Centro-sul do Peru

Vivenciando os picos

1600x900

Região centro-sul do Peru. Foto: Arquivo pessoal.

 

Em maio, Geraldo Rossi embarcou com seu filho Rafael e os amigos Clevis e Daniel para a região centro-sul do Peru.

No texto abaixo, o surfista divide sua experiência no País, além de dicas para quem está pensando em embarcar para as ondas peruanas.

Preparo pré-viagem – Nossas viagens começam muito antes de embarcarmos para o nosso destino, com a preparação dos documentos, roupas, equipamentos eletrônicos e informações sobre o local. Atrevo-me a dizer que, nosso modo de viajar mudou muito depois da internet. 

Hoje em dia, podemos pesquisar antes mais sobre o nosso destino, sua cultura, pontos turísticos, a temperatura climática e da água, além de outros interesses específicos. Embarcamos completamente diferente, com uma bagagem de informação jamais imaginada antigamente, mas nem por isso a viagem torna-se menos emocionante, ainda há informações indisponíveis ou difíceis de encontrar na internet e o inesperado sempre está presente em qualquer circunstância.

Eu meus amigos tentávamos acompanhar o swell que iria rolar. As informações para a região centro-sul peruanas são desencontradas. As cidades que aparecem no GoogleMaps não são as mesmas que aparecem nas previsões de ondas, que por sua vez, não são as mesmas que ouvimos falar em blogs eatravés de conhecidos. Tudo estava bem confuso.

As surf trips, inventadas há poucas dezenas de anos, são sempre parecidas: grupo de homens – agora também mulheres – loucos por água salgada que tenham ondas. Bitolados por paredes de água em movimentos circulares. Viajam dias e dias atrás de ondas perfeitas, muitas vezes dormem mal, comem mal e vão para lugares estranhos e inóspitos. Saem de suas famílias para formar um grupo de amigos nômades, parceiros, para enfrentar mares e perrengues. Dessa vez tenho a companhia do meu filho Rafel e amigos Clevis e Daniel.

Chegando no Peru – A viagem até Lima é rápida, cerca de cinco horas a partir de Porto Alegre. Com duas horas a menos do que no fuso brasileiro, dá para chegar cedo da manhã. Aeroporto organizado, polícia alfandegária antipática e boa infraestrutura para trocar dinheiro e contratar taxi tranquilamente. Maio faz calor, com temperaturas entre 20 a 30 graus. À noite pode esfriar, já que o litoral peruano é um deserto, sem árvore para manter o calor no solo.

1600x900

Rodovia Panamericana. Foto: Arquivo pessoal.

 

Chegamos à praia de Caballeros, onde iríamos ficar. Nossa sacada na Caballeros Surf House fica de frente para as ondas. Uma ponta de pedra que entra dentro do Pacífico formando ótimas ondas. O sol brilhava, o que não é muito comum, já que uma névoa baixa está sempre presente nesse encontro entre deserto e mar. O brilho do Sol realçava a transparência da água e o mar cabuloso que tinha visto em vários vídeos no Youtube apresentava-se convidativo para o surfe. 

Dois minutos depois de colocar as malas no quarto, meu filho adolescente não aguentava nem mais um minuto sem surfar e tive que sair correndo atrás dele para acompanhá-lo na estreia e, é claro, fazer um reconhecimento do local.

Praia de Caballero – A praia de Caballeros está dentro do distrito de Punta Hermosa, que engloba várias praias como Silêncio e La Isla. A região está a 40 quilômetros de Lima e é acessada através da rodovia Panamericana.

1600x900

Praia El Silencio, ao lado de Caballeros, Peru. Foto: Arquivo pessoal.

 

Bem diferente dos vídeos da internet com ondas raivosas e céu cinza, a Praia de Caballeros nos recebeu com Sol, céu azul e ondas bonitas que se desmanchavam no canal. A praia de areias marrom claro é rodeada por morros de areia onde existe um condomínio de luxo.

Em cada uma das pontas da praia de uns 500 metros de extensão, pedras invadem o mar formando as ondas de Señoritas, à esquerda, e Caballeros, à direita. A remada até essas ondas é muito longa, cerca de uns 500 metros. Em Señoritas, é possível entrar pelas pedras e economizar a remada, mas conforme a intensidade do mar cresce essa opção pode ser bem perigosa. A água é gelada. Entrei de short, mas não deu para aguentar muito, apesar do calor e do sol. A onda de Señoritas é uma esquerda forte, podendo formar tubos, enquanto a de Caballeros é uma direita longa com paredes retas no outside, engordando no final.

Estávamos na pousada Caballeros Surf House, gerenciada pelo surfista Ernesto, que já foi campeão do circuito latino-americano. Ernesto é gente boa transmite isso a toda pousada, que tem um clima descontraído e muito tranquilo. Aqui só hospedam-se surfistas brasileiros, o café da manhã em uma grande mesa de frente para o mar é regado a conversas de surfe.

1600x900

Caballeros, Peru. Foto: Arquivo pessoal.

 

Punta Rocas – Distante uns 20 minutos de Caballeros, está a onda internacional de Punta Roca, um dos locais mais constantes aqui do Peru. Uma onda volumosa, com direitas perfeitas e boas esquerdas. Meus parceiros da surf trip adoraram o local. Era o pico que sempre apresentava ondas maiores. Quando os outros tinham meio a 1 metro, Punta Rocas tinha 1,5m.

A entrada é fácil, com um pequeno perrengue no quebra-coco na praia, depois se vai remando por uns 200 metros até o primeiro pico e logo em seguida o segundo, onde geralmente ficam os locais mais velhos com suas grandes pranchas de 7 pés. Durante a semana, o crowd é pequeno, mas nos fins de semana a galera de Lima desce em peso e fica chato surfar.

Os picos de Punta Rocas são forrados de pedras, que geralmente ficam profundas, mas é fácil encontrar algumas grandes que quase chegam à superfície, deixando o surfe um pouco tenso. A infraestrutura do local só funciona no verão, parecendo uma praia fantasma fora da temporada, com bares e restaurantes abandonados. O fotógrafo peruano Ito é presença certa na montanha em frente.

1600x1067

Punta Rocas, Peru. Foto: Arquivo pessoal.

 

Cerro Azul – Piscina de ondas perfeitas, assim podemos chamar a Praia de Cerro Azul, distante 80 quilômetros de Caballero. Para chegar lá, contratamos o Diogo, manezinho da ilha de Floripa que está morando por aqui há três anos, e o trovão azul, caminhonete de guerra da pousada. A viagem de cerca de 1:30h é feita toda pela Panamericana de pistas duplas e asfalto impecável. Praticamente toda a viagem é por entre dunas e mais dunas de areia, um verdadeiro deserto.

 

1600x900

Cerro Azul, Peru. Foto: Arquivo pessoal.

Fiquei impressionado com a quantidade de condomínios de alto padrão de frente para o mar e no meio do deserto, mas, ao redor delas, casas miseráveis. Os condomínios são todos de veraneio dos moradores de Lima e ficam fechados quase todo o ano. Um contraste, belas casas com pouquíssimo uso e casas pobres lotadas. A desigualdade na América do Sul está em todos os países.

Estivemos por dois dias nessa piscina de ondas. Na primeira vez, à tarde, sentimos a força do localismo. Nada parecido com o brasileiro, com gritaria, xingamentos e até violência física. Aqui em Cerro Azul e no sul do Peru, os nativos não são violentos, mas gostam de demonstrar que são os donos do pico. Tentam entrar em todas as ondas, algumas rabeiam, mas não há brigas. Depois de um tempo conversando, tudo fica mais tranquilo, também pudera, os brasileiros todo ano invadem as praias peruanas, e vários desses sem respeito nenhum na água.

As ondas em Cerro Azul são longas, muito longas, de cansar as pernas. São tão longas que é mais fácil voltar caminhando pela praia do que remando. As ondas não são muito grandes, com séries que alcançam 1 metro (2 metros de frente). O fundo é de areia com algumas pedras e a entrada é muito tranquila, ao lado de rochas com meia dúzia de braçadas. Um verdadeiro playground.

1600x1067

Cerro Azul, Peru. Foto: Arquivo pessoal.

 

Uma avaliação final – Pelo menos dois dogmas que eu tinha foram quebrados nessa surf trip: que as ondas no sul do Peru eram frequentemente muito grandes e perigosas. O que vimos é que precisa-se de swell grande para as ondas quebrarem com qualidade. A previsão e a marcação de 1,5 metro, que indicariam ondas de quase 3 metros de frente, acontecem em raros picos como Punta Rocas, que tem uma formação excepcional, mas na maioria dos outros picos essa ondulação fica pequena com menos de 1 metro. Dessa forma, a minha “reza” para não entrar swell grande surtiu muito efeito, demais até, já que várias praias não apresentavam condições de surfe por falta de ondas. 

No quintal de nossa pousada, praia de Caballeros, surfamos apenas dois dias por causa da baixa ondulação, isso marcando 1,5 metro. No entanto, em Punta Rocas as ondas continuavam com esse tamanho (quase 3 metros de frente). Minha equipe de surf trip surfou bastante em Punta Rocas; eu particularmente entrei apenas uma vez e fiquei meio apavorado com as pedras. Fiquei ao lado de uma lá no fundo que dava para ficar em cima dela com a água nas canelas!!! Fora outras espalhadas por toda a ponta. Como a água estava cristalina dava para ver o tapete de pedras em todos os picos, mesmos que essas ficassem a alguns metros de profundidade. Surfava-se olhando elas logo abaixo.

1600x1067

Pepinos, Peru. Foto: Arquivo pessoal.

 

1600x1067

Pai e filho em Pepinos, Peru. Foto: Arquivo pessoal.

Outro dogma que foi quebrado é que os picos do sul do Peru não possuem crowd. Nós não surfamos nenhum pico sozinhos. Claro que tinha seus momentos que ficávamos quase sozinhos, mas durava pouco. Fomos até para um secret point, que nem é mais secret, Pepinos (nome devido a fruta pepino, não a verdura, plantada na região), lá havia uns 10 brasileiros e mais meia dúzia de peruanos. Em um point break isso já é crowd e dificulta bastante. Em Cerro Azul, o crown dos nativos começava às 16 horas, quando as aulas acabavam. Para isso ajudou bastante o campeonato Pro Junior Internacional que estava acontecendo em San Bartolo, e que reuniu vários competidores brasileiros. Sempre nos encontrávamos com alguns nos picos. E a molecada cheia de energia queria sempre pegar o máximo de ondas e nunca cansava.

 

Outro fato interessante que observamos é o aumento de crowd nos fins de semana, quando muitos surfistas de Lima chegam às praias para passar o dia ou o fim de semana. Nesses dias os condomínios, restaurantes e balneários ganham vida.

Mas, minha avaliação final foi superpositiva. A viagem, tanto em termos de surfe, quanto de infraestrutura, foi muito boa.

Não deixamos de surfar nenhum dia e pegamos ótimas ondas. Ficamos em uma pousada descolada, com pessoal muito acolhedor e amigo, só com surfistas brasileiros maneiros, ótimo café da manhã, dois bons restaurantes próximos, o Marcelo, com um delicioso ceviche com chincharones, e o Dom Angelo, com sua centenas de pratos deliciosos preparados em 15 minutos – parecia que tinham uma máquina de comida, estilo aquela dos Jacksons.

Alguns preços locais (podem variar)

– Cambio 1 soles = 0,80 reais
– Diária House US$ 30
– Cerveja Cuzquenha 600ml S$6
– Janta legal S$40
– Almoço popular S$8
– Lech FCS US$ 30
– Transfer com guia para Cerro Azul S$40 (por pessoa)

1600x900

Pôr do Sol no Oceano Pacífico. Foto: Arquivo pessoal.

Michelle des Bouillons desceu uma onda de quase 25 metros em Nazaré e pode entrar para a história como a mulher que surfou a maior de todos os tempos. Em entrevista exclusiva ao Waves, ela conta como chegou até aqui.

De Bells Beach a Raglan, Brasil vive quatro etapas de domínio histórico: vitórias, finais, nota 10 e os quatro primeiros do ranking mundial com a mesma bandeira.

Mais de cinquenta anos de câmera na mão: do Píer de Ipanema a Pipeline com Gerry Lopez, de Bob Marley no Havaí aos Rolling Stones no Maracanã. Fernando “Fedoca” Lima viveu e fotografou tudo isso. Agora reúne tudo em um livro.

Maior onda já surfada por uma mulher no Brasil é registrada por Michaela Fregonese durante swell histórico em Jaguaruna (SC)