Toque de especialista

Carioca Luiz Blanco lança blog com dicas preciosas sobre fotografia de surfe.

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“A fotografia, como um segmento da arte, é marcada pela quebra de padrões.”

Um dos fundadores da saudosa revista virtual BlackWater, o fotógrafo carioca Luiz Blanco apresenta um blog com dicas preciosas sobre os cliques relacionados ao surfe, sua grande especialidade.

No texto abaixo, ele fala sobre a composição da fotografia de surfe, passando pelo seu início na profissão, a quebra de alguns padrões e o que realmente faz uma grande foto. Confira abaixo.

“Acho que devo começar dizendo que a fotografia, como um segmento da arte, é marcada pela quebra de padrões. Acredito que o olhar fotográfico deve ser o mais livre possível de padrões.

Quando eu comecei a fotografar surfe havia, implícito, um padrão do que era uma boa foto, uma imagem ‘publicável’. A fórmula era simples: sempre dias de sol; se fosse foto de line-up, uma lente mais ou menos 50mm enquadrando a onda e um pouco da paisagem; se fosse ação, foco completo no surfista com a mais potente lente tele que você possa ter, quanto mais perto melhor e, as vezes, até a própria onda era cortada do quadro. Poucas imagens fugiam desse padrão e a maioria dos fotógrafos seguia essa linha.

Gabriel Sodré e a praia do Leme.

Comecei a criar e tentar fazer composições em fotos de surfe, de certa forma, involuntariamente. Comprei uma lente canon 75-300mm, a mais barata que tinha no mercado. Era uma lente que quebrava um galho mas muito inferior ao que já era usado para fotografar surfe. Com um foco lento e a limitação de 300mm, parecia impossível usar ela em certas condições. Era boa para fotografar Ipanema, uma onda perto da beira, mas se eu fosse para o Arpoador, que quebra mais para fora e rente a pedra, já era complicado.

E foi exatamente no Arpoador que um dia percebi que esse problema poderia não ser um problema. Foi lá que comecei a fazer algumas fotos de ação com o quadro mais aberto, usando elementos da praia para composição. No início era a pedra de fundo, variando alguns ângulos, coisas bem simples. Depois, subi na própria pedra para pegar o ângulo contrário com os prédios ao fundo e as pessoas na praia. E por aí fui explorando e descobrindo novos quadros e vistas da praia bem únicas.

Algumas eram surpreendentes, outras nada de mais. Mas olhar essas fotos no computador depois, com mais tamanho e detalhes era sempre uma aula do que poderia ter explorado mais e como.

Junior Faria em Puerto Escondido.

A partir de então, fui elaborando esse tipo de foto em outros lugares, tanto com os elementos que iam surgindo como com algumas técnicas que podem mudar os detalhes.

Acho que uma foto mostrando mais que apenas um surfista na onda conta uma história abrangente. Lembro que esse tipo de imagem sempre me chamou a atenção e despertava minha curiosidade para as coisas ao redor daquela onda. Que lugar era aquele? Será que era fácil entrar no mar? Quem morava ali naquela casinha em frente a onda perfeita? O surf deixava de ser algo limitado para se transformar em um universo expansivo, cheio de curiosidades e até cultura.

Uma foto, por ser um recorte da realidade, inevitavelmente vai omitir informações, mas eu achava que poderia ainda manter algumas delas sem perder o foco na manobra do surfista. Assim, criava uma pequena narrativa de um momento em um lugar, nada montado ou combinado, sempre usando da natureza intrigante da própria praia. Fui pegando tanto gosto que hoje dificilmente faço uma daquelas fotos com os antigos padrões.

Nathan Fletcher em Pipeline.

O que faz uma boa foto?

É uma pergunta difícil e a resposta, na minha opinião, é ou demais abrangente ou demais subjetiva. Uma boa foto pode ser “medida” pelo uso da técnica: o posicionamento da luz, preenchimento dos planos, o foco e também o momento (muito importante no caso do surfe). Mas uma boa foto também pode ter elementos místicos, inexplicáveis e difíceis de exemplificar. Aí entra o julgamento subjetivo. Aquela velha história né: uma boa foto para um, pode ser algo medíocre para outro.

Mas acredito que existam regras básicas que, no fim das contas, por mais técnicas que sejam, levam a um olhar subjetivo tanto do autor quanto do espectador. A composição é uma delas, e é muito importante.
Leme.

Quando falo em composição, me refiro ao uso dos diferentes planos de uma foto. Tento normalmente manter o foco no surfista (e para isso as vezes mudo o ponto de foco da minha câmera, o colocando em um dos cantos do quadro) e pensar em elementos que possam compor o fundo e o primeiro plano. Claro que nem sempre é possível preencher todos os planos pois a praia é um ambiente que tem limites.

Jordy Smith em Noronha.

Quando a foto é de ação, na maioria das vezes uso uma lente tele (300mm ou 100-400mm) e acho bem interessante o efeito de achatamento dos planos que elas dão. Quanto maior o “zoom”, mais vai parecer que os diferentes planos estão aproximados. Assim é possível enquadrar uma barraca de praia na areia, um surfista na onda e o barco passando ao fundo e você terá todos os objetos no quadro com uma perspectiva diferente do olhar normal “humano”. Para isso, comumente é necessário se afastar um pouco da beira.

Às vezes, chego a ir no calçadão ou atravessar a rua e só assim consigo todos os planos que quero. Lembrando que usando uma tele você pode se afastar consideravelmente do surfista e compensar a distância trabalhando nesse efeito de achatamento.

Outra forma interessante de mudar a perspectiva é angulando a ação na foto. Não necessariamente o fotografo precisa estar de frente para o surfista. É o caso da pedra do Arpoador, que você só consegue enquadrar com o mínimo de ângulo e vai ganhando ela no quadro ao se afastar do canto da praia. Quase chegando no posto 8, com uma lente adequada, dá para fazer uma foto bastante interessante ali.

Leme, Rio de Janeiro.

Mas é sempre bom notar como a luz está entrando no quadro. Ao pegar o tema principal na diagonal, principalmente nas horas de sol baixo, você pode cair em contra luz. Isso pode ser muito bom (em breve farei um post sobre esse tema) mas normalmente é uma foto muito mais difícil, pois a onda tende a ficar com a parede escura.

Se movimentar é sempre importante. Penso em lugares que acho bons em uma praia e vou passando de um em outro. É claro que as condições precisam ajudar, em certos dias, somente alguns ângulos podem ser usados, em dias realmente bons, é possível variar bastante.

Numa sessão costumo passar por quatro ou cinco lugares, nem todos bons. É bom saber que o momento da onda ou do surfista é o elemento mais importante da foto, então não adianta variar o quadro e não esperar a onda certa. Nesse momento é preciso um pouco de paciência. Dependendo do “rolé” que quero dar no dia e na quantidade de surfistas que estou fotografando, fico mais, ou menos séries em cada um dos pontos da praia. Depois posso retomar um em que achei mais potencial, mas quase sempre garanto variados quadros em uma mesma sessão.

Gosto de usar lentes mais abertas para line up (tenho uma 50mm e uma 28-135mm, que é muito boa). A formula é mais ou menos a mesma, mas o efeito de achatamento dos planos é muito menor, ou até nulo. É preciso tomar cuidado com objetos indesejados na imagem. Lixeiras laranjas normalmente são gritantes demais para o surf.

Além de elementos urbanos (muito comuns no Rio de Janeiro), elementos naturais são bem interessantes também. Gosto de enquadrar parte da areia no primeiro plano, penso que fica mais agradável que a espuma branca que normalmente preenche a frente de uma onda em um “beach break”. Arvores e até animais também são interessantes para um primeiro plano, nesse caso é bom usar as teles para aproximar todos esses elementos.

E tem regulagem certa para esse tipo de foto? Não.

Na verdade tem, mas depende de como você quer a foto. Ao usar diferentes planos, você pode desejar que o foco fique crítico apenas no surfista e o resto desfocado, ou você pode ir trabalhando a profundidade do foco até conseguir todos os planos quase em foco. Para isso usa-se a regularem do diafragma (F).

O diafragma é um pequeno buraco na lente por onde passa luz. Ele pode aumentar ou diminuir deixando mais ou menos luz entrar na foto. Mas ele também define a profundidade de campo da imagem. Quanto mais fechado o buraco mais os raios de luz entrarão em ângulos paralelos no quadro causando um efeito de mais foco nos diferentes planos.

Se você abre o diafragma o foco tende a ficar crítico em apenas um plano. Quando quero mostrar os detalhes de uma cena tento usar o diafragma acima de F8, abaixo disso uso para focar bem no objeto principal. F5.6 com uma lente 300mm, por exemplo, pode ser um foco bem crítico dependendo da distância do surfista.

Trabalhando com essas variáveis você vai conseguir uma boa composição e ter controle sobre a imagem. É claro que muitas vezes o inusitado acontece, mas mesmo o inusitado merece um belo quadro”.

Clique aqui para acessar o blog de Luiz Blanco.