
Alto astral e muito talento. Essas são as duas principais qualidades de Heitor Pereira e Júnior Faria, dois talentos da nova geração brasileira.
Além de morarmos no Guarujá, também tive o prazer de passar bons momentos com a dupla nas últimas temporadas havaianas.
Defino-os como ”Batman e Robin” da praia do Tombo, Guarujá. Um completa o outro.
Enquanto Juninho é o mais recatado, Heitor não pára um minuto.
Nesta entrevista, eles contam como desenvolveram o talento para manobras
inovadoras, treinamentos e

os planos para o futuro – representando nosso país mundo a fora.
Vocês nasceram no Guarujá? Começaram a surfar na praia do Tombo?
JR – Eu nasci no Guarujá, mas não comecei a surfar no Tombo.
H – Eu, inclusive nasci no Tombo.
Qual é a idade de vocês e quando pegaram onda pela primeira vez?
JR – Comecei com três anos e estou com 17. O Heitor tem um ano a mais, 18.
H – Comecei com oito. O Juninho era

“Malufeiro” (galera que surfa no Canto do Maluf,
na praia das Pitangueiras). Depois que começou a treinar com o Paulo Kid (técnico deles até hoje), ele começou a freqüentar mais o Tombo.
Quando vocês começaram a surfar juntos?
H – Eu tinha 11 e ele 10 anos.
Já pensavam em ser surfistas profissionais com essa idade?
JR – Não lembro o que eu pensava (rs).
H – Tenho esse sonho desde quando comecei a surfar.
E como foi o começo nas competições ?

JR – Foi o Paulo Kid quem botou pilha. Nos fazíamos a escolinha dele, desde os 10 anos e começamos a treinar forte, com objetivo de ter bons resultados nas competições.
H – Eu comecei um pouco antes do Júnior. Já tinha feito por um ano a escolinha do Zé Radiola, que acabou se mudando de volta para o Nordeste. Depois, fui para a escola do Kid.
Quem mais treinava com vocês na escolinha? Vocês eram a dupla Batman e Robin do Kid? Ele também é o manager de vocês?
H -O Sandino Honke, Roni Bonetti e o Vítor Farias. O Kid treinava todos juntos e hoje ele

também trata dos nossos negócios, arrumando patrocínios, agendando viagens e campeonatos.
Quais foram os surfistas que inspiraram vocês no começo da carreira?
JR – Kelly Slater, Taylor Knox e Bruce Irons
H – Kelly Slater, Will do Tombo e Bruce Irons.
Vocês passam a imagem do Guarujá. Muitos talentos saíram daqui, como Tinguinha, os próprios irmãos do Tombo, entre outros. Rola uma pressão ou não?
JR – Todo mundo veste a camisa do local onde cresceu e freqüenta. Normal. Nós não chegamos a acompanhar a carreira profissional dos irmãos do Tombo, mas eles arrepiam até hoje.
H – Nós temos que representar o Tombo, antes de qualquer coisa, afinal, nasci ali, é a minha casa.
Na minha época, os moleques que arrebentavam com a idade de vocês eram o Renato Wanderley, Binho Nunes, Erick Myakawa, Neco Padaratz. Acho a rapaziada de hoje muito mais elástica. Essa nova geração, de Trekinho e Cia, tem um talento natural para essas manobras modernas, como aéreos 360º, reverses etc. Vocês acham que isso é decorrente da evolução genética ou é treino mesmo?
JR – O seu corpo acompanha a evolução do esporte. Acho essa a melhor explicação.
H – É a evolução do esporte mesmo. Eu vejo a galera extrapolando e corro atrás do prejuízo. Não importa onde.
O surf de vocês é baseado nessas manobras? Como vocês definem o estilo de cada um?
JR – Acho que faço o overall (tudo um pouco). Para competir bem hoje você precisa saber mandar bem em tudo. Manobras radicais, fluidez e esperteza nas baterias.
H – Eu também tento fazer de tudo um pouco.
Vejo vocês arrepiando nos aéreos. Fazem por prazer, ou porque esse tipo de manobra conta mais hoje em dia? É a manobra predileta de vocês ?
JR – Nós dois treinamos porque gostamos. E ainda bem que essas manobras estão sendo reconhecidas.
Quais os principais títulos até agora?
JR – Quinta colocação na categoria Mirim do Mundial Amador na África. Também fui campeão paulista em duas categorias (Júnior e Mirim) no ano passado.
H – Campeão paulista, tetracampeão colegial e vice-brasileiro amador.
O Júnior ficou em quinto no Mundial Amador. E você, Heitor, qual colocação obteve no campeonato?
H – Terminei em 17º. na categoria Júnior.
Quando vocês correram o Mundial, o que acharam do nível dos gringos? O Brasil está nas cabeças?
JR – Nós fomos campeões mundiais no Tag Team. Ganhamos das equipes da Austrália, Hawaii e França. Vencemos os favoritos.
E o surfe profissional?
JR – Eu sou amador, mas devo me profissionalizar no ano que vem.
H – Virei profissional neste ano.
O que vocês pretendem como profissionais?
H – Correr as últimas etapas do WQS, com quatro ou seis estrelas neste ano, além do Brasil Tour, para obter um espaço no SuperSurf e o Mundial Júnior.
JR – Eu devo fazer o mesmo que ele só que na próxima temporada.
O que vocês acharam do Hawaii ? Ondas grandes ?
H – Todo amador tem que ir e ficar um tempo. É essencial.
JR – Animal. É um grande desafio para qualquer um. Aquelas ondas enormes, o medo do caldo, e também aquela sensação de fazer a onda no final. Show.
Heitor, onde você aprendeu a entubar de backside? Vi que você leva jeito para a coisa. Eu, por exemplo, tive que ir para Indonésia aprender. O tubo de back para os regulares, como nós, é uma dificuldade real.
H- Na minha viagem para Mentawai, dois anos atrás, consegui desenvolver bem a parada. Macarronis é uma esquerda show.
E as competições em ondas pesadas. Vocês acham que os brasileiros estão no nível dos gringos em ondas como Pipe e Teahupoo?
H – Vi a galera em Pipe e Teahupoo. O Kelly Slater e os Irons lideram a parada. Precisamos correr atrás do prejuízo.
Júnior, sua família freqüenta a igreja cristã. Vi o Heitor na Igreja no Tombo. Como rola o lance do sexo, já que vocês são garotos religiosos ?
H – Sexo é show. Não dá para ser perfeito.
JR- Eu sou virgem (muitos risos).
O Heitor está sempre no Tombo com a galera. Já o Juninho é mais caseiro, né?
JR – Pode parecer, mas o Heitor é a maior cobrinha sem veneno (rs). Só faz enxame, mas não oferece perigo para as meninas.
Vocês dividem também as namoradas?
H – Não, ele sempre estudou em outro colégio, então não rolou disputa. Nem divisão na praia também (rs).
Vocês estão namorando? Acham que mulher atrapalha a vida dos atletas no Tour ?
H – O negócio é deixar em casa lavando roupa (rs). Mas, é bom às vezes. Deve ajudar a manter o foco.
JR – Tem que deixar em casa. Senão acaba atrapalhando.
Vocês acham que Deus preparou vocês para serem surfistas?
JR – Tinha que ser. Você vê que é porque a galera não consegue viver sem o surf. Não dá para imaginar o que eu ou o Heitor seria sem o surf.
Heitor, como foi essa viagem de seis meses entre Hawaii, Austrália e Tahiti ? A idéia foi sua?
H – Foi do Paulo Kid, meu técnico e manager. Fiquei dois meses no Hawaii, depois mais dois na Austrália e terminei com um mês em Teahupoo.
Como são os treinamentos com o Kid?
H – Treinamos três vezes por semana. Ele mais filma do que faz baterias. Muito bacana.
E vocês também fazem treinamento físico com o Ricardo Vilalva (vulgo Picuruta do Tombo) ?
H – Fazemos musculação, natação e alongamento. Se estivermos indo para o Hawaii, dois meses antes treinamos apnéia, e se formos correr baterias em ondas longas, como Itamambuca, fazemos um treino desenvolvendo resistência. Irado.
Vocês sentiram na pele os resultados desse trabalho paralelo. Há cerca de cinco anos, também desenvolvo trabalho parecido e os resultados foram impressionantes. Todo atleta deveria se preocupar com o esforço fora da água também?
H – Estou sentindo muito mais confiança. As pernas estão mais fortes, manobras saem com mais pressão.
Músicas?
H – Gosto das músicas dos filmes de surf, como PennyWise, Eightfive.
JR – Tenho ouvido mais Millencolin e Jack Johnson.
Quais as melhores praias para um evento no Brasil? E as melhores ondas ?
H – Maresias e Matinhos. Altas direitas.
Jr- Concordo, mas não podemos esquecer de Noronha.
O que vocês acham do mercado do surf? Vocês sabem o que é mercado?
JR – Claro que não. É uma espécie de feira (rs)? Alguns patrocinadores enganam legal aqui. Falam que vão te patrocinar, pedem para colocar adesivos nas pranchas e acabam nem apoiando. Pedem até para vender peças de roupa etc. Fazemos parte de uma minoria que pode realmente contar com patrocínios. A parada aí fora está feia.
H – Pôxa, essa parada é punk. Depois que fui para a Austrália e vi a maior galera sendo patrocinada, fiquei indignado. Todo mundo ganhando bem. Tem muita gente no Brasil que arrepia e não tem patrocínio, como o Felipe Martins, Haroldo, entre outros.
E a mídia, vocês tem alguma reclamação?
JR – Acho a maior injustiça a política das revistas de somente publicar fotos de quem tem patrocínio. Devem ter altas fotos nas redações, mas se o cara não tiver um patrocinador anunciando, não sai. Muito triste…
Qual o quiver de vocês?
JR – Mário Firmino. Nós fazemos pranchas com ele desde moleques. Muitos anos de trabalho. Tenho uma 5’10, duas 5’11, uma 6’2
H – Uma 5’10, duas 5’11 e uma 6’2.
E as ondas grandes?
H – Quero pegar mais Waimea. Já peguei no ano passado. Tenho uma 9?6 show.
E no Hawaii, quais são as pranchas que vocês usam? Quando vão para lá neste ano?
JR – Duas 5?11, 6’2, 6’5, 7’2 e 8’5. Não sei, porque pretendo passar um tempo na Austrália. Devo fazer o mesmo roteiro do Heitor do começo do ano.
H – Duas 5?11, 6?2, duas 6?5, 7?2 e 9?6. Em novembro, para ficar uns dois meses.
O que é essa marca de vocês, Contraw. Vocês são sócios? Como funciona ?
JR – Nós dois criamos a marca, mas estamos esperando um investidor que se interesse. Por enquanto só fazemos adesivos e colocamos na prancha. Registramos também.
O que quer dizer Controw? Quem serão os futuros patrocinados ?
JR – Controle Total. Simplificamos e ficou Controw. Ainda vamos patrocinar alguns atletas, como Felipe Martins, Ernesto Nunes, Fabrício, Bocão, Dennis Tihara.
E os estudos?
JR – Estou terminando o terceiro colegial.
H – Bombei o terceiro colegial no ano passado e tranquei.
Quais são os patrocinadores de vocês?
H – Volcom, LuiLui, Gzero e Mário Firmino.
JR – Hang Loose, LuiLui, Gzero e Mário Firmino.
O que vocês pretendem fazer quando pararem de surfar? Vocês acham que dá para juntar uma grana?
H – Pretendo comprar vários terrenos na praia do Guaiúba e alugar (risos). E ter um casal de filhos.
JR – Vou colocar tudo no banco e viver de renda (risos). É cedo para pensar nisso.
Onde vocês se imaginam daqui cinco anos?
JR – Top-5 no WCT
H – WCT
Boa sorte!
Aloha