Era uma sexta-feira, por volta das 15h30, no final do mês de março.
No trabalho mesmo, dei um check nas árvores e vi que o vento tinha parado por completo.
Fugi do escritório pensando em um mar lisinho para fazer a cabeça no fim de tarde.
Saí rodando de bike por vários picos na frente de casa e para minha decepção apesar de liso, não tinha onda nenhuma em Ipitanga.
Quando olhei para o lado, vi um pontinho descendo uma onda bem longe.
Será que o Aleluia tinha onda? (Pensei!). Quando cheguei no pico quase não acreditei. Tinha um metrão muito liso, e o melhor, com apenas duas cabeças na água.
Quem surfa no Aleluia, como em Scarreef, Farol de Itapuã e outros picos desse tipo sabe que é quase impossível pegar um mar bom sem crowd. Nesses lugares é algo muito raro!
Mas em um daqueles sortilégios da vida, o swell havia acabado de encaixar e de Itapuã até Villas, só tinha onda lá.
Voltei para casa voando, coloquei as quilhas da prancha e fui correndo para o pico.
Logo que cheguei, passei a arrebentação e vi que já tinham mais umas seis cabeças entrando no mar.
Desci a primeira e percebi que na pressa esqueci de passar a parafina e a bóia estava escorregando. Comentei com um amigo, quando de repente um cara que eu não conhecia me falou que se eu quisesse ele tinha deixado a dele na barraca e que eu poderia pegar.
Agradeci e perguntei o nome dele, muito satisfeito com aquele tipo de comportamento.
O Cristiano me falou que era de Villas e que não acreditava naquilo, porque lá não tinha nada e que seu amigo do Rio de Janeiro estava amarradão de pegar aquelas ondas ali.
Sergio Noronha, você conhece? Perguntou ele…
Tá de sacanagem, o Fedelho??? Como não vou saber quem é?
De repente ele se aproxima e bastante sorridente, me cumprimenta.
Entre uma onda e outra conversamos bastante. Falei da carreira dele, dos bons resultados e que acompanhava o seu surf desde o famoso Hang Loose Pro, na Joaquina, em 86. O Cristiano sorriu e falou que achava que nem mesmo o Noronha sabia tanto da vida dele quanto eu.
Demos boas risadas e em um clima de camaradagem cada um pegava sua onda.
Estava muito feliz com aquilo e quando voltava de mais uma onda boa, vi o Fedelho descendo uma linda direita e com muito estilo aplicar um round house cut back perfeito!
Esse cara aperfeiçoou muito o seu estilo de uns anos para cá, comentei com o Vitor, um garoto de 18 anos que mora por ali. E ele me perguntou quem era o cara. Sergio Noronha eu falei. Ao que ele me respondeu que nunca tinha ouvido falar.
Fiquei pensando sobre o que muitas vezes discuto em sala com meus alunos, que um dos grandes problemas do Brasil é a nossa falta de memória e conseqüente falta de identidade, ou seja aculturação e também tendo como conseqüência a dominação por parte de uma minoria.
Mas o caso em questão é: – Como desenvolver um esporte onde as raízes são esquecidas?
Sergio Noronha estava sempre nas cabeças nos anos 80. Top 16 da Abrasp e sempre top Carioca.
Na volta do circuito mundial ao Brasil, em 1986, no Hang Loose Pro, na Joaquina, o pequeno Fedelho varou as triagens não só chegando ao então chamado main event, o que era uma grande batalha, mas também chegando as quartas de final e terminando na quinta posição enchendo a nação verde amarela de orgulho.
No Mormaii, de 88, em Garopaba, considerado o campeonato com as maiores ondas no Brasil, chegou às finais junto com nomes como Marcos Brasa e Otaviano Bueno (o Taiu).
Hoje aos 41 anos, sempre sorridente, Sergio agora é um corretor de imóveis, seguidor da filosofia budista, e claro continua competindo em algumas etapas da categoria Master dando um calor na galera!