Nazaré em primeira pessoa

Renan Vignoli descreve a adrenalina em clicar uma ondulação no line-up de Nazaré, Portugal.

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Lucas Chumbo em um drop insano na Praia do Norte.

Durante esta temporada de inverno em Nazaré, tive o prazer de ser convidado para trabalhar com os maiores nomes do big surfe brasileiro. Carlos Burle me contratou para passar 30 dias em Portugal e sete dias na Irlanda. Eu não fazia ideia do que estava por vir, pois seria minha primeira vez na Europa.

Foi um choque cultural, no bom sentido, é claro. Foram dias de ralação e foco na missão: registrar o maior número de bombas possíveis de dentro da água. Essa temporada era uma grande chance de provar o meu potencial, não só para a equipe, mas também para muitas pessoas do meio audiovisual.

O início até que foi tranquilo, ainda não havia swell. Gravações normais, assim como de costume. Quando a primeira ondulação pintou no mapa a coisa ficou mais séria, e eu tinha que decidir: continuar gravando do cliff (como muitos) ou ir para dentro d’água fazer um ângulo diferente – que poucas pessoas já tinham feito naquelas condições.

Não precisa nem me perguntar se fiquei com medo, mas não poderia perder por nada aquela chance. Além de estar com os melhores do mundo e sabendo que eles não fariam nada para me colocar em risco, essas condições só acontecem pouquíssimas vezes durante o ano.

Renan Vignoli ao lado do mestre Carlos Burle a caminho das bombas.

No dia 7 e 8 de novembro o swell encostou. Já dava para sentir o tamanho das ondas do cliff, mas foi no dia 9 que a ondulação ganhou forma e quebrou com as maiores ondas daquela temporada. Acordamos ainda no escuro e só o Alemão de Maresias tinha feito o check das condições. Já acordei com a câmera ligada para gravar a preparação da casa, e lembro do Alemão voltando eufórico: “Bora, tá gigante!”.

Naquele momento eu ainda não fazia ideia do que era “gigante”, pois nos dias anteriores já havia presenciado os maiores mares da minha vida. Foi então que saímos de casa e partimos ao galpão da Red Bull para pegar os equipamentos, vestir as roupas de borrachas e sair com os jet-skis.

Chegamos ao pico, o famoso Farol de Nazaré, onde muito provavelmente quebram as maiores ondas do mundo e recentemente consagrou Rodrigo Koxa com o recorde de maior onda já surfada da história.

O swell estava monstro, com ondas de todos os lados, mas nós tínhamos uma equipe unida e que sabia o que fazer – afinal o único estreante de temporada ali era eu. Também havia uma experiente equipe em terra alertando via rádio em qual direção a série vinha (denominado Pico 1, Pico 2 e Pico 3).

Will Skudin desce a ladeira em um dos maiores mares da temporada.

O dia foi incrível, as ondas tinham em torno de 60 pés (aproximadamente 20 metros), algo que eu não consigo nem mensurar para os meus amigos. Quando me perguntam, eu só falo: “Tá vendo aquele prédio ali?!” (risos).

Sai da água adrenalizado, mas com uma sensação muito boa de dever cumprido. Sabia que tinha dado o meu melhor. E o mais legal disso tudo é ver pessoas que sempre admiramos como Tim Bonython, Carlos Muriongo, dentre outros, nos parabenizando pelo trabalho. Um fotógrafo local chegou a me dizer que eu era o sexto filmmaker a entrar em Nazaré naquelas condições. Fiquei assustado, mas me dei conta da proporção do trabalho que havia feito.

Foi no dia 9 de novembro que eu fiz uma das maiores loucuras da minha vida. Nunca imaginei que fosse capaz de enfrentar um desafio tão grande como esse para alcançar meu sonho. Só tenho a agradecer a toda a equipe, por confiarem no meu potencial e no meu trabalho, sem eles nada disso seria possível.

Obrigado mestre Carlos Burle e sua esposa Ligia Moura, meu irmão e amigo Lucas Chumbo e família, que me apoiam desde o início, ao mestre dos mares Alemão de Maresias e à esposa dele, Renata Neves (nossa produtora).

Para saber mais sobre o trabalho de Renan Vignoli, acesse o perfil @renanvignoli no Instagram.