Soul Surf

Peru Roots – Parte II

Hóspedes do luxuoso hotel de El Hombre (da esq. para a dir.): João Príncipe, Luís Mello, Roberto Teixeira, californiano Rick, Marcelo Fló, Sérgio Sachs, Marché Villardi (atrás, na sombra, de cabeça abaixada), Sidão Tenucci e Antonio Brito (também atrás, na penumbra). Foto: Carlos Motta.

II – A Moçada

 

A moçada da barca para Chicama, neste ano sagrado de 1972, se constituía de dez elementos, com idades entre 17 e 22 anos.

 

Eram eles: Roberto Teixeira (big rider, médico, futuro pró-reitor da Unicamp, pai de Elisa e Julia, irmão de fé e que cometeu o erro, segundo alguns, de salvar a minha vida em uma ressaca no Guarujá alguns anos depois).

 

AD (El Coyote que, posteriormente, abandonou uma possível e promissora carreira de empresário, depois de se formar na Fundação Getúlio Vargas, para iniciar a sua longa carreira de aventureiro do surf pelos sete mares).

 

Sérgio Sachs (na época, lutador de kung-fu e comediante natural. Pai do também surfista Daniel. Seguiu carreira como empresário de uma das maiores indústrias de autopeças do país); Luís Mello (talento do surf. Médico. Entre outras peripécias, em um futuro longínquo, foi diretor do famoso Manicômio do Juquerí, que comportava 3 mil alegados doentes mentais).

 

Carlos Motta (hoje, artista e moveleiro renomado mundialmente, pai de Diego, Gregório, Max e Layla. Figura emblemática da nossa turma. Fotografou esta barca com classe); Magoo Fló (Irmão. Pai de Marta. Possui dons insuspeitos para o artesanato e para a culinária. Seguiu o Direito, especializado em sarcasmos, uma das mentes mais incisivas que conheço).

 

Marcelo Villardi (empresário, fazendeiro, pai de Alessandra, Ricardo e Renato. Formou uma das mais belas famílias dentro da comunidade do surf, o tipo de cara a quem você pode confiar sua prancha predileta);

 

Antonio Brito (músico, shaper, pai do fotógrafo de surf Kalani Brito. Compadre de saraus de música. Brito também construiu uma extensa carreira de surfista nômade por todo o planeta);

 

Thyola (artista plástico, glasser, um dos primeiros fabricantes de pranchas de surf no Brasil. Faz um meka na brasa como ninguém. Surfa no Morro do Maluf há pelo menos 43 anos. Iniciou sua vida pelos poliuretanos com a marca “Moby”) e eu. Privilégio. Sorte. Sei lá.

 

A iniciativa, o impulso, foi fundamental para estarmos nesta situação “chuchu-beleza”, como se dizia na época. Expressão que nos recusávamos a compactuar. Para rolar a viagem a inocência foi um fator preponderante. A pilha mútua idem. Além da suave noção de que iria ser especial.

 

Devo acrescentar a inesperada visita do nosso amigo João Príncipe na barca de Chicama. João de Orléans e Bragança, fotógrafo e um dos herdeiros da coroa brasileira, que estava, na época, iniciando a sua formação como homem e como aventureiro.

 

Foi a primeira viagem internacional desta turma. Pelo currículo posterior se nota que influenciou, de fato, a opção de carreira, de futuro, da maioria. A magia inexplicável contida naqueles momentos foi decisiva para a formatação das jovens psiques, direcionando, inclusive, a vocação de vida de muitos dos filhos.

 

Atualmente, Magoo diz que não conseguimos mais manter aquela magia, que ela não se sustentou. Em parte. Em minha opinião, ela está, em maior ou menor grau, dentro de nós para sempre. Depois da viagem, nós sobrevivemos ao sonho e ele aparentemente ficou para trás. É como se o sonho habitasse Chicama, fosse propriedade inalienável das areias do deserto e das ondas infinitas e, ao deixarmos o lugar, não conseguimos levá-lo conosco.

 

Na época tínhamos a intuição de que passar por essa vida sem surfar os horizontes possíveis seria uma lastimável perda de tempo.

 

Era o nosso début no mundo. No melhor estilo on the road. Flanando pela Terra como tem que ser. Nossa virgindade geográfica foi removida com estilo. Os companheiros de viagem dentro do ônibus da Milagro eram os porcos, as galinhas, os índios peruanos descendentes da gloriosa civilização Inca, as garrafas de Inca-Cola – provavelmente o pior refrigerante já concebido, com seu enjoativo, super-doce gosto de bala derretida -, e muita poeira.

 

Para nós, as histórias estavam sendo formadas frescas, virtualmente recentes, em memórias que praticamente ainda não existiam. O deserto tinha um estranho odor que lembrava urina. O calor balançava nossas percepções, os ventos balançavam a viatura da Milagro. Temíamos por nossas pranchas no bagageiro. A impressão que dava é que, a qualquer momento, elas iriam fazer parte da paisagem, flutuando em direção ao horizonte como folhas de resina.

 

(continua)

Sidão Tenucci é formado em jornalismo pela Escola de Comunicação e Artes da USP (Universidade de São Paulo) e com pós-graduação em letras. É surfista há 42 anos. Viajou 50 países na caça por ondas e pelas diversas visões de mundo. É diretor de marketing da OP (Ocean Pacific). Autor dos livro Almaquatica (Fnac), em parceria com o fotógrafo Klaus Mitteldorf e o designer gráfico David Carson, e da narrativa de aventuras de viagens O Surfista Peregrino. Valoriza a amizade como um dos melhores atributos desta existência.


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