Durante um dia conturbado, em meio à difícil guerra da captação financeira pelas leis de incentivo à cultura e esporte, vejo minhas possibilidade de crescer como ser humano serem esmagadas por um país extremamente subdesenvolvido e cada vez mais engolido pela corrupção.
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Recebo a ligação de um grande amigo da faculdade, o Rodrigo Boabaid, que voltou para sua terra natal, Vitória (ES). Ele simplesmente anunciava que tinhamos sido sorteados para comprar os ingressos para o retorno do Led Zeppelin, depois de 20 anos sem tocar. Os monstros do Rock and Roll estavam de volta.
Depois da morte de John Bonham, um dos maiores solistas de bateria da história, a banda nunca mais havia tocado. Seu filho que aparecera no primeiro filme da banda, tocando bateria com apenas quatro anos de idade, ia tocar com os amigos de seu pai. Jason Bonham teria uma tarefa nada fácil.
O fato é que estavam de volta, a banda que eu cresci escutando, uma música que sempre mexeu com os meus sentimentos mais íntimos, e que eu descobri numa época maravilhosa da minha vida através de meu tio.
O início da adolescência, os primeiros amores, o início do surf, imerso na arte desses gênios, eu vivi os melhores momentos da minha vida, mas nunca imaginei que pudesse assistir um show deles algum dia. E de repente a oportunidade estava ali na minha frente.
Fomos sorteados com dois dos 10 mil lugares disputados por 20 milhões de pessoas. Eu precisando viajar para concluir meu filme e treinar em ondas grandes. Seria oportuno dar um tiro tão grande num sentindo totalmente oposto? Seria a primeira vez em 15 anos, que eu viajaria para o exterior sem visar o meu treinamento e as ondas grandes e tubulares.
Não seria uma loucura em meio a situação de nosso país, viajar pra Londres para ir a um show!? Um ato um tanto quanto insano, até pelas condições financeiras no momento da minha familia. Mas eu sabia que aquela oportunidade seria única, e num ato de confiança em mim mesmo, decidi arriscar a viagem.
Chegando em Londres, uma surpresa ao descer do metro, e subir as escadas para a Oxford Street, a imagem que eu tinha de uma cidade velha, fria e úmida, mudou instantaneamente.
Me deparei com uma multidão de pessoas, mulheres lindas, impecavelmente trajadas, cabelos maravilhosos, e vitrines modernas, misturadas a construções da idade moderna e algumas lembrando a idade medieval, taxis antigos, os típicos ônibus londrinos, em meio a Porches e Rolls Royces, ou seja, designs e arquiteturas requintadas, que contam um pouco de nossa história no tempo.
Logo no primeiro dia jantamos em um restaurante Tailandês, relativamente barato, e muito bom. No segundo procurávamos o mesmo, e acabamos em um restaurante de cozinha moderna japonesa, com muitos frutos do mar, alguns grelhados na brasa que eram preparados na frente dos clientes, no meio do restaurante.
Sentamos ao lado de uma mulher muito linda no balcão, era morena, e seu extremo bom gosto era evidente. Logo ela nos abordou e começou a comentar sobre o show do Led Zeppelin, era uma executiva de Chicago que estava ali a negócios, mas estava oferecendo 2.500 libras por ingresso. Ficamos algumas horas conversando, recebendo inclusive alguns elogios, entre eles que as mulheres em Chicago adoram Brasileiros.
Mas não parou por ai, em seguida chega um casal senta do outro lado, e nos aborda também sobre o show, era o vice-presidente da Warner Bros e a direção de criação da companhia. Ele havia produzido, o ultimo DVD do Led Zeppelin e estava trabalhando na produção deste.
Voltamos para o hotel sentindo a boa vibração da viagem, com um cartão do vice-presidente de uma das maiores companhias de cinema do mundo, nada mau para um cineasta iniciante. Tudo andava muito bem.
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No dia seguinte chegamos no O2, um dos principais centros de entretenimento do mundo, um ambiente cercado por uma lona gigante, com estruturas muito modernas em seu interior, e um espaço para show com capacidade para 20 mil pessoas, com acústica impecável.
Um ambiente construído com todo cuidado especialmente para shows. Foram três horas na fila para pegar os ingressos e receber as pulseiras. Na fila sentiamos a vibração das pessoas de mais de 50 países que estavam ali, especialmente para essa ocasião.
Mulheres saíam com as pulseiras e ingressos na mão gritando, velhos e jovens se misturavam na expectativa de ver uma das maiores bandas da história.
Saímos de lá uma oito horas da noite, e muitas pessoas dormiam no chão para garantir um bom lugar em frente ao palco.
O dia do show – Ao chegarmos no O2 no dia do show, um Zeppelin flutuava sobre a lona, a fila ainda estava tranqüila e não era muito grande. Nos acomodamos e fomos conhecendo aos poucos as pessoas que ali estavam, da Rússia, Áustria, Ohio, Califórnia, Nova Iorque, Áustralia, França e outro países.
O lugar estava impecável. No chão, um tapete vermelho ao lado arquibancadas, e o palco em forma de concha. Me impressionava a altura do palco, cerca de 1,5 metro no máximo, tocava ao fundo o som de Robert Jhonson. Logo nos acomodamos próximos ao palco. A decoração, as imagens que passavam no telão gigantesco no fundo do palco, a música que tocava, a disposição dos equipamentos mostravam que aquele não seria apenas mais um show.
Estávamos presenciando um momento histórico, uma homenagem a um dos maiores empresários da história da música, Ahmet Ertegun, turco filho de diplomatas. Ele fundou a Atlantic, gravadora que levou nomes como Aretha Frankiln, Rolling Stones, Ben & King e o próprio Led Zeppelin.
Ahmet é adorado por quem o conheceu, considerado uma pessoa com muita essência e alma, ele abandonou
e negou a carreira de diplomata que sua familia havia planejado pra ele.
Decidiu ganhar a vida fazendo o que mais gostava, abandonou tudo, pediu 10 mil dólares emprestados para seu dentista e iniciou a Atlantic Records. Morreu em 2006, num show do Rolling Stones.
Os maiores gênios do rock se uniam novamente depois de vinte anos, para um tributo a este grande
homem que foi Ahmet. Uma frase sua foi exaltada junto a sua imagem no telão “Is a great life, this life of music”. É uma grande vida, essa vida de música.
O show iniciou com uma formção que misturava The Who e Yes. Em seguida os astros subiram no palco, e a primeira música do disco I, com um titulo perfeito para a abertura iniciou esse momento história Good Times, Bad Times. O público foi ao delírio, eu mesmo senti uma emoção indescritivel, a emoção total tomou conta de todos.
Escutar ao vivo, a batida da bateria do filho de Jhon Bonham, talvez o melhor baterista de rock da história, que aprendeu com o pai os segredos da bateria desde seus quatro anos de idade, os timbres da guitarra de Jimmy Page, o baixo tocado pelo maestro e tido como um dos maiores compositores da Inglaterra, Jhon Paul Jones, a voz do precoce cantor de Blues Robert Plant, que desde seus 15 anos dedicou sua vida ao blues e ao rock and roll.
Era algo que colocava todos ali presentes num estado que misturava a contemplação e o transe. Algo proporcionado somente pelos maiores artistas da humanidade.
O show seguiu emocionando velinhos, artistas, nomes famosos como Mick Jagger, Marilyn Manson, Paul McCartney, Jeff Beck, Brian May, Mike Rutherford, Jerry Hall, Kate Moss, Naomi Campbell, entre muitos outros se misturavam ao público e eram embaladoss pelas levadas, solos de guitarra, viradas explêndidas de bateria, bases únicas de baixo e pelo som da voz de Robert Plant.
Um show onde as estrelas se sentaram e se entregaram à contemplação e admiração. Uma verdadeira obra de arte, que transformou a todos que ali estiveram dispostos e entregues ao som de LED ZEPPELIN.

