É interessante como o início de um novo ano desperta em muitas pessoas a iniciativa de fazer algo novo, diferente, até mesmo desafiador!
Eu certamente sou uma dessas pessoas. Por isso resolvi que começaria o ano de 2016, em que também completo meus 40 verões, impondo um desafio a mim mesmo.
Tenho feito longos trechos de SUP Race desde que conheci esse modelo de prancha há cerca de 4 anos. Desde então passei a me interessar pela logística que está por trás de remar longas distâncias, pela exigência física e mental necessárias para chegar ao fim de uma expedição e sobretudo, pela maneira especial com que se pode interagir e observar o meio ao redor.
Com isso, comecei minhas pesquisas e tracei um percurso de cerca de 90 km saindo de Cananéia, no litoral sul de São Paulo, seguindo através dos canais dos manguezais do Complexo Estuarino Lagunar, e chegando em Guaraqueçaba, no Paraná. Nesta região está o maior remanescente contínuo da Mata Atlântica brasileira, considerado um dos maiores criadouros de espécies marinhas do Atlântico sul.
No meu planejamento resolvi que faria a viagem solo, sem barco de apoio. Dividi a distância a ser remada em 3 partes, intercaladas com um dia de descanso em alguma vila às margens dos canais. Assim poderia descansar, conhecer um novo lugar e me preparar para o trecho seguinte.
Me propus a levar no meu SUP tudo o que seria necessário para a expedição: roupas, barraca, comida, equipamento fotográfico e outros acessórios. Conversando com meu shaper Cláudio Pastor (RJ), projetamos um Race 12’6’’ que levaria, além do meu peso, mais 20 kg estimados de carga.
Escolhi um hotel à beira do canal do Porto Cubatão, perto da balsa para Cananéia, para me hospedar na véspera da partida para a remada. Mal dormi naquela noite pensando nos últimos detalhes de tudo. Entendi que assim que subisse naquela prancha, o que eu teria disponível pelos próximos 6 dias de viagem seriam os itens acomodados sobre ela. Eu não queria esquecer nada importante!
Fiz uma última pesquisa sobre as condições do tempo, ventos e influência da maré cruzando diversas fontes, para remar nas melhores condições possíveis.
No dia 05 de janeiro, raiando o dia, eu já estava no canal distribuindo os 5 volumes, hermeticamente fechados em sacos-estanque, sobre o SUP. Com a carga extra diminuindo a flutuação, era muito importante garantir que tudo ficasse seco.
Já passava um pouco das 9h quando parti para o primeiro trecho da viagem. Uma remada de 38 km até a Vila do Marujá. Já na saída, me acompanharam alguns botos, que são frequentes naquela região. A remada rendeu muito bem, sem nenhum vento ou correnteza até a boca da barra de Cananéia. Ali atravessei um trecho de quase 5 km com muito vento e marolas laterais. Uma remada difícil e cansativa. Mas quando alcancei a Ilha das Cascas já na entrada do canal de Ararapira, o vento constante de leste associado à maré enchente me ajudaram a aumentar minha velocidade média. Aproveitei o momento favorável para me alimentar também. Mantive sempre um dos meus volumes ao meu fácil alcance com 1,5 L de água, 1,5 L de isotônico, carboidrato gel, frutas desidratadas e biscoitos de aveia.
No trajeto pelo canal de Ararapira é intensa a movimentação de embarcações, sobretudo com turistas atraídos pela beleza da Mata Atlântica, pelos numerosos sambaquis (sítios arqueológicos do período colonial) e pela bela cachoeira Grande, tudo isso na rota para o Marujá.
Fui aportar no camping do “Seu” Salvador, já na vila, no fim da tarde. Foram quase 7 horas de remada. Arrumei um cantinho no terreno gramado, armei a barraca e fiz o jantar. Levei um fogareiro com botijão, um conjunto de panelas e talheres e todo o arsenal de alimentos integrais e desidratados, para um bom café da manhã e um revigorante “almo-janta” em cada dia da viagem.
No dia seguinte me ocupei de fazer pequenos reparos na prancha. Essa é outra dica importante se você pretende fazer uma remada de dias, sem apoio. Leve um “kit primeiros socorros” para sua prancha que te permita fazer um conserto emergencial, de forma a não prejudicar ainda mais seu equipamento e sua própria expedição.
Também aproveitei pra passear. Da vila é possível atravessar um trecho de restinga que leva do canal à praia do Marujá, uma extensa faixa de areia branca na Ilha do Cardoso. A praia é linda apesar de todo o lixo plástico que se acumula nela, trazidos pelo movimento intenso das marés. Infelizmente essa é uma realidade que atinge até mesmo o mais preservado dos lugares.
A segunda parte da remada me levou por 25 km entre Marujá e a Vila Fátima, no Superagui (PR).
Neste percurso passei pela cidade fantasma de Ararapira, pela simpática vila do Ariri e pelo canal do Varadouro, atravessando a divisa de São Paulo com o Paraná.
Com 6 km de extensão, esse canal foi construído pelo homem e inaugurado em 1952 com o objetivo de ligar a região lagunar de Cananéia à Baía dos Pinheiros em Paranaguá.
De quebra, o canal deu origem à Ilha de Superagüi, que hoje faz parte de um parque nacional. O canal é estreito, mas muito bonito. Tem margens cobertas por manguezais e mata atlântica original e é usado apenas por um ou outro barco de passeio, já que é um tradicional reduto de pescadores. Escondidas na mata, há cachoeiras, orquídeas, bromélias e muitas aves como os flamingos, garças, guarás e papagaios.
Na pequena Vila Fátima, cerca de 10 famílias vivem em função da pesca e da criação de ostras. E lá me permitiram acampar no gramado atrás de um posto de saúde desativado. Aproveitei para conversar com os pescadores locais e obter mais informações sobre a rota pelos estreitos mangues em direção à Guaraqueçaba. Eu já tinha um traçado gravado no meu GPS, mas os pescadores tinham os atalhos!
Parti da Vila Fátima para a terceira e última remada da viagem rumo à Guaraqueçaba no dia 09 de janeiro, por volta das 08:30 quando a maré estava terminando de vazar. A ideia era alcançar a Baía dos Pinheiros já no começo da enchente para facilitar a remada dali em diante. Dependendo da fase lunar, verifica-se nessa região um grande coeficiente de marés, tornando as correntezas muito intensas.
Por dentro dos estreitos canais de mangues, o visual era deslumbrante. O contato muito próximo da natureza. Nem as incansáveis mutucas tiraram o prazer de estar naquele local. Muitos barcos de pescadores que passavam por mim pelo trajeto gentilmente ofereciam ajuda e orientações, curiosos com aquele “barquinho” cheio de bagagens.
Ao fim de 25 km, cumpridos em 5 horas, desembarquei no meu ponto final, imensamente feliz e realizado com toda aquela nova experiência!
Me alojei na casa do Alexandre, proprietário de uma pousada num dos trapiches da cidade. Ele foi um verdadeiro anfitrião! Me ofereceu um quarto e um farto jantar regado a cervejas. Não poderia ser melhor!
No dia seguinte peguei um barco que me levou pelo mesmo caminho de volta à Porto Cubatão onde estava meu carro.
Gostaria de agradecer à minha esposa Lívia, ao meu shaper Claudio Pastor e a cada pessoa que me apoiou direta ou indiretamente na realização desse projeto.
E que venham outros mais!















