal. Perto do que o povo de lá está passando não é nada.

 

Quais são seus planos para 2010.

 

Em 2010 vou me estruturar para dar continuidade ao meu trabalho. Estou competindo como Profissional desde 2009 e este ano participo do Brasil Tour, Catarinense Pro e vou fortalecer minha parceria com meus patrocinadores, para que eles possam me ajudar a conquistar meus objetivos.

 

Fique à vontade para deixar uma mensagem final.

 

Quero agradecer todos que mandaram pensamentos positivos e me ajudaram a sair de lá. Minha mãe, que ficou muito preocupada, pois ficamos dois dias sem comunicação. Minha namorada, que me ajudou muito, e principalmente a Deus, que deu outra oportunidade não só para mim, mas para todos chilenos que sobreviveram.

 

Também gostaria de deixar um recado para todos: não se esqueçam da mãe natureza, pois sem ela não seríamos nada. Sei que há pessoas que não estão nem aí, mas acho melhor nos preocuparmos, pois esses acontecimentos estão espalhados por todo o mundo. Por isso protejam a natureza. Força Chile.

 

Daniel Tinelli é fotógrafo. Para obter mais informações sobre seu trabalho, envie mensagem para [email protected] ou acesse o blog Daniel Tinelli Fotografia.

 

Michelle des Bouillons desceu uma onda de quase 25 metros em Nazaré e pode entrar para a história como a mulher que surfou a maior de todos os tempos. Em entrevista exclusiva ao Waves, ela conta como chegou até aqui.

De Bells Beach a Raglan, Brasil vive quatro etapas de domínio histórico: vitórias, finais, nota 10 e os quatro primeiros do ranking mundial com a mesma bandeira.

Maior onda já surfada por uma mulher no Brasil é registrada por Michaela Fregonese durante swell histórico em Jaguaruna (SC)

Doutor Guilherme Vieira Lima, explica como a estabilidade do core define a potência das manobras e protege o corpo de lesões crônicas.