Quando se fala o nome de Cisco Araña imediatamente vem à nossa cabeça a imagem de um surfista na completa concepção da palavra. Íntegro, de personalidade altamente zen, Cisco representa para o surf paulista, talvez ainda em maior proporção, o mesmo que representa para a história do surf carioca caras como Mudinho, irmãos Pacheco, Wanderbill e outras lendas. Para dar idéia da representatividade do santista Cisco, ele começou a surfar em 68, época em que o surf era visto apenas como diversão exótica. Nesta entrevista exclusiva à Waves, Cisco fala de sua história e ensina às novas gerações uma paixão sem limites pelo esporte.
Quando e como você começou a pegar onda?
Meu nome é Francisco Alfredo Alegre Araña, meu apelido é Cisco. Sou surfista há 32 anos e iniciei no surf em 68, aqui em Santos. Era uma época superdifícil, mas tinha uma grande turma que já pegava onda, todos agora cinquentões. Fui incentivado por meu primo Fausto e pela minha mãe.
Sempre morei perto da praia e comecei bicando pranchas… Logo minha mãe comprou uma enorme prancha de fibra de vidro, com mais de 3 metros de altura. Para levá-la à praia tinha que ser com mais três amigos meus. E assim foi o começo. Difícil. As informações eram poucas… Lembro pouco da época, mas recordo que grandes surfistas da época passavam por Santos e traziam as informações, como o o carioca Carlos Mudinho. Quando eu tive a oportunidade de conhecê-lo, em 72, ele virou meu mestre de surf . Minha maneira de caminhar e entender o surf aconteceu através dele. Alguns grandes nomes do surf santista e do estado de São Paulo também ajudaram muito no crescimento do Cisco como surfista e como pessoa.
E quando que começaram a aparecer as competições?
A minha primeira competição foi engraçada. Eu não queria estar no campeonato, que foi realizado no Guarujá, na praia das Astúrias em 72, pois eu não conhecia o Guarujá. Foi interessante, pois uns amigos fizeram a inscrição para a galera. Eles falaram que a gente tinha condições e tal, a gente falou que não conhecia o mar…mas não teve jeito. A gente foi para Astúrias com todo mundo. Nós fomos à pé. Passamos pela caixa d`água, tomamos pedrada da moçada lá, passamos pela lama… Eu tive a oportunidade de conhecer o Guarujá com uma grande ressaca e eu estava com muito medo de entrar na água. Um amigo meu, já um experiente surfista, o Eliseu, me indicou o local, o canal, e eu tive a sorte de ganhar o campeonato. O primeiro que corri eu ganhei, foi um grande presente. Para os meus pai foi assim: pra minha mãe foi superlegal, mas pro meu pai não, que não curtia muito o surf. Já entre os amigos, foi uma coisa muito legal. A partir daí, já em 73, comecei a ser selecionado para participar do Festival Brasileiro de Ubatuba. Eu sempre tive sorte de estar nas finais, sempre com boas colocações entre os oito primeiros e foi indo. O grandes campeonatos foram aparecendo com um empurrão da turma que sempre incentivava.
O que mudou dos campeonatos do passado para os circuitos atuais?
Não tínhamos muita informação sobre competição, fazíamos o que achávamos que era legal. Nós não surfávamos muito para os juizes, surfávamos do jeito que a gente sentia o surf. Hoje, o surfista surfa para o juiz. Não é muito prazeiroso! Naquela época, era mais prazeiroso porque tinha um envolvimento fora d`água, de uma camaradagem, de um acampamento… A turma toda ia junta, passava pelas mesmas roubadas, a gente aprendia com as informações do local. Hoje não, se você retém a informação na competição é importante, é estratégia. Antes, a gente nem sabia o que era estratégia. Não tínhamos preparação física, nem conhecimento psicológico, nem bons equipamentos, mal conhecíamos a praia. Existia um grande rivalidade, Rio – São Paulo e tal. Mas, hoje em dia, todos aqueles surfistas que tinham rivalidade passaram a ser grandes amigos. Hoje, a gente superou isso tudo e nos encontramos, por exemplo, no Legends, e é uma coisa muito legal. As competições me trouxeram algumas coisas negativas mas tive outras muito legais, como viajar, conhecer pessoas novas e fazer amigos. Eu tive a oportunidade de ganhar campeonatos importantes aqui em Santos, sendo que o primeiro grande foi um em 78. Era um Campeonato Nacional Aberto, com surfistas de todo o país. Foi um grande Festival e eu ganhei. Fui um dos primeiros surfistas profissionais do Estado de São Paulo. Fui o primeiro Campeão Paulista Universitário. Fui Campeão Colegial estadual… Isso foi tudo consequência. Eu gostava muito de competição, não para falar que era melhor que o outro, mas era legal que a gente tinha uma certa facilidade nas coisas.
Aqui em Santos, pelo menos a geração mais nova te conhece e te respeita como professor da escolinha. Como ela surgiu e qual a importância dela na formação de surfistas como Giovanni Ferrante, Almir Rogério e tantos outros?
A escolinha começou em 91 graças ao pioneirismo da Secretaria de Esportes junto com o Marcelo Arias, professor de Educação Física. Depois de uns cinco meses,o Marcelo praticamente saiu e nós fizemos um evento no emissário submarino, o Cidade Radical. Esse evento foi todo programado e coordenado por mim. Marcelo também auxiliou no trabalho e trouxe uma popularidade muito grande para o surf santista. Aqueles esportes considerados marginais vieram à tona. Foram mais de 40 dias de atividades com cerca de 2 mil pessoas transitando por dia. Eram jovens que iam ao local para trocar idéias ou para participar das atividades esportivas radicais. Com isso a secretaria de esportes me engajou para um trabalho da escolinha radical junto com a sede, que acabou sendo inaugurada em junho de 92. Daí pra frente, levei o barco até hoje. Creio que o importante não seja apenas a formação profissional, como os expoentes Giovanni Ferrante, Andrew Serrano e muitos outros grandes surfistas que passaram pela parte competitiva, mas o referencial muito positivo é o Posto 2. O Posto é um lugar bom para surfar, é onde a gente surfa com amigos. Não tem discriminação nenhuma com bodyboard, longboard, pranchinha, sonrizal… muito pelo contrário. Eu acho que todas as pessoas ali se sentem em casa e como se fizessem parte de uma grande família, esse é o grande lance. A grande importância é que hoje eles sabem surfar com respeito no local, sabem doar e acho que vão ser grandes homens para ajudarem o surf um dia. A minha contribuição acho que éi mais por aí, na parte moral. Eles nasceram com talento. Na verdade, nós só lapidamos e os empurramos para a frente. Graças ao incentivo da prefeitura, a escolinha pode oferecer uma boa estrutura e inscrições gratuitas em campeonatos. A gente encaminhava os surfistas sem nenhum compromisso com resultados. Nós nunca quisemos resultados, a gente queria que a pessoa participasse, que a auto-estima do aluno fosse cada vez mais fortificada. Tem muita gente boa que passou pela escola.
E essa transição das aulas na escolinha no Posto 2 para aulas de surf na faculdade, como foi?
Essa é uma grande sacada nossa, porque eu acho que Santos já tem o pioneirismo de alguns esportes. O surf no Brasil começou em Santos, em 38 (Nota da Redação: depois de ver a foto de surf em uma revista norte-americana de mecânica, o falecido engenheiro santista Osmar Gonçalves fez uma prancha e surfou pela primeira vez no Brasil). Nós tinhamos um grande sonho de colocar o surf na universidade. Eu sou formado na FEFIS, tentei lá mas não consegui e só fui conseguir no ano passado na FEFESP, através do diretor Jorge Nobrega, que foi surfista também e entendeu a real importância do surf como disciplina na faculdade pelo que o surf é no Brasil, e não porque nós batalhamos e forçamos a situação. O surf realmente tem um peso no Brasil. É o terceiro maior esporte em mídia, tem vários campeões… é organizado, tem federações, associações, a escola tem um feedback positivo para a faculdade e para a Prefeitura. Já passaram por lá mais de 30 mil pessoas em oito anos de trabalho. Enfim, teve o aval da faculdade e a sorte de ter sido a pioneira no Brasil. Eu acho demais! Eu não esperava dar aula de surf na faculdade, mas o surf evoluiu para isso. As outras faculdades logo mais vão estar com surf, assim como windsurf, jet ski e outras modalidades chamadas de radicais ou alternativas vão entrar também no currículo. Essa é a linguagem do jovem, a linguagem atual.
O que falta para a cultura do surf se intensificar no Brasil, como é na Austrália, onde cada praia tem um clube uma associação…
Falta uma coisa que é fundamental, e infelizmente o surf não trabalha com esse lado: a memória, o respeito pelas pessoas que fizeram isso acontecer até hoje. Eu só caminho nessa área. Eu jamais posso caminhar sem falar das pessoas que me fizeram estar aqui. Ou seja, meu mestres Carlos Mudinho, Homero… enfim, são tantas pessoas que fizeram o surf estar aqui. A Austrália faz isso, o Hawaii faz isso, a Califórnia faz isso. O Brasil precisa disso também. Precisa resgatar a memória, precisa que as pessoas respeitem um grande surfista, por isso o campeonato Legends é um grande evento, por agregar esses valores importantes para a juventude. Esses garotos que estão vindo aí têm que respeitar os mais velhos não porque eles são mais velhos, mas por educação. É natural, as novas gerações aprendem com as mais velhas. Isso faz falta no surf, é importante isso ser passado nas revistas, para que estes caras estejam aí toda hora. É importante estar junto. Ninguém discrimina o novo, mas o novo discrimina o velho e isso não pode acontecer no Brasil, principalmente no surf. Se o mar está grande, imenso, tipo uns 3 metros, alguns poucos surfistas jovens vão estar lá dentro, mas bastante gente da antiga vai estar dentro também, por ter experiência. Esse é o grande lance. O que falta para essa nossa tribo é um pouco mais de memória, um pouco mais de união nesse sentido. Porque se eles tiverem respeito a coisa vai fluir. É isso o que eu penso.