Associação Santos de Surf

Homenagens e despedida

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Roberto Santini (esq.) receberá o primeiro título de ‘Sócio Honorário’ da Associação Santos de Surf (ASS), de Marcos Andrade (dir.), atual presidente da ASS, que se despede do cargo. Foto: Ivan Storti.

 

Criado por lei municipal em 2003, o Dia do Surfista em Santos terá homenagens na Prefeitura. A data oficial é o dia 21, mas a solenidade aberta ao público, sobretudo a comunidade do surfe, e comandada pelo prefeito Paulo Alexandre Barbosa será realizada na segunda-feira (23/1), às 17 horas, no Salão Nobre Esmeraldo Tarquínio. Como já é tradicional, pioneiros da modalidade foram escolhidos para receberem placas enaltecendo suas trajetórias.

Neste ano, serão lembrados Elyseu De Andrade Júnior, Vicente Ferraro, Antonio Carlos Maia Pinto “Black do 6” e Silvio Pereira Lopes Filho, o “Silvio do Conde”. O encontro também terá como destaque a concessão do primeiro título de ‘Sócio Honorário’ da Associação Santos de Surf (ASS), ao diretor-presidente da TV Tribuna e presidente da Associação Comercial de Santos, Roberto Clemente Santini.

A ocasião festiva também marcará a despedida do atual presidente da ASS, Marcos Andrade, o Cabeça. À frente da entidade desde 2014, ele foi responsável pelo fortalecimento e crescimento do surf na Cidade, apresentando um novo e inovador modelo de gestão e, mais do que isso, deixa um legado importante, não só para o surfe, mas para a comunidade.

Andrade já anunciou que convocará eleição para a escolha do seu sucessor e deixa o cargo com dois projetos aprovados e captados pelo Promifae (Programa Municipal de Incentivo Fiscal de Apoio ao Esporte) para a realização do Circuito Santos de Surf 2017 e para o treinamento da equipe santista e participação no Circuito Paulista de Surf. Além disso, deixa estruturado e em pleno funcionamento o Centro de Treinamento Municipal de Surf, criado em parceria com a Secretaria de Esportes.

“Vou sair com o sentimento de dever cumprido. Totalmente! Foi uma experiência pessoal muito grande. Acabei tendo de lidar com pessoas, empresas, atletas, algo que nunca tinha imaginado fazer na vida. Acho que foi muito bacana por conta do que conseguimos fazer nas categorias de base, que foi a nossa proposta inicial, para fortalecer o surfe santista”, resume Cabeça.

Ele destaca a evolução, tanto nos atletas, quanto na estrutura nos três anos e dá como exemplo o quarto lugar por equipes conquistado no Hang Loose Surf Attack, o Paulista das categorias de Base, em 2017. “Conseguimos condições para que os competidores pudessem se desenvolver. Tivemos bons resultados no final de cada ano e a inédita quarta colocação em 2016, fruto de todo o trabalho feito pelos profissionais que atuam efetivamente com as crianças”, diz.

“Também tivemos o nosso circuito, revelando novos valores em casa. Diante disso, toda a avaliação foi muito boa. Conseguimos patrocínios para atletas, um espaço próprio para o Centro de Treinamento, uniformes, hospedagem, alimentação e inscrições para a equipe no Paulista”, relata.

Outras conquistas foram a realização do Festival Santos de Longboard, atraindo grandes nomes da modalidade para Santos, e a cadeira efetiva no Condema – Conselho Municipal de Defesa do Meio Ambiente. “O campeonato foi um marco e uma preparação para um outro projeto, trazer o Mundial de Longboard. Falta só isso. No Condema, temos uma participação efetiva com o Fábio Boturão, o Jacuí, nosso mestre”, conta.

Futuro – Para Marcos Andrade a transição para a próxima diretoria deve ser tranquila, pela entidade estar estruturada. E já adianta o que deve ser o próximo passo para que o surfe de Santos continue crescendo. “Já temos em caixa aproximadamente 120 mil reais para investir no Circuito e nas atividades do Centro de Treinamento em conjunto com a participação no Paulista. Precisamos trazer mais atletas da Cidade para dentro do nosso campeonato”, fala.

“Agora, o olhar tem de ser para dentro das escolas públicas. Os professores de Educação Física passem a selecionar os atletas e encaminhar. Só assim teremos mais material humano para trabalhar”, acrescenta, confessando: “Em 2014 pensei até em largar de mão, por conta da resistência de pessoas que não sabiam do que estava acontecendo. Estavam acostumadas com modelo antigo de gestão, mas depois chamando a comunidade, conseguimos discutir, colocar para todos o nosso pensamento e deu certo”, revela.

Ele explica que além do alto-rendimento, o trabalho também engloba o social. “Sabemos que podemos ter atletas em destaque até no exterior, mas nosso objetivo é fazer com que as crianças se tornem cidadãos. Por isso, além da parte de treinamento físico, técnico e tático, análises de vídeos, levamos profissionais para palestras de todos os tipos. Levamos os atletas para conhecerem outras áreas de Educação Física que estão vivenciando”, afirma.

“E mais importante, fazemos questão que eles participem das assembleias e reuniões da ASS. Damos oportunidade para falarem, se manifestarem e o Fábio Boturão sempre tem uma palavra de cidadania para essa molecada”, complementa Cabeça, pedindo a maior participação da comunidade. “Democracia é um processo de discussão e se a gente não tiver pessoas que pensem diferente, nunca vai conseguir construir algo melhor”, enfatiza.

Perto de encerrar seu ciclo na ASS, Marcos adianta o que terá pela frente. “Preciso olhar um pouco mais para dentro da minha casa, minha família, para o meu escritório. Estou entrando numa empreitada nova, que é a parte política. Sou advogado desde 94 e agora vou trabalhar na diretoria legislativa da Câmara Municipal de Santos. Quero aprender como as coisas andam no legislativo e, quem sabe, poder ajudar de outra forma, seja no Executivo ou no próprio Legislativo”, completa o atual presidente, que está com 44 anos.

ASS já tem patrocinadores confirmados para a temporada – O surfe santista já está garantido para 2017. Com recursos captados pelo Promifae, tanto o Circuito Santos de Surf, voltado para as categorias de base, quanto o Centro Municipal de Treinamento, já tem os patrocínios definidos. O campeonato terá a Mavimar Transportes, despachos e Serviços Ltda. e a Savanah Steak House como parceiros, e tanto o local de treinos quanto a equipe santista no Paulista contarão com o apoio do Grupo Mendes.

Homenageados ajudaram a construir a história do surfe na região – O Dia do Surf foi criado pelo então vereador Fábio Nunes (hoje secretário municipal de Cultura) e a homenagem tem como objetivo valorizar a história do esporte na Cidade onde o surf “nasceu” no Brasil, ainda na década de 40. Mais do que isso, reforçar o modo de vida, que virou um esporte e hoje é conhecido e admirado.

Os quatro homenageados deste ano foram escolhidos pelo historiados da ASS, Diniz Iozzi, o Pardhal, e ajudaram a construir a história da modalidade na região. “Eliseu de Andrade Júnior, arquiteto renomado, começou a surfar depois dos 30 anos e talvez seja o embrião do que seria um técnico de surf. Vinha em uma Kombi desde o Itararé pegando surfistas para levar ao Guarujá, como os irmãos Salazar”, conta Pardhal.

“Vicente Ferraro iniciou no surfe ainda na década de 60, o Silvio do Conde do Mar foi um excelente competidor e fez parte da Homero Surf Team nos anos 70 e o Antonio Black do 6 também iniciou na década de 60 e fotógrafo de surfe nos anos 70 em diante. São surfistas que contribuíram muito para a evolução do surfe”, destaca.

Outro homenageado do encontro será Roberto Clemente Santini, com o título de Sócio Honorário da ASS. “É o primeiro agraciado, após votação unânime na assembleia, e merecidamente. Ele surfa, gosta do esporte, se empenha em ajudar, está sempre pronto a colaborar”, argumenta o presidente da ASS, Marcos Andrade.

“A TV Tribuna sempre acompanhou todas as atividades da Associação, com grandes coberturas. Ele também abriu as portas da Associação Comercial para o surfe, uma atitude inédita, muito importante para o desenvolvimento do surfe”, enaltece Andrade. “A segunda-feira será mais um dia de grandes encontros do pessoal que já fez muito pelo surfe”, completa.

Enquanto alguns fotógrafos documentam a história, Fedoca Lima fez diferente: viveu dentro dela enquanto fotografava. Carioca do Posto 5, começou a surfar com 11 anos e a fotografar quase ao mesmo tempo, com uma máquina fotográfica alemã do pai. Aos 14, registrou a Rainha Elizabeth passando de Rolls-Royce aberto pela orla de Copacabana, em frente à casa do Assis Chateaubriand. No mesmo período, fotografou o Mick Jagger dando o dedo do meio no Copacabana Palace. Não era fotógrafo profissional. Era um moleque com olho bom e câmera na mão, sem perceber ainda o tamanho do que estava construindo. O que veio depois é história do surfe brasileiro. O Píer de Ipanema nos anos 70, quando o Rio era o centro do surfe nacional, com Daniel Friedmann, Pepê Lopes, Rico de Souza e Ricardo Bocão dominando o circuito. A Brasil Surf, primeira revista especializada do país, na qual Fedoca jogou em todas as posições: fotógrafo, redator e capa. O Havaí entre 1978 e 1981, surfando e fotografando ao lado de Gerry Lopez, Shaun Tomson e Michael Ho em Pipeline e Waimea. Os shows históricos, de Bob Marley ao ar livre no Havaí até Rolling Stones e Paul McCartney no Maracanã. “A foto que eu não tirei, essa me persegue.” Fedoca Lima Mais de cinquenta anos depois, esse arquivo vira livro. “Surf, Clicks e Rock’n Roll” tem 220 páginas, cerca de 180 fotografias e percorre a transformação do surfe brasileiro desde a era analógica até o digital, passando por Arpoador, Saquarema, Havaí, Califórnia e Macumba. Com captação aprovada de R$ 203 mil via incentivo cultural e apio da Fu Wax, o lançamento está previsto para o segundo semestre de 2026. Conversamos com Fedoca sobre tudo isso. Antes de se consolidar como fotógrafo, você também virou personagem da própria história do surfe brasileiro ao sair na capa da Brasil Surf em 1975. Como foi viver aquele momento por dentro? Saí na capa da Brasil Surf. Na época eu trabalhei na revista de março de 75 até janeiro de 79, só não peguei o primeiro número. Jogava todas as posições: saí na capa, escrevia, tirava foto, ajudava na redação, dava palpite, fazia matéria. Por muito tempo achei que era o único fotógrafo de surfe que tinha saído numa capa. Depois o Bruno Alves me falou que o irmão dele, o Alberto, saiu na capa da Fluir número 1. A história dele bate um pouco com a minha: ele pegava onda, saiu na capa, era fotógrafo. Mas durante anos eu achei que era caso único. Até hoje tem um restaurante aqui que o cara pediu, eu tirei uma foto com a revista na mão, ele botou na parede, eu assinei. A influência continua. A Brasil Surf ajudou a mudar a imagem do surfista no Brasil. Como era ser surfista naquela época, antes dessa mudança de percepção acontecer? O surfe saía no caderno B do Jornal do Brasil, do Globo. Não saía no esporte. E o surfista era tido como vagabundo de praia. Isso, aliás, até hoje tem um pouco, mas na época tinha muito mais. A Brasil Surf não vou dizer que limpou essa imagem completamente, mas ajudou a transformar o surfe em esporte e também a fomentar o mercado de surfwear. Os irmãos Wady e Fuad Mansur, da loja Mansur, em Ipanema, foram dos primeiros anunciantes. Acreditaram na revista, fizeram anúncios de contracapa e página inteira, e as camisetas personalizadas vendidas pelo correio viraram um sucesso. A Brasil Surf acabou impulsionando fabricantes de pranchas, calções, parafinas e diversos outros anunciantes ligados ao surfe. Os fabricantes de prancha tinham um veículo para anunciar. Os fotógrafos ganhavam uma graninha, viajavam. Fui para a América Central, Porto Rico, Barbados, El Salvador, Fernando de Noronha, Peru, várias viagens bancadas pela Brasil Surf de uma forma ou de outra. O Nilton Barbosa foi ao Havaí duas vezes bancado pela revista. No caso dele, eles bancavam os filmes, ele vendia as fotos e a viagem se pagava. Tinha uma diferença entre mim e o Nilton nessa época: ele chegava na praia e ficava na areia fotografando, fotografando, fotografando. Eu chegava e ia para dentro da água. Se não estava o Daniel, não estava o Pepê, não estava o Cauli, não estava o Bocão, não estavam os caras top, eu entrava e surfava. Então tem foto minha na Brasil Surf publicada pelo Nilton Barbosa, pelo Rogério Ehrlich. Eu estava mais dentro da água do que fora. Eu estudava. Primeiro vestibular, depois faculdade. Boa parte dos meus amigos só queria saber de surfar. Eu dividia meu tempo. Chegava na praia, já tinha estudado de manhã, aí ficava naquele dilema: vou pegar onda ou vou fotografar? Por isso tem poucas fotos do Píer. Em três anos não tirei nem metade do que tiro hoje num dia bom na Macumba com o digital. Você viveu o Píer, a Brasil Surf, o Havaí dos anos 70, o nascimento do surfe brasileiro moderno. Em que momento percebeu que estava no meio de uma transformação cultural que iria muito além do esporte? O Píer foi o que fomentou o surfe no Rio de Janeiro. Por dez anos, foi domínio completo do Rio no cenário brasileiro. O Daniel Friedmann, em 77, foi o último carioca a vencer uma etapa do circuito internacional, ganhou no Quebra-Mar, em cima do Pepê Lopes, que tinha ganho em 76. Os dois de Ipanema, meus vizinhos de rua. E esse pessoal do Píer que dominou, o Daniel, o Pepê Lopes, o Cauli Rodrigues, e também o Otávio Pacheco, o Rico de Souza, o Ricardo Bocão. E tinha o Betão, que era o melhor surfista do Brasil na época mas não era competitivo, não corria atrás de patrocinador, acabou saindo cedo. Em 75 ele ganhou o Campeonato de Saquarema e foi saindo, saindo. O Píer influenciou a revista, influenciou os fabricantes de prancha, influenciou o modo de viver. Começaram a ter fábricas em Guaratiba, Vargem Grande, no Recreio, depois em Saquarema. As pessoas foram morar lá. O Penho foi, o Otávio comprou casa,

O que define uma boa onda? Tamanho, força, parede, qualidade da linha, formação e surfabilidade, dentre outros elementos. No oceano, todos esses fatores mudam a cada swell, a cada vento, a cada maré. Em Búzios, a proposta é diferente: construir essas variáveis de forma controlada, repetível e ajustável. A piscina do Brasil Surfe Clube Aretê Búzios opera com a tecnologia Endless Surf, do grupo canadense WhiteWater, com 48 câmaras de ar de alta precisão. O sistema permite criar configurações distintas dentro da mesma estrutura. Dentro de um universo de grandes possibilidades, as cinco primeiras ondas já foram nomeadas e reveladas, cada uma com perfil próprio, e muito mais ainda está por vir. Onda #01: Pointbreak + Junção Linha longa, seções conectadas, tempo de onda que pode ultrapassar 25 segundos. A junção encadeia diferentes partes da onda sem perder velocidade, criando uma das experiências mais difíceis de encontrar no oceano com consistência. Para quem quer mais de 10 manobras na mesma onda ou simplesmente mais tempo de linha para ler e decidir. Onda #02: Manobras + Bowl A parede fica mais íngreme. O bowl abre seções críticas para manobras verticais e aéreos. É o ambiente para quem quer empurrar os limites do que consegue fazer sobre a prancha, com repetição suficiente para transformar cada tentativa em aprendizado real. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Onda #03: Rampa + Tubo Uma onda que combina duas experiências na mesma seção. A rampa prepara o surfista para a manobra e o tubo roda na sequência. Para quem quer encaixar um aéreo e ainda sair do tubo na mesma onda, essa configuração entrega os dois elementos sem precisar escolher. Onda #04: Rampa Nível Intermediário Parede consistente, menor intensidade, mais previsível. A configuração certa para quem está desenvolvendo manobras progressivas e precisa de repetição para consolidar o que está aprendendo. A seção cria a rampa no ângulo certo, com velocidade suficiente para executar sem exigir o nível avançado. Onda #05: Rampa Nível Avançado Mais potência, mais velocidade, mais projeção. A rampa avançada é para quem já chegou em Búzios com manobras no repertório e quer testá-las com pressão real. Com capacidade para gerar até 700 ondas por hora, o intervalo entre uma tentativa e outra é curto o suficiente para transformar cada sessão em treino de alto rendimento. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Para todos os níveis As cinco configurações cobrem desde quem está aprendendo até quem treina em alto rendimento. A piscina ainda opera em dois modos: single peak, com ondas quebrando para um lado e maior extensão de linha, e split peak, com direitas e esquerdas simultâneas, permitindo que surfistas compartilhem a mesma série em direções opostas. Yago Dora, campeão mundial de surfe em 2025, Victor Bernardo, um dos maiores freesurfers da atualidade, e Michelle des Bouillons, referência mundial em ondas gigantes, integram o time do BSC e já testaram a tecnologia na piscina Adrena Red Sea, na Arábia Saudita. “Muito animal esse lance de ter essa variedade de onda também. Um leque de ondas absurdo. Mal posso esperar para Búzios”, disse Victor Bernardo após a sessão. A versão de Búzios será maior: 48 câmaras contra 36 da estrutura do Mar Vermelho, com 13 mil metros quadrados de lâmina d’água. Variedade de ondas para testar, arriscar, aprender e evoluir todos os dias. Com inauguração prevista para o segundo semestre de 2026, é o que o Brasil Surfe Clube Aretê Búzios chega para entregar.

Pedro Bettencourt Müller nasceu no Rio de Janeiro, no dia 21 de julho de 1966, num ambiente familiar que respirava praia. Seu pai, Guilherme Xavier de Brito Müller, economista e morador do Leblon, cresceu frequentando a Zona Sul. Sua mãe, Maria Isabel Bettencourt Müller, criada em Santa Teresa, compartilhava da mesma paixão pelas praias. Para o casal, fim de semana e férias tinham destino certo: areia, sol e mar. Foi assim que Pedro e o irmão, Guilherme, passaram a infância seguindo os pais para o meio da Barra ou para São Conrado, ainda de estradas de terra, sem prédios, calçadões ou qualquer urbanização. Nesse cenário quase intocado, Pedro foi se encantando pelas ondas. Lembra-se de observar alguns surfistas solitários no meio da Barra e sentir-se hipnotizado pela habilidade deles. O mar, desde cedo, era o lugar onde queria estar. Ele recorda também a rotina da infância: ia para as aulas de natação no Clube de Regatas Flamengo e, depois, caminhava até o judô, no Leblon, um trajeto longo para uma criança de 12 anos. Antes de entrar no tatame, sentava-se no calçadão para olhar o mar quebrando, entregue à mesma fascinação que o acompanharia por toda a vida. O mar lhe transmitia paz, calma e propósito. Ali, ainda menino, já entendia que queria se tornar surfista. A mudança para São Conrado, por volta dos 14 ou 15 anos, foi decisiva. Morando ao lado do Pepino, Müller muitas vezes cabulava a aula pra ir surfar. As ondas triangulares, rápidas e pesadas da região se transformaram no seu campo de treinamento permanente. Ali, guiado pela referência de Rony Lima e pela evolução proporcionada pelas pranchas dos shapers Rico e Pedro Battaglin, deu um salto técnico marcante. A “biquilha mágica” 5’4″ de Battaglin é lembrada até hoje como uma das grandes viradas em seu surfe, época em que adotou o apelido de “o Águia”, pela tatuagem no braço. Uma nova mudança, motivada pelo desemprego do pai, levou a família para a Barra. Para Müller, foi a oportunidade perfeita: entre o Postinho, o meio da Barra e o Quebra-Mar, encontrou três ondas consistentes e acessíveis a pé, permitindo treinos diários que aceleraram ainda mais sua evolução. Nessa fase, destacou-se nos campeonatos da ASBT – Associação de Surf da Barra da Tijuca – e entrou para a promissora equipe da Cristal Graffiti. Antes disso, havia vencido seu primeiro campeonato no Leblon, organizado por Marcelo Peninha, vitória que marcou sua confiança rumo ao profissionalismo. Os resultados na categoria Júnior renderam um prêmio decisivo: uma passagem para o Havaí. Aos 18 anos, Müller viveu sua primeira temporada no North Shore (1984/85), dividindo casa com surfistas brasileiros experientes. Pipeline, logo no primeiro dia, foi seu batismo de fogo: mar pesado, adrenalina no limite e a certeza de que o treino no Pepino o havia preparado para aquele cenário. De volta ao Brasil, enfrentou dificuldades para manter regularidade como profissional. A grande virada veio com o curso de meditação transcendental feito ao lado de Rodolfo Lima. O impacto competitivo foi imediato: venceu a etapa profissional do Quebra-Mar no circuito carioca, em 1986, e passou a frequentar pódios de forma consistente. A regularidade, marca registrada de sua carreira, nasceu ali. Em 1987, tornou-se vice-campeão do primeiro Circuito Brasileiro de Surf Profissional. Liderou boa parte da temporada, foi vice-campeão na etapa da Lightning Bolt e, depois, campeão no Fico Festival. Só perdeu o título na penúltima bateria do Circuito, por apenas 20 pontos, uma diferença mínima para quem tinha 850 pontos de vantagem sobre o terceiro colocado. Na época, era visto como o surfista mais consciente e estratégico do país. Nos anos seguintes, acumulou resultados expressivos: vitórias importantes na Abrasp e uma vitória significativa no QS de Florianópolis, superando Barton Lynch, Jojó e Julio Adler. Em 1995, viria um dos grandes destaques internacionais de sua carreira: o nono lugar em Pipeline, substituindo de última hora o australiano Damien Hardman. Ondas entre 10 e 15 pés confirmaram sua capacidade técnica em um dos palcos mais desafiadores do mundo. Pedro Müller seguiria competindo por mais de duas décadas. Em Ubatuba, já aos 38 anos, conquistou sua última vitória no Circuito Super Surf 2004, num dos triunfos mais marcantes de sua trajetória. Hoje, vive do surfe como treinador, comentarista da Sportv e um dos proprietários da @escola_pedromuller, na Barra da Tijuca, administrada pelo sócio Adelmo Noite. Acompanhe ns publicações nas redes sociais @museudosurfesantos. Coordenador de pesquisas históricas do surfe @diniziozzi, o Pardhal.

Como uma prancha largamente usada por surfistas fora do circuito mundial profissional pode ganhar atenção? Coloque a dita cuja nos pés de um bicampeão mundial. Quer um destaque ainda maior? Filipe Toledo vence o tricampeão Gabriel Medina. Pronto. Vamos por partes. Na etapa do Championship Tour, na Nova Zelândia (Maio 2023), Filipe acabou não vencendo a disputa da quarta de final contra Griffin Colapinto, mesmo obtendo a melhor nota da bateria. Faltou uma onda. Mas o assunto aqui é outro, ou quase. Em um universo dominado por triquilhas, desde 1981, a diversidade de pranchas, no século 21, começou a ganhar espaço fora das competições. No meio de antigas novidades, biquilhas com trailer fin (estabilizador central) se mostraram mais controláveis e amistosas, levando muita gente a adotá-las no quiver. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Filipe Toledo (@filipetoledo) O modelo de biquilha com estabilizador central já havia sido testado mas ganhou vida nova em 2003, com as Super Twins do shaper, tetracampeão mundial (79, 80, 81 e 82), Mark Richards. Ele trouxe de volta suas Twin Fins do início dos anos 80, adicionando uma “quilhinha” central. Daí, de repente, Filipe Toledo coloca no jogo do circuito mundial o modelo Modern 2, da Sharp Eye Surfboards. Vence Gabriel Medina nas esquerdas de Raglan e deixa muito mais gente antenada sobre as possibilidades de uma twin com trailer fin. Filipe não foi o primeiro a fazer algo que eu esperava há tempos. Kelly Slater inovou, diminuindo o tamanho das pranchas e competindo, em algumas situações, com o que eram mais bi do que triquilhas, na primeira década do século 21. Dane Reynolds também fez isso, mas vamos combinar que esses dois não são parâmetros de surf normal. Deivid Silva também ousou. Abiquilhou-se numa etapa. Mandou bem, mas não chamou tanta atenção. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Sharp Eye Surfboards (@sharpeyesurfboards_au) Quando se trata de altíssima performance pesa sempre o fato dos atletas da elite não terem muito tempo para experiências fora da casinha das triquilhas. Mas, pela primeira vez, Filipe, além de seu ano sabático, em 2024, teve, como todos os Tops, os mesmos raros sete meses de folga antes da temporada 2026. Isso parece ter criado espaço para lidar com pranchas diferentes, memória física e jogo mental para se arriscar com um equipamento não muito convencional na Nova Zelândia. Sim, pranchas realmente diferentes pedem ajustes na maneira de usá-las e isso requer tempo e, claro, talento. Duas coisas chamaram a minha atenção. Impressionante como podemos e devemos comparar os melhores do surf competitivo profissional com pilotos da Fórmula 1. É com eles que a indústria das pranchas evolui mais e melhor. Detalhes sutis, milimétricos, que essa turma sente no funcionamento de uma prancha podem ser incorporados aos modelos que a maioria dos surfistas não conseguiria detectar ou explicar. Eles dão o caminho do que será usado pelos consumidores “normais”. Shapers são mais teoria, estudo. Tops são prática. As mudanças surgem daí. Segunda, e mais curiosa. Um esporte que durante tanto tempo teve uma aura de vanguarda e ousadia leva muito tempo para propor ou acertar mudanças mais drásticas, seja na construção ou desenvolvimento de design. Não creio que seja culpa dos fabricantes, já que essa indústria nunca gerou dinheiro suficiente para que se desenvolvesse como deveria. Ainda por cima a competição tem um formato onde há pouco espaço para o diferente quanto à performance. Mas isso é conversa para outro texto. Por agora fica a dica. Mesmo ideias estranhas à normalidade podem resultar em bons resultados. Teste tudo que é prancha que você puder. Não tenha medo, você não depende de notas dos juízes para ser feliz.