Acertadamente, a Indonésia é um palco perfeito para um campeonato de surf. Fica na região onde mais quebram ondas no globo, é onde muitas fábricas tem encontrado mão de obra barata para a produção de parte de suas coleções de surfwear, tem fácil acesso para australianos e muitos turistas de diversas partes do mundo.
Só que a onda de Keremas é uma direita tão perfeita que ficou meio como uma piscina de onda, um pouco previsível demais, um pouco entediante para assistir.
Chegou um momento do campeonato em que as frações nas notas ditaram os rumos dos atletas. Uma onda limpa da série, um milionésimo a mais dentro do tubo, um cutback um pouco mais redondo e com pressão ao sair do tal tubo, uma terceira manobra final na junção sem errar, qual era a equação perfeita?
Não sei. Só sei que a maioria foi lá e resolveu esse problema. Problema maior ficou na mão dos juízes para mensurar o nível de detalhamento para fulano ou beltrano se sobrepor numa onda tão perfeita.
Fiquei com a impressão de estar assistindo uma apresentação de ginástica artística, em que um errinho imperceptível faria décimos das notas serem cruciais. Um balé, um “tic-tac espanhol”, em que o tubo, o cutback e a terceira manobra para sacramentar eram o enredo supremo. E era mesmo.
Keramas não é uma besta quadrada como Teahupoo. Não é uma locomotiva sem freio como Cloudbreak. Não é a loteria do beach break carioca. É “somente” uma onda mellow, high performance e perfeita para exibições perfeitas.
É nessas horas que o surf por surf faz a diferença em 95% da bateria. Quem sabe mais surfa melhor, quem perdeu surfou pior. Tão lógico que por essas e outras que às vezes perde a graça de assistir.
Foi aí que Parko criou seu parquinho de diversões, onde o regular footer mais estiloso do tour mostrou toda a graça de suas coreografias, ensaiadas ou não, para fazer a diferença.
Antes de mais nada, muito tem se falado em John John Florence e creio que o moleque não deixa dúvida quando o assunto é “quem veio para ficar”. Só que sob meu ponto de vista ele ainda não tem um estilo próprio.
Encanta, mas não espanta, mesmo com algumas apresentações bem acima da média. É capaz de ainda levar alguma etapa este ano. Mas parece não ter se esforçado de verdade para tanto.
Vejo-o como uma maquininha lapidada em anos colhendo tudo o que de melhor seus mestres foram mostrando. Quieto, um pouco passivo, um tanto desencanado, ao mesmo tempo competitivo, ainda não sabe se veio a Dane ou a Kelly. Mas é fato que carrega todo o talento para ser o melhor dos melhores muito em breve.
Agora, quem fez o que esperávamos dos brasileiros foi o jovem Nat, o Young, o goofy footer que entubou fundo e espancou de backside como Miguel e Medina deixaram muito a desejar nessa etapa. Parece que o cabecinha loira fez a lição de casa e me fez crer que era sim, bastante possível desbancar muita gente boa nas direitas de Keramas surfando de costas para a onda.
E, tirando Mineiro, o único que vem conseguindo se manter numa regularidade de ponta, a moçada anda escorregando nas fases iniciais.
Adriano, na realidade, esteve bem longe de ser brilhante nesse campeonato. A maioria de suas médias foram bem baixas se comparadas às demais baterias. Esse nono lugar foi leite de pedra. Pontos preciosos perto do que realmente mostrou dentro da água. Tirando a nota 9.27 na bateria em que perdeu contra Nat, o jovem, Young, não mostrou nada de espetacular não.
Esperava-se mais de uns no Brasil, esperava-se mais de Medina em Fiji e concordo com algumas críticas de que ele surfou displiscente demais. O estilinho “having fun” é bom para free surfer. Para competidor essa conversa não cola muito não. Afrouxa a blindagem, volta para pista que ainda tem muita água salgada para colocar de quilometragem antes de deixar a peteca cair.
Esperei mais de Filipinho nessa etapa do que esperava em Bells, será o fator surpresa que o fará ir bem no Tahiti? Esperamos que sim! Combination para o Josh Kerramas? Não mais, por favor.
Alejo, Willian e Raoni tiveram um segundo round desastroso. Momentos não favoráveis do mar, adversários nem tão inspirados assim, mas sucumbiram sem grande expressão.
Bom, é claro, e voltando ao bom e velho Joel e seu parquinho de diversões, que beleza o estilo do tio, não é verdade? O pessoal do fórum vai pintar e bordar nas críticas de que o surf não evolui nos critérios, que é mais difícil dar aéreo do que entubar etc. Mas na realidade o conjunto da obra que esses caras vêm apresentando é de tirar o fôlego de qualquer espectador. E nada mais natural do que tirar as notas altas também dos juízes.
Não tem como dizer que alguém surfou mais que Slater em Fiji – aliás, um dos campeonatos mais sensacionais de todos os tempos do careca. E que alguém surfou mais do que Parko em Keramas, ou tem?
A briga pelo título na ponta esquentou, a chapa do time brazuca está esquentando na rabeira da tabela e o tour já está na metade. Está naquela hora de ligar as antenas de vez. A hora agora não é de “having fun” e sim de “keep focused”.
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