Neste momento em que todos nós, brasileiros, nos sentimos indignados, e por que não dizer irados, com mais uma agressão durante uma prova do Pipe Master, ao menos precisamos saber a origem dessa revolta.
A história da anexação do Hawaii pelos EUA faz-nos entender essa ira do havaiano pelos haoles (aqueles que são de fora do arquipélago).
Em 1959, o Hawaii passa a ser o 50o estado americano, provocando notórios sentimentos de ?antiamericanismo? por parte da população indígena, sobretudo o sentimento de o Hawaii representar uma certa forma de colonialismo moderno.
Paralelamente, ostenta-se o orgulho pela cultura polinésia, da qual descendem os primeiros habitantes do arquipélago.
Durante uma década freqüentei o Hawaii como fotógrafo e surfista. Vi muita coisa e pelo menos duas vezes fui hostilizado dentro e fora da água. Descobri que, quando você encara o havaiano de frente, mostrando coragem e atitude, eles passam a te olhar com respeito.
Certa vez tive a oportunidade de conhecer o Dane Kealoha numa situação bem curiosa. Ele era o cara mais temido do North Shore, porém uma história com um brasileiro fez com que ele viesse ao Brasil algumas vezes e gostasse do nosso jeito Nuts (malucos).
Essa história começou na África do Sul, quando em 1979, em pleno ?apartheid? (política de segregação racial), Dane desembarcou e por causa da sua pele escura acabou não podendo ficar no hotel em que todos os outros competidores ficaram.
Porém, o brasileiro Luiz Lovaes, piloto da Varig e surfista, se ofereceu para dividir um quarto com Dane, frutificando então uma grande amizade, já que Dane viria a ganhar o Gunston 500 em Durban.
Na década de 90, conheci o Luiz Lovaes na casa do shaper Heitor. Cheguei ?de noitinha? e o chão da casa tremia devido à proximidade de Pipeline. O mar havia subido e parecia que as ondas quebravam na varanda.
Na manhã seguinte, acordei com alguém buzinando no quintal e, ao olhar pela janela, vi aquela caminhonete que fazia todos tremerem quando chegava a algum pico do North Shore. Esfreguei os olhos e não acreditei: era o Dane Kealoha chamando o Lovaes para surfar em ondas de 18 a 20 pés plus.
Durante anos o Dane recepcionou o Lovaes, indo buscá-lo no aeroporto e tratando-o como um irmão que morava longe.
Por ser fotógrafo, fui convidado para seguir com eles e checar Waimea, que estava storm, o que nos fez seguir para Third Deep uma onda sinistra no West Side.
Como o Dane foi dirigindo o carro do Lovaes, que era alugado, a nossa chegada por lá foi meio tensa, já que uns dez big riders locais já estavam por ali olhando as séries e rapidamente trocaram as caras de mau por tapinha nas costas do Dane quando viram quem dirigia o carro dos haoles cheio de pranchas em cima.
O surfe não foi possível, pois as condições estavam realmente perigosas, mas então passamos a fazer um tour pela ilha e onde passávamos éramos introduzidos aos amigos do Dane, que inclusive nos convidou para almoçar peixe cru seco.
Dane falava dos americanos como invasores e contava que existia um movimento de libertação que crescia entre os nativos.
Dois dias depois, Dane viria a mostrar toda a sua agressividade ao enfiar o bico de sua prancha na bunda de um big rider americano.
Com isso, quero mostrar que essa maneira de ser dos havaianos não é contra os brasileiros, mas contra todos que vêm de todas as partes do mundo e que durante os únicos três meses de boas ondas vêm disputar o pico em busca de fama.
No caso das agressões durante um evento da ASP, sou a favor de punições do tipo suspensão por um ano, para que seja definitivamente extinta essa atitude no meio competitivo oficial. Nesse caso, revidar vai igualar atitudes, o que profissionalmente vai ser prejudicial.
No free surf, meu conselho vale não só para o Hawaii, mas para quem surfa em qualquer lugar do planeta. Tenha atitude de homem, seja correto, mantenha o respeito, porém, se mesmo assim alguém vier em sua direção, mantenha-se firme e encare.
