O surf é para mim um amor impossível. A relação, extremamente passional, é instável e frequentemente interrompida pelo destino.
Desde nossa primeira vez, passamos por fases intensas e vibrantes, em que rolava pelo menos “umazinha” todos os dias. Mas há também outras épocas, em que a distância dificulta as coisas, nos levando a uma cruel abstinência, como a que vivo agora. São os ossos do ofício.
Acontece que às vezes os ossos vêm em forma de marfim e quando menos se espera você está dentro de um avião, voando para a África do Sul, com a agenda divida em duas etapas: uma semana para trabalhar e outra para reencontrar o surf. Percebo do meu lado olhos cobiçando a FLUIR que trago nas mãos durante a viagem.
O moleque de 7 anos, nascido na Espanha e naturalizado americano, se encanta pelas figuras da revista. “Vou virar brasileiro”, me informa ele em bom português sobre a nova mudança de domicílio. Pergunta se pode ficar com ela.
“Moleque malandro, já é brasileiro”, penso. Invento uma desculpa para não dar a revista que tinha acabado de tirar do plástico. Assim como eu quando tinha a idade dele, ficou enfeitiçado por aquelas fotos e quem sabe também se apaixone.
Com o trabalho encerrado, depois de uma semana entre Joanesburgo, Pretória e Port Elizabeth, desço no aeroporto de Durban. Alugo um carro e na direção da cidade checo toda entrada para a praia. Logo na primeira parada, caio num estacionamento de frente para o mar.
Apesar da dificuldade da mão invertida, é tudo muito organizado, sinalizado e limpo. O sol está brilhando, o mar está liso e as ondas tubulares, com quase dois metros de face.
Ninguém na água! Pergunto para dois caras que estão “morgando”, se ali é um surf point e por que não tem ninguém surfando. “Shóky”, respondem com o estranho sotaque do inglês sul-africano. Vejo mais uma esquerda quebrar perfeita, soltando baforadas à la Pipeline.
Até onde eu sabia, Durban (e arredores) não tinha problemas com tubarões. Preferi não arriscar e fazer minha primeira queda perto dos píeres da cidade, onde as redes garantem 100% de segurança.
Mesmo de cabeça feita continuei pensando naquela onda. Arrumei uma pousada próxima e logo cedo estava no mesmo lugar. As ondas não estavam mais tão boas e acabei encontrando outro pico, muito perto dali, onde havia alguns surfistas na água. Se houvesse um ataque, a chance de ser comigo era bem menor.
Dividindo as ondas com um guri sul-africano pergunto sobre os tubarões. Ele responde que eles estão lá, mas não são um problema. O último ataque registrado foi em 2002. Conto que sou do Brasil e ele pergunta se eu vim para a competição. “Será que ele viu aquela batida de back side que acertei?”, brinco comigo mesmo.
A competição era nada menos que o Pro Ballito, evento Prime do WQS, com direito a Jordy Smith, em seu melhor momento, brigando por título em casa. Ballito é especialmente gentil com os brasileiros, que o digam Peterson Rosa, Beto Fernandes, Neco Padaratz e Jihad Khodr, vencedores em outras edições. Empolgado pela vitória da nossa seleção sobre a Espanha, na final da Copa das Confederações, vou assistir nossa outra seleção.
Com alguns desfalques, é verdade, ali está a seleção brasileira de surf. É a maior delegação da competição, com 21 inscritos. Amarro uma bandeira do Brasil num poste e começo minha torcida solitária.
Vejo Alejo Muniz vencer com folga uma bateria do primeiro round. Bernardo Pigmeu, que depois soube se tratar da mesma pessoa que Bernardo Miranda, passa por mim. Largo um “Vai Brasil”, para manifestar minha presença. Ele volta e me cumprimenta.
Digo que vim trazer boas vibrações e peço que avise os outros que estou na torcida. Alguns minutos depois, estou assistindo às baterias com a raça toda, direto do palanque.
Vai Brasil! Vejo performances iradas de Filipe Toledo e Davi do Carmo e, apesar de não levarmos o caneco desta vez, especialmente para mim, foi uma grande vitória. Mais que isso, entre tantas idas e vindas, mais um encontro com o surf.
Davi Etelvino é catarinense, jornalista e apaixonado por surfe.











