Logo que cheguei a Austrália, em agosto do ano passado, fixei na cabeça a idéia de conhecer o máximo possível daquele país, pois sabia que depois de um ano teria que voltar ao Brasil. Sydney foi onde morei, estudei e trabalhei.
Além de ser uma cidade linda, as praias de norte a sul recebem swell de qualquer direção e são recheadas de point breaks de alto nível. Picos como Little Avalon, local de surf de Kelly Slater, costumam assustar bastante nos dias grandes. O único problema são os períodos de flat, que podem chegar a quase um mês por lá.
Minha primeira surf-trip aconteceu no Reveillón. Junto com a brasileirada, fui para a famosa Gold Coast. No verão, época de ciclones, Kirra, Duranbah e outros picos costumam quebrar clássicos. Costumam, mas não quebraram. Minhas lembranças da Gold Coast se resumem as baladas em Byron Bay e Surfers Paradise.
Voltando para Sydney percebi que teria que ralar muito para conseguir o dinheiro necessário para uma surf-trip de grande escala. O objetivo era viajar até o Oeste australiano, passando pelo Sul. Durante cinco meses trabalhei de auxiliar de pedreiro em uma construção.
Foram dias difíceis, mas no final valeu a pena tanto sacrifício. Com o dinheiro na mão, ia me preparando para a trip. Um carro de confiança, máquina fotográfica e equipamento para surfar as grandes e agüentar o inverno que prometia temperaturas bem baixas, era tudo que eu precisava.
Próximo ao dia da partida, encostou um swell monstro na costa Leste inteira. Alguns beach breaks funcionavam perfeitos com ondas de até 8 pés. Foi o melhor e maior surf que fiz em Sydney desde que havia chegado. Logo fiquei sabendo que na Gold Coast estava quebrando de 12 a 15 pés, onde a galera local e alguns profissionais estavam surfando de tow-in.
Por alguns instantes me deixei levar pela emoção e quase mudei a rota da viagem. Meses depois, quando estava na Indonésia, fiquei sabendo através da revistas de surf australianas que aquele fora considerado o melhor swell da costa Leste de todos os tempos. Enfim, me despedi dos amigos e parti, sozinho, para a maior eco-surf trip da minha vida.
Meu carro, o Dread Lion, era uma Van Mitsubishi 82. Não tinha bancos atrás e sim uma cama. Debaixo dela duas pranchas, uma 6?2? e uma 6?8?, um fogareiro, minhas malas e um monte de tranqueira. Nas descidas chegava a alcançar 100km/h, mas logo notei que não era muito recomendável acelerar demais com aquele carro, principalmente nas curvas.
As estradas na Austrália são verdadeiros tapetes. Placas em todos lugares não deixam que você se perca em sua rota, mas a utilização de um mapa é imprescindível. A primeira parada foi numa cidadezinha chamada Wolongong, que fica a aproximadamente quatro horas ao Sul de Sydney. O pico escolhido foi Sandon Point, um fundo de pedra alucinante que só se vê em revista ou vídeo de surf, com com 6 pés clean. Era uma direita forte e pesada, com drop rápido seguido de uma seção tubular e na seqüência um paredão aberto disposto a receber uma série de rasgadas e cut-backs.
Antes de entrar na água, tirei umas fotos e assisti um festival de tubos e muitas vacas. Para entrar no pico a remada era forte devido à correnteza. Disputar um lugar no crowd de locais foi meio chato, pois era o único pico que estava segurando naquele dia de storm. No final das contas saí do mar com quatro ondas boas e um sorriso de uma orelha a outra.
Na primeira noite da viagem não sabia direito o que fazer. Onde armar o fogão para cozinhar, em que lugar seria melhor estacionar o carro para dormir, mas tudo foi se arrumando naturalmente. Viajar pela Austrália é uma experiência gratificante. Eu parava em qualquer canto e fazia amizades passageiras pelo caminho, além de ser bastante seguro, pois, assaltos ou qualquer outro tipo de violência praticamente não existem por lá. Desse jeito fui seguindo meu caminho sem maiores problemas.
O próximo destino era Jervey?s Bay, uma das poucas reservas aborígines, talvez a única, onde os descendentes diretos dos primeiros povos da Austrália vivem bem. Instalados em casas de alto nível, com escolas e hospital na região, eles se diferem dos outros aborígines que encontrei pelo caminho. A maioria deles sofre preconceito, não trabalham e o pouco que recebem do governo utilizam na compra de bebidas alcoólicas, prejudicando ainda mais sua imagem.
Jerveys Bay possui uma das esquerdas mais famosas de todo país. Cloudbreak, Black Rock e Pipe Ozzie são alguns nomes dados ao mesmo lugar. A onda é uma esquerda que segura até 10 pés clássicos com swell e vento certo. Não é por acaso que chamam este lugar de Pipeline australiana. Infelizmente quando passei por lá as ondas não passaram de 3 pés. Surfei neste pico e num bech break próximo, Caves Beach. Mais uma vez, de cabeça feita, sai do mar para traçar o caminho até o próximo ponto de parada.
Viajar sem lugares pré-definidos é muito bom. A sensação é de liberdade total. Com um mapa na mão e um guia de surf dos picos de cada região, é só dirigir tranqüilo curtindo o visual, que por sinal ficava cada vez mais interessante.
No quarto dia o tempo mudou e entrou uma massa nebulosa que trouxe muita chuva e vento, prejudicando as condições de surf num raio de aproximadamente 800 km. Dirigi muito e passei por lugares de altas ondas, como Uladulla, mas o frio e o mar mexido não me deixaram entrar na água. Mais estrada, e quando percebi já estava na divisa do Estado de New South Wales com Victoria.
O frio começa a ficar mais intenso naquela região e as cidadezinhas se assemelham aos filmes do velho oeste. Surge então o primeiro problema no carro. Um pneu furado, ou melhor, estourado. O carro começou a sacudir por uns 100 metros e veio o estouro. Olhei pros lados e só via mato. Tirei o macaco do carro e percebi que faltava uma peça. Sem pânico comecei e acenar para os poucos carros que passavam quando um senhor parou para me dar uma mão.
O tiozinho me emprestou o ?jack? (macaco) dele e me ensinou um truque para usar o meu, com a utilização de um martelo. Então, olhando para os pneus do carro, falou: ?Hum… Você ainda vai usar muito este macaco?. Foi aí que eu percebi que muitos pneus ainda explodiriam ao longo da trip.
Antes de chegar na capital de Victoria, em Melbourne, existe uma ilha que é vasta em fauna, flora e ondas praticamente sem crowd. Foi lá, em Phillip Island, que surfei num dos lugares mais bonitos que já vi. Era uma esquerdinha sobre fundo de pedra redonda, numa reserva de pingüins. Depois das cinco da tarde ninguém pode ficar por lá porque os pingüins saem do mar e vão para suas tocas dormir.
Só fui saber disso depois do esculacho que levei do guarda florestal. Ele me ?escoltou? até a área liberada e, durante o trajeto, vários pingüins atravessaram na nossa frente. Nesta ilha também tive um contato mais próximo com os animais característicos do país. Cangurus e Koalas, entre outros, são animais bem diferentes dos que estamos acostumados no Brasil.
Quando cheguei em Melbourne, tomei um choque ao entrar em contato com a civilização novamente. Depois de oito dias passando por ilhas, morros, dormindo à beira mar e surfando altas ondas, o resultado não poderia ser diferente. Já não tomava banho havia uma semana, mas mesmo assim tive coragem de entrar num cassino e gastar alguns dólares em caça-níqueis e cerveja. No dia seguinte revelei algumas fotos e segui em direção a um lugar há muito tempo esperado.
Bell?s Beach e toda a costa que a rodeia é, sem dúvida, um lugar especial. Do alto dos morros fica visível a formação dos reefs e a perfeição com que as ondulações os atingem. A galera local é muito tranqüila e o surf lá pode ser considerado uma religião. O swell não passou de 4 pés, mas mesmo assim deu para sentir a vibração e o potencial do pico. Além de Bell?s, o pico ao lado, Winkipop, e a praia de Torquay são famosos por receberem ondulações de 8 a 12 pés clássicos.
Fiquei por lá uns três dias e não cheguei a conhecer o verdadeiro power daquela costa, e as informações que tinha era de que o swell continuaria fraco e a tendência era diminuir nos próximos dias. A Great Ocean Road é a estrada mais famosa da Austrália. Uma pista sinuosa que beira o oceano por cerca de 500km. O visual é alucinante por todo o trajeto e quando termina a estrada, se aproxima um dos cartões postais mais conhecidos do país.
Uma formação rochosa muito curiosa e de uma grandiosidade sobrenatural. Os Doze Apóstolos recebem visitantes de todos os lugares do mundo, durante o ano inteiro. Assistir ao pôr-do-sol naquele lugar foi uma bênção e reabasteceu minhas energias para continuar a viagem, que a partir de então se tornaria um pouco mais turística do que ?surfística?.
Já no Estado de South Austrália, onde se escondem inúmeros secret spots, a estrada se transforma numa reta que parece infinita. Dirigi talvez uns quatro dias direto, só parava à noite para dormir. Lá também se encontra o deserto do Nullabor, e a vida humana vai se tornando mais escassa ao passar dos quilômetros. A maioria dos viajantes era composta de casais de velhinhos, pilotando bons carros que rebocavam seus traillers.
Percebi que algumas pessoas me consideravam uma atração turística atravessando aquele deserto, pois vários acenaram para mim com aquele sorrisão na cara. Realmente, um barbudo dirigindo uma van verde, amarela e vermelha, de óculos escuros e touca, chamou um pouco a atenção.
Minha próxima parada seria Cactus, um lugar muito temido pela forte presença de tubarões brancos, com freqüentes ataques fatais. E eu estava ciente disso. Na noite anterior, no camping onde dormi, perguntei ao proprietário sobre os ataques e ele me falou que o último havia sido há um ano e que todos os dias tinha alguém surfando, por isso não era tão perigoso.
As recomendações para evitar possíveis dentadas são: evitar o surf muito cedo e no fim de tarde, que são períodos de alimentação dos animais; evitar surfar sozinho, pois em companhia de alguém suas chances de ser atacado caem para 50%; não surfar com ferimentos abertos nem urinar na roupa de borracha, porque o olfato do tubarão é extremamente aguçado.
Cactus é um pico mágico. Para chegar lá é preciso pegar uma estradinha de terra que passa por entre dunas e rios. Naquele dia o sol estava forte, aumentando ainda mais a beleza do pico e a minha ansiedade. Chegando próximo das ondas, já sentia o cheiro do mar e aquela brisa terral, que com certeza influenciariam nas condições. Havia uma galera acampada, e outra que tinha ido passar o dia. A vibração era totalmente positiva e as ondas estavam quebrando de 3 a 4 pés.
Várias bancadas de recife compõem o cenário, formando ondas para esquerda e direita. Eu caí no canto direito da praia, numa bancada chamada Crushers. Esperando as ondas no pico eu podia escolher entre uma direita longa, favorecendo cut-backs, ou uma esquerda mais rápida e curta. O crowd era de seis pessoas na água, e eu era o único com menos de 40 anos no pico. Aquele dia eu peguei tanta onda que saí da água com as pernas bambas.
Travei contato com freqüentadores assíduos do pico que me contaram histórias sobre o potencial de surf da área, alienígenas e, é claro, tubarões brancos. A estrada que corta o deserto é muito longa e chega até a divisa com o Estado de Western Austrália, onde existe um posto de averiguação para evitar a entrada de vermes e pragas que possam contaminar as plantações no local.
Fui parado para averiguação e estava tudo bem com a minha bagagem, mas transportava algo que oferecia perigo: um cacho de bananas! Eu tinha duas opções para passar a fronteira. Ou comia todas as bananas ou teria que jogá-las fora, opção esta que jamais aceitaria. Já era tarde e decidi encostar o carro próximo ao local onde aos poucos fui comendo todas as bananas. No dia seguinte, o café da manhã foi composto de bananas com pão de forma. Irado! Energia pura. Segui viagem com as janelas abertas para aliviar a ?tensão? dentro do carro.
No oeste australiano parece que o tempo parou. As pessoas são estilo ?Família Buscapé?, tendo a agricultura como principal fonte de renda. A água do mar é de uma tonalidade diferente de azul, que chega a parecer água de piscina. O pico mais famoso da região é Margaret River, que além de altas ondas produz grande parte dos vinhos australianos de maior qualidade.
Muitos surfistas são atraídos para lá por existir a oportunidade de trabalhar nas fazendas de uva e morar num lugar tranqüilo, além de surfar num dos melhores picos do mundo. No final de tarde, moradores e visitantes vão à praia assistir o pôr-do-sol e degustam taças de vinho fabricados no próprio ?quintal?.
Todo trecho litorâneo próximo à Margaret é recheado de reefs e beach breaks de alto nível, e foi nestes lugares que surfei as ondas mais pesadas de toda a trip. Em Margaret, além da bancada principal, existe também uma mais outside e uma à direita muito famosa, The Box. No main break quebra um triângulo, sendo a esquerda a que abre mais e que nos dias muito grandes torna-se a única opção.
No primeiro dia de surf estava quebrando 8 pés com um vento terral muito forte. Olhando de fora parecia grande, mas tranqüilamente surfável. De dentro do canal a situação já não era a mesma e quando me aproximei do pico e vi de perto alguns drops, percebi a verdadeira força da onda. Realmente o drop era cavernoso e exigia muita força no bottom.
Sobrevivendo à primeira sessão, a parede abria totalmente, cabendo até cinco manobras de pressão. Depois de cometer o primeiro erro e dropar uma direita que terminava bem onde rola a maçaroca das ondas que vinham em seguida é que comecei a me adaptar nas condições. Levei umas quatro na cabeça que me sacudiram e arrastaram para bem longe.
Fiquei meio assustado e tive que remar muito pra voltar pro pico novamente. Aos poucos fui relaxando e entrando em comunhão com as bombas do oeste australiano. Na semana que seguiu, as ondas rolaram todos os dias, mas o vento, mesmo sendo terral na maioria das vezes, é fator predominante para ajudar ou prejudicar as condições do surf.
Depois de 35 dias de trip, 7000Km rodados e quatro pneus estourados, estava mais do que feliz de ter realizado um sonho que há muito tempo tinha em mente. Ondas, paisagens e aventuras não faltaram em todo o trajeto. Era chegada a hora de me despedir da Austrália e partir para Bali, onde surf não faltaria.
Viajar da Austrália para Indonésia não é tão caro e nem muito longe, por isso não poderia voltar ao Brasil sem antes dar uma passada por lá. No embarque fui barrado por problemas com o passaporte e, até regularizar a minha situação, teria que esperar no mínimo dez dias. Tomei as providências necessárias, um tanto quanto furioso com o contratempo, mas acabei tranqüilizado com a última sessão de surf num point break clássico, com ondas que lambiam as pedras e vários golfinhos interagindo no pico.
Dentro da água já sentia saudade por ter que me despedir de um país tão bonito e de um estilo de vida completamente diferente do qual vivemos aqui. Espero voltar um dia…