Herói havaiano
Eddie Aikau passou a vida se arriscando em resgates cabulosos antes de desaparecer no mar em 17 de março de 1978, aos 31 anos de idade. Naquele dia, ele se atirou no agitado canal de Molokai e saiu remando sozinho em direção à ilha de Lanai, 20 quilômetros ao leste, na tentativa de buscar socorro para os outros 15 tripulantes da canoa Hokule’a, naufragada na noite anterior, apenas cinco horas após deixar o porto de Honolulu com destino ao Tahiti, mais de 4000 quilômetros ao sul.
Em situações como aquela, Eddie nunca hesitava antes de se apresentar como voluntário. Primeiro salva-vidas da história do North Shore, responsável ao lado de Butch Van Artsdalen, o “Mr. Pipeline” original, por todas as praias de Haleiwa até Sunset entre 1968 e 71, e depois designado para tomar conta exclusivamente de Waimea, ele salvou centenas de vidas sem receber praticamente nenhum reconhecimento.
Tímido em terra, no meio das ondas era onde ele mais se sentia à vontade, sendo capaz de perceber as alterações de temperamento do oceano como ninguém. Considerado o melhor surfista de sua época nas enormes direitas de Waimea, para ele nada era mais natural do que colocar sua sabedoria a serviço de quem for que estivesse precisando ajuda, mesmo que fossem os turistas haoles e soldados idiotas que ele desprezava.
Na tarde anterior ao seu desaparecimento, sob o olhar admirado das 10 mil pessoas que compareceram à cerimônia de partida, Eddie embarcara orgulhosamente na canoa de casco duplo, réplica das usadas na migração dos povos polinésios do Tahiti para o Hawaii séculos atrás. Defensor ferrenho das tradições havaianas, seu grande sonho era refazer a mítica trajetória, procurando se aprofundar ainda mais na cultura de seus ancestrais. Ainda que o risco de uma viagem como aquela, velejando por uma enorme distância a bordo de uma embarcação rústica, guiados pelas estrelas e sem acompanhamento de outro barco ou auxílio de equipamentos modernos, fosse óbvio, ninguém imaginava um final tão trágico, e tão cedo na jornada.
A verdade é que por pressões políticas o capitão decidiu zarpar em condições pra lá de desfavoráveis, com ondas de 10 pés e ventos de mais de 50 km/h revirando o canal entre as ilhas de Oahu e Molokai. Logo a canoa, totalmente carregada de mantimentos, para os 28 dias programados de viagem, sofreu a conseqüência da decisão precipitada e começou a acumular água no interior de seus cascos. Na escuridão, quando a tripulação se deu conta da gravidade da situação, já era tarde demais e a embarcação virou. A família e os amigos mais próximos acreditam que Eddie pressentiu que não iria retornar desta aventura. Isso ficou claro devido às atitudes dele nos dias anteriores ao início da expedição, quando tratou de deixar tudo encaminhado em caso de algo dar errado e se despediu de maneira melancólica de todos. Mas nem mesmo diante desse sentimento que claramente o pertubava, Eddie vacilou: ele já havia decidido e iria até o fim.
No inverno anterior, após finalmente ter vencido o Duke Classic em Sunset Beach, campeonato de maior prestígio naqueles tempos, Eddie fez um discurso tocante e profético, lembrando a todos presentes que “nenhum de nós sabe por quanto tempo estaremos nesta terra. Nós temos que nos amar uns aos outros e cuidar uns dos outros, pois você nunca sabe quando sua hora vai chegar”.
