O surfista chileno José Ignacio Vargas, mais conhecido como Nacho, é ídolo local e um dos pioneiros do surf de ondas grandes em seu país.
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Desbravador da região de Pichilemu, lugar com ondas perfeitas e quilométricas, Nacho também é pintor, dono de escola de surf e pai do jovem talento Nicolás Vargas.
Aos 35 anos, ele trabalha com o desenvolvimento do esporte na região e recentemente foi convidado para participar de uma session com o músico e free surfer Donavon Frankenreiter.
Na entrevista abaixo, concedida em sua casa no Chile, Nacho conta um pouco da história do surf em seu país, seu trabalho no esporte, fala da vida como free surfer, entre outros assuntos.
Como conheceu o surf e quando começou a surfar?
Comecei ainda criança com uns amigos. Brincávamos com um bodyboard, nada sério. Mas nos anos 90 eu e meu irmão compramos uma prancha e uma roupa de borracha e então começamos a levar o surf a sério.
Quando começou o surf no Chile e quais são os primeiro surfistas do país?
Existem várias histórias e teorias. Alguns pescadores falam que havia um gringo nos anos 70 que caminhava sobre a água. Porém não se tem registro de nada, nenhuma foto, então isso virou uma lenda.
Mas sabe-se que alguns chilenos aprenderam a surfar na Califórnia (EUA) outros na região Central como Lucho Tello, Icha Tapia, Cala Vicuna, entre outros. Estes chegaram a Pichilemu no ano de 1981 buscando ondas melhores do que na região de Ritoque e descobriram um paraíso do surf.
Como eles faziam para ter equipamentos como roupa de borracha e pranchas?
Nesta época, quando escutávamos que havia alguém vendendo alguma roupa de borracha ou prancha, tínhamos que ir rapidamente com dinheiro e comprar, não importavam tamanho da prancha e da roupa, era a única oportunidade que se tinha (risos).
Tempos depois podíamos encomendar pranchas de um brasileiro, Álvaro Pereira. Eram pranchas gringas e por isso demoravam cerca dez meses para chegar do Brasil. Eram feitas especialmente para as ondas chilenas, assim muitos encomendavam suas primeiras pranchas.
Hoje elas são horríveis, mas no início eram incríveis e o mais importante é que tinham nossos nomes escrito embaixo (risos).
Você já participou de competições ou sempre foi free surfer de alma?
Já participei de competições e consegui alguns resultados, mas nada muito importante. Nessa época era somente por diversão, todos eram amigos. Entrávamos na bateria e era como uma session normal, não havia rivalidade e inclusive dávamos oportunidades uns aos outros.
Além disso, quando alguém fazia uma manobra todos aplaudiam. Coisas que hoje já não acontecem mais. Hoje é tudo mais competitivo, os surfistas nem se cumprimentam na água.
Como é seu surf hoje? Que tipo de prancha prefere e por que surfa sempre sem cordinha?
Porque é assim o surf de homens (risos). Brincadeira, faz uns dez anos que testei uma biquilha, já estava entediado de surfar de triquilha e queria me apaixonar outra vez pelo surf.
Assim comecei a surfar com outros tipos de pranchas como fish biquilha, quadriquilhas, monoquilhas e inclusive deixar de usar cordinha para me concentrar mais na minha linha de surf. No princípio perdia sempre a prancha e tinha que nadar muito até a praia. Aqui em Pichilemu se nada muito, de verdade, uns 800 metros.
Você sempre está em busca de novos desafios e novas ondas pelo litoral chileno. Já batizou quantas ondas? Tem alguma onda em especial?
Na verdade não muito, no início era meu sonho. Buscar novas ondas sem ninguém, batizar alguma, é o sonho de qualquer um, mas hoje minha mente está diferente.
Hoje prefiro buscar seções novas nas ondas que já conheço há muito tempo. A onda em frente a minha casa é perfeita e gosto de surfar com pranchas esquisitas e sentir a onda, passa a ser como outra totalmente diferente.
Como anda o desenvolvimento do surf no Chile e o trabalho com as novas gerações? Existe um trabalho de base? Você tem uma escola de surf em La Puntilla, como desenvolve este trabalho?
Hoje em dia trabalho com aulas voluntárias de surf para crianças locais e carentes. É um trabalho cansativo, mas me deixa muito feliz. O surf por aqui está deixando de ser um estilo hippie e tornando-se um estilo de vida, um esporte profissional. E todo este trabalho se mistura perfeitamente com minha segunda paixão, a arte plástica.
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O que você espera que o surf seja para as pessoas?
Muito fácil. Se a pessoa aprende a entender o mar e consegue surfar uma onda, ela pode enfrentar e viver a vida de outra forma. Por exemplo, dou aulas para muitas crianças pobres, com poucas possibilidades de estudar em uma universidade, mas com isto trato de transmitir que se conseguem vencer o mar podem vencer qualquer obstáculo em suas vidas.
Além do surf, o que mais você se dedica a fazer?
Dormir, descansar, cuidar do meu bebê, cozinhar, cuidar da escola, dar aulas de arte, pintar, ajudar os amigos e, se sobrar tempo, surfar (risos).
Você já morou no Brasil. O que fez por lá?
Não morei, mas me apaixonei. É um belo país, muita floresta perto da praia, muito bonito, as ondas do Chile são melhores (risos), mas as gatas é melhor nem falar.
Gostou das ondas? Quais surfou?
Gostei da água quente, mas nas duas primeiras semanas não conseguia pegar uma onda, muito fracas e sem força. Mas também visitei outros lugares que gostei muito, com ondas maiores e fortes como Farol de Santa Marta e Garopaba em Santa Catarina.
Recentemente você foi convidado para participar de um filme junto com o Donavon Frankenreiter, como foi essa experiência?
Muito maneira. Esse cara é um maestro, muito engraçado. Um amigo me convidou, Rodrigo Farias, para fazer parte desta surf trip que se chama Sanuk com Donavon.
Era para fazer um free surf testando pranchas esquisitas e antigas. Eu não sabia que esse cara media 1,85 ou 1,90 metros e minhas pranchas ficaram muito pequenas para ele. Por isso usou somente sua 7’0’’ e no fim da viagem me deu de presente sua prancha.
Você e Donavon têm muito em comum, dois apaixonados pelo free surf. Onde fizeram o filme? Rolaram boas ondas?
No primeiro dia surfamos em Buchupureo, uma onda perfeita, extensa e tubular, com fundo de areia. Só que neste dia não estava assim (risos), estava gorda e com um vento maral.
Mas este cara, com suas linhas redondas e batidas fortes, fazia parecer que estava perfeito. Ele fluía entre as ondas mexidas. Fora da água sempre estava fazendo brincadeiras, faz parte de seu estilo. Também fazia um som, acho que é um dos poucos surfistas profissionais que não se acha um rock star.
Já planejou o ano de 2011? Fale um pouco do que espera e o que pretende fazer nesta temporada.
Este ano tenho vontade de participar do circuito nacional chileno como juiz e assim acompanhar meu filho, Nicolás Vargas, nos campeonatos. Também desejo me dedicar muito à pintura.
Qual onda deseja surfar?
Uma onda retrô. Gostaria de algum dia pegar minha 7’0’’ monoquilha vermelha, dropar Pipeline sem cordinha e outras ondas do tamanho que minha prancha e minha coragem permitirem.
Qual é o seu sonho?
Ter uma casa de campo, não necessariamente de frente para o mar, com muitos animais, como se fosse uma fazenda: árvores e flores, família e bons amigos.
O que o surf significa pra você?
Muitas vezes me pergunto isso e sempre respondo algo diferente. O surf pode chegar a ser um estilo de vida, quando em cada ação pensamos no surf.
Quando as ondas estão ruins, trabalho ao máximo, pois quando as ondas estão boas tenho tempo para surfar, assim acontece em minha vida. Às vezes dedico meu tempo à arte e só vou ao mar para relaxar e renovar a mente. Em outras vezes, surfo muito e quando estou cansado, faço pinturas. Mas está claro que a vida de surfar é mais flexível, não é algo rígido e estático.
Pichilemu é um lugar tranquilo, é onde você pretende viver para sempre?
Não sei. Aqui é um bom lugar para se viver, mas o mundo oferece tantos lugares para conhecer que não seria legal ficar em somente um lugar.
Mande um recado para a galera do Brasil.
Não venham ao Chile, pois as ondas são muito boas e extensas. Você fica com câimbras nas pernas. E a água é tão gelada que até o Cody Maverick fica com frio (risos).
O Chile é um lugar charmoso e perfeito, a polícia não é corrupta e nada é muito caro. Só não se esqueçam de retornar para casa para não ficar crowd (risos). No Chile as pessoas são muito agradáveis e amigáveis, não se preocupe, nós também gostamos da traquilidade e respeitamos os outros no mar.